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O cineasta Fernando Belens narra as contradições do meio rural brasileiro

 

por Luiz Zanin Oricchio – O Estado de S. Paulo

 

Não é sempre que chega ao circuito um filme como Pau Brasil. Dirigido por Fernando Belens (adaptado de um romance homônimo de Dinorath do Valle), Pau Brasil destoa da produção urbana habitual do cinema brasileiro. Ambientado no meio rural, fala de uma situação áspera por meio do contraste entre duas famílias, igualmente pobres, mas que se tornam rivais por motivos que são da ordem do sexo e do desejo.

Dois homens são os polos aparentes da trama. Joaquim (Oswaldo Mil) é tirânico, machista, dominador. Mora com a mulher e duas filhas. Hostiliza abertamente o marceneiro Nives (Bertrand Duarte), cuja mulher, Juraci (Fernanda Paquelet), dorme com caminhoneiros que por ali passam. Sob o olhar complacente do marido. O casal tem um filho, hostilizado pela população, pois acreditam ser “bastardo”, fruto dos casos extraconjugais da mulher.

São dois polos. Num, a tolerância e a compreensão de Nives, cuja origem, talvez, seja explicada apenas no desfecho. Noutro, a brutalidade cega, que não esconde uma dupla moralidade. Pois se Joaquim acusa o outro casal de imoralidade, não deixa de bolinar as próprias filhas, de maneira incestuosa.

O ambiente é de estranheza. Ao espectador, é dado conhecer a intimidade das duas casas, com suas particularidades, como a sexualidade muito desperta de Juraci, que não deixa de exercer atração sobre as filhas do vizinho rival. O espaço “público” do lugarejo resume-se a um boteco, onde homens se reúnem para beber e dizer vulgaridades. É o protótipo do ambiente masculino, por definição. Lá, a mulher só entra através das palavras e sempre como ser degradado, servil ou objeto sexual a ser consumido e descartado. Serão, no entanto, as mulheres que dirão a última palavra.

Por áspera que seja a trama, ela é exposta de maneira estetizante. Notadamente pela beleza da fotografia, de algumas paisagens deslumbrantes e da elegância dos movimentos de câmera – em contraste com a brutalidade presente na maioria dos atos dos personagens. No entanto, sobram momentos poéticos, como os do desfecho imaginado pelo personagem de Bertrand Duarte, sempre um destaque em cena.

Pau Brasil produz um efeito de estranheza no espectador. O mesmo, talvez, causado por alguns filmes com os quais têm afinidades – O Homem Que Não Dormia, de Edgard Navarro, e O Exercício do Caos, de Frederico Machado. Neles, temos esse apuro formal, na fotografia e na montagem, em favor de uma linguagem cinematográfica debruçada sobre um Brasil rural e um tanto fora do tempo, mágico e rude, simultaneamente.

Os primeiros planos de Pau Brasil – o menino correndo contra uma duna de brancura ideal – já produzem esse efeito de nos jogar para algum lugar deslocado no tempo. Os signos de modernidade estão quase ausentes e as pessoas vivem num ambiente de crendices e preconceitos. Em torno deles, sobressai a universalidade do desejo, com sua força às vezes desconcertante para as pessoas. É um tema caro a Fernando Belens, cineasta de ofício e psiquiatra de formação, que estreia agora em longas-metragens, mas tem extenso currículo em curtas.

Nesse ambiente levemente fantástico, a história adquire relevo especial. Não necessitaria, por outro lado, do reforço barroco de uma personagem cheia de presságios, uma espécie de Cassandra cabocla que prevê toda uma série de ameaças a pairar sobre os personagens. Ela sobrecarrega o ambiente narrativo e deixa uma sensação de excesso que talvez fosse melhor contornar. Faz, no entanto, parte da proposta do cineasta.

Pau Brasil é um desses filmes que despertam o sentimento de estranheza justamente por não se enquadrarem naquilo que se espera ou conhece. Trabalha ora no plano realista ora no mágico. Flerta com o expressionismo e não tem medo de exagerar em suas cores e ênfases. Nem sempre acerta, mas é original e honesto em sua proposta. A irregularidade que nele se pressente faz parte tanto do seu projeto artístico quando de sua produção atribulada e cheia de hiatos. Os filmes contam também a história de como foram feitos. E, muitas vezes, a produção no Brasil é ainda um artesanato, o que tem suas consequências, e nem sempre desfavoráveis.

PAU BRASIL

Direção: Fernando Belens 
Gênero: Drama (Brasil/2009, 98 minutos) 
Classificação: 16 anos

Um Comentário...

  1. José Umberto disse:

    Fernando Beléns é o cineasta com um pé na terra bruta e outro na desterrituarização.
    Ele prefere o sonho: que morreu com o surrealismo.
    Essa perplexidade choca: quem vive e quem assiste no tempo.
    Fernando super.8 iconoclasta. Beléns 35mm esteta.
    Que beleza de vôo. Pois, ele ama o cinema.
    Yin _ Yang
    Polos
    Fernando é um homem-fêmeo. Seu cinema vive esse positivo-negativo
    Uma tempestade
    Um relâmpago
    Daí, seu impulso
    Ele crê na utopia: sua negatividade _ sua sombra
    Um cineasta voltado pro Atlântico
    Um riso irônico da Mona Lisa
    Seu amor pelo pau
    Um Brazyl que sangra
    O resto, é barulho á baralho

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