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Geraldo Moraes e as lições do Eneagrama aplicadas ao Roteiro Cinematográfico

 

por Carollini Assis

 

Todos os mestres em narrativas e histórias são unânimes: a partir de determinado ponto da criação, elas assumem vida própria. Personagens e enredos vão se retroalimentando e criando suas exigências, seus caminhos. “As histórias acontecem pela sua própria energia, mas também por uma energia extra à sua, externa”. Anotei a fala de Geraldo Moraes, em sua primeira turma de um curso dedicado ao eneagrama aplicado ao roteiro de cinema. Há 10 anos estudando o assunto e com um livro a ser lançado sobre o tema, ele não escondia a surpresa em encontrar um turma madura e experiente interessada na temática. Estavam lá nomes como Fernando Bélens, José Araripe Jr., Elson Rosário, Alba Liberato, Lula Oliveira, e também jovens realizadores entusiasmados com uma nova ferramenta, dentre eles, Lilih Curi, Deivisson Fiúza, Luana Rocha e eu. O que Geraldo dizia complementava o pensamento de muitos estudiosos do Roteiro. Sim, as histórias assumem sua própria rédea. No entanto, essa força vem de fora. 

Nós, que levamos a sério a escrita cinematográfica, concordamos contigo que “a história é uma experiência no Tempo”. Assim maiúsculo, assim entidade de força. Só poderia ser um canceriano a estudar o Eneagrama aplicado aos roteiros. Alguém sensível e que traz todo o vigor das águas, a intensidade das emoções profundas, do psiquismo, do inconsciente e do feeling, ou percepção, para a narrativa. Não faltou dizer isso, mestre. Talvez alguém mais desatento não tivesse percebido o que não estava no campo do céu dramático, não tivesse visto as forças que definem o seu estado. Mas quebrar os paradigmas para fugir de fórmulas e  tentar aplicar os “eneatipos” a personalidades, a fatos, a encadeamentos de pontos narrativos, foi a mais espetacular descoberta no campo do roteiro a que tive conhecimento, desde os estudos de Joseph Campbell. 

Creio não ter sido fácil atravessar o mapa das figuras geométricas, a estrela de nove pontas, a árvore da vida, tão debatida por  religiões e filosofias, e trazer isso para uma etapa de desenvolvimento de projeto que é tão solitária, tão crucial – a escrita. Entender, aqui na vida real, que tudo é vibração e que tudo parte da trindade, já é tão complicado…  ainda mais quando buscamos fórmulas ou como rasgar as fórmulas. Não é uma travessia fácil, mas a vida também não é essa facilidade, não é mesmo?

Espero que possamos ter acesso a seu livro futuramente. Enquanto isso, permanecermos com as lições. Uma delas, que me chamou a atenção, foi ao explicar sobre as três forças, a tríade (9, 3 e 6) que formam o triângulo, grande chave do eneagrama. Atualizando Flammarion, você abordou a escala de vibrações para exemplificar que a desaceleração gera uma diversidade de fenômenos. A desaceleração gera uma diversidade de fenômenos. A desaceleração gera uma diversidade de fenômenos. Não repito à toa. Posso parecer óbvia? Leiam novamente. Com a aula avançando, você nos deu um grande ultimato: “o herói tem um grau de burrice. Quem faz a casa andar é o vilão”. 

Continuaremos as combinações e não vamos produzir pensando no eneagrama, tenha certeza que ele não será um método qualquer, o que lhe causava aversão. Seguiremos tentando encontrar, na narrativa, uma forma de representar além da cronologia, mas também a diversidade da lógica interna de uma história. E voltaremos ao começo de tudo, como no eneagrama. As histórias possuem uma energia externa, elas são uma experiência no tempo. A desaceleração gera uma diversidade de fenômenos. Quem faz a casa andar é o vilão. A gente se encontra, mestre! 

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