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por José Walter Lima

 

Conheci Rogério Duarte, no Rio de Janeiro, no Solar da Fossa, onde ele morava.

Fiquei fascinado pelo seu brilhantismo e pela sua intensidade. Ele se tornou meu ídolo, juntamente com Glauber Rocha. Depois ficamos mais íntimos por várias questões paralelas. Naquela época todo mundo se encontrava nos points culturais e da boemia, mais intensamente do que hoje. Esse era o cenário que vivíamos.

Rogério era despojado de artificialismo. Era acessível, não tinha pose, não era seletivo, e não era um homem de grupo fechado. Transitava em várias áreas, e em todos segmentos culturais. Era amado, mas incomodava muito, porque era uma metralhadora ambulante, rápido no gatilho. Você falava uma coisa, ele em cima rebatia com uma agilidade mental impressionante, questionando dialeticamente.

Denunciou a ditadura, que vivenciou na carne. Junto com seu irmão, Ronaldo, foram os primeiros que tiveram coragem para acusar a tortura praticada pelos militares.

Um homem corajoso de fato. Assumiu sua busca espiritual, enfrentando preconceitos intelectuais de amigos e acadêmicos. Outro momento que convivemos foi junto a Walter Smetak, quando ele já estava nessa busca mística. Eu acompanhava tudo aquilo com muito espanto. Foi naquele tempo que eu também estava despertando para uma realidade transcendente.

E por isso que fiz questão de colocar neste filme esses dois lados dele, essas duas facetas – a de intelectual e a mística. Foi um tempo de muitas conversas, muitas discussões em torno do espiritual e do mundano. Esse sempre foi o nosso jeito: ideias, conceitos, impressões, expressadas com frequência e intensidade. Suas ideias despertaram muitas visões que mudaram muito do que eu pensava e fazia.

Depois nos distanciamos naturalmente, e até mesmo geograficamente. Ele foi pro interior, quando resolveu ser fazendeiro e logo após para Brasília.

Recentemente, voltamos a nos encontrar e retomar nossa conexão, por causa do projeto do filme “Rógério Duarte, o Tropikaoslista”. Na vida social, Rogério era muito amável, mas, no trabalho, não era fácil. Discutíamos a cada etapa do filme, brigas mesmo. Mas ele era muito profissional. O nosso reencontro foi extremamente enriquecedor para mim, porque relembramos muitas coisas do passado.

Neste momento de crise nacional, de conflito de identidade, de esfacelamento da cultura brasileira, perdemos uma alma intensa que muito enriqueceu o sentimento de brasilidade com um pensamento original. Ele tem seu lugar reservado junto aos ícones da nossa cultura. Que Darcy Ribeiro, Glauber Rocha, e Villa-Lobos, entre outros grandes, o recebam, com as bênçãos de Krishna, aqui para a posteridade, e lá para a eternidade com sua magnitude tropical.

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