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 por José Araripe Jr.

 

O efeito de portabilidade que o 16 mm já tinha proporcionado ao cinema documentário e à ficção alternativa, ampliou-se  com as câmeras domésticas de custo accessível e com múltiplos recursos embarcados.
O chamado cineasta amador ou iniciante, teve acesso a um instrumento factível e pôde se arvorar em suas expressões audiovisuais. Os festivais que assimilaram os Super 8, ao lado das outras bitolas, cresceram com diversidade de linguagem e estilos.
Nosso grupo, Lumbra cinematográfica, formou-se ao longo das jornadas internacionais de cinema, e ganhou forma como empresa produtora com CNPJ, mas preservou seu caráter coletivo não comercial.
O meu  encontro  com Fernando Belens, Edgard Navarro e Pola Ribeiro se deu por afinidades anárquicas – todos militantes de causas diferentes, mas engajados na luta contra a ditadura militar – um psicanalista, um engenheiro civil, um artista plástico e um jornalista.

Estilos cinematográficos totalmente diferentes, mas unidos por um cinema transgressor. A pixação e o grafite também fizeram parte das atividades do grupo, assim como exposições. Ao longo da sua existência de mais de 10 anos, teve agregados em parceria, entre outros, como Ana Nossa, Henrique Alvarenha e Jorge Fellipi.

A obra individual e coletiva dos Lumbráticos, a grande maioria em super 8 ultrapassa as duas dezenas de filmes. Foram premiados em diversos festivais brasileiros. Todos continuam em atividade no audiovisual, inclusive já realizaram longas metragens com lançamento comercial.

Vale lembrar ainda que, neste ambiente, eu era o caçula no meio de caçulas. Vindo das artes plásticas e do teatro, mas já realizando super 8 desde os 13 anos – em Ilhéus – tive nos 3 (Edgard, Pola e Fernando), mestres, que me apresentaram novas possibilidades na vida e na arte. Praticando um cinema sensorial – o que hoje se enquadraria como videoarte – me dedicava mais à um gênero de filmes que circulava mais em salões do que em festivais: “Fiat Lux”, “Retina Gatilhada”, “Circuluminoso”. Aos poucos, fui desenvolvendo projetos de filmes híbridos, documentários musicais, animações, ficção e experimental. Caso de “Eletros o Grande Monumento” – ficção científica que traz Edgard Navarro no papel de um iconoclasta perseguido pelo estado – um filme um tanto influenciado pelo próprio Navarro.
E “Contos de Farda” – libelo contra a indústria de brinquedos de cunho militarista; alguns filmes inacabados e outros perdidos: “Gosto de você glutazinho” – a vida alimentar das prateleiras dos supermercados e seus conservantes. “Kitut Tropical” – Um stop motion que “urubuserva” um mendigo deitado na calçada, enquanto ouve-se uma lição russa de etiqueta. “Caçador de cabeças”, um doc sobre um artista primitivo do Rio Vermelho,  “Lumiére, meu filho, o que é que você está fazendo neste quarto escuro?”, um meta filme de imersão nos rudimentos óticos da própria câmera super 8. E o primeirão de todos: “João Cidade”.
Dos filmes realizados em coletivo com a Lumbra citaria “Na Bahia ninguém fica em Pé”, “Me diz que eu sou seu tipo” e “Filmemus Papa”.
Mesmo antes de vir morar em Salvador, eu já frequentava a jornada. A primeira em 1975. Aquele ambiente me fascinou. E antes disso, durante a produção de “João Cidade” –  que rodei em Salvador, eu já frequentei a DIMAS em busca de apoio.
O ambiente universitário era intenso pois estávamos em constante luta contra a repressão. a censura, enfim contra a ditadura. Também fazia Teatro Livre da Bahia e militava na Poesia de Rua com meu livro “Cartaz Alegretos de Gaiola, poesias”.
O meus filmes “artísticos” foram selecionados para salões universitários e salões de artes nacional, onde fui premiado. O momento mais significativo deste período em que transitava em dois mundos do audiovisual foi quando expus meu circuluminosos.
Como sempre entendi que cinema era um campo de amplitude, fui tocando, minhas diversidades, e experimentado vários campos, sabia que o aprendizado autodidata exigia essa multiplicidade. A palavra multimídia, e a palavra direção de arte, eu fui o primeiro a usar como crédito, na cena artística de Salvador. Hoje sou apenas um artista. E os meios são os meios.

 


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