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por Orlando Senna

No último dezembro o 25º aniversário da Escola de Cuba ou, por extenso, Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños-Eictv, foi celebrado em muitos lugares, meridianos e latitudes, e das mais distintas maneiras (acadêmicas, artísticas, políticas, esotéricas). O Festival de Havana do ano passado foi dedicado ao primeiro quarto de século da “Escuela”, como também é conhecida entre as milhares de pessoas a ela relacionadas e espalhadas por todo o planeta. No dia 15 de dezembro, semanas atrás, estive no ato central dessa comemoração, em meio a três mil pessoas que lotavam a sede da escola, uma fazenda a poucos quilômetros de Havana, com horta, criatório de galinhas e peixes, alguns bois, rãs, grilos, passarada, fabricação de pães, jardins, piscina, área de esportes, campo de futebol, clínica geral e psicológica, edifícios de apartamentos, restaurante, bar, inspiradas pichações nas paredes, laboratórios de imagem e som, dezenas de ilhas de edição, estúdios, casas cenográficas, biblioteca, midiateca, salas de aula, salas de exibição (e de reuniões, exposições, shows, a principal é a Sala Glauber Rocha).

Orlando Senna na festa dos 25 anos da EICTV

Uma fazenda que está em fase de transformação, refazendo-se tanto como entidade agrária (o laranjal que cerca a escola está sendo substituido por uma plantação de limões), como entidade docente, adaptando-se rapidamente aos novos tempos digitais e confluentes e às mudanças políticas e econômicas que ocorrem acima e abaixo do equador, com foco especial na América Latina e em Cuba — o que é natural e vital para uma escola transnacional do internacionalizado audiovisual. Foco especial em Cuba porque é o país que abriga as duas instituições internacionais que conformam a Eictv (a própria Eictv e a Fundação do Novo Cinema Latino-americano) e também o maior país doador da Escuela, que se mantém graças à venda de serviços docentes e de produção e a doações internacionais, principalmente de países europeus. E Cuba, como se sabe, está passando por uma fase de transição socioeconômica (curiosamente, o aspecto mais visível nessa transição, no assunto que nos toca, é o desenvolvimento de um “cinema independente” na ilha socialista).

Na Eictv já foram formados 736 profissionais audioviduais de 55 países, ditos “cineteleastas” na gíria local. Mais de 150 filmes de longa-metragem foram realizados nas últimas duas décadas pelos ex-alunos diretores, sem contar (nem faço ideia) a quantidade de filmes com participação de ex-alunos na fotografia, câmera, som, edição, produção, roteiro. Muitos ocupam funções decisivas nas televisões do México, Colômbia, Venezuela, Panamá e de outros países latino-americanos. Além desse pessoal do Curso Regular (três anos), na fazenda-escola foram preparados ou reciclados mais de 4 mil oficinistas, cerca de 300 pensadores estão participando ou participaram dos Diálogos de Altos Estudos. A esse contingente somam-se os 200 funcionários e os 300 professores que circulam anualmente por lá. Em 2007 a administração da escola passou a ser exercida por ex-alunos: de 2007 a 2011 a diretora foi a dominicana Tanya Valette e agora é o guatemalteco Rafael Rosal. São muitos os ex-alunos responsáveis por áreas docentes e de produção na escola e também fora dela, em uma das novidades dessa nova fase, as Oficinas Extra Muros (ano passado foram realizadas duas no Brasil, em São Paulo e Rio).

 

Digitalização e rede

Outras novidades são o fortalecimento da área de televisão e artes digitais (interatividade, 3D, estereoscopia, realidade virtual) com a criação da especialidade TV e Novas Mídias, e a realização de spots para instituições internacionais (como a Unesco) e telesséries em coprodução com outras escolas audiovisuais, ao mesmo tempo exercícios docentes e produtos de mercado. Está sendo lançada neste momento a telessérie documental Ser um Ser Humano/To be a Human Being, coprodução da Eictv com escolas de Colômbia, Polinésia, Índia, Jordânia, Espanha e Estados Unidos. Seis programas, seis temas (sustento, amor, cultura, fé, medo, esperança) abordados em pequenas comunidades da África, América do Norte, América do Sul, Ásia, Europa e Oceania. A mencionar também as 90 empresas audiovisuais montadas ou dirigidas por ex-alunos em 40 países, as “empresas eictvianas” como se diz na comunidade.

Quando digo comunidade estou me referindo ao resultado mais inesperado e mais fascinante desse centro de aprendizado e reflexão do cinema e seus derivados digitais: a grande rede com mais de mil pessoas que se formou ao redor do mundo e cresce a cada dia e a cada dia está mais conectada e mais amorosa, uma rede de pessoas, sentimentos, afeições (e até aqui já seria uma maravilha), que também e consequentemente produz bens materiais como filmes, séries de tv, empresas, sites, webdocs. Essa grande família conformada por alunos e ex-alunos do Curso Regular e das oficinas, professores, cineastas, centenas de jovens produtores, todos integralmente apaixonados pela rede e pela Escuela (também chamada San Tranquilino, nome da antiga fazenda de cítricos que ocupava o espaço onde hoje está essa fazenda de criação artística e tecnológica se refazendo). Os ex-alunos brasileiros e/ou vivendo no Brasil, do Curso Regular, são cerca de 90 e estão bem conectados, todos trabalhando graças a deus Oxumaré mas arranjando tempo para a Escuela, parte deles organizando novas Oficinas Extra Muros, outros tentando armar um programa de tv a ser transmitido pela Eictv.

 

Cifrões

No aspecto sustentabilidade a Eictv está desenvolvendo novas opções, como as citadas Oficinas Extra Muros e aluguel de equipamentos sofisticados (incluindo um colimador de lentes, só existem três na América Latina), e principalmente um Fundo Patrimonial Internacional, em que os depositantes sempre serão donos do dinheiro que depositarem, podem resgatá-lo quando desejarem, e a escola recebe os juros. A formação adequada de artistas/técnicos audiovisuais está entre as mais caras no ranking das profissões atuais, equiparando-se à formação de pilotos de jatos ultrasônicos, e ainda mais cara se concretizada com o desenho da Eictv, em que formação é igual a percepção mais reflexão mais treinamento mais inserção no mercado (F=P+R+T+I).

Os alunos do Curso Regular, ou seus países, pagam 15 mil euros, o que significa 25% do custo de sua estância de três anos, que é 60 mil euros incluindo tudo (alimentação, hospedagem, transporte local, serviços médicos, aulas, exercícios, materiais e equipamentos de estudo e produção — lembrando que cada turma realiza nesses três anos perto de 300 exercícios entre filmes, videos, programas de tv, demos de games) . A bolsa de 45 mil euros que completa esse custo quem corre atrás é a própria escola (principalmente com as oficinas internacionais e as doações), a Fundação do Novo Cinema Latino-americano e as várias organizações de ex-alunos. Como são 40 alunos por turma, a cada ano a Eictv tem de arcar com um custo mínimo de um milhão e 800 mil euros (cerca de quatro milhões de reais). O Fundo Patrimonial e as outras providências para aumentar os ingressos da Eictv estão norteadas a bolsas integrais (de 60 mil euros) para alunos carentes ou de países pobres, a reformas nos edifícios de apartamentos construidos há mais de 25 anos e, como em todas boas escolas, constante atualização tecnológica.

 

Os deuses da chuva

Na festa do 25º aniversário a comunidade Eictv (estavam uns cem ex-alunos) celebrou esses números e essa expansão, esse assentamento na atualidade, o fôlego para outros 25 anos e mais. Foram homenageados os fundadores e ideólogos Gabriel García Márquez, Fernando Birri e Julio García-Espinosa, o ex-presidente Fidel Castro (que abriu as portas de Cuba para a proposta dos cineastas latino-americanos em 1985), os trabalhadores da escola e muita gente (inclusive dois brasileiros: Sérgio Muniz, como primeiro diretor docente, e este que escreve, como fundador e ex-diretor). Mais da metade da multidão que lotava o patio central da escola, a Praça Za (em homenagem a Zavattini), era de habitantes de San Antonio de los Baños, o “pueblo” que está ao lado e que se apresenta como “a pequena cidade mais filmada do mundo”, porque é uma locação preferencial para os exercícios dos alunos. A comunidade Eictv celebrou tudo isso mas, principalmente, o fato de ter atravessado duas décadas e meia fiel a seus princípios, à sua semente, à sua tônica dominante. De dezembro de 1986, quando a escola foi inaugurada, até o momento presente o mundo virou de pernas pro ar: colapso da União Soviética e da bipolarização, instalação de uma superpotência única, globalização, 11 de Setembro, Guerra ao Terror, o euro, aids, clonagem de mamíferos, Mandela, Lula, Obama, bolivarismo sul-americano, crise econômica nos países ricos, ascensão das potências emergentes BRICs, WikiLeaks, Primavera Árabe. Principalmente a digitalização da ciência e das comunicações, provocando o fim da idade industrial e o início da idade da informação. Uma nova era científica (nanotecnologia) e “a morte das distâncias”, como diz Daniel Piza em seu livro “Dez anos que encolheram o mundo” (Editora LeYa), que recomendo.

Sergio Muniz - homenageado

A Eictv cruzou toda essa história convulsa, com a revolução digital midiática ao mesmo tempo diante dela e assediando seus calcanhares, em constante processo de adaptação criativa. Às vezes tirando leite de pedra, às vezes enfrentando desvios internos ou dificuldades em manter sua linha de conduta e sempre superando esses obstáculos exatamente com a linha de conduta, com o renovado resgate de seus princípios filosóficos, principalmente a antiescolástica, ou seja, a não existência de dogmas, a visão sempre crítica de paradigmas e modelos, a fusão do conhecimento e da imaginação, da consciência e da rebeldia. A celebração maior do 25º aniversário foi essa, a de renovar-se constantemente sem perder a essência e a ternura, enlaçar o arcaico e o contemporâneo, entregar-se ao futuro. A cerimônia na Eictv não cumpriu toda sua pauta porque começou a chover (a Praça Za é a céu aberto), foi encerrada sob ovação, mas muita gente ficou se molhando e dançando sob o aguaceiro tropical, explicitamente para agradecer aos deuses maias a benção da chuva, para que sempre, durante todo o século XXI, chova na horta da refazenda de San Tranquilino, apelidada Escola de Todos os Mundos.

 

9 Comentários...

  1. JOSE DO NASCIMENTO disse:

    PARA TODOS AS PESSOAS DO MUNDO CINEMATOGRAFICO , AMANTES DA CETIMA ARTE E A GENTE DAS ARTES EM GERAL ,O MEU ABRÇO.JOSE DO NASCIMENTO 3 GERAÇÀO DA ESCOLA INTERNACIONAL DE CINEMA E TELEVIÀO DE SAN ANTONIO DE LOS BANÒS-CUBA. PARA O DIRECTOR E MAESTRO ORLANDO SENNA OS MEUS CINCEROS AGRADECIMENTOS POR TUDO QUE TEM FEITO AO LONGO DE TODOS ESTES ANOS EM PROL DO DESENVOLVIMENTO DO AUDIO-VISUAL. ESTOU TRABALHANDO COM JORGE ALFREDO EM ANGOLA,EU FUI SEU ALUNO DE ESCRITURA DE ROTEIRO CINEMATOGRAFICO NO ANO DE 1991 NA ESCOLA DE CUBA.E ESTOU INTERESSADO EM FAZER UMA AMOSTRA DE UN FILME .

  2. alba liberato disse:

    Querido mestre Orlando, de voce sempre esperamos tudo que seja abrir portas, vencer obstaculos, cantar oferendas aos deuses pela energia de todos nos que abrimos portas, vencemos obstaculos e sorrimos e amamos querendo mais. Um abraco bem apertado em vc. e Conceicao, dos amigos de uma Bahia que existe na nossa memoria e nos alimenta. Alba Liberato

  3. […] sergio de leon.   V MOSTRA AUDIOVISUAL ISRAELENSE – de 01 a 06 de junho NO CADERNO DE CINEMA (BAHIA) A Refazenda da Escola de Cuba, por Orlando Senna clique aqui http://cadernodecinema.com.br/blog/a-refazenda-da-escola-de-cuba/ […]

  4. Sandra Rosa disse:

    Ei, Querido Orlando, sempre criando e recriando e levando tudo e todos a sua volta nesta avalanche, sempre a frente do seu tempo. PARABÉNS.
    Tb sou sua fã
    Sandra

  5. Orlando que bom te achar!
    Estamos na 11° Edição do Festival de Cinema de Curitiba e gostaria de convidar os comunidade cinematográfica de Cuba para participar do evento.
    Você tem como intermediar?

    Aguardo.

    Atenciosamente.

  6. Orlando, que bom te achar.
    Fico feliz de saber novidades sobre Cuba, sempre fiz parceria com os cubanos.
    O Festival de Cinema de Curitiba vai acontecer em outubro de 2012 e gostaria muito da presença dos cineastas de Cuba.
    Você pode participar desse intermédio?
    Abraço!

  7. Katia Mesel disse:

    Parabens a Cuba, a Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños-Eictv, e especialmente a Orlando Senna – sempre a frente de projetos ideais!

  8. Solange Lima disse:

    Orlando Senna!
    Sempre REFAZENDO TUDO!
    Nosso mensageiro do Futuro.
    Sempre criando e entregando generosamente à sociedade.
    Cada ves mais sou fã.
    Bjs,
    Sol

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