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Paixão e guerra no sertão de Canudos

Jorge Nóvoa e Sergio Guerra entrevistam Antônio Olavo

 

 

Oficina Cinema-História — Qual a sua trajetória antes de se decidir a realizar um vídeo sobre Canudos?

Antonio Olavo: Eu venho de uma família de classe média baixa. Comecei a trabalhar aos 12 anos, quando meu pai era dono de bar. Nessa época, a gente convivia com traficante, prefeito, prostituta, coronel, malandro. No bar, ou a gente “dobrava” os malandros ou era “dobrado” por eles. Eu me forjei nesse convívio e esta foi a maior escola da minha vida (dos 12 aos 18 anos). Depois eu vim para Salvador, entrei para a universidade e me iniciei no movimento estudantil, fato de que me orgulho muito. Fiz militância no Partido Comunista do Brasil (PC do B), de forma clandestina, e, posteriormente, no Partido dos Trabalhadores (PT), já de forma institucional. Minha formação sempre foi de esquerda e hoje ainda mantenho minhas convicções firmes. Acho que, atualmente, muitos partidos que se dizem de “esquerda” estão adotando uma postura muito conciliadora. Por isso, afastei-me da militância institucional. Hoje, exercito minha militância de outra maneira e, creio eu, que ela tem uma importância muito maior, que deriva do fato de eu conseguir, através do meu ofício, da minha paixão, transmitir, produzir, criar um trabalho que tem compromisso com a história popular. É isso que me interessa atualmente. Interessa-me fazer um filme sobre Palmares, do qual já temos até um projeto pronto. Para muitos, eu já passei da idade de ser de esquerda, pois o normal é o pessoal, depois dos trinta, dizer que “naquela época eu era jovem” ou “foram coisas da juventude”. Mas eu já estou com quarenta anos e ainda contínuo a ter minhas convicções de esquerda.

OC-H: Por quê a escolha do tema Canudos ?

AO.: Eu conhecia Canudos, como a maioria esmagadora das pessoas, por meio de informações superficiais, deformadas, basicamente o que os livros de história do Brasil registram: Canudos teria sido um movimento liderado por Antônio Conselheiro, um fanático, um louco; esse movimento teria causado muito transtorno no interior da Bahia. Além dessa visão oficial, era muito comum eu ouvir histórias do meu pai, relacionadas a personagens como Antônio Conselheiro, Lampião, Padre Cícero, que são três grandes mitos do Nordeste.

Em 1983, eu trabalhava como fotógrafo em um órgão do Estado da Bahia e fui para Monte Santo fazer um trabalho e, conversando com pessoas idosas, ouvi relatos de acontecimentos ligados a Antônio Conselheiro e a Canudos. Foi assim que percebi a dimensão, a força e a extensão do movimento de Canudos e da figura de Antônio Conselheiro e o quanto isto era diferente da visão oficial. De imediato, senti ter-me envolvido emocionalmente com o tema.

Se eu fosse um pintor, pintaria um quadro. Como eu trabalhava com imagens, dediquei-me a contribuir para a divulgação e o resgate dessa história, através do meu instrumento, da minha profissão, da minha paixão: a imagem.

OC-H: Qual a razão do nome Paixão e guerra no sertão de Canudos para seu vídeo?

AO.: Eu acho que ele tem a ver com a paixão, não só no que se relaciona com a minha paixão pela história, mas pela paixão pelo tema: Canudos é uma história apaixonante.

Esse envolvimento com Canudos não é privilegio meu. Eu acho que qualquer pessoa que se envolve com o tema, à medida que esse envolvimento se aprofunda, tende a se apaixonar. Seria inevitável isso. Os movimentos populares têm essa característica, essa essência de serem histórias apaixonantes. Então, o nome paixão no título do documentário não está por acaso.

canudos

OC-H: Antes desse vídeo, você já havia feito outros trabalhos sobre Canudos?

AO.: Eu comecei a trabalhar com o tema fotografando, a partir de 1983, quando se tornaram freqüentes as minhas viagens ao sertão de Canudos (da área que envolve Bonfim, Paulo Afonso, Juazeiro e Euclides da Cunha: Canudos fica exatamente no centro dessa região). Fiz também exposições fotográficas na região de Canudos, o que era uma novidade para aquela comunidade.

Acompanhei também, na mesma época, a missa dos mártires de Canudos, coordenada, entre outras pessoas, pelo padre Enoch, e que foi um movimento que contribuiu para tornar presente o tema na Bahia e no Brasil. Fiz, então, um audiovisual que mesclava música de compositores comprometidos com a cultura sertaneja, como Fábio Paz, Gereba, Wilson Aragão etc. Apresentei o trabalho no interior da igreja de Monte Santo, para um público de aproximadamente trezentas pessoas.

A partir de então, foi consolidando em minha cabeça a idéia de algo mais consistente sobre Canudos e que se tornou depois um livro que foi elaborado através de um projeto que contou com apoio do CNPq. Boa parte do ano de 1987, passei com uma equipe, documentando toda a trajetória de Antônio Conselheiro, as construções da região, o cemitério em que ele estava enterrado; tudo o que ainda restava foi fotografado. Tive a felicidade, o privilégio e a dádiva de fotografar a última testemunha ocular da Guerra de Canudos, Dona Dionésia Valeriana da Gama, na época com 102 anos. Ela fez um relato muito bonito que está em Memórias fotográficas de Canudos, finalizado ainda em 1987. Em outubro de 1989, graças ao apoio da Advocacia Trabalhista Operária (ATAO) e de pessoas amigas, o livro foi lançado. Em fevereiro de 1990, ele já estava com a edição esgotada, sem ter tido tempo sequer de ter ido para as livrarias.

A partir dessa experiência, percebi que outras pessoas também se interessavam pelo tema e me perguntei: “O que é que me resta?”. Restava fazer o documentário, cujos preparativos começaram já em fevereiro de 1990. O roteiro ficou pronto após onze meses de trabalho e contou com críticas e contribuições de cineastas, fotógrafos, historiadores e moradores do sertão de Canudos. E, finalmente, a partir de 1991, com o roteiro pronto, fomos a campo em busca de patrocínio e financiamento para o projeto.

OC-H: Quais eram os seus objetivos quando pensou em realizar o vídeo?

AO:Eu queria contribuir para o resgate da memória popular do Brasil. É preciso buscar nossa memória, mas não me refiro à que está preservada nos palácios, nos grandes casarões, nos nomes das ruas, dos logradouros e das praças. Na cabeça do povo, quem libertou os escravos foi a Princesa Isabel. Na cabeça do povo, quem construiu a história do Brasil foram as pessoas de elite. Toda cidade tem, pelo menos, duas ruas chamadas “Princesa Isabel”; agora, “Zumbi dos Palmares” não tem nenhuma. Na Bahia, existem várias ruas com o nome dos militares derrotados em Canudos: a Rua Tenente Pires Ferreira em Salvador, por exemplo. Mas, no país inteiro, existe apenas um beco chamado Antônio Conselheiro, situado em sua cidade natal, Quixeramobim, cuja placa está tão estragada que não se conseguiu filmar para colocar no documentário. Em junho de 1993, quando o documentário foi lançado no Museu da República, não havia lá uma peça sequer de Antônio Conselheiro e/ou de Canudos. Então, o Brasil é um país que não tem memória popular. A cabeça de Antônio Conselheiro ficou em exposição pública até 1905. Por que a cabeça da Princesa Isabel, a de Duque de Caxias e a de D. João VI não foram expostas? Mas a cabeça de Zumbi, de Lucas da Feira e de Lampião estavam até recentemente expostas, quando, então, as famílias protestaram. Por isso é que a memória que o Brasil precisa é uma memória popular. Por isso, Paixão e guerra no sertão de Canudos.

OC-H: Antes de realizar Paixão e guerra no sertão de Canudos, você já tinha alguma experiência com produção de vídeos?

AO.: Na verdade, eu nunca havia realizado um vídeo. Havia iniciado minha profissão aos 18 anos, com cinema, mas o que determinou a direção que tomei foi a minha persistência. Na época em que eu estava escrevendo o roteiro, li uma entrevista de Akira Korousawa na qual ele dizia que se você quer fazer cinema, pegue o lápis e o papel e vá, escreva um roteiro. Para isso, não existe genialidade! A persistência é que te leva a construir. A partir de então, fui descobrindo que dirigir um filme ou um vídeo não tem nenhum mistério, nenhum bicho de sete cabeças, não é nada inacessível.

Desde que o documentário foi lançado, em novembro de 1993, nos 128 lugares em que ele foi exibido, as pessoas me perguntam: “Mas como é dirigir um filme pela primeira vez?” E eu respondo: Só são necessárias três coisas: querer, querer e querer! É isso então, basta ter vontade.

Muita gente diz: “O financiamento é difícil”. Mas as coisas conseguidas com muita facilidade não são tão gostosas. Se alguém me desse um milhão de dólares para fazer esse documentário, tenho a certeza que ele não sairia com essa força e com a importância que ele tem hoje. Então, essas coisas fáceis não atraem, não estimulam, não animam. O que dinamiza é o desafio. Fazer um vídeo sem experiência é um grande desafio. Muitas vezes um pré-conhecimento pode até prejudicar, porque você pode cair no erro de cristalizar determinados vícios e não buscar o novo.

OC-H: Você se inspirou, em especial, em algum trabalho de pesquisa anterior para a construção do argumento histórico do vídeo?

AO.: Fomos ao campo fazer as filmagens que duraram sessenta dias ininterruptos, com um roteiro preestabelecido. Recolhemos depoimentos de 23 pessoas, entre parentes de Antônio Conselheiro, filhos de lideranças conselheiristas, chefes guerrilheiros contemporâneos da Guerra e outra pessoas que estavam vivas na época da Guerra, mesmo que ainda fossem crianças. Além disso, consultamos historiadores, militares, religiosos e outros que pudessem falar algo sobre Canudos.

Mas eu considero que quem melhor contribuiu para consolidar o nosso roteiro, para constituir sua base, foram os depoimentos populares. Considero que a maior fonte que utilizei foi a memória oral, a memória popular que a historiografia oficial não registra e, muitas vezes, nem sequer considera como documento. A história de Canudos foi passada de boca em boca pelo cordel, pelos depoimentos que os avós passavam para os pais, que passavam para os filhos. É necessário resgatá-la.

No documentário, por exemplo, há o registro de um verso em cordel citado pelo Sr. Paulo Monteiro, analfabeto, morador de Canudos, na época com 95 anos. Esse verso em cordel foi escrito por um ex-soldado paralítico paraense, em 1898, logo depois que saiu da Guerra de Canudos. Ele diz:

“Quem quiser ficar que fique, quem quiser morrer que morra, há de nascer duas vezes quem sair dessa gangorra.”

 

OLAVO

OC-H: Como você conseguiu o financiamento para a produção do vídeo?

AO.: Quando o projeto ficou pronto, o orçamento ficou em torno de cem mil dólares. As pessoas diziam que nós estávamos loucos em pensar que conseguiríamos recursos tão altos para um tema “marginal” como Canudos. Ainda mais sendo eu uma pessoa que não estava envolvida nos meios fáceis do poder, onde rola dinheiro generoso para o financiamento de produções culturais. Mas, apesar disso, nós acreditávamos que era possível e para isso contamos com um estímulo fundamental de um contingente muito grande de amigos.

Fizemos uma trajetória que durou um ano, na qual nós entregamos o projeto a 126 instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais. O resultado veio com a resposta positiva de 33 instituições que viabilizaram a produção de 80% do recurso necessário. Essa foi, sem dúvida, a parte mais difícil do vídeo, porque não dependia da gente. Foi fundamental termos contado com a sensibilidade, por exemplo, do ministro da Cultura Antônio Houaiss que nos apoiou financiando 22% do orçamento total. A Universidade do Estado da Bahia (UNEB) também nos concedeu um apoio determinante.

E quando, finalmente, nós conseguimos os recursos que possibilitaram o início do trabalho, fomos a campo, em uma equipe de cinco pessoas que percorreu sete mil km no Ceará, em Pernambuco, em Sergipe e na Bahia, enfrentando situações adversas o tempo todo. Na maioria das cidades, chegávamos com condições para ficar apenas por cinco dias. Mas, na maioria das vezes, encontrávamos o apoio da prefeitura local para hospedagem, alimentação. O que encontrávamos de bom nas cidades era o que nos dava “gás” para partir para as próximas. Nelas, íamos descobrindo determinadas situações e colhendo depoimentos. Em sua maioria, esses depoimentos foram dados por pessoas com mais de noventa anos. Nós gravamos 13 horas de depoimentos. Mas no filme só aparecem 25 minutos. Trata-se de um documento valiosíssimo.

Esse período de sessenta dias de filmagens foi muito rico, extraordinariamente produtivo, apesar de um pouco cansativo, pois nós trabalhávamos 18 horas por dia. O tema mobilizou toda a equipe. Mas, quando terminamos as filmagens, ficamos seis meses na “geladeira”, esperando o restante do dinheiro para fazer a edição. Foi ai que tomamos a decisão difícil de nos endividarmos para concluir o trabalho. Partimos então para o Rio de Janeiro, para fazer a edição. Nesse período, recebemos o convite para lançar o vídeo nos EUA, antes do lançamento no Brasil. Terminamos a edição no dia 17 de novembro de 1993, e um dia depois já partíamos para os Estados Unidos. No dia 19, o vídeo foi lançado lá.

Eu imaginava que as pessoas iriam gostar do trabalho, mas não sabia que gostariam tanto. No Brasil, foi realizado o primeiro lançamento, na UNEB, em 17 de dezembro de 1993, ao qual compareceram trezentas pessoas. A partir desse momento, fomos recebendo mais e mais convites para exibirmos o vídeo em outros lugares. Nós achávamos que o trabalho seria exibido durante três meses e depois esquecido. Só que os convites se multiplicaram: da Bahia, partimos para outros estados do Brasil. Ao todo, realizamos lançamentos em dez estados, 126 localidades, além de termos participado de três festivais internacionais, dos quais fomos premiados em dois. Tudo isso contribuiu muito para ajudar as vendas de mão em mão, avulsas. Ele só não foi veiculado nas televisões. Até hoje, já foram vendidas algo em torno de 2.500 fitas. Isso é um best-seller nacional. A média de tiragem de filmes brasileiros em vídeo chega a no máximo 500 fitas. O documentário arrecadou mais de 50 mil doláres até hoje. Muitas fitas foram doadas para bibliotecas, museus, descendentes e todas as pessoas que nós registramos. Ele não pagou a produção que foi de 100 mil dólares, mas o objetivo do documentário não era dar lucro. O objetivo dele era tornar conhecida, divulgada, veiculada uma história apaixonante, e isso ele cumpriu. Paixão e guerra no sertão de Canudos é um dos maiores sucessos, talvez o maior, em toda a história da videografia brasileira.

OC-H: E os depoimentos completos estão acessíveis aos pesquisadores?

AO.: Eles estão guardados comigo, mas se você me perguntar se estão sendo bem conservados, eu lhe digo que não, porque as fitas não estão numa sala com umidade e temperatura adequadas. Eu não tenho condições de mantê-las nessas condições.

Temos um valioso acervo histórico. A maioria das pessoas que nós entrevistamos já morreu. Apenas duas estão vivas. Para que esse material se conserve, seria necessário algum tipo de apoio financeiro que ainda não consegui.

OC-H: Que nível de comprometimento com a verdade histórica você acredita que o vídeo tem?

De certa forma, o vídeo era um desafio para mim. Eu já conhecia tudo o que havia sido feito do ponto de vista de imagem em movimento sobre Canudos e queria fazer um trabalho diferente, queria fazer um documentário. Não me interessava fazer ficção. Eu acho que um documentário tem um compromisso maior com a verdade, permitindo leituras diferenciadas, mas mesmo assim ele não deixa de retratar aquilo que o momento expressa. Tinha certeza que queria fazer um trabalho denso, longo e também plural. Não queria apenas mais uma versão. Na medida em que eu comecei a viajar, em 1983, para Canudos, comecei a ouvir versões diferentes sobre um imenso episódio. A da Igreja, a dos historiadores, a dos militares, a dos trabalhadores rurais, a dos descendentes de Conselheiro e aquilo na minha cabeça foi sendo consolidado. Onde estaria a verdade? Qual seria a versão mais próxima da realidade? Que rumo tomar?

Eu tenho certeza que jamais existirá uma verdade absoluta para a interpretação de um acontecimento histórico, ainda mais de um tema que ainda está virgem e para ser pesquisado, como é o caso de Canudos. Os historiadores, por exemplo, têm concepções muito diferentes a respeito de Canudos, até mesmo sobre o caráter de sua sociedade: se era uma sociedade de classes ou uma sociedade igualitária. Então, resolvemos intencionalmente dar espaços a visões diferenciadas para dar credibilidade a esse instrumento, ao nosso trabalho. O vídeo é um trabalho sério que tem um compromisso histórico, entretanto, ele não é imparcial, não é neutro, mesmo que tenha tentado incorporar as mais diferentes visões, ele é parcial, ele toma partido. E ele já recebeu várias críticas positivas, como no caso do professor José Calasans que, no dia em que o vídeo foi lançado, fez elogios rasgados pela amplitude do trabalho.

OC-H: E qual a opinião dos remanescente de Canudos sobre o vídeo?

AO.: É complicado, porque a repressão depois da Guerra foi muito violenta no sertão de Canudos inteiro, direcionada a qualquer coisa que lembrasse ou que registrasse aquela época. As pessoas maduras e os jovens tinham vergonha de serem filhos e netos de “jagunços”. Era assim que eles se referiam aos conselheiristas. Em 1983, as pessoas ainda tinham vergonha, mas isso tem mudado; já começa a surgir um certo orgulho do fato de ser filho ou neto de um conselherista e, então, eles começam a querer conhecer a participação que seus ascendentes tiveram em Canudos.

Hoje, quando os jovens sabem que algum historiador está na região, eles logo os procuram para obter informações do passado de sua região. Inúmeras pessoas me procuraram para que eu contasse a história de Canudos e eu dizia: Mas por que você não procura sua mãe, sua avó, sua tia?

Nesse sentido, acredito que o vídeo ajudou nesse processo de descobrimento de uma história que não está nos museus, cujos partícipes estão morrendo e cujo registro não está sendo preservado.

OC-H: Você vê alguma relação entre o movimento conselheirista e a situação do campo no sertão de Canudos hoje?

AO.: Eu não enxergo semelhanças entre os episódios do movimento popular do passado e as lutas de hoje. E essa opinião não é restrita a Canudos. Com o tempo, as pessoas mudam, as conjunturas mudam, as relações mudam. A luta da comunidade de Rio das Rãs não tem um paralelo com a luta de Palmares. Eu não faço essa associação.

OC-H: Qual a sua opinião sobre a recente produção intelectual sobre Canudos?

AO.: Eu acho que muito pouco da história de Canudos já foi resgatado. Muitos trabalhos têm sido feitos a nível intelectual, acadêmico. Esses trabalhos têm contribuído bastante do ponto de vista da interpretação e da análise do movimento de Canudos. No entanto, pouco se tem feito para a busca de novos elementos, tanto a nível da memória popular, quanto da documentação, que pudessem abrir novos horizontes para análises e interpretações. É impressionante a quantidade de livros que foram lançados nesses últimos anos sobre Canudos, no entanto, eles não apresentam muito de novo e tornam-se repetitivos. O novo de Canudos está ainda por ser descoberto. Existem, por exemplo, quarenta mil documentos do Exército — inéditos até hoje —, produzidos na época da Guerra de Canudos. Mas eu queria citar um trabalho que, para mim, é o principal livro que já se escreveu sobre Canudos nesses últimos trinta anos: é o trabalho do João Arruda, intitulado Messianismo e conflito social em Canudos. Trata-se de um trabalho extraordinário, amplo, denso e muito bom.

O centenário da fundação de Canudos, em 1993, e agora o da Guerra, em 1997, não pode estimular apenas festividades, comemorações, inaugurações de monumentos, criação de peças de teatro para depois desaparecer no vento. É preciso que se realize um trabalho sério de resgate dessa memória popular. O único museu que existe sobre Canudos, por exemplo, é o Museu Manuel Travessa, localizado na beira do açude Cocorobó, e ele se encontra abandonado, à míngua, sendo destruído gradativamente pelo tempo. Não são apenas comemorações que vão solucionar problemas desse tipo.

O.C.H. — E como é que você analisa a visão de Canudos realizada pelas grandes obras da literatura, como por exemplo, A guerra do fim do mundo de Vargas Llosa e Os sertões de Euclides da Cunha?

AO.: Esses trabalhos, em especial, têm uma importância muito grande porque conseguiram divulgar Canudos para o mundo inteiro. Eu tive a oportunidade de comprovar isso quando estive nos EUA, em 1993. A primeira assistência tinha 150 americanos presentes e todos eles os conheciam A guerra do fim do mundo e Os sertões.

O livro de Vargas Llosa tem o mérito de ter vendido milhões de exemplares no mundo. Agora, trata-se de um romance e como tal deve ser tratado. É um trabalho bem feito, escrito com competência, no qual, inclusive, é utilizada uma linguagem cinematográfica, visto que inicialmente o texto era um roteiro de cinema.

A obra do Euclides, por outro lado, possui características diferentes. Os sertões, na minha opinião, foi o trabalho mais denso realizado sobre Canudos. Eu acho o livro extraordinário, apesar de ver nele aspectos muito contraditórios, “ficcionistas”, fantasiosos. Além disso, é um trabalho com uma carga de preconceito muito grande. Afinal, Euclides era um positivista. Mas é um livro que emociona. E esse seu espírito, eu incorporei.

OC-H: Existe, de acordo com o que você pode perceber no processo de produção de seu vídeo, muita documentação (documentos escritos, arqueológicos, fontes orais etc.) disponível para as pesquisas sobre Canudos?

AO.: Testemunha ocular, não existe mais. A última morreu em 1987, quando nós a fotografamos. Mas ainda existem muitos contemporâneos da Guerra, ou seja, pessoas que eram crianças ou adolescentes na época. Eu fotografei, por exemplo, uma senhora que tem uma idade que varia entre 97 e 118 anos. Mas esse material humano não durará muito tempo. Aos poucos, ele está morrendo. Mas, para além disso, existem muitos elementos materiais na região de Canudos que não foram destruídos. O Parque Estadual de Canudos tem um sítio arqueológico pronto para ser pesquisado. A UNEB tentou iniciar uma empreitada nesse sentido, mas esta se encontra parada. E ainda existe muita coisa dispersa na mão de colecionadores particulares.

OC-H: E o que existe de material iconográfico sobre o tema?

AO.: Não existe muita coisa. Eu recomendaria tudo, porque tudo é valioso. Tratando-se de fotografias, temos: o “pai da iconografia sobre Canudos”, que foi Flávio Barros, um fotógrafo da Rua da Misericórdia, em Salvador, que acompanhou a última expedição militar do coronel Carlos Machado Bettencourt, tirando 72 fotografias: um documento valiosíssimo e ainda inédito; Pierre Verger (fotografou Canudos em 1949); Alfredo Santos (fotografou Canudos antes de ser inundada, em 1964); Jair Dantas (fotografou Canudos em 1968); Artur Ikissima (fotografou Canudos, em 1969, já inundada). Vale ressaltar que pouca coisa desse material foi publicada.

Como filmes, há um filme do Ipojuca Pontes que data do início da década de 1970 e que se chama Canudos. Além disso, tem-se o famoso do Glauber Rocha, Deus e o diabo na terra do sol (1964), que, apesar de não ser sobre Canudos, foi filmado no sertão de Canudos, mais precisamente em Monte Santo.

Além disso, existe uma produção mais recente na área de vídeo: Pola Ribeiro, que tem três filmes sobre Canudos; Claude Santos, que tem um audiovisual belíssimo sobre o tema; o brasilianista Robert Levine, que também produziu um vídeo; há ainda outros.

Há também um material iconográfico muito rico como, por exemplo, pinturas: cerca de quatrocentas telas que, inclusive, nós tivemos a felicidade de utilizar em nosso vídeo. No entanto, todas essas coisas são coisas pouco vistas e pouco conhecidas.

OC-H: E, por fim, que diferenças você observa entre a utilização da linguagem escrita e a da linguagem das imagens no trabalho de pesquisa e de apresentação de um fenômeno histórico?

AO.: Os profissionais que lidam com a área das Ciências Humanas deveriam atinar para a importância das imagens. O predomínio da escrita foi muito forte nos últimos cem anos. O texto tem uma leitura muito linear. Eu, enquanto profissional das imagens, busco reorientar as pessoas para que elas primeiramente façam a leitura da imagem (composta por signos visuais). A imagem consegue efetivamente transmitir muito e criar uma empatia maior com o público. Os temas históricos transferidos para a imagem ganham uma dimensão muito maior. O nosso vídeo, por exemplo, já foi exibido para um público de cerca de 170 mil pessoas. Que livro sobre a história de Canudos já foi lido por 170 mil pessoas?

 

 

5 Comentários...

  1. Ilma junqueira de queiroz disse:

    Parabéns !!!! Excelente trabalho. Gostaria de saber se no Youtube consigo ver este Documentário.

  2. Almir Cristo disse:

    Boa tarde Olavo, gostaria de ter acesso a folhinha que na esta imagem do filme Paixão e Guerra no Sertão de Canudos, pois minha bisavô Josefa da cidade de Ribeira do Amparo-Ba faz parte das ilustrações.
    Fico muitissimo grato!

  3. Prof Neil Turner disse:

    Senhor Olavo, eu sou um antropólogo americano que vive em Salvador, Bahia, durante sete anos realizando pesquisas. Minha esposa é baiana e falo Português. Como parte da minha pesquisa, descobri a “Revolta dos Búzios”. Eu achei uma história fascinante e gostaria de sua permissão para traduzi-lo e enviá-lo para publicação no mundo falam Inglês através da publicação americana – Africano e da Diáspora Negra: Um Revista Internacional. A minha esperança é abrir um diálogo entre os mundos de língua Português e língua Inglês proporcionando uma oportunidade para falantes de inglês para conhecer e espero entender melhor os história de brasileiros. Por favor, responda a esta mensagem em levodis@gmail.com. Obrigado.

  4. Rita K. Barreto disse:

    Grande Antonio Olavo! É sempre bom ler essa entrevista e ouvir seus comentários de novo! Melhor seria ainda se tivessemos mais pessoas tipo vc que se preocupam e valorizam as histórias do nosso lindo e sofrido Sertão de Canudos!

  5. Antonio Olavo disse:

    Dei esta entrevista aos historiadores Jorge Nóvoa e Sergio Guerra, no já distante ano de 1996. Foi publicada na Revista Olho da História, da Oficina Cinema e Vídeo da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (UFBA). Tinha lido a entrevista quando da publicação e não mais a revi. A despeito de alguns pequenos erros de transcrição/revisão (que já estavam no original publicado), principalmente com os nomes do ministro Antonio Houaiss e do fotógrafo Artur Ikissima, considero um registro valioso, pois representa numa visão da época, uma amostra sistematizada de uma experiencia muito significativa vivida por mim, que foi dirigir e produzir este documentário, num tempo doido onde quase nada restou do cinema brasileiro (em todo ano de 1993 somente foi lançado no Brasil 3 filmes em película. Em 1994, foram 4…… eram os tempos Collor de Melo). Então eu considero que ocupei parte desse vácuo, exibindo e debatendo com Paixão e Guerra no Sertão de Canudos neste imenso circuito de cineclubes, escolas, terreiros de candomblé, igrejas, teatros, auditórios etc., em 10 Estados do Brasil. Esta projeto do documentário também me possibilitou voltar a trabalhar com imagens em movimento, já que tinha iniciado minha vida profissional no cinema em 1975, trabalhando em D. Flor e seus dois maridos, Pastores da Noite, Diga ai Bahia etc. (como assistente do assistente do diretor, mas pra mim era muito), e após essa safra fui trabalhar como fotografo de imagem parada. Relendo hoje, também me chamou atenção na entrevista, o fato de que já em 1996 eu falava em fazer um filme sobre Palmares, que não fiz (ainda?)…….mas, em 2004, fiz Quilombos da Bahia, mas aí já é uma outra história……… quem sabe, de tanto que eu tenho sido provocado por Jorge Alfredo, um dia acabo escrevendo sobre ela.

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