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por Bernard Attal

 

Bernard Attal, em foto de Nicolas Hallet

Algumas semanas atrás eu assisti a primeira cópia do meu primeiro longa metragem, “A Coleção Invisível”.  E começou para mim o que é para muitos cineastas o período mais ingrato da vida dum longa metragem: sua distribuição.

Talvez nunca houve, desde a Retomada do Cinema Brasileiro no meio dos anos noventa, um período mais difícil para o lançamento de um filme independente. No primeiro semestre de 2012, a fatia de mercado do cinema nacional apenas superou 5% da bilheteria, quando nos anos anteriores sempre alcançava a marca dos 10 a 15%.

Portanto, é difícil negar que a politica audiovisual dos últimos governos alcançou grandes sucessos na área da produção: se produziram no Brasil obras diversas do Norte ate o Sul, as fontes de recursos são numerosas e o sistema dos editais oferece o mecanismo mais democrático e transparente que se pode conceber. A safra sempre renovada dos curtas-metragens confirma a riqueza e a promessa da produção nacional. No Festival de Clermont-Ferrand, o maior e mais conceituado festival do mundo para os curta-metragistas, o Brasil fica cada ano como um dos países que inscrevem o maior número de filmes.

Mas quanto a distribuição, o resultado é bem diferente. Cada vez mais, o circuito comercial brasileiro parece com o mexicano: pouco espaço para a produção nacional e centenas de salas para os blockbusters americanos. No começo da década 2000, um filme como “O Homem Aranha” estreava em 500 salas. Esse ano, “os Vingadores” foi lançado com quase mil telas. Desde 2008, se pode observar um processo de encolhimento do circuito de salas de arte. Em 2012, a estimação é de que o circuito de salas de artes conta por menos de 6% do circuito total, enquanto era um dos mais dinâmicos do mundo no começo do século. Ao contrario do que se imaginou, a revolução digital, que abriu novas oportunidades para as produções de baixo orçamento, restringe mais ainda o campo de distribuição para os independentes: agora, os “majors” afiliados aos estúdios americanos, sem custo de transporte de película, estão querendo ocupar cada sala em cada canto do pais.

Então, para quem fazemos filmes? Durante o ultimo festival de Cannes, o cineasta francês, Léos Carax, criou escândalo declarando que não se preocupava com o público, feito exclusivamente de pessoas que irão morrer em breve. Eu pessoalmente me sinto mais em sintonia com o Andrei Tarkovski que escreveu no seu livro maravilhoso “Esculpir o Tempo” que “a grande função da arte é a comunicação, uma vez que o entendimento mútuo é uma força a unir as pessoas”.

Mas essa oportunidade de se comunicar através da nossa linguagem arrisca se tornar inviável. Como apontou Jean-Thomas Bernardini, o dono da distribuidora Imovision, 
numa entrevista recente, “O risco que corremos, se ficarmos todos dependentes da lógica dos multiplex “(que cada vez mais concentram o maior numero de telas) “é o de acostumar o público a um só tipo de linguagem. Levamos anos para formar o público cinéfilo Se perdermos esse público, levaremos 20 anos para retomá-lo.”

Quais são as medidas necessárias para reverter esse quadro? Mais dinheiro para distribuição? A criação de quotas em favor do cinema nacional? Incentivos financeiros para as salas exibirem a produção brasileira como se pratica na Europa? Provavelmente uma combinação dos três.

Desde o dia quando eu achei o conto de Stefan Zweig (1) numa pequena livraria até a estréia do filme na próxima mostra competitiva do Festival do Rio (2), “A Coleção Invisível” terá tomado sete anos da minha vida. Como uma obra de arquitetura, ela é também o fruto de amor e de dedicação de centenas de pessoas, da pesquisa inicial até a cópia final. Então para quem tanto trabalho e tanta devoção? Uma vez, um jornalista fez essa pergunta para Luís Bunuel, a qual o velho cineasta respondeu: “Eu faço filmes para meus amigos”.

Eu tenho a sorte de ter muitos amigos na Bahia. Esse filme é para vocês, meus amigos, parentes, colegas e companheiros de uma terra que eu descobri há mais de trinta anos atrás, um dia chuvoso no interior da França, quando na livraria ambulante da nossa aldeia, minha mãe me apresentou o livro de Jorge Amado: “Gabriela, poivre et cannelle”.

 

(1)  A Coleção Invisível foi adaptado do conto homônimo de Stefan Zweig.

(2) A Coleção Invisível terá sua estréia mundial na Mostra Première Brasil do Festival Internacional do Rio de Janeiro dia 2 de outubro.

ELENCO


Vladimir Brichta
como Beto

Walmor Chagas como Samir

Ludmila Rosa como Saada

Conceição Senna como Dona Iolanda

Clarisse Abujamra como Dona Clara

Frank Menezes como Neemias

Paulo-César Pereio como Locutor de Radio

Wesley Macedo como Wesley

CRÉDITOS

Direção: Bernard Attal

Roteiro: Bernard Attal, Sergio Machado, Iziane Mascarenhas

Adaptado de um conto de: Stefan Zweig

Produtora Executiva: Diana Gurgel

Produzido por: Bernard Attal, Diana Gurgel e Michael Fix

Patrocinadores Financeiros: Petrobras, Fundo de Cultura da Bahia

Diretor de Fotografia: Matheus Rocha

Montagem: Karen Harley

Música: Silvain Vanot

Som: Nicolas Hallet e Waldir Xavier

 

 

 

6 Comentários...

  1. Josias Pires disse:

    Reflexão fundamental esta que nos traz o diretor Bernard Attal. Lembro que na Inglaterra dos anos 30 o diretor e produtor John Grierson propôs a criação de um circuito alternativo para a exibiçao dos filmes documentários que produziu, único modo para fazer os filmes circularem e serem vistos. Aqui mesmo no Brasil, na Era Vergas, com a criação do Instituto Nacional do Cinema Educativo foi criado um circuito alternativo envolvendo a rede pública de esnino do Oiapoque ao Chuí. Talvez esta seja ainda uma saída, a criaçao de um circuito alternativo, com estíulos e mecanismos de ampliar o circuito de arte, incorporar universidades e escolas de segundo grau, alargando este circuito para o interior do país … algo precisa ser feito quanto a isto não resta a menor dúvida … parabéns Bernard!! … espero poder ver o seu filme!

  2. Henrique Dantas disse:

    Parabéns Bernard, essa pergunta sobre pra que e porque fazemos filmes tem me acompanhado nesse último ano e acredito que me acompanhará por resto de minha vida. O oxigênio pra se fazer o filme, ao menos o meu, é acreditar que arte pode sim alterar a vida, mesmo que seja de uma única pessoa….

  3. tati disse:

    Ótimo artigo. Será possível a mobilização da Ancine para alterar essa distribuição nas salas? Acho o incentivo para promover e facilitar a exibição do cinema brasileiro óbvio e imediato. Não deveria ser sempre assim?

    Boa sorte com o filme e espero vê-lo em breve no festival!

  4. fabricio disse:

    fico com vontade de ver o filme (depois que vi “Os magníficos”, vou querer ver todos os filmes do diretor. Aí entra a lógica do acesso (à cultura, ao filme, à obra), não obstante a importância fundamental do estímulo à produção, para se ter o que acessar, o que ver, o que fruir.

    Por isso provoquei esses dias em meu blog, não como solução – é evidente – mas como uma tentativa de sacudir, nem que seja a partir do conflito e da “radicalização”: que o controle da Sala Walter da Silveira – como que num gesto simbólico e onírico – passasse a ser controlada por quem faz e por quem gosta de cinema, por quem vive do e o cinema, mantendo as subvenções estatais.

    Eu pagaria regularmente para ver filmes lá, num cinema fora dos shoppings, no centro da cidade, e que tem uma boa sala. Conheço muitos que pagaria também, desde que para ver outros filmes, outrso cinemas, outros cineastas, e outros preços de ingressos, masi coerentes com a sanidade.

    Parabens Attal! Acho que seu filme encontrará um lugar – espero muito que sim, para que eu possa assistí-lo.

    Enquanto isso , podemos provocar alguma boa confusão com propostas “inadequadas”, contudo, urgentes, como a gestão comunitária da Sala Walter da Silveira 🙂 http://artedocumento.wordpress.com/2012/09/16/ideia-gestao-comunitaria-da-sala-walter-da-silveira/

  5. Bertrand Duarte disse:

    O que mais achei curioso em relação a esse inqueto artigo de Attal, é que ele reflete mais (e profundamente) a preocupação de todos os nossos cineastas que é a questão da distribução, e não sobre sobre o teor e natureza da obra filmica que ele acabou de realizar, com tão requintados elenco e equipe técnica. Recentemente, conversando com Antonio Fagundes, ele brincou da mesma forma ao retratar a sua visão em relação ao cinema nacional: “Fazemos filmes para os amigos”, ao que eu retruquei que nem todos vão, se considerarmos o curtíssimo tempo de temporada para as poucas salas que dispomos.
    Contudo, mais uma pérola deve estar entrando para a nossa filmografia e desejo vida longa e grandes reconhecimentos. Se for pelo meu interesse e curiosidade pessoal as salas estarão cheias de olhos para contemplá-lo. Estou curioso. Evoé!!!

  6. Eu tive a sorte de trabalhar com Bernard e Diana, figura especialissima em minha vida de produtora audiovisual, e com eles aprendi e continuo aprendendo muito. Faço da provocação reflexiva de Bernard minhas palavras, que como ele também finalizo o processo de meu primeiro media metragem e vivo o desconforto de não ter a chance de ver todos os meus amigos encontrando a oportunidade de ver o meu filme.

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