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Oi Jorge Alfredo,
tudo bem?

O texto foi inspirado pela antiga postagem do Caderno de Cinema. Tentei enviar o texto abaixo diretamente para o Caderno de Cinema, para a parte de comentários, mas não consegui copiar/colar. Você poderia publicar no blog? Caso não, deixe-me saber o que fazer para publicar ali.
grande abraço,


Edyala Yglesias

Memória é caso sério na conturbada trajetória Brasileira em busca de construir nossas identidades. Você bem sabe disso e Riachão é um belo momento dessa construção cultural. Lembrar pode ser também um ato de resistência. Sem memória, não há história, não há desejo. Sem desejo, não há sujeito.

O filme Três Historias da Bahia, lançado em 2001 e sua postagem, em 2013, no blog Caderno de Cinema, relembra o lançamento do filme, a que me refiro neste meu comentário, em pleno 2019, parecem indicar que, felizmente, algo resiste em nós: o tempo capitalista, esse tempo perverso do mercado, ainda não nos domina. Se os Europeus têm o relógio, dizem os Africanos, nós temos o tempo.

A foto postada no Blog registra um dos muitos momentos tensos e difíceis da produção de O Diário do Convento, escrito e dirigido por mim. Sob o olhar atento de Pola Ribeiro, Diana Gurgel (produtores), Antonio Luiz Mendes (diretor de fotografia) e Hamilton Oliveira (câmera), eu falo. Impossível não registrar a anônima mão nas minhas costas. É da minha filha Joana Yglesias e Silva, ”assistente” generosa, hoje mãe de Maria Luiza (quatro anos) e de Maria Eduarda (um ano). Joana diz não desejar à nenhuma de suas filhas o caminho da criação artística. É possível compreender sua reação como uma das consequências mais nefastas que a ausência de apoio à produção cultural produz para o imaginário do país.

A reportagens e críticas feitas na época do lançamento do filme me fazem repensar aqueles dias. Primeiro, reflito sobre a importância dessas matérias terem construído uma memória em torno daquele momento do cinema na Bahia; reflito também sobre a importância do trabalho persistente da Revista de Cinema, que dá chão para a construção dessa memória; penso ainda com profundo reconhecimento em tantos outros ”atores” que trabalham por caminhos diversos na construção dessa história.

A construção de meu lugar de fala em O Diário do Convento é feita a partir do silencio imposto à personagem da enclausurada Maria da Paixão e ao seu desejo de pintar. Se o tema do filme é o interdito de criar que pesava sobre as mulheres do século 17, o que o filme revela sobre o lugar de fala das realizadoras baianas naquele momento histórico de virada para o século 21? O desafio de todo ato narrativo identitário feminino é de inventar um lugar que se estrutura a partir de um imaginário renegado pela cultura patriarcal, o das mulheres. A produção dessa ”outra” fala ou de uma fala que se origina em ”outro” lugar é, geralmente, pouco compreendida por olhos e ouvidos acostumados às narrativas regidas pela lógica binária e excludente da cultura ocidental, da qual somos herdeiros pelas portas do fundo. João Carlos Sampaio, saudades, buscou compreender esse lugar. Na real, temos carência de espaço de discussão mais abrangentes e conceituais.

Nesse período que me separa do lançamento de Três Histórias da Bahia, tenho trabalhado menos com imagens e mais com palavras. Mas com palavras que nascem da imagem. Desenvolvi O Labirinto Espelhado de Eva, roteiro para filme-ensaio: imagens e encenações do Feminino, em mestrado feito na Escola de Teatro/UFBa. Cinco anos de dura labuta, em francês, devotados a buscar as origens do nosso imaginário coletivo e para tentar compreender a esquizofrenia cultural, que nos faz o ”outro” de nós mesmos, eixo de sustentação do colonialismo cultural que nos domina. Ao final do doutorado em cinema, a alegria de ter debaixo do braço um texto que busco publicar aqui e agora.

Deixar de ser o objeto do olhar do colonizador é tarefa árdua. Postar-se, não só na net, mas na vida, contra a condição de objeto e da alienação que essa condição suscita. Sim, aproveito o momento para rememorar e agradecer a generosidade de todas as atrizes, criadores, técnicos, produtores, de todos as pessoas que ajudaram a realizar O Diário do Convento. Na imensa noite que parecemos atravessar no Brasil, cada gesto, cada palavra significa.

Obrigada, Jorge Alfredo pelo espaço do Caderno de Cinema para falar disso. Aproveito a chance para dar os parabéns a Cláudio Marques, outro guerreiro incansável do cinema e do audiovisual na Bahia, que, no ano passado, produziu a re-exibição do filme no Espaço Glauber Rocha.


Grande abraço,

Edyala Yglesias

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