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O Caderno de Cinema reproduz as matérias que os jornais A Tarde e Correio da Bahia dedicaram ao lançamento de 3 Histórias da Bahia, no Multiplex Iguatemi, em 2001. São textos escritos por João Carlos Sampaio, Adalberto Meireles, Ceci Alves, Iza Calbo, Cyntia Nogueira e Giovanna Castro. Um fato inédito em Salvador; nenhum outro lançamento mereceu dos jornais locais espaço tão nobre. (Jorge Alfredo)

 

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Três vezes Bahia, por João Carlos Sampaio

Realizado em espírito de mutirão pela retomada do cinema baiano, com técnicos e atores, inclusive os convidados, trabalhando por cachês simbólicos ou até sem perspectiva de qualquer remuneração, 3 Histórias da Bahia é quase um pequeno milagre. Um empreendimento que, pelo seu significado, seria uma vitória, mas vai além como filme, oferecendo pistas interessantes para elucidar o “ser baiano” da virada do século.

A primeira história, Agora é Cinza, de Sérgio Machado, consegue trazer à tona o microuniverso de um barzinho do bairro de Periperi, com tipos, jeitos e gírias tão peculiares que nos permite uma auto-identificação reconfortante. Ao mesmo tempo em que exibe, à frente, um conto sensível sobre um homem que perde o posto de Rei Momo (Sérgio Mamberti), mas mantém, perante as pessoas do bairro, a sua majestade. A câmera habilmente acompanha o crepúsculo do “rei” e a mobilização de seus “súditos”, para, ao final, exibir a redenção de todos, o expurgo de todas as frustrações na folia do Carnaval de rua da Bahia.

Diário do Convento, de Edyala Yglesias, talvez tenha sido o que mais sofreu com as limitações técnicas. Há oscilação entre tomadas belíssimas, como a que abre o episódio, e outras cenas possivelmente pinçadas pela ausência matemática de opções. O que não impede de se ver na tela uma história inteira. As cenas ambientadas no que seria um convento baiano, no final do século XVII, são muito densas e ricas. A angústia da noviça, enclausurada contra a vontade e arredia à idéia de renunciar ao mundo por nada, traduz-se num grito contundente. Uma voz que dispensa a necessidade do contraponto narrativo em tempo presente, com a personagem de Lucélia Santos. Cyria Coentro, Rita Assemany e o veterano do cinema baiano Milton Gaúcho estão irretocáveis.

O terceiro e último episódio, O Pai do Rock, de José Araripe Jr., é uma caricatura escrachada de uma banda de rock de garagem tentando atropelar as leis de mercado, que impõem como modelo a axé-music. Os tipos compostos por George Vassilatos, Oswaldinho Mil, Daniel Boaventura e Fábio Lago são tão improváveis – mesmo até para roqueiros – que abocanham, de imediato, a simpatia do público. A concepção visual é um luxo de criatividade, que encontra amparo na fotografia caprichada de Hamilton Oliveira. Araripe brinda o público com humor negro alto-astral e fecha 3 Histórias quase que com um convite. É que o filme termina atrás do trio elétrico, lugar onde só não vai quem já morreu, como diz a profecia.

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Burburinho no cinema, por Adalberto Meireles

 

Primeiro longa-metragem baiano em 20 anos, 3 Histórias da Bahia estréia em grande estilo, depois de cumprir uma trajetória de dificuldades.

Foi Paulo Emílio Sales Gomes, uma sumidade entre os críticos nacionais, quem disse algo como: o pior cinema nacional será sempre melhor que uma produção estrangeira. Não que 3 Histórias da Bahia seja ruim. Longe disso, está na média do grosso da produção nacional. Vendo-se a pré-estréia do filme de Sérgio Machado, Edyala Yglesias e Araripe Jr., que levou meio mundo ao Multiplex Iguatemi, na noite de anteontem, desfaz-se a idéia de que Emílio queria mesmo era construir um mito.

O filme foi mostrado em primeira mão numa cadeia multinacional de cinema para um número estimado em 2.500 pessoas. Ao final, a sensação de que houve pouco aplauso para tanto público, pelo menos na sessão da sala principal. Talvez porque faltasse a consciência da importância de uma produção que quebrava um jejum de quase 20 anos sem a realização de um filme de longa-metragem na terra que foi considerada o berço do Cinema Novo.

Não se trata de um manifesto, mas uma devoção. Em teatro, não é pequeno o número de peças, com méritos ou não, que conseguem uma manifestação de aprovação extraordinária, na estréia. Subverter as regras que ditam que um filme deve ganhar um público somente depois de vencer a cadeia sucessória da produção, distribuição e exibição é um nocaute nas leis de mercado. A equipe de 3 Histórias… fez mais do que isso: fez História, possibilitando que o filme chegasse ao público baiano com status de blockbuster, sem realmente sê-lo.

Isto por ironia, porque o filme, como tantos outros do cinema nacional, cumpriu, aí, sim, uma cadeia evolutiva de penitência, falta de recursos, batalha, dentre intermitentes dificuldades que sobrevêm a produções do gênero. Aí o porquê de 3 Histórias… ser um belíssimo filme nacional, da mesma forma que se pode dizer de outros, cumprindo a máxima de Paulo Emílio sem a necessidade de fazer concessões, embora se conheçam seus pecados. Foi um pouco como Carla Camuratti em Carlota Joaquina, que foi de mão em mão, País afora, e o filme tornou-se um marco da retomada do cinema brasileiro, nos anos 90.

Falta a Diário do Convento, de Edyala, um pouco mais de clareza e algumas sutilezas que distingam o lirismo da pieguice e contribuam mais para a necessária verossimilhança, numa história de época; falta a O Pai do Rock o elemento cinematográfico que neutralize um pouco a veia teatral de grupos como Os Cafajestes e Cia. Baiana de Patifaria, já tão inseridos na vida cultural de Salvador; e a Agora é Cinza o momento sublime no desfecho de uma história que já é sublime em sua natureza de incursionar pelo mundo de um
palhaço decaído.

Mas, se o desafio é inventar, é isto o que 3 Histórias faz, desde a sua idéia, que retoma uma aventura presente no cinema europeu dos anos 60, de reunir três filmes num só e que fascinou artistas do porte de Luchino Visconti, Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini. A ponte que Edyala fecha com o passado, sinalizando para uma vocação profano-religiosa, é algo a considerar, do mesmo modo que as provocações de Araripe aos roqueiros baianos que encontram o elo partido na axé-music, bem como a melancolia do clown de Sérgio Machado, ao ver despencar sua coroa de momo.

Agora é Cinza é o melhor dos segmentos. Não é à toa que Machado cita o fenomenal A Última Gargalhada, de Murnau, entre suas inspirações. Há, ali, um lirismo que extrapola. Como no ótimo momento em que Mamberti bate na mesa, xinga os paulistas e sai em desatino pela rua, entre as flores e o mar de Iemanjá, na Festa do Rio Vermelho.

A gaiatice, o escracho, o mar, o Carnaval, a fala… Parece impossível ater-se a esses elementos do baiano sem escapar do folclore. Aqui e ali, 3 Histórias… mantém a tradição, mas consegue fugir da cretinice novelística que não distingue alhos de bugalhos. E, talvez o mais importante, o filme coloca em foco uma ambiência soteropolitana, inaugurando, neste novo cinema longo, uma dramaturgia urbana atual, da qual a rede Globo, por exemplo, foge em busca, sempre, de uma caricatura do gesto baiano.

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D’outros ângulos, por Ceci Alves

      “Mais do que um lançamento, este é o momento de retomada de uma das maiores vocações da Bahia, que é fazer audiovisual”, disparou Sérgio Machado, um dos diretores do longa-metragem episódico 3 Histórias da Bahia, que teve noite de pré-estréia quinta, em todas as salas do Multiplex Iguatemi. O filme fechou (felizmente) o lendário ciclo de (quase) 20 anos sem longas baianos .

O longa foi lançado exatamente no aniversário de 40 anos de carreira do cineasta Oscar Santana, homenageando o último diretor a lançar um longa, O Mágico e o Delegado, antes da quebra de jejum de quinta

“Bateram ponto”, na pré-estréia, quase todos os atores do filme, inclusive Sérgio Mamberti – o rei Momo de Agora é Cinza, de Sérgio Machado – e Daniel Boaventura, que fez um dos rockers frustrados no hilário “Pai do Rock”, média que encerra 3 Histórias…

Já livre das gravações da insossa Estrela-Guia, Sérgio Mamberti projeta voltar ao teatro no musical O Evangelho Segundo Saramago, dirigido por José Possi Neto. Quanto a possíveis projetos no cinema, ele lamenta: “Cinema, agora, tá meio paradinho”.

Os realizadores e elenco não assistiram ao filme; fizeram verdadeira via-crúcis em todas as 12 salas do Multiplex, para apresentar o trabalho à audiência baiana. Salas lotadas, burburinho de curiosidade e expectativa ao filme foi a recepção para os apreensivos e felizes diretores, equipe técnica e elenco presente.

E a Bahia se movimenta no sentido de ampliar cada vez mais o cenário cinematográfico, preparando, como informou Ingra Liberato na abertura das sessãoes, dois outros filmes pelo FazCultura e um que será produzido, também, por fruto de um edital do governo, como 3 Histórias o foi.

Na lista de presença do filme+coquetel estavam Paulo Gaudenzi, secretário da Cultura e Turismo, Sérgio Borges, diretor de Imagem e Som da Fundação Cultural do Estado da Bahia, os cineastas Jorge Alfredo e Chico Liberato, o diretor de animação Caó Cruz Alves, Samuel Feitoza, presidente do Sated/Ba., e Riachão, que, como de costume, causou frisson e rebuliço.

Enquanto o Multiplex lotava para a pré-estréia de 3 Histórias da Bahia, Daniel Boaventura, ator e cantor em O Pai do Rock, aproveitava a breve estada para curtir a noiva, Juliana. Ontem mesmo, ele retornava a São Paulo, onde já iniciou o ensaio do novo musical, Victor ou Vitória, ao lado de Marília Pêra

 

por Iza Calbo

 

Entre uma confabulação e outra, o diretor do Liceu de Artes e Ofícios, Nelson Issa, antecipou, mas não entrou em detalhes, um projeto de teatro que promete arrebentar a boca do balão. À frente, o diretor Luiz Marfuz.

Engraçado na pré-estréia do 3 Histórias… é que todos queriam ficar na sala 9. Até porque os diretores, produtores e a galera da pesada estava toda indo para lá. Como o espaço ficou pequeno, o jeito foi distribuir, já que não faltaram personas gratas em nenhuma das salas de projeção.

O cineasta e artista plástico Walter Lima, que tem exposição aberta na Prova do Artista, Delirismo, estava só sorrisos. É que ele se considera um dos “pais da criança”. Afinal, o filme começou a ser gerado quando ele era o diretor da Dimas.

O ator Dody Só, que fez participação em Diário do Convento, como um taxista, deixou um pouco o teatro Dias Gomes, do qual é diretor, para prestigiar a esperada investida cinematográfica baiana, após um hiato de 18 anos.

Rita Assemany, atriz nos três episódios, apareceu na grande noite com um vestido hiperdecotado. Bem diferente dos personagens que compôs. Por conta disso, muita gente simplesmente não a reconheceu.

 

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Cinema baiano – O retorno, por Cyntia Nogueira
Quando 3 Histórias da Bahia entrar em cartaz amanhã, em três salas da cidade, algumas gerações de espectadores poderão ver pela primeira vez, em tela grande e com ingresso pago, um filme genuinamente baiano. Antes disso, cerca de 2,5 mil pessoas devem assistir hoje à pré-estréia do primeiro longa-metragem baiano após um período de 18 anos. Num lançamento ousado da Truq Cinema e Vídeo, a película vai ocupar nada menos do que as 12 salas do Multiplex Iguatemi, sinalizando que tem qualidade técnica de produção, imagem e som equivalentes a qualquer outro filme brasileiro da nova safra.

Dirigido por Sérgio Machado, 32, Edyala Yglesias, 46, e José Araripe Jr., 42, em três episódios distintos, tendo como pano de fundo o Carnaval, 3 Histórias da Bahia pode ser considerado um marco na cinematografia baiana (saiba tudo sobre o filme nas páginas 6 e 7).

Existem alguns motivos que justificam tantos confetes em torno de seu lançamento. O principal deles é que o longa chega ao mercado num momento em que existe a expectativa de que pelo menos mais quatro produções sejam concluídas até o final de 2002. Enquanto o cineasta Jorge Alfredo está em fase adiantada de filmagens do documentário Riachão e o samba da Bahia, Sérgio Machado já iniciou pesquisa para seu próximo filme, um longa-metragem de ficção ambientado na Bahia dos anos 50. Araripe Jr., por sua vez, prepara-se para começar a rodar Esses moços, sobre um velho que se perde nas ruas de Salvador e é encontrado por duas meninas.

Em outra ponta, o governo estadual deve divulgar em breve o resultado do edital para realização de audiovisual, lançado no final do passado, que vai destinar R$1 milhão para um longa-metragem e R$300 mil para curtas e vídeos. A promessa é de que o concurso seja reeditado anualmente, o que deve ser uma garantia de continuidade da produção.

Pequeno milagre – Significa que 3 Histórias da Bahia pode ser realmente um marco na retomada do cinema baiano, que ficou atrás no processo de reabertura das bilheterias ao cinema nacional. O momento ganha mais importância ainda ao se considerar a tradição cinematográfica do estado. Basta dizer que, durante a primeira metade da década de 60, Salvador chegou a ser apontada como a “a meca do cinema brasileiro”.

Entre 59 e 64, foram 16 filmes rodados na Bahia, sendo sete deles produções locais. Também foi daqui que saiu um dos maiores gênios do cinema mundial, Glauber Rocha. “A Bahia é um dos lugares que reúnem as melhores condições para se fazer cinema, mas hoje é onde menos se produz em todo o país”, sintetiza o cineasta José Araripe Jr., também presidente da Associação Baiana de Cinema e Vídeo (Abcv).

De certa forma, 3 Histórias da Bahia sintetiza o desejo de retomada da produção local. Resultado do Concurso de Roteiros Cinematográficos promovido pela Fundação Cultural do Estado em 96, o filme tinha como idéia inicial a criação de três curtas de 16mm, que poderiam ser transformados em um longa. Os recursos eram de apenas R$150 mil para os três episódios.

“Era o projeto de um longa-metragem frustrado”, avalia o cineasta Pola Ribeiro (A lenda do pai Inácio – 87), 45, produtor executivo de 3 Histórias da Bahia durante o período de filmagens. Ele é enfático ao analisar as circunstâncias em que o projeto foi iniciado. “Havia naquele momento uma enorme descrença na capacidade de realização do cinema baiano, o que explica o lançamento de um edital dúbio, com poucos recursos. Eu acreditava que estava fadado ao insucesso”, confessa o cineasta, que decidiu ficar fora da disputa.

Pola atribui o êxito do projeto a um esforço quase de guerra empreendido pelos cineastas premiados, pelo produtor Moisés Augusto e pela Fundação Cultural do Estado, responsável pelo financiamento de 75% do filme. Depois de quatro anos de espera, o público poderá conferir uma produção realizada em 35mm, com orçamento final de aproximadamente R$800 mil.

“Utilizamos todas os recursos técnicos disponíveis no Brasil, que são os mesmos do mundo inteiro. Acabou essa história, por exemplo, de que o som do cinema brasileiro não é bom”, ressalta Moisés, 45, principal fomentador da produção audiovisual no estado na última década, estreando na realização de um longa-metragem.

O filme conseguiu, ainda, o mérito de contar com alguns do melhores técnicos de cinema do país, como o diretor de fotografia Antônio Luiz Mendes (Guerra de Canudos, O Barão de Mauá). Além disso, o elenco conta com atores renomados no cenário local e nacional, que aceitaram atuar recebendo cachês simbólicos e até mesmo doando seus trabalhos ao filme. Alguns exemplos são Sérgio Mamberti, Othon Bastos, Harildo Déda, Rita Assemany, Ingra Liberato, Lucélia Santos e os integrantes dos grupos Os Cafajestes e Companhia Baiana de Patifaria.

Junto com uma equipe de pessoas que estavam trabalhando voluntariamente pela primeira vez em cinema, acreditando no sonho de ver novamente nossa imagem nas telas, eles conseguiram o que Pola Ribeiro chama de um “pequeno milagre”, resultado da união de muitas forças e do desejo obstinado de quebrar um silêncio de quase duas décadas.

Aposta no mercado local
Distribuição

O longa-metragem baiano 3 Histórias da Bahia enfrenta as mesmas dificuldades de distribuição e exibição que assolam a maior parte dos filmes nacionais. Apesar do enorme esforço de seus realizadores e produtores, é certo que ainda será necessário batalhar muito para conquistar uma boa bilheteria e conseguir que a película seja exibida nacionalmente.

Assumindo a distribuição e com poucos recursos para o lançamento, o produtor Moisés Augusto, 45, aposta no público local para alavancar o longa-metragem. Ele toma como referencial alguns exemplos recentes da cinematografia brasileira, como o gaúcho Anahy de las missiones, que teve 80 mil espectadores apenas no Rio Grande do Sul, e o pernambucano Baile perfumado, cujo desempenho em Recife respondeu pela maior parte dos ingressos vendidos. “A idéia é sair daqui apenas depois de ter feito um público significativo. Se tivermos 50 mil espectadores, será um sucesso absoluto”, avalia.

O filme entra em cartaz na cidade, inicialmente, no Multiplex Iguatemi, nos Cinemas UCI Aeroclube e na Sala Walter da Silveira. Contando com mais três cópias – uma para festivais nacionais, outra para internacionais e uma reserva -, a intenção é ampliar esse número com o tempo. No próximo mês, por exemplo, o longa-metragem inaugura o Multiplex Iguatemi de Feira de Santana e segue buscando público nos cinemas do interior baiano, como Vitória da Conquista e Juazeiro.

Trabalhando desde janeiro no lançamento de 3 Histórias da Bahia, Moisés quer reconstituir os passos de produções como Carlota Joaquina, de Carla Camurati, um marco no ressurgimento do cinema nacional em meados dos anos 90. “Na época, a própria cineasta começou a distribuir o filme, fazendo com que a película fosse crescendo com o tempo”, enfatiza Moisés, que não esconde o caráter quixotesco do empreendimento e vem buscando apoio de tevês, empresas de publicidade e várias outras instituições que possam colaborar para o sucesso dessa empreitada.

Uma conquista que já pode ser comemorada é o apoio de Aquiles Mônaco, proprietário do Multiplex Iguatemi, que garantiu a permanência do filme em cartaz enquanto houver público. “É um grande feito, porque normalmente os filmes nacionais são retirados das salas para dar espaço às majors americanas, que têm grandes contratos de exibição”, explica Moisés.

Carnaval em três tempos
3 Histórias da Bahia

São três histórias que acontecem durante o Carnaval. Em Agora é cinza, de Sérgio Machado, um rei momo vê sua vida se despedaçar ao descobrir que não tem mais direito ao título e, para continuar com as chaves da cidade, terá que participar de um concurso. Na tragicomédia O pai do rock, de José Araripe Jr., uma banda de heavy metal quer ter sucesso na terra do axé e acaba fazendo um pacto com o demônio. Diário do convento, de Edyala Yglesias, apresenta a vida de uma enclausurada do século XVII, através de uma escritora que chega à cidade em busca de um diário.

As três histórias venceram o Concurso de Roteiros Cinematográficos promovido pela Fundação Cultural do Estado em 96. Para o cineasta Sérgio Machado, não é uma coincidência que os trabalhos premiados tenham em comum o Carnaval. “Acho que é uma manifestação que marca a vida de todo baiano e, por isso, está no imaginário de três diretores diferentes”, comenta.

Edyala argumenta que a festa não pode ser vista, de fato, apenas como uma ligação entre os três episódios que compõem o longa-metragem de 90 minutos. “O Carnaval é a maior expressão cultural do estado, é onde se expressa a subjetividade e a criatividade do povo baiano”, defende, afirmando que o filme não apresenta a festa como uma manifestação folclórica, mas a representação de uma cultura que é berço do país.

Dialogando com questões como o império da axé music no estado e o poder da indústria fonográfica, Araripe acredita que o filme vê o Carnaval de forma crítica. “É uma festa que precisa ser repensada, porque está se tornando cada vez mais impopular”, destaca. Nos últimos cinco anos, Araripe Jr. foi o cineasta mais laureado do estado com curtas como Mr. Abrakadabra (96), que recebeu nada menos do que 13 premiações em festivais nacionais, e Rádio gogó (99).

Fim de reinado

Com direção de fotografia de Antônio Luiz Mendes, um dos profissionais de cinema mais requisitados do país, o episódio Agora é cinza, de Sérgio Machado, conta a trajetória de um Rei Momo que perde o trono depois de 30 anos guardando as chaves da cidade. O papel é interpretado por Sérgio Mamberti (Castelo Rá-tim-bum), e o filme conta ainda com as participações especiais de Othon Bastos, Harildo Déda e Rita Assemany.

“É a história de alguém que acreditou a vida inteira em algo e um dia descobre que tudo aquilo não existe mais, um homem que fica velho e perde seu espaço no mundo”, explica o diretor, que teve a primeira idéia para o roteiro a partir de uma conversa com a faxineira de sua casa. “Um dia ela me falou que o Rei Momo tinha morrido de desgosto, porque tinha perdido o reinado”, explica. O personagem em questão era vizinho da interlocutora, chamava-se Ferreirinha, e realmente foi Rei Momo durante muitos anos.

Mas o filme não é baseado em sua vida. Antes, toma como inspiração um clássico do cinema mudo, A última gargalhada (24), de Murnau, sobre o declínio de um homem que perde um emprego considerado importante em seu bairro, decepcionando toda a comunidade. Muito popular e respeitado no subúrbio de Periperi, onde vive, o Rei Momo Teixeirinha (Sérgio Mamberti) é atropelado pelo processo de modernização do Carnaval.

Apresentando cenas que tiveram até 500 figurantes, Agora é cinza foi realizado com uma equipe formada por profissionais muito experientes e outros que nunca tinham feito cinema antes, incluindo os atores. É o caso de Ricardo Luedy, produtor musical que interpreta o dono de um bar. A direção de arte foi assinada pelo cenógrafo e diretor teatral Ewald Hackler e a trilha sonora é do compositor Cláudio Kiefer.

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Liberdade no claustro

Enquanto a cidade inteira se prepara para a festa momesca, a pesquisadora paulista Ana Carolina, interpretada por Lucélia Santos, chega à cidade em busca de um diário secreto de freiras que viveram enclausuradas no Convento de Santa Clara do Desterro, em Nazaré, durante o século XVII. O filme Diário do convento, de Edyala Yglesias, mergulha em histórias que marcaram a vida das clarissas, como eram chamadas as mulheres do primeiro convento feminino do país, fundado em 1677.

Com direção de fotografia de Antônio Luiz Mendes (o mesmo de Agora é cinza) e música de câmara original composta por Graça Ferreira, com participação de Virgínia Rodrigues, o filme reconstitui a trajetória da personagem fictícia Maria da Paixão, vivida por Cyria Coentro (Los Catedrásticos). Uma enclausurada que descobriu na pintura – atividade proibida para mulheres na época, assim como a escrita – uma forma de liberdade. “Maria da Paixão representa a clausura da criatividade e da subjetividade femininas”, ressalta Edyala.

A ligação entre a pesquisadora e Maria da Paixão se dá através da descoberta de cartas escritas pela freira. “Depois que as clarissas ingressavam no convento, não podiam mais sair. É como se fossem enterradas vivas, porque não entravam para a ordem religiosa por vocação”, explica a diretora, que pesquisa o assunto desde 87 e teve como referência o livro Santa Clara do Desterro e o patriarcado da Bahia, da escritora baiana Ana Amélia Nascimento.

O Convento do Desterro, hoje ocupado pelas beneditinas, surgiu numa época em as famílias costumavam concentrar todo o seu dinheiro com os filhos varões. As mulheres muito ricas, que não conseguiam um marido considerado à altura de suas posses, eram enviadas para o claustro. “Existiu um homem que colocou num só dia cinco filhas no Desterro”, conta a diretora.

Edyala se inspirou em figuras reais para criar personagens como a Madre Superiora (Rita Assemany), uma mulher que conseguiu enriquecer sem jamais sair do convento, e Vitória da Encarnação (Ana Paula Bouzas), uma enclausurada que se autoflagelava e, quando seu pai morreu, pediu de presente sua caveira para que pudesse se acostumar com idéia da morte. O convento ainda conserva a cela em que morou, os cilícios com os quais se torturava e a tal caveira.

O ator Jackyson Costa também está na produção, como o amigo confidente de Ana Carolina, ao lado do veterano Milton Gaúcho, 85. Ator que participou de quase todas as produções do cinema baiano, ele volta interpretando o papel de um padre cego – único com autorização para entrar no Desterro. Com Diário do convento, Gaúcho celebra seu 34º filme – uma marca impressionante para quem nunca morou fora do estado.

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Rock´n´roll em cima do trio

Definido pelo próprio diretor, o cineasta José Araripe Jr., como uma tragicomédia de suspense, o episódio O pai do rock explora o escracho para falar de uma banda de rock que quer fazer sucesso na terra do axé e acaba vendendo a alma ao diabo. No caso, a indústria fonográfica. “Meus filmes têm uma tendência ao humor e, dessa vez, eu tentei fazer algo hiper-realista”, explica.

Araripe lança mão de um elenco formado por alguns dos principais nomes do teatro baiano. Enquanto os integrantes de Os Cafajestes (George Vassilatos, Oswaldinho Mil, Daniel Boaventura e Fábio Lago) assumem a identidade da banda fictícia O Cão de Calçolão, a Companhia Baiana de Patifaria (Lelo Filho, Wilson dos Santos, Diogo Lopes Filho, Beto Mettig e Fernando Marinho) faz participação especial, reproduzindo as mesmas personagens da peça Noviças rebeldes.

A atriz Ingra Liberato faz o papel do demônio que retorna como anjo, enquanto Rita Assemany encarna a mãe superprotetora do líder da banda, Big Bill, interpretado por George Vassilatos. O ator Caco Monteiro aparece na figura do empresário. “Os atores são o filme”, enfatiza Araripe. Ele contou também com os trabalhos do cenógrafo Joãozito, na direção de arte, e de Priscila Belotti, no figurino, peças fundamentais para composição do ambiente exagerado da película. A fotografia é assinada por Hamilton Oliveira.

O roteiro, inspirado na luta das bandas de rock da cidade para sobreviver, foi concebido a partir de coisas que o diretor diz ter visto acontecer no mundo da música baiana. “O rock pesado tem uma cena forte em Salvador, mas escondida”, diz. Em sua opinião, o recente crescimento das bandas de poperock da cidade não interferiu muito nessa realidade. “Acho que não mudou nada para o rock pesado durante esse tempo. Temos mais de 20 bandas de heavy metal e é uma ironia que um dos principais espaços para encontro desses grupos seja justamente o Palco do Rock, montado durante o Carnaval”.

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Governo baiano participa do reaquecimento/Edital , por Giovanna Castro

A falta de receptividade da iniciativa privada ao investimento em cinema obrigou o governo do estado a intervir. O secretário estadual de Cultura, Paulo Gaudenzi, diz que colocou dinheiro no filme 3 Histórias da Bahia como forma de ajudar o cinema baiano a se reerguer. “O governo quer dar a oportunidade aos criadores de expor seus pensamentos e sua arte”, declarou.

Para ele, talvez exista uma dificuldade dos produtores em exibir o seu produto, o que explicaria a resistência dos investidores. “Falta praticidade. O artista tem que se associar com alguém que tenha capacidade para fazer as coisas acontecerem”. O secretário considera que o artista tem que se concentrar no seu processo criativo e se cercar de assessores que façam seu projeto acontecer.

Outro empurrão governamental é a publicação dos editais de cinema. O edital lançado no ano passado (Prêmio Carlos Vasconcelos) vai premiar um longa com R$1 milhão; três curtas com R$60 mil, cada; quatro videodocumentários com R$25 mil, cada; e cinco projetos de vídeo para iniciantes (uma forma de estimular o surgimento de novos cineastas) que receberão R$7 mil, cada. As comissões para escolha dos vencedores se reúnem ainda no final deste mês. “O estado está disposto a fazer, a cada ano, um concurso de longa”, revela Gaudenzi.

Um fator que também tem animado os realizadores é o novo regulamento do Fazcultura, lei estadual de incentivo à cultura, que desde o ano passado destina uma verba específica para o setor – o correspondente a 10% do total -, estabelecendo que os recursos só podem ser liberados para produções originalmente baianas.

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Iniciativa privada resiste a entrar em cena
Maioria das empresas não investe em cinema mas há aquelas que apostam, e se dão bem.

O lançamento do primeiro longa-metragem baiano, 3 Histórias da Bahia, após um longo jejum de 18 anos e em grande parte bancado por recursos estaduais, é, por si só, um exemplo da resistência enfrentada pelos produtores de cinema junto à iniciativa privada. Não se pode generalizar: há os empresários que investem na área, mas, quando o assunto é captação de recursos, a maioria deles repete que patrocinar cinema é caro e o retorno obtido não é suficiente para compensar o montante aplicado.

Vencedor de um concurso estadual que lhe rendeu um prêmio de R$150 mil, 3 Histórias da Bahia foi totalmente rodado entre os meses de setembro e dezembro de 97. A partir dali, o material filmado ficou enfiado nas latas, aguardando dinheiro para finalização. Moisés Augusto, produtor do filme, até que correu atrás de patrocínios, mas não obteve sucesso. Conseguiu apenas o apoio de algumas pequenas empresas que, dispostas a colaborar com o projeto, prestaram serviços de graça. Além da verba estadual, Moisés teve que colocar R$200 mil do próprio bolso, resultado dos trabalhos realizados pela sua produtora, Truq Cine TV e Vídeo. O governo do estado injetou mais R$450 mil, totalizando, com o valor do edital que originou o projeto, investimentos de R$600 mil. Equipe técnica e alguns atores trabalharam de graça ou mediante cachê simbólico. “Sem essa generosidade, a coisa não funciona”, atesta Moisés Augusto.

“A indústria cinematográfica na Bahia foi esquecida. Houve um distanciamento tão grande entre produtores e patrocinadores que é preciso fazer um trabalho de reaproximação”, arrisca José Cerqueira Filho, gerente de comunicação social da Copene, patrocinadora de Riachão e o samba da Bahia, documentário do cineasta baiano Jorge Alfredo que terá lançamento ainda este ano. Há quem diga que o que falta aos empresários é entender a importância de se investir em produtos culturais, nesse caso, o cinema.

Elisa Tolomelli, uma das mais respeitadas captadoras de recursos do cinema nacional – produziu Central do Brasil e Amores possíveis, entre outros sucessos – comenta que as empresas realmente preferem colocar recursos em produtos que dêem retorno mais rápido, como shows de música e esporte. Mas a explicação para essa postura seria o tempo que um filme consome, pelo menos dois anos, entre produção, filmagem, finalização e lançamento, momento em que o tal retorno começa a aparecer.

Ela lembra, no entanto, que ter o nome vinculado a uma produção cinematográfica significa retorno institucional, de imagem positiva. “É a empresa que está ali, não é um produto. O retorno das empresas não é financeiro, é de imagem, e eu não tenho nenhuma dúvida de que é o que dá mais projeção. A imagem da empresa passa no país todo, em todas as capitais, nas cidades menores, passa na tevê, é eternizada em vídeo, DVD, numa série de subprodutos. Além disso, a exposição na época de lançamento é muito grande”, argumenta a produtora.

Do seu lado, o empresariado baiano avalia que a exposição só é vantajosa para quem investe muito e consegue colocar o nome logo no início da projeção. “Quando se investe R$200 mil, R$300 mil, a visibilidade é quase nada. Quem pensa que investir pouco dá retorno de imagem, deveria ir para outro tipo de manifestação cultural. Eu não cometo esse erro. Se não posso entrar no top de patrocínio, é melhor partir para outra coisa”, diz Cerqueira. A Copene prefere investir em artes plásticas, música, literatura e documentários. Esta última categoria deverá ser incluída no Prêmio Copene de Cultura e Arte do ano que vem.

“No nosso foco de investimento cultural, não temos interesse”, diz Ary Coelho, gerente de comunicação corporativa da Coelba, empresa que patrocinou o documentário Filhos de Ghandy, projeto da Gegê, produtora de Gilberto Gil. A Coelba prefere direcionar seus recursos entre música e teatro. “O teatro fica dois, três meses em cartaz, pode ser feito com R$100 mil ou até menos, e o nosso nome está no programa, nos cartazes, no ingresso. Em cinema você não pensa em menos de R$1 milhão”, compara.

Coelho acrescenta que “do ponto de vista mercadológico, não como arte, o cinema deixa a desejar pelo retorno. Tem um período de exposição muito pequeno e o retorno da imagem, que pode vir através do merchandising, precisa ser muito cuidadoso, para que o tiro não saia pela culatra”, adverte.

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A imagem que agrega valor

A Telemar, que patrocinou Eu tu eles, de Andrucha Waddington, e participa da produção de filmes como Copacabana (de Carla Camuratti), O Redentor (da Conspiração Filmes), Amores possíveis (de Sandra Werneck) e A partilha (de Daniel Filho), concorda que o patrocínio exclusivo é caro, mas não deixa de investir por esse motivo. No triênio 99/00/01, aplicou R$4 milhões via leis de incentivo, patrocinando longas e festivais culturais.

Segundo André Pinto, coordenador de marketing cultural da Telemar (Rio de Janeiro), o retorno vem em forma de imagem positiva mas também financeiramente. Ele identifica como contrapartida de imagem a divulgação da logomarca da empresa, o merchandising – “a gente tenta suavizar para que nossa marca apareça de forma sutil” – a inscrição na tela e material gráfico com as expressões “apoio” ou “Telemar apresenta” e citações na imprensa. “Mas quando a empresa patrocina um longa através das leis de audiovisual, também obtém resultado financeiro que vem da compra do certificado de investimento”, completa.

Embora tenha aplicado R$500 mil no filme Central do Brasil (de Walter Salles), antes da privatização, a Telebahia Celular atravessa um momento de indefinição para investimentos culturais porque depende de decisões da matriz, na Espanha. “Não tivemos receio em investir no projeto de Central do Brasil mas o retorno foi muito aquém do esperado. Estamos satisfeitos como cidadãos por contribuir para uma obra-prima como aquela e não temos preconceito em investir, mas vamos fazê-lo quando tivermos uma política cultural”, garante Damário da Cruz, poeta e gerente de publicidade da Telebahia Celular.

Por enquanto, o dinheiro está sendo direcionado a programas sociais, educacionais e de saúde. “Mas isso não significa que tenhamos fechado as portas para o patrocínio cultural; é um momento de reestruturação da empresa”, explica Cruz. Segundo analisa, a sociedade vem pressionando as empresas para que entrem no marketing social, a fim de diminuir a distância que existe na distribuição de renda no país. “As empresas têm que ter a mesma visão no marketing cultural que têm no marketing social. Mas hoje o retorno de marca é resultado do marketing social”, afirma.

Ao investir em cinema, o Bompreço aposta na aproximação com a cultura baiana. Esse, aliás, foi um dos elementos que contribuíram para a aprovação dos R$650 mil aplicados em Esses moços (de José Araripe Júnior), ainda em fase de produção. “O projeto em si está sendo muito interessante na medida em que tem muita baianidade”, diz Raymundo de Almeida, gerente de relações com a comunidade do Bompreço. Ele arrisca dizer que o que pesa mais, nesse caso, não é o retorno, mas “estar junto com uma iniciativa que é de renascimento do cinema baiano, uma coisa importante para a comunidade e para a nossa clientela”, finaliza.

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Exercício de aprendizagem no dia-a-dia

Captar recursos junto à iniciativa privada não é coisa fácil, mas produtores e investidores dizem estar aprendendo a lidar com a situação desde que o cinema brasileiro iniciou sua retomada. Episódios em que recursos captados são desviados ou nunca viram filme inibem os empresários, mas ambas as partes concordam que situações desse tipo são exceções e podem ser resolvidas numa relação baseada em confiança mútua e bases contratuais claras.

Para a produtora Elisa Tolomelli é necessário que os produtores tenham noções de planejamento e estudo. “Estamos aprendendo a ser profissionais. O mercado está mais exigente, ao mesmo tempo em que dá mais opções como co-produções, exibição em televisão e tevês a cabo. Não se pode mais começar levianamente e fazer filme achando que o orçamento é compatível. Se não se faz o planejamento, a possibilidade de não terminar o filme é maior. O mercado não comporta mais a falta de planejamento”.

Selma Santos, produtora que atua no mercado baiano, defende a profissionalização dos captadores de recursos. “Acho que as pessoas têm que fazer projetos específicos e seguir à risca o que prometeram. Já vi patrocinador que acreditou em projetos, investiu e se deu mal. Cabe a nós, produtores, termos responsabilidade, profissionalismo e sermos o mais honestos possível”. Ainda assim, Selma Santos acha que a produção de 3 Histórias… é composta de heróis. “O empresário baiano tem muito pudor em investir na cultura. E não só em cinema”, alfineta.

Segundo Moisés Augusto, produtor de 3 Histórias da Bahia, ele mesmo sempre teve dificuldades em captar recursos e fez seus curtas com dinheiro de concursos. “Existe o estigma de cineasta ser um cara maluco, alguém que joga dinheiro fora, mas nós temos que provar que fazemos e que somos honestos. O cinema brasileiro sempre foi profissional, começar o filme e não terminar é exceção. Eu sou profissional”, comenta Moisés para depois lembrar que o Brasil, nestes últimos anos, fez cerca de 200 filmes. “E os outros 198 que não deram problemas?”.

Para Lorena Coelho, da BR Distribuidora, “a indústria tem que ter erros para se chegar aos acertos”. Para evitar surpresas, a BR toma precauções contratuais como solicitar certidões negativas, documentos de idoneidade e desembolsar o dinheiro de acordo com o cronograma do filme, mas entende que ainda existe pouca experiência na área. “Temos uma relação de proximidade e transparência com as produtoras. São apenas sete anos de retomada, é pouco tempo, mas estamos aprendendo e o mercado está se profissionalizando. Há problemas, mas como em qualquer outra área”, diz.

A Videofilmes, produtora de Walter Salles Júnior (Central do Brasil, Terra estrangeira) encontrou um meio de garantir uma boa relação com o investidor que é a exclusividade de patrocínio. Atualmente, trabalha apenas com a BrasilTelecom. “É uma relação saudável onde conseguimos dar retorno máximo à medida em que não fracionamos a visibilidade do patrocinador do projeto”, diz Maurício Ramos, diretor geral da produtora. Ou seja, quanto mais empresas, menor o retorno, realmente, já que fica difícil dividir o espaço da tela entre tantos colaboradores.

O colapso do cinema na década de 90 foi responsável, diz Ramos, pela falta de formação de produtores. Daí a inexperiência dessas pessoas que só agora começam a pegar o ritmo (a captação de recursos se intensificou mesmo há cerca de seis anos já que as leis federais de incentivo começaram a funcionar em 95). “Temos mestres como a família Barreto, mas existe a própria Videofilmes e a Conspiração Filmes que representam uma geração nova e fazem tudo com muito cuidado”, exemplifica. “Os produtores têm consciência da origem dos recursos da captação e que estes têm que ser usados com regras rígidas e estreitas. É o pensamento dominante hoje em dia”, completa.

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Multiplex Iguatemi exibe em 12 salas
Lançamento

O longa 3 Histórias da Bahia terá um lançamento digno de produções blockbuster, aquelas tipo arrasa-quarteirão. Hoje à noite, todas as 12 salas do Multiplex Iguatemi exibirão a película, apenas para convidados. Antes disso, apenas os dinossauros de Spielberg (O mundo perdido) tinham merecido lançamento semelhante no Brasil e, mesmo assim, em apenas três salas de um multiplex carioca, o Roxy. 3 Histórias da Bahia entra em circuito comercial na sexta-feira.

O empresário Aquiles Mônaco, diretor da Orient Filmes, considera 3 Histórias… um marco na trajetória cinematográfica baiana, principalmente, segundo ele, pela qualidade de cada um dos curtas que compõem o projeto. “A Orient quer prestigiar esse grande evento. A gente sabe que é um belo produto, tem mercado e tem tudo a ver com a Bahia”, registra Mônaco.

O empresário considera que cinema só não dá retorno quando se produz algo que apenas o diretor entende. “Quando o mercado quer uma coisa e você faz outra”, opina. Além disso, diz que as pessoas que não querem investir em cinema não entendem a importância do negócio. “A marca do patrocinador no começo da exibição tem 100% de assimilação”, diz, acrescentando que o retorno de um investidor não está restrito aos créditos. “O filme se produz para cinema, mas vai ser reproduzido em vídeo, DVD, tevê a cabo… Não é à toa que grandes bancos de investimentos internacionais colocam dinheiro em cinema. O importante é não se limitar ao retorno através dos créditos e ver o resultado financeiro deste negócio que é o cinema”.

 

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