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por José Araripe Jr.

O cinema baiano é pródigo em super-heróis, heróis, deuses, semideuses, e outros menos (de)votados indivíduos em suas sagas naturais ou sobrenaturais. Falo de Corisco, Meteorango kid, Anjo Negro, Superoutro, Pai Inácio – seres míticos, mágicos ou trágicos. Falar dos próprios filmes é algo que pode soar pedante. Digo: falar é mais difícil que fazê-los. Já há muito tempo, entendi que o cinema é sempre a arte da impossibilidade de fazê-lo. Mas, instigado para falar da  trilogia maldita 3 Histórias da Bahia, tenho que discorrer sobre o não menos maldito “O Pai do rock”. O termo maldito aqui refere-se às duas pontuações: a primeira, o imbróglio que resultou do edital de longametragem da Dimas que buscou, aos moldes italianos, unir 3 filmes médios de autores diferentes, para gerar o efeito de longa, então, naquele momento, estratégico para os gestores públicos,  pois daria a sensação de que um longametragem estaria sendo produzido na Bahia depois de 20 anos de jejum; porem, o mesmo tornou-se um escândalo, exorcizado nas páginas dos jornais devido ao frágil modelo de produção, e, consequentemente, foi levado às barras de auditorias internas, e finalmente retomado para execução pela Truq Cine TV e Vídeo.

Araripe com o diretor de fotografia René Persin

Diferente do que muita gente afirmou à época pós-lançamento, inclusive alguns amnésicos de plantão, entre eles  um membro do  juri de seleção (que afirmou isso em diversos artigos escritos), os três filmes nunca foram unidos a posteriori para forjar um longa, isso já era parte do DNA do projeto. O edital lançado pela Fundação Cultural tinha em sua folha de rosto claramente datilografado EDITAL DE LONGA METRAGEM e assim reuniu candidatos ávidos para aprovar seus roteiros – justiça seja feita a alguns cineastas mais sensíveis, que se recusaram a participar, vaticinando a precariedade do regulamento, em seu parco orçamento.

A segunda menção ao termo Maldito refere-se ao conteúdo do meu episódio,  uma história – ainda que do gênero comédia Neo Barrôca (o têrmo pomposo, refere-se mais à forma que ao conteúdo)  – sobre o clássico tema cristão do embate de pessoas que vendem a alma ao diabo para obter poder e sucesso, trazia em sua aura rubra um que de tabu, ideal para glosar tão conturbado mote. O tema, diga-se de passagem, que no similar da afrobrasilidade já havia sido tão bem retratado no curta baiano Troca de Cabeça,  de Sérgio Machado. É importante salientar que Sérgio viria  a ser um dos 3 contemplados, ao meu lado e de Edyala Yglesias, no edital a que me refiro.

Grande Otelo e equipe de Troca de Cabeça, e Jofre Soares em Mr. Abrakadabra!

Não poderia deixar de abrir outro parênteses para citar que neste filme de Sérgio, o ator Grande Otelo fez sua última atuação no cinema, assim como Jôfre Soares no meu curta Mr. Abrakadabra! Infelizmente, na nossa crônica cinematográfica, nos anais da Tribuna da Bahia, registra-se o fato com morbidez: ambos fomos acusados de fazer filme com alto poder letal e, consequentemente, responsáveis por mandar os veteranos atores à cova.

Adiante um pouco, no decorrer da via crucis, que foi produzir e finalizar as 3 Histórias – neste caso, já às bocas pequenas e grandes,  também seríamos, agora os três,  acusados de matar o ex-produtor afastado do projeto. Carregar essas cruzes não fez o meu filme mais maldito do que já era. O tema  rt, para alguns mais crentes ou ligados em pseudociências, que remete ao Fausto, de Goethe, em si já encerra um material perigoso de manipular.

Nesse caso, o herói de nossa saga movida a hard rock, não seria apenas um, mas quatro, o que trouxe em termos de dramaturgia  para minha prática, e também para o cinema baiano, uma abordagem mais complexa: os integrantes das banda O Cão de Calçolão iam cutucar, literalmente, o diabo com vara curta, e quase se deram mal. Dirigir quatro protagonistas se mostrou um experiência rica, narrativamente um passo à frente. Não posso negar minha inspiração na série Os 3 Patetas – algo que necessáriamente só reforçava a pretensão overeting do projeto.

George Vassilatos, Fábio Lago, Daniel Boaventura e Oswaldinho Mil no episódio “O Pai do Rock”

Das coisas a se dizer sobre estas criaturas: jovens posers (roqueiros colonizados que emulam estranjeirices) que reclusos durante o período do carnaval se reúnem para gravar uma fita demo, e após um acidente tecnológico se conectam com uma legítima representante do inferno fonográfico para fechar o tão almejado pacto.

Nunca é demais lembrar que a delicadeza do tema durante as filmagens eriçava os mais supersticiosos, que viam naquela complexa cenografia, o dedão do Coisa ruim. Tanta cautela, porém, não foi suficiente para impedir que a cena mais escabrosa – a filmagem do ritual macabro via infernet – coincidisse com a meia noite de uma sexta feira 13. Crendices à parte, tudo transcorreu bem para que o dito cujo – digo o filme – fosse colocado na lata.

Da aventura de um edital de baixíssimo orçamento, aos percalços da mudança de produtora e de quase uma ano de atraso para o início das filmagens – o 3 Histórias da Bahia se tornou, realmente, o primeiro longa após 22 anos.  Feito com excelente padrão técnico em 35 mm, reuniu centenas de técnicos e artistas da Bahia – alguns destes jovens que ali estavam como estagiários, já dirigem hoje seus próprios filmes, curtas ou longas.

Pelas sequelas na sua execução, a estréia que foi um mirabolante evento com 12 salas em exibição simultânea, grande campanha publicitária, cadernos especiais nos jornais – foi ofuscada por um debate ainda recente das sequelas que a sua produção acidentada provocou: de um lado, os que viam naquilo uma obra de qualidade considerável. Do outro, os que minimizaram a importância por discordarem do valor artístico ou por discordarem do arranjo de produção. Naturalmente, não se esperava unanimidade, mas um tanto estranho pareceu o excessivo peso de tantas tintas desfavoráveis. Considerado por alguns como um marco de uma retomada baiana, o filme gerou além desses artigos demolidores nos jornais, dois documentários realizados no âmbito da Facom,  que  minuciosamente desconstruíram a tese da retomada, num processo de desqualificação generalizada das novas gerações de cineastas baianos, à luz da nova e velha crítica da academia.

Nunca distribuído nacionalmente, o filme teve breve carreira em 3 cinemas do interior da Bahia, foi exibido em dois ou três festivais e carrega seu karma, sem ao menos sabermos a quem pertencem os direitos patrimoniais – não há contrato entre as partes e algumas pendencias de direitos autorais  inviabilizam os devidos registros de produto nacional, e afins na Ancine. Oito cópias em 35 mm jazem em algum canto; a banda sonora original ninguém sabe, ninguém viu, além de uma telecinagem para verter para digital que nunca foi feita. Socialmente, um filho bastardo de 3 cabeças, o Histórias, decerto envergonha apenas os intolerantes que não o conceberam.

2 Comentários...

  1. Jorge Alfredo disse:

    Sempre tive um sentimento que o Cinema Baiano só deslancharia, de vez, quando exorcizássemos nosso pecado original 3 Histórias da Bahia.
    Nada como o tempo e o som.
    É sempre bom falar sobre o que nos incomoda. No meu entender, o fato é que Moisés Augusto lançou em Salvador, de forma independente, os filmes produzidos pela Truque, e mais; tentou lança-los no circuito nacional. Primeiro, 3 Histórias, depois, Samba Riachão. Quebrou a cara. Isso era inevitável? Alguém tinha que tentar, e Moisés fez o que fez. Daí pra cá, a começar por SR, todos os filmes baianos que chegaram ao circuito comercial nacional foram distribuidos pelas regras do mercado. Existem as Distribuidoras, te quem duvide ainda. E a briga é de cachorro grande.
    Mas o que mais me intriga em 3 História, é que são episódios muito bem realizados. Todos rejeitam o todo, mas apreciam as partes.

    Muito, João, você estar nos comentários do Caderno! E Araripe, seja bem vindo a Salvador! Muito bom saber que está retornando à cidade.

  2. Muito boas as luzes jogadas por Araripe nesse importante e ao mesmo tempo infame episódio da nossa “recente” caminhada.

    No nosso labor, há uma tremenda diferença entre os verbos ” fazer” e “falar”. É como diria Cazuza : “Só entende quem namora…”

    Reconhecendo laços parentais na obra de Araripe, – já que para alguns ainda somos o “Cão de Calçolão” – nada mais apropriado do que reconhecer o “3 Histórias da Bahia” como uma espécie de Exu da nossa recente cinematografia. Um filme abridor de caminhos na tempestade e no estio, um filme mensageiro entre o passado, o agora e o porvir.

    Sempre em frente e vade retro !

    João Rodrigo.

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