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por Raul Moreira

 

 

 

A lua cheia funciona como uma espécie de holofote natural a iluminar a Baía de Todos os Santos. No salão principal do Museu de Arte Moderna da Bahia, onde se encontra a famosa escada helicodial projetada por Lina Bo Bardi, um desavisado tenta abrir uma janela, talvez no intuito de vislumbrar o mar que parece um tapete cintilante, mas é contido por um segurança.

São muitas almas presentes ali para prestigiar a abertura da exposição Só Cabeças, que reúne centenas de obras que datam do século 17 aos dias atuais, boa parte das quais cedidas pelas principais galerias e museus de Salvador. O curador-mor é o irrequieto João Pereira, dito Joãozito, um tipo que parece saído do Brasil Imperial, mas que carrega traços pós-modernos, o que o torna uma figura particular, para não dizer emblemática.

Articulada e montada em velocidade relâmpago, com todos os riscos, em um primeiro momento é de se pensar que Só Cabeças é algo despretensioso. Mas não. Há um discurso que remonta às exposições pré-modernistas, com a ocupação anárquica dos espaços, como também se elucubra a respeito da dita “pós-verdade”.

Numa rápida consulta ao Google, descobre-se que a universidade de Oxford escolheu “pós-verdade” (post-truth) como a palavra do ano, a ponto de defini-la em seu dicionário: um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Diante de fatos recentes, como a eleição de Donald Trump, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e o impedimento da presidente Dilma Rousseff, acontecimentos que se consolidaram a partir de mentiras, do domínio da “pós-verdade”, Joãozito Pereira é categórico: “O ser humano ainda pode ser magnífico na era da pós-verdade: basta uma convicção e os fatos que se fodam!”.

Ao pé da letra, aliás, a própria Só Cabeças é uma “pós-verdade”. Porque, não se trata de uma “exposição”, como foi vendida aos quatro cantos, mas, sim, de uma instalação gigantesca na qual o autor-curador se apropriou das obras de artistas consagrados e desconhecidos, e ás dispôs, juntamente com as parceiras Flávia Bomfim e Lanussi Pasquali, do jeito que bem entendeu, dando-lhe, também, a luz que achou justa.

Medalhões e emergentes

Naturalmente que o arrojo e o desprendimento geraram susceptibilidades. No entanto, apesar de uma e outra escaramuça, comum no ambiente das artes visuais, onde o ensimesmamento é regra, o que chama a atenção é a proposta de agregar medalhões e emergentes, embaralhando as cartas e conferindo um sentido segundo o qual o que deve prevalecer é a da obra do artista desconhecido, como se o soldado raso fosse mais importante que o general.

Assim, quem for ao MAM até fevereiro, vai se deparar, por exemplo, com um quadro da saudosa Luci Citti Ferreira, premiada artista internacional e modelo de Lasar Segall, ao lado de desenhos do jovem mexicano radicado no Brasil Victor Morales; ou ainda vai vislumbrar no mesmo campo de visão obras do argentino Carybé e da fotógrafa local Lara Perl, com a sua Série Azul.

No reino das cabeças, há ainda, entre tantas, o autorretrato de Juarez Paraíso dividindo a parede com a Cabeça 5 de Anderson Santos, ou ainda a cabeça de Meteorango, alter ego do ator e artista plástico Lula Martins, clicada pelo saudoso Mário Cravo Neto. Por sua vez, Caetano Dias divide o mesmo espaço de suas cabeças em ferro fundido com uma cabeça em acrílico vermelha de Luciano Scherer.

Sacrilégio? Nem tanto. Houve quem dissesse que, se fosse viva, Lina Bo Bardi, a mentora do Museu de Arte Moderna da Bahia, certamente exultaria com Só Cabeças. E não apenas pela sua proposta arrojada, pela sua plástica, mas, também, porque, em tempos de crise institucional e de retrocesso político, o evento resgata certo espírito de resistência do MAM que se perdeu nas teias do tempo.

Porque, passados mais de 60 anos desde que Lina Bo Bardi pediu demissão do MAM, ao se defrontar com a imposição de realizar nos seus salões uma exposição com “artefatos” pertencentes a comunistas que conspiravam contra o Brasil, enxergar e escutar hoje nos seus pátios gente falando de prováveis exílios, como Lisboa e Montevidéu, soa como um déjà vu assustador.

A respeito da questão, aliás, na noite de Só Cabeças houve quem vociferasse sentir falta de uma obra de consistência que sintetizasse os tempos atuais, um livro, um filme, uma peça de teatro, uma música, um quadro, enfim. Como resposta, alguém sussurrou-lhe que, ali mesmo no salão da famosa escada helicodial fora jogada certo fermento, e o pão da resistência pode começar a inchar, a se tornar grande e ser cortado em fatias.

Em tempos de pós-verdade, quando desejos e realidade se imbricam e nos deixam no limbo, sem saber o que é e o que não é, mesmo, não se sabe se o pão será comido ou vai ficar dormido, seco, esturricado. No entanto, fica a certeza de que cabeças vão rolar.

 

publicado em A Tarde
capa; Nildão

 

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