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: filme de Glauber Rocha faz 50 anos e temática se mantém atual

 

por Raul Moreira

 

Por conta do aniversário da sua primeira projeção, que este ano completou meio século, Terra em Transe, de Glauber Rocha (1939-1981), tornou-se, ao longo dos últimos meses, objeto de apreciações de diversas ordens, as quais, notadamente, apontaram em uma mesma direção: o sentido de atualidade, uma vez que a realidade terceiro-mundista daquela nação imaginária de nome Eldorado, metáfora do Brasil e de outros países latino-americanos, continua a mesma.

Em outras palavras: da política, corrompida ao extremo, à condição do povo, eterno subjugado e simples joguete nas mãos de canalhas e aproveitadores, muitas vezes representantes dos interesses externos, nada mudou em cinco décadas. Vale lembrar que a primeira projeção do filme se deu um ano antes da promulgação do famigerado AI-5, ferramenta utilizada pelos militares para perseguir e suspender direitos, tudo em nome de uma ordem que pregava o progresso, algo que lembra os dias atuais, e não apenas no slogan.

Visto e revisto, enfim, interpretado e dissecado de diversas formas, há sempre algo de surpreendente e revelador na sua composição, aliás, em todos os filmes do cineasta baiano. E, salta aos olhos a sua capacidade de comungar com as urgências do seu tempo histórico, ainda que em Terra Em Transe, ele tenha sido profético, pois se antecipou ao deixar claro que, nas mãos da direita ou da esquerda, o Brasil seria sempre vítima da sua natureza desconfiável.

Dito isto, vale especular a respeito do tempo e das condições históricas a partir das quais ele construiu a sua obra, a qual é apontada como a mais emblemática do Cinema Novo. Aos 27 anos, já respeitado por conta de Barravento (1962) e de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), reconhecidos internacionalmente, Glauber Rocha vivia em um Brasil no qual os militares estavam divididos entre “abrandar” ou “endurecer” o regime ditatorial. No final, prevaleceu a mão de ferro, algo que o cineasta sentiu na pele, já que o filme foi objeto de censura e repreensões.

Quebra de paradigmas

Sob o ponto de vista cinematográfico, aqueles foram os anos da explosão dos chamados “cinemas novos”, que brotavam em várias partes do mundo. Na época, depois do Neo-realismo italiano fazer escola, a Nouvelle Vague passou a ser a “menina dos olhos”, por conta das surpreendentes obras de Éric Rohmer e Jean Luc-Godard, principalmente. E, foi aproveitando-se da liberdade apontada pelos franceses, que Glauber Rocha sentiu-se inspirado a quebrar o convencional das gramáticas da sétima arte, como já o fi- zera, aliás, em Deus e o Diabo.

Originalmente, o roteiro de Terra em Transe era de uma vastidão proporcional às pre- tensões e ao talento do seu au- tor. No entanto, por questões orçamentárias, certas temáticas

foram eliminadas, ainda que, no final, os pontos cruciais que justificavam a natureza de Eldorado tornaram-se presentes em um elaborado processo dialético, o qual se encaixou perfeitamente na proposta delirante e anárquica do filme.

Independentemente da crítica ao regime ditatorial, nada escapou à metralhadora giratória do cineasta.

Da Igreja ao próprio povo, na sua condição de explorado pacífico, de analfabeto político, ele tenta explicar a tragédia brasileira e latino-americana a partir dos seus intrincados processos de construção histórica. Então, em um jogo de alianças, traições, festas e cenas alegóricas, tudo ao som de solos de bateria, cânticos de candomblé e sinfonias de Villa-Lobos, políticos, empresários, aventureiros de plantão e ativistas, vividos, entre outros, pelos saudosos Paulo Autran, José Lewgoy, Paulo Gracindo e Glauce Rocha, tecem uma alucinada teia para alcançar o poder.

Mas quem rouba a cena, mesmo, é o alter ego do cineasta, o jornalista e poeta Paulo Martins, vivido pelo também saudoso Jardel Filho. Por via dele, Glauber Rocha expressa as suas angústias de artista e intelectual na busca da compreensão do seu papel e do próprio povo diante do estado de coisas. Ao flertar com os dois lados, de estar entre o ser e não-ser, ele foi atacado impetuosamente, uma vez que a direita o chamou de subversivo, enquanto a esquerda o acusou de trair os ideais marxistas.

Transe

Ainda que as questões existenciais se façam importantes, a compreensão do filme passa pelo entendimento do transe que o mundo vivia naquele período. A Revolução Cubana era um frescor só, assim como as lutas anticolonialistas explodiam por todos os continentes. Um ano depois, viria o maio de 68 em Paris, e Moscou combateria com violência a chamada Primavera de Praga.

Síntese que explicita as contradições e tragédias de um mundo que parece em eterna formação, Terra em Transe é também a prova cabal da maturidade precoce e genialidade de Glauber Rocha, com sua monumental fome de absoluto. Porque não há documento que tenha sido tão feliz em explicitar – no conteúdo e na forma – quem fomos, somos e, possivelmente, continuaremos a ser.

 

publicado em A Tarde

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