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Por Giovanni Soares

 

Foi na casa dos meus amigos Fritz Zehnle e Rose Lima, que conheci o livro Acontece que ele é baiano, edição comemorativa do centenário de Dorival Caymmi, que conta a trajetória profissional do cantor, compositor, poeta e pintor baiano, de estilo único. Tudo muito bem pensado e organizado pela 19 Editora.

A obra – que estampa inclusive muitas fotos, desenhos e ilustrações – traz textos de Caetano Veloso, João Ubaldo Ribeiro, Júlio Diniz e da neta Stella Caymmi, além de depoimentos inéditos dos filhos Nana, Dori e Danilo.

O resultado é maravilhoso. Gostoso de ler e bonito de se ver. E fiquei pensando o que seria da nossa música popular brasileira sem Caymmi? Este mulato, que nasceu na Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos e foi descendente direto de italiano, influenciou gerações e mais gerações de músicos, cantores e compositores, a exemplo de João Gilberto e Caetano Veloso, só para citar dois nomes emblemáticos da nossa MPB.

Para Caetano Veloso, “Ninguém entre nós, exceto ele, desenvolveu uma obra autor-intérprete totalmente integrada, antes disso se tornar um modelo que, a partir dos anos 1960, vem de Bob Dylan a Lenine. Para dizer o mínimo.”

Detalhe interessante: Caymmi era sofisticado em suas preferências musicais. Gostava de ouvir Debussy, Ravel e Satie. Estudava partituras de Bach, como lembra o filho Dori. Não era por acaso que Caymmi se dedicava tanto às melodias de suas composições, muitas delas com simplicidade e complexidade desconcertantes. Mas a grande fonte musical que inspirou Caymmi foi, sem dúvida, o cancioneiro popular da Bahia.

Acontece que ele é baiano reserva ainda boas histórias. E João Ubaldo Ribeiro conta uma delas, quando Caymmi morava na Pedra da Sereia, praia que fica entre os bairros de Ondina e Rio Vermelho, na Cidade do Salvador: “Nessa época da Pedra da Sereia, como é frequente na vida de escritores e assemelhados, pessei um período um tanto apertado. Com dinheiro contado até para gasolina, fazia força para manter a dignidade e não costumava comentar o assunto com os amigos. Mas Caymmi me conhecia e sabia da situação, não precisava que ninguém lhe falasse. Aí o então Banco Econômico da Bahia resolveu inaugurar sua primeira agência em Belo Horizonte com um comercial estrelado por Caymmi. Acho que ele nem precisava ir a Minas Gerais, ia gravar ou filmar em Salvador mesmo, cercado de coqueiros, junto do mar de Itapuã. Faziam um fundozinho musical, davam um close nele e ele dizia qualquer coisa como ‘agora, com a nova agência do Banco Econômico da Bahia, estou trazendo um pedacinho de Itapuã a Minas Gerais’. Ou algo assim, não eram mais que, no máximo, três linhas datilografadas. O pessoal da agência de propaganda do banco levou o texto para ele, que o leu prolongadamente, muito sério. – Quem escreveu este texto? – perguntou com gravidade. – Foi um redator lá da agência. Mas, se o senhor quiser sugerir alguma mudança, pode falar. – Eu não sei sugerir nada, não é a minha profissão. Mas não posso ler um texto sem qualidade literária. – Qualidade literária? Mas… – Tenho que sentir qualidade literária, isso é um texto de responsabilidade, não vou dizer um negócio desses sem esse respaldo. – Mas quem o senhor sugere? – Não sei se ele aceitaria, mas, se o pagamento for bom, é possível que ele tope. Procurem ver como está a agenda dele, do João Ubaldo. Por que não procuram o João Ubaldo? No mesmo dia, enfezadíssimo, o dono da agência, o grande publicitário baiano Rodrigo Sá Menezes, me procurou na redação do jornal onde eu estava trabalhando. Dorival Caymmi tinha sido contratado para fazer o comercial do Banco Econômico, mas exigia que eu escrevesse o texto. Perguntei o que era e ele, pálido de exasperação, me mostrou as três linhazinhas. – Mas o que é que há para mudar aqui? – Nada, é isso mesmo. Mas, por favor, pegue uma lauda do jornal, copie essas três linhas com sua máquina de escrever e assine embaixo. Nós pagamos mais do que você ganha num mês aqui, pode ficar tranquilo. E, se ele telefonar para você, pelo amor de Deus confirme. Ele telefonou, na frente de Rodrigo. Estava com o texto na mão, queria saber se era mesmo eu que o tinha escrito. E tinham pago bem pelo serviço, tudo fora feito corretamente, eu recebera meus direitos de autor? Sim, tudo bem, tudo corretíssimo. – Ah, bom – disse ele, desligando o telefone, voltando-se para Rodrigo e brandindo o papel aberto diante dos olhos, como se estivesse contemplando um soneto de Camões. – Agora sim, é outra coisa, agora eu tenho certeza da qualidade literária, assim eu leio.”

Enfim, vale muitíssimo a pena conferir Acontece que ele é baiano, em homenagem a este Obá de Xangô. O homem que só pensava em coisas boas.

 

capa – auto retrato de Caymmi

2 Comentários...

  1. fritz disse:

    ALO GINJUS ;

    DE UM LADO, A MINHA PAIXÃO POR CAYMMI, QUE CONHECÍ DA 1.A VEZ COMO PINTOR, VENDO AS FOLHAS DE UM CALENDÁRIO DE UM BANCO DE INVESTIMENTOS DA ” BAHIA “, ONDE PAPI FRITZ FAZIA SUAS INCURSÕES E DO OUTRO, SABENDO QUE ESTAS LINHAS VINHAM DE GIOVANNI, DE QUEM OUÇO SEMPRE LINDAS E COMEDIDAS PALAVRAS, NAS VISITAS DE IDAS E VINDAS.

    ACHO QUE LER AQUI É TÃO DELICIOSO COMO ASSISTIR AOS PASSOS DE NOSSO CANTOR. ARTE, AMIGO !!!!!!!!!!!!!

    MIL BEIJOS EM NOSSAS ARTES E TODA FELICIDADE PARA TODOS DE CÁ, FALO DE CÁ MESMO E DAÍ TAMBÉM, QUE SE ACOMODA CÁ , DENTRO DE NÓS !!

    ABRAÇÃO;

    FREETZ

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