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Peleja: s.f. Luta; combate realizado com ou sem armamentos. Trabalho; tarefa árdua e cansativa: estava na peleja para viver.
A única vez em que tive a sorte de cruzar com Orson Welles, no Festival de Cannes nos anos 70, logo que me identifiquei como cineasta brasileiro, o gênio norte-americano perguntou sobre Olney São Paulo. Fiquei surpreso. Ele justificou sua curiosidade dizendo que vira o “extraordinário” “Manhã Cinzenta’”. – Orlando Senna
“Olney é a Metáfora de uma Alegorya. Retirante dos sertões para o litoral – o cineasta foi perseguido, preso e torturado. A Embrafilme não o ajudou, transformando-o no símbolo do censurado e reprimido. “Manhã Cinzenta” é o grande filmexplosão de 1968 (…) Panfleto bárbaro e sofisticado, revolucionário a ponto de provocar prisão, tortura e iniciativa mortal no corpo do Artysta.”. – Glauber Rocha

 

Por Cesar Fernando de Oliveira

 

De uma beleza rara esse filme do Henrique Dantas, além de extremamente necessário e pungente. Assisti no Festival Cinefuturo e ao término da exibição senti uma estranha sensação, como saído de uma sessão de terapia, ou de descarrego – contra o Dragão da Maldade – É como se o filme expurgasse algo, a experiência cinematográfica tem dessas alegrias. E lágrimas, já que desabei no banheiro do foyer do TCA (Teatro Castro Alves), onde o filme foi exibido. Veio como um raio, uma mistura de gosto amargo e sensação desagradável. Quanto sofrimento passou o Olney e sua família, o filme me fez sentir a doçura daquele homem, mas também a dor pelo que ele passou. No livro “A necessidade da Arte”, Ernst Fischer discorre sobre as diversas razões para a criação e fruição artística, chegando a definir a arte como o desejo de completar a incompletude da existência humana. Olney necessitava da arte para viver e foi tolhido por se expressar livremente, ele pode não ter sido morto pela ditadura militar brasileira, mas fisicamente ou psicologicamente ele foi assassinado por ela, como afirma um dos entrevistados.

O filme começa, não vemos fotos, nem textos sobre Olney, somente imagens riscadas, mofadas, fragmentos dominam a tela. Nuvens cinzentas, a tentativa de respirar sem encontrar ar, duplicações imagéticas do sertão, mandacarus, espinhos. O cinza caminha e vai penetrando em tudo, como uma maldição, um câncer… Até começarmos a ouvir um depoimento, logo depois vemos a imagem de uma pessoa, não há sincronismo entre imagem e som. Há um silencio nas imagens, enquanto o som, através das vozes vagando pela superfície da tela, faz o trabalho enunciativo – Michel Chion chama isso de “presença acusmática” – Logo depois créditos são inseridos nas imagens, identificando os entrevistados, o som agora sincronizado desacusmatiza as vozes. Com o decorrer das entrevistas o espectador vai montando a tapeçaria documental, quem era Olney, onde nasceu, quais eram seus desejos e paixões… Vamos construindo o ser através da combinação de imagens oníricas e depoimentos. Olney Alberto São Paulo, filho, irmão, amigo, amante, pai, cineasta, poeta, baiano de Riachão do Jacuípe, sertanejo, pelejador.

Da mesma forma que o sertão foi a base para a maioria de seus filmes, esses últimos iluminaram e continuam iluminando o sertão. “Sinais de Cinza” ressignifica as obras de Olney, projetando-as em paredes de casas de taipa, no barro, em portas, grades, janelas, em candeeiros. Criando uma simbiose ímpar, onde a matéria prima e as obras se mesclam – sendo que no meio temos a dor –  Da tortura, da cadeira com cordas, dos porões, da água gelada, do esquecimento. Foram 14 filmes entre curtas e longas produzidos por Olney São Paulo, e nenhum deles foi restaurado até o término do documentário. Sendo que o filme que o consagrou/assassinou possui 22 minutos, demonstrando que obras-primas não possuem tamanho e que a intolerância sem medida é inimiga da alteridade e da liberdade.

Olney São Paulo buscava não somente contar as histórias mas também experimentar e tensionar a linguagem cinematográfica, Henrique também faz isso em seu filme. “Sinais de Cinza” não é somente um filme sobre um homem e sua peleja, é documento, é denúncia, é história, é ensaio, é poesia, é cinema, é saudade.

 

publicado em O Espelho

3 Comentários...

  1. […] A peleja de Olney, por Cesar Fernando de Oliveira (jun/2015) […]

  2. Graça Avelar disse:

    É importante que o filme circule pelas cidades do interior. Legislando em causa própria …. Vitória da Conquista, depois de Feira de Santana! O desejo é GRANDE!!

  3. Deusi de Magalhães disse:

    Sai da projeção me sentindo assim tb… Belo filme! Com certeza um herói esse Artista Pelejador Olney São Paulo!!!!

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