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por Jorge Alfredo

 

 

A primeira tentativa de lançamento de Samba Riachão aconteceu no segundo semestre de 2001, com a inscrição do filme no BR Festival, do Rio de Janeiro, mas, infelizmente, não fomos selecionados; eu e Moisés Augusto, produtor do filme, ficamos muito decepcionados com isso, mas por muito pouco tempo.   Com o ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro, alguma coisa ficou fora de ordem mundial, e logo recebemos um telefonema de Pola Ribeiro, que estava em Brasília, e se mostrava super animado porque se encontrou com a comissão do Festival de Brasília saindo encantada  de uma sessão especial de seleção. Ele me dizia; “o pessoal saiu super animado com o que viu… a acolhida de Samba Riachão foi muito boa.” Dias depois recebemos a confirmação; Samba Riachão estava entre os seis longas selecionados do 34º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília. Festa geral. O único documentário. Surpresa geral, mesmo.

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A notícia, em Salvador, fez com que alguns segmentos da cena cultural soteropolitana se sentissem novamente orgulhosos por um filme baiano estar participando do prestigiado e principal evento do cinema nacional. Falava-se já de Lavoura Arcaica, de Fernando Carvalho, um dos seis selecionados, como uma grande obra de arte, imbatível… que havia sido exibido no BR Festival e encantado a todos; Edgard Navarro viu e me disse na presença de Moisés que era um filmaço mesmo e que eu já estava premiado em participar da competitiva.. E tinha também Julinho Bressane, Beto Brant, Suzana Amaral, era muita areia para o meu caminhãozinho. Acabou sendo um consenso entre nós três que o que importava era Samba Riachão estar lá entre os seis selecionados na grande vitrine do cinema brasileiro.

Como diretor de cinema, eu tinha muito pouca experiência em Festivais. Apenas, com o curta-metragem Oriki eu havia participado da competitiva do É Tudo Verdade, em 2000, do Festival de Cuiabá e do Festival Internacional Latino americano de Havana. E só.

Em 20 de novembro de 2001, uma terça feira, cheguei em Brasília para a sessão de abertura do Festival. O nosso filme estava programado para o dia 24, um sábado. Moisés e Riachão chegariam dia 23, na véspera da exibição do nosso filme; eu assim havia combinado com Moisés. Logo de cara, fiquei encantado com o festival. Nunca tinha visto nada parecido com o público que lotava dia após dia o Cine Brasília. O primeiro filme foi Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, que já chegou consagrado. Poucos tinham visto, mas já se falava em obra prima, melhor filme brasileiro desde a retomada, e por aí vai. Vi e gostei muito. Realmente, um filmaço! A reação da platéia foi ótima. O filme manteve o público ligado e os aplausos foram intensos e calorosos. A crítica que já o havia consagrado de véspera, teceu ainda mais elogios e considerou que dificilmente Lavoura Arcaica teria outro concorrente à altura. Suki Villas-Boas, Ilna Batista, Pola Ribeiro, Tina Saphira, João Sampaio, Guido Araújo, Walter Lima, André Luiz Oliveira, foram chegando e aumentando a ala baiana do festival. No segundo dia, foi a vez de Netto Perde Sua Alma, de Beto Souza e Tabajaras Ruas, e no terceiro dia Uma Vida em Segredo, de Suzana Amaral. Esses dois filmes, também tiveram uma boa acolhida, mas encontraram alguma resistência por parte da crítica e do público. Suzana que havia arrebatado o público e o júri dez anos antes com A Hora da Estrela não teve o mesmo sucesso nesse ano e os gaúchos não conseguiram empolgar.

Na sexta-feira, chegaram Moisés Augusto e Sylvinha Abreu trazendo a cópia 35mm, acompanhados de Riachão, Taissa Grissi e Pedrinho Semanovski. Tinha chegado a nossa vez. O festival de Brasília era diferente dos outros que eu já tinha ido. Como eram somente 6 longas e 2 curtas por dia, havia espaço para todos darem entrevistas, irem meio dia ao jornal da Globo, me parecia muito mais democrático. Claro que quem é estrela ocupa o espaço do tamanho que lhe cabe. E quando Riachão chegou chamou a atenção de todos. Mas o malandro ficou descansando no Hotel no dia do filme de Suzana. Eu queria o fator surpresa no dia da nossa sessão. A coordenação do festival telefonou para o meu apartamento e me perguntou sobre o cerimonial de apresentação e eu disse que gostaria de ser chamado e já no palco convocaria a equipe e Riachão. Havia nos organizadores um desejo de que Riachão cantasse alguma coisa. E eu fiquei grilado com isso. Chamei Riachão e lhe expliquei.”Olha malandro, eu sei que você adora cantar, mas queria lhe pedir o seguinte; não quebre a expectativa em torno do filme. Afinal você já canta durante todo o filme. É como o mágico mostrar o coelho antes da cartola.” Essa sensação já vinha me perseguindo desde Salvador. Daí eu ter pedido a Moisés pra Riachão só chegar na véspera. Quando subi ao palco, e isso acontecia pela primeira vez, já que tanto no É Tudo Verdade, Cuiabá e Cuba, com Oriki, isso jamais aconteceu, chamei a equipe e finalmente anunciei Riachão. “Agora com vocês, ele, o malandro, o cronista musical da Bahia, o samba em pessoa Riachão!” Foi aquela festa, muitos aplausos e Riachão mostrou que tinha entendido o recado: disse mais ou menos assim: ….. “o que seria do artista se não fossem vocês, vocês são a razão da minha vida, eu gostaria muito de cantar para vocês, mas hoje é dia de filme. Isso aqui é uma coisa muito importante…. então eu queria saudar vocês Boa Noite!! Mais ou menos isso. Foi um delírio, o público adorou a figura. Apagaram-se as luzes e começou a sessão. Nunca vou esquecer o que aconteceu naquela noite de 24 de novembro no Cine Brasília. Recebi até menção honrosa da Câmara dos Vereadores de Salvador.

 

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