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Home » Artigos » Alápini em cartaz na Sala Walter

Após lançamento em 2017, ano do centenário de nascimento do escultor, escritor e supremo sacerdote baiano, o documentário de Emilio Le Roux, Hans Herold e Silvana Moura volta ao cartaz para uma temporada de exibições na Sala Walter.

“Alápini, A Herança Ancestral de Mestre Didi Asipá” é atração no período de 11 a 17 de janeiro, com sessões gratuitas sempre às 17h (com exceção do dia 13/01, em que a sessão começa mais tarde, 18h30).  Vencedora do edital “Agosto da Igualdade 2017” da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi/BA), a obra resgata a trajetória do sacerdote através das memórias e relatos dos membros do terreiro Asipá e de sua família, pessoas que conviveram bem de perto com ele. Como artista plástico, Mestre Didi difundiu costumes, línguas, estéticas, literatura e mitologia dos povos africanos, principalmente a sua religião, aprofundando o conhecimento sobre as influências dessa cultura na formação nacional brasileira.

 

 

por Silvana Moura

Mestre Didi é um dos grandes nomes da cultura brasileira, um sábio, conhecedor profundo do culto aos egungus, do candomblé. Tentamos mostrar esses talentos múltiplos do Mestre: sacerdote, artista, escritor, dramaturgo, educador… É um dos grandes brasileiros do século XX, precisa ser conhecido nesse país. Sua vida é um exemplo! Ele viveu para preservar a herança dos seus ancestrais, logo temos que preservar o legado desse ser incrível.

Depois da primeira sessão, fui para o bar do Espanha com muitos irmãos do Afonja. Lotamos todos os bares do Bairris. Virou festa de Largo. Além do povo do Asipá, muitos do Afonjá também, tinham muitos outros terreiros e toda nossa turma do cinema e do jornalismo.
As pessoas me abraçavam, choravam. O povo de Santo estava emocionado, feliz. Os ojés estavam vibrando. A família do Mestre… Mãe Nidinha me disse que não tinha como agradecer por aquela noite e me desejou todas as bênçãos. Cida, neta do Mestre, disse que os ancestrais estavam em festa no Orun e que os orixás iam abrir os caminhos para nossos projetos. Eu só agradeci. O filme é uma construção coletiva do Asipá, eu só dei uma costurada. A turma do cinema Josias Pires e Antônio Olavo  mandaram mensagens lindas.

 

Nós estamos fazendo cópias para o Asipá distribuir, queremos chegar nas escolas, nos terreiros, nas comunidades. Queremos entrar em cartaz.

 

Vamos nos dedicar a procurar uma distribuidora. Exibir pelo Brasil, na África.
Jorge Alfredo me mandou uma mensagem linda, assim:  “Que filme denso! Que evento bacana! Nunca vi a Walter tão energizada e festiva! Esse dia fica pra história do nosso cinema… “

 

E um colega jornalista e fotógrafo, José Mamede, postou isso no face: “acabei de assistir a um documentário maravilhoso sobre Mestre Didi, um grande artista e incentivador da ancestralidade africana na Bahia. Emocionante. O terreiro que ele ajudou a criar estava presente em peso. Muita gente chorando e rindo com as histórias do mestre. Um dos ensinamentos que mais me tocou foi sobre a autoestima. Um dos seus netos fala que, sem o que aprendeu com Mestre Didi, ele não seria ninguém, seria facilmente consumido pelos padrões disseminados pela mídia. É lindo ver cada vez mais pessoas nas ruas de Salvador com seus cabelos exuberantemente crespos e cacheados. A diretora do doc é uma velha amiga, colega de faculdade. Fiquei emocionado quando ela agradeceu à mãe dela (do terreiro) e pediu que ela se levantasse. A sala inteira levantou e aplaudiu. Que orgulho da mãe para com a filha e da filha para com a mãe. Elas trocaram olhares de um amor gigante.”

 

Mesmo agora, só na lembrança, marejei aqui. É pra esses momentos que a gente vive, né não? 

 

por Emilio Le Roux

Para mim, a oportunidade de trabalhar com Hans e Silvana neste filme foi um grande privilégio. Frequento os terreiros apenas como convidado, mas acredito firmemente na visão do cosmos das religiões africanas, como sobreviventes das mais antigas manifestações do mundo.

E Mestre Didi é um ilustríssimo representante desta visão; um artista, intelectual e educador que sabe o que tem que ser feito para preservar a fé, o culto aos Eguns e às tradições, valorizar nosso passado e resgatar os jovens do domínio da mídia e outras armadilhas da nossa sociedade.

Sobre Mestre Didi sempre haverá muito para falar. Eu mesmo não conhecia a dimensão e as múltiplas perspectivas do Mestre até a imersão na produção deste filme, que foi um trabalho de mais de um ano entre registros, depoimentos e edição.

Também considero um privilégio ter assistido inúmeras vezes, durante a montagem, o vasto material bruto que produzimos, que é também um tesouro. Tivemos um enorme trabalho para ‘extrair o mel mais fino’ e tentar contar, através dos personagens que cercavam a Didi, uma história polida, leve, positiva e bonita;  Humildemente, esperamos ter conseguido apresentar uma peça que contribua para a divulgação dos valores que o Mestre defendia, e com a estética e o cuidado que ele tanto prezava.

 

LUZ E MISTÉRIO

por Hans Herold Oluabi

Minha ligação com Mestre Didi começou há alguns anos, quando eu dei um bori(ritual de candomblé) no terreiro Asipá. No outro dia era festa de Ogun no Ilê Axé Opô Afonjá e eu fui suspenso ogan pelo Ogun de Reginaldo Flores, afilhado de Mestre Didi. Tudo isso criou um laço muito forte com a família Asipá: minha mãe pequena é Mãe Nidinha, filha primogênita do mestre. Eu já frequentava o Afonjá e o Asipá, mas meu compromisso com as casas aumentou. Depois ganhei o posto de otun oluabi no Asipá e atualmente sou oluabi. Quando Silvana e eu fomos convidados por José Félix, neto do Mestre e filho de Mãe Nídia para fazermos uma homenagem ao centenário de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, pensamos logo na importância em respeitar a religião e mostrar a beleza da estética do culto aos ancestrais. Chamamos Emilio Le Roux para participar do documentário. A opção foi mostrar pedaçõs e não o todo, ou seja não entregar o awo, o mistério, pois o candomblé e o culto aos eguns baseiam-se no mistério. Trabalhei o conceito do mágico e misterioso, posicionando a câmera por entre as cercas, as folhas, as pessoas… usando o foco e o desfoque.

 

Optamos por não usar luz para não interferir no ritual, usamos uma câmera com sensibilidade para não usar luz artificial.  Quisemos manter o mistério também nas imagens. Na verdade, na maioria das casas tradicionais de candomblé e de culto aos ancentrais não é permitido filmar. Nós tivemos que pedir autorização aos próprios ancestrais, inclusive eu creio que os eguns me inspiraram e ajudaram para que eu fizesse aquelas imagens, respeitando o mistério, o awo e ao mesmo tempo revelando a beleza daquele ritual.

 

Todos nós sabemos da importância do Mestre Didi como sacerdote, artista e educador. Ele é um homem que inspira às crianças, os jovens do Ilê Asipá e a todos a levantarem a cabeça,  a se valorizarem , a termos consciência da nossa história, pois sem autoestima não somos nada. 

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