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Sandro Santana entrevista André Setaro

publicação original; Anedota Búlgara n.º 27

 

Sandro Santana – Como o advogado se tornou crítico de cinema?

André Setaro – Bem, eu nunca fui advogado. Fiz o curso de Direito; fiz o estágio para obter a carteira de advogado, como obtive. Mas nunca exerci a profissão, eu queria ser jornalista. Tanto é que assim que acabei de me formar fui tentar a vida no Rio de Janeiro, que o meu sonho era ser jornalista do Jornal do Brasil. Isso
entre 75 e 76. Mas a vida no Rio é muito difícil e eu acabei voltando. Retomei à coluna diária sobre cinema, que eu já escrevia desde agosto de 74 na Tribuna da Bahia.
Agora, eu me formei em cinema indo ao cinema desde menino. O conhecimento em cinema se adquire através de um processo acumulativo, com autodidatismo – pois alguém só conhece a coisa se interessando e investigando a coisa. A minha formação de cinéfilo vem de minha atração pelo cinema desde menino.
Eu nasci em 1950 e comecei a ir ao cinema em 57 e ficava encantado. Naquela época reinavam os grandes gêneros de Hollywood – westerns, musicais etc. – e entre os filmes brasileiros, a chanchada imperava. Depois eu conheci o Clube de Cinema de Walter da Silveira. Na época eu estudava no Central e aos sábados de manhã filava aula para ir ao Clube de Cinema. Com 15 anos eu descobri que o cinema é uma arte. Quando assisti O Eclipse, de Antonioni; Hiroshima, Mon Amour, de Resnais; Os Sete Samurais, de Kurosawa. Daí eu percebi a
dimensão artística do cinema e passei a ler críticas de jornais, ler críticos como Paulo Emílio no suplemento do Estadão e muitos outros.
Comprava muitos livros para entender a arte do cinema. Paralelo a tudo isso, completei minha formação acadêmica na Escola de Direito, mas queria ser um crítico de cinema nos moldes de um Moniz Vianna, Ely Azeredo… com aquele rigor que hoje não existe mais.

Sandro Santana – Nos últimos anos as salas de exibição sofreram muitas transformações. Quais as conseqüências disso para o cinema, desde a concepção do filme até o que se tornou o programa “ir ao
cinema”?

André Setaro – Hoje em dia o panorama é completamente diferente. O cinéfilo é um mero consumidor. Você vai ao cinema como uma complementação de uma ida ao McDonald’s. Antigamente o “ir ao cinema” tinha uma função ritualística. Você se programava até com uma certa antecedência. Era como se você fosse a uma igreja. Você não ia pra uma boutique, não ia comer um hambúrguer; você ia ao cinema. A indústria cultural massificou tudo de tal maneira, destruiu tudo, que “ir ao cinema” hoje não tem aquela seriedade e propósito que tinha antigamente.

Sandro Santana – E quanto à concepção do filme. Você não acha que sofreu mudanças para atender a esse público?

André Setaro – Completamente. Completamente pra atender a esse público. O cinema de entretenimento hoje é todo montado numa estética do videoclipe, para atender às necessidades imediatistas do consumidor. Fala-se muito do teor comercial do cinema americano da Idade de Ouro – que vai dos anos 30 até início da década de 60 -, mas era outro tipo de cinema. Os donos de estúdios, Jack Warner e Louis B. Mayer eram homens que gostavam de cinema e apesar de comerciantes eram homens que entendiam da engrenagem cinematográfica. Hoje, quem produz os filmes é a Mitsubishi, a Coca Cola e essas grandes multinacionais cujos donos não sabem nada de cinema. A coisa se tornou efeitos especiais em série. Os filmes são feitos em série como salsichas
mesmo.
Hoje, até os traillers foram modificados. Antes os traillers eram criados em função do filme, da estética do filme. Hoje os traillers são iguais. Mesmo um bom filme tem um trailler criado dentro dessa estética videoclipada para funcionar como um atrativo para os consumidores que vão “shoppear”.

Sandro Santana – Em conseqüências dessas mudanças, não só no espaço físico como também com o esgotamento da linguagem cinematográfica e das ideologias – nada mais é novo e nem tem um manifesto ideológico que o caracterize -, o papel do crítico mudou?

André Setaro – Hoje não existe mais críticos de cinema como existiam. Com a decadência dos suplementos culturais nos grandes jornais, a tendência do jornalismo é produzir textos cada vez mais curtos; muita informação, pouca reflexão. E o excesso de informação não possibilita o reprocessamento dessas informações, o que acaba numa total desinformação. Ou seja, o excesso de informação produz a desinformação. É o que me parece que está acontecendo hoje…

Sandro Santana – E qual é o papel do crítico hoje ?

André Setaro – O papel do crítico seria o de traduzir a obra cinematográfica na revelação dos seus valores ocultos. Mas, atualmente, não está acontecendo isso. O crítico de cinema tornou-se um resenhista a serviço das grandes companhias americanas, dos grandes portais, e-pipoca, essas coisas assim… inclusive até
pessoas que pensam que estão fazendo um trabalho sério, mas são “inocentes úteis”. Estão servindo às grandes empresas e a divulgação das grandes indústrias americanas.
Eu sou um internauta há apenas um ano e estou surpreso com alguns sites da internet, onde surge uma crítica de cinema renovadora, como a revista Contracampo, de São Paulo. Esta revista desenvolve um trabalho de reflexão estética bastante bom e surpreendente nesta contemporaneidade de merda.
É triste o que está acontecendo com as livrarias. Numa book shop como a livraria Siciliano as pessoas vão comer coxinhas e depois folheiam os livros com as mãos gordurosas. E também só tem livros de auto ajuda. Ninguém lê mais, ninguém lê a grande literatura que é a fonte da sabedoria. Ninguém mais lê Dostoievski, Machado…

Anedota – Todo crítico é um cineasta frustrado ?

André Setaro – Não. Dizem muito isso. Talvez de forma inconsciente, mas eu acho que não.

Sandro Santana – Você nunca realizou um filme por falta de oportunidade ou por escolha própria elegeu a atividade como crítico?

André Setaro – Eu já participei de filmes, de curtas. Fui ator, assistente de direção, diretor de produção. Me parece que eu nunca realizei um filme porque eu não sou muito gregário, eu gosto mais de atividades isoladas. Eu gostaria mais de ser um escritor ou pintor. O cinema para mim envolve uma complexidade de relações que eu não gosto.

Sandro Santana – Você já teve problemas com cineastas que se sentiram ofendidos com as suas críticas?

André Setaro – Já. Por exemplo, Policarpo Quaresma, de Paulo Thiago, que é um filme detestável. Na época ele mandou uma carta para mim dizendo que eu era inimigo do cinema brasileiro, que eu era uma pessoa perniciosa… porque eu fiz uma crítica esculhambando com o filme dele. Teve também o falecido Olney São Paulo, que era meu amigo. Na época do lançamento de O Forte, em 75, eu fiz uma crítica para a Tribuna dizendo que o filme era muito ruim, como é realmente.
Daí ele me mandou uma carta me criticando e eu a publiquei no jornal, mas ele era um gentleman… Eu soube, inclusive, que Parahyba Mulher Macho, de Tysuka Yamasaki, em 80, por aí, que o Rubens Ewald Filho
fez uma crítica esculhambando com o filme e a Tysuka mandou alguém, acho que o produtor do filme, dar porrada nele. O cara esperou o Rubens sair do jornal e deu porrada nele.
Quer dizer, fazer crítica de cinema estrangeiro é muito fácil que de cinema brasileiro, sobretudo do cinema baiano. O cinema baiano você quase convive com as pessoas. É o caso desse filme que é fraquíssimo, o 3 Histórias da Bahia.

Sandro Santana – Você acredita que esteja acontecendo um surto cinematográfico na Bahia?

André Setaro – Espero que o cinema baiano tenha continuidade, mas não consigo vislumbrar nenhum surto. Por exemplo, 3 Histórias da Bahia é um filme durex, que nem um longa é. Pegaram três curtas e inventaram uma unidade: o carnaval, uma coisa esfarrapadíssima… e deu-se à luz como longa, o que é um paradoxo.
Agora teve esse concurso que deu 1 milhão de reais, que é pouco, para o Edgard fazer um longa. Mas para haver uma cinematografia no estado ou no país é necessário que haja uma continuidade de produção. Eu até escrevi sobre isso e o Araripe (José Araripe Jr., um dos cineastas de 3 Histórias da Bahia) retrucou falando quantos filmes e curtas existem. Eu falo de cinema profissional. Ah, porque agora é o produto audiovisual. Isso pra mim
é merda.  Tem o cinema de celulóide e tem o vídeo, a fita magnética, a fita digital, o cinema digital. Mas eu falo do cinema que entra no mercado para ter uma continuidade. Que um diretor de fotografia quando acabe um filme já tenha outro para fazer logo em seguida. Para que um profissional de cinema possa sobreviver de cinema. Isso não existe aqui na Bahia.

Sandro Santana – Mas para ter essa continuidade não seria necessário o fim do preconceito por parte da crítica e do meio cinematográfico em relação aos filmes de maior apelo popular, como aconteceu com as chanchadas da Atlântida e as pornochanchadas?

André Setaro – O Cinema Novo, se por um lado rendeu bons frutos e ofereceu belos filmes, por outro criou àquela coisa que todo cineasta é um “geniozinho”, ser autor. E isso foi altamente contraproducente. Todo cineasta nos anos 60 e 70 queria ser autor. Ora, uma indústria não se sustenta com “cinema de autor”, tem que
haver o “artesão”. E o cinema brasileiro, ou melhor, aquelas pessoas que estiveram à frente do cinema brasileiro nunca se preocuparam em formar artesãos e esses artesãos fazem a indústria cinematográfica. Na produção mundial, 90% dos filmes não prestam; 5% são bons; 3% são ótimos e 2% são excelentes. Tem que se fazer cinema olhando para o mercado sem preconceito, sem part pri. Sem essas discussões intermináveis. E isso atrasa. Você discutir tanto é um motor de atraso.

Sandro Santana – Você não acha que essa recente produção baiana está excessivamente dependente do estado e isso pode acarretar uma série de filmes “chapa branca”?

André Setaro – Olhe, vou te dizer o seguinte, nem devia, mas 3 Histórias da Bahia eu fiz um comentário muito diplomático… aquela alegria no multiplex, aqueles beijinhos, aquela festa e eu não quis… quem sou eu para estragar aquela festa. Eu tratei com luvas de pelica, mas na verdade é um filme muito fraco, um filme “durex”.
Se for assim vamos colar filmes de curta e teremos vários longas. O longa metragem tem que ter uma unidade, uma uniformidade. Não é aquela coisa do carnaval, Lucélia Santos chegando… é batuque, o que é isso? Inclusive a atmosfera temática de O Convento é totalmente diferente de O Pai do Rock. São três curtas colados com aquela fita scotch, na marra… isso tudo vai sair na entrevista né?

Sandro Santana – Vai, você quer que corte?

André Setaro – Não, eu tô dizendo, é pra sair. Eu tô falando mais para o gravador do que para você. Tem que sair como eu estou dizendo

Sandro Santana – Vai sair exatamente como você está dizendo…

André Setaro – Como aquelas entrevistas antigas do Pasquim.

Sandro Santana – Você fez parte da comissão julgadora do último concurso de roteiro da Fundação Cultural. Como se deu o processo? Houve alguma pressão?

André Setaro – Olhe, eu fui convidado pelo Secretário Paulo Gaudenzi, que me telefonou, convidando para fazer parte da comissão. Eu aceitei e fiz parte, com Cícero Bathomarco, Tyrone Feitosa, que é roteirista da Rede Globo, muito competente, Rogério Sganrzela que você sabe quem é e o José Álvaro Moisés, o Secretário do Audiovisual. Então, essa comissão se reuniu muito seriamente em junho, tivemos 60 dias para esse resultado e nos reencontramos no dia 18 de julho. Passamos dois dias num hotel da cidade para uma primeira seleção, uma
primeira “limpeza”. Foi muito sério, eu fiquei impressionado…

Sandro Santana – Não teve nenhum tipo de pressão?

André Setaro – Nada. Pessoas seríssimas, nunca vi algo tão sério… Eu tô falando muito alto…

Sandro Santana – É bom, porque o gravador não tá lá essas coisas…

André Setaro– É, e tem a platéia (a entrevista foi realizada em um bar). Depois, em agosto, nós fomos para Cachoeira e ficamos quatro dias na Pousada. Discutindo de manhã, de tarde e de noite. Até que chegamos ao resultado final e a maior preocupação era o longa. Inclusive o Cícero não dormiu, pensando tal a seriedade do negócio. Houve um problema que não pode ser revelado, pois combinamos não revelar as discussões internas havidas na comissão. Mas eu me lembro que o Cícero ficou com dor de cabeça, não dormiu. Ele queria que o
resultado fosse por unanimidade. Impressionante a seriedade…

Sandro Santana – E as suas expectativas em relação ao filme de Edgard?

André Setaro – O cinema na Bahia… houve uma época em que se podia dizer, houve, talvez, um cinema na Bahia, que foi a época compreendida entre 59 e 63 com o Ciclo Baiano, com Roberto Santos, Rex Schindler, Oscar Santana… Então, nesta época houve realmente um certo cinema na Bahia. Essa continuidade que eu lhe falei. O Caipora, A Grande Feira, Tocaia no Asfalto… tava se filmando na Bahia. Eu lembro que eu era garoto, 11 anos, fui ao Bonfim e tava se filmando. Eu acho que só foi isso, o resto é fogo de palha. Agora, porque não
deu certo? A Grande Feira superou Ben Hur em bilheteria, em Salvador, mas não conseguiu circular no Brasil, inclusive por boicote de produtores do sul do país, como Oswaldo Massaini que “guardou” A Grande Feira para só lançar depois que O Pagador de Promessas ficasse pronto. O Pagador de Promessas ganhou em Cannes e aí atrasou o negócio. Boicotes sistemáticos, inclusive de brasileiros, de produtores e exibidores do sul do país com inveja. Rex Schindler mesmo, que era um homem rico, vendeu imóveis para bancar produções, mas se não há um retorno… o sujeito não pode mais, há um esgotamento…

Sandro Santana – E quanto ao filme de Edgard?

André Setaro – Eu acho que Edgard é o único cineasta baiano.

Sandro Santana – Você acha que esse filme pode dar um impulso ao cinema baiano?

André Setaro – Pode sim. Edgard tem tudo para fazer um filme bom, o roteiro é excelente, ele tem sentido de cinema.
Sandro Santana –  Ainda há espaço para a crítica nos Cadernos 2?

André Setaro – Claro que há. Há e não há. Não há pelo seguinte, os consumidores de jornais estão cada vez mais arredios à leitura e os proprietários estão reformulando o jornalismo de maneira a dar só coisas pequenas e a crítica precisa de mais espaço. E o espaço em jornal está cada vez mais difícil. Eu tô vendo inclusive que está
havendo espaço para a crítica na internet. Eu gosto mesmo de ler jornais, mas surpreendentemente eu vejo que na internet está surgindo… muito pouco aliás, a maioria é porcaria… mas no Brasil não existe uma revista impressa do nível da Contracampo. Então eu tô achando que os espaços na grande imprensa estão cada vez menores e… tirando a possibilidade do exercício da crítica de cinema, como aquela feita por Paulo Emílio, Moniz Vianna, Rubens Biáfora, Ely Azeredo…
Sandro Santana –  O crítico deve utilizar métodos específicos de análise ou escrever como sente a estória se desenvolvendo na tela?

André Setaro – Eu sou contra a crítica científica que utiliza de instrumentais analíticos. Eu gosto e já me decidi pela crítica impressionista. Evidentemente que o sujeito que é crítico deve ter uma fundamentação cinematográfica e cultural vasta. Como Paulo Emílio e todos os grandes críticos que eu citei durante a entrevista são críticos impressionistas, que escreviam muito bem e de cultura literária. Hoje, as pessoas não sabem escrever e se utilizam de uma instrumentalidade mal reprocessada do exterior para analisar um filme como se o filme fosse uma coisa, com significante e significado, como um rato em laboratório. Eu quero até lhe dizer, eu quero deixar de ser crítico. Esta palavra não me agrada. Eu quero sentir emoção no cine.

 

 

6 Comentários...

  1. José Guilherme da Cunha disse:

    Onde posso adquirir o livro de Setaro Escritos sobre Cinema – Trilogia de um Tempo Crítico, uma coletânea lançada em 2010?

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  4. ObservaCine disse:

    […] Entrevista de Setaro a Sandro Santana publicada no Caderno de Cinema: […]

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