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 Entrevista com Sérgio Machado

 

Devido aos filmes dos quais participou, você já viajou pelo interior do Nordeste em diferentes momentos da história recente. O que você encontrou nesse caminho histórico e geográfico?

Entre 1995 e 1996 viajei durante meses por alguns dos lugares mais isolados do país em busca de locações e elenco para Central do Brasil, de Walter Salles. Nos testes de elenco – que em boa parte foram feitos com não atores – eu pedia aos candidatos que ditassem uma carta que precisavam mandar para alguém. Ouvi histórias de carência e abandono. Boa parte das mensagens era para parentes que haviam deixado o Nordeste a procura de uma vida melhor. Conheci uma cidade no interior da Paraíba onde não havia homens adultos, todos haviam migrado para o Sul, atrás de emprego.

Repeti a mesma viagem em 2001, em busca de locações para Abril Despedaçado. Precisávamos encontrar uma cidade parada no tempo, sem energia elétrica ou qualquer sinal de modernidade. Muitas vezes tive a impressão que estava num outro século. Em um lugarejo no Tocantins, convivi com pessoas que não sabiam o que era uma televisão, não tinham ouvido falar em Pelé e nem tinham ideia de quem era o presidente da república.

Em 2012, agora como diretor, fiz uma viagem semelhante para encontrar locações para um filme sobre o Padre Cícero. Por curiosidade e nostalgia, repeti alguns trajetos e me deparei com uma realidade diferente.

Em todas as casas havia energia elétrica, antenas parabólicas passaram a compor a paisagem, jumentos e cavalos foram substituídos por motocicletas.

Passando pela fronteira entre o Piauí e o Ceará – região apelidada pelos próprios habitantes como “Piorá” – conheci Seu Chico Honorato, um homem de 60 anos, que me disse: –nunca pensei em ver uma história dessas, ninguém pode imaginar, o senhor chega na casa, aperta um botão e a luz acende na mesma hora…

De volta para casa narrei para os amigos o que vi e me dei conta de que poucos tinham ideia da dimensão dessas mudanças. A partir daí passei a maturar a ideia de fazer um filme.

 

De onde nasceu a ideia do filme?

A ideia surgiu justamente nessa última viagem de locação para o nordeste. A sensação que eu tive é a de que a desigualdade social no Brasil, sob todos os aspectos, ainda é aviltante, mas que algo de importante estava acontecendo.

Crianças que antes trabalhavam, passaram a frequentar a escola, famílias que foram obrigadas a migrar, estavam, aos poucos, voltando para casa. Foi uma mudança drástica, que se deu em pouquíssimo tempo achei que era preciso documentar isso e tentar entender o efeito dessas mudanças na vida das pessoas.

Outra coisa que me motivou a enveredar por esse documentário foi a leitura da matéria “O Liberal Contra a Miséria” na revista Piauí, em que o economista Ricardo Paes de Barros demonstrava através de matemática e estatísticas que é possível reduzir a pobreza e a desigualdade (no Brasil e no mundo) com um gasto relativamente irrisório.

Dois filmes que também alimentaram o desejo de realizar esse documentário foram: “A Família Braz” e “Dois Tempos” de Dorrit Harazim e Arthur Fontes, que traçam um painel preciso das mudanças ocorridas numa mesma família da periferia de São Paulo no curso de uma década.

 

Como foi o processo de seleção das famílias retratadas? Quantas vocês entrevistaram?

Antes de iniciar as filmagens me pareceu essencial conhecer a situação de maneira profunda. Eu sou favorável a qualquer iniciativa que diminua o abismo social num país desigual como Brasil, mas busquei ouvir diferentes pontos de vista e buscar o máximo de isenção.

Procurei a Gullane com a ideia de fazer o documentário e ressaltei a importância de um longo período de pesquisa para não termos dúvidas sobre o que estávamos falando. Conjuntamente concluímos que que o trabalho era tão grande que precisaríamos de um segundo diretor para dar conta da empreitada. Caio e Fabiano me falaram de Fernando Coimbra, que estava finalizando O Lobo Atrás da Porta. Fiquei muito impressionado com o domínio da narrativa e a direção segura de atores. Conversamos bastante e nos demos conta de que Fernando tinha uma visão próxima da minha e o mesmo desconforto com a desigualdade social.

Antes de irmos à campo contratamos pesquisadores nas diversas regiões do país que fizeram entrevistas e fotografaram centenas de famílias e nos enviaram as informações.

Estudamos o material, cruzamos os dados e partimos, eu e Fernando em busca de compreender a realidade das famílias e entrevistar o maior número possível de beneficiários. A ideia era desenhar um painel o mais preciso possível do que está acontecendo no Brasil.

 

Por que escolheram essas três famílias? O que elas têm que chamaram sua atenção?

Nas últimas duas décadas, houve uma visível ascensão das classes mais desfavorecidas no Brasil. Essa é a grande história, mas o que queríamos buscar eram as histórias pequenas, que escapam das estatísticas. Aberto Cavalcanti escreveu em 1948 uma lista de 14 recomendações para jovens realizadores. O primeiro desses conselhos é: NÃO trate de assuntos generalizados: você pode escrever um artigo sobre os correios, mas deve fazer um filme sobre uma carta.

O objetivo do documentário era levar o espectador para dentro das casas, transforma-lo num cúmplice, para que ele partilhasse dos dilemas e conquistas de cada família. Queríamos entender como as diferentes gerações assimilaram essa transformação. Partimos com algumas questões: As mudanças se deram de forma semelhante nas diversas regiões do país? Como se sente a jovem mulher que pôde comprar o primeiro batom? Quais os conflitos entre o pai que foi criado sem eletricidade e o filho que passa o dia na lan house?

As histórias narradas em Aqui Deste Lugar são simples e partem do cotidiano: No Ceará uma menina, ajudada por sua mãe, sonha em cantar numa banda de Forro; No Rio Grande do Sul, uma adolescente enfrenta a oposição do pai para namorar; Na periferia de São Paulo uma doméstica batalha diariamente para manter a família. Não são histórias excepcionais ou edificantes, são relatos singelos, mas que representam de alguma forma os avanços e as dificuldades das camadas mais pobres da população brasileira.

 

Foi intencional a seleção de famílias de diferentes situações sociais e em diferentes regiões do país? Por que?

Viajamos por todo país para conhecer a realidade de cada região e de posse desses dados nos encontramos com especialistas técnicos para que nossa escolha fosse o mais representativa possível.

Chegamos finalmente a cinco famílias: no Amazonas, no Piauí, no Ceará, em São Paulo e no Rio Grande do Sul. A ideia é que a escolha obedecesse a dados estatísticos precisos e objetivos. Quando fomos para a ilha de edição e chegamos a um primeiro corte percebemos que era impossível que era impossível nos aprofundar nas cinco famílias e cortamos as famílias do Amazonas e Piauí.

Escolhemos famílias compostas por indivíduos de diferentes idades. Acreditávamos choque entre gerações poderia render situações reveladoras.

 

Como foi a negociação com as famílias para que eles aceitassem vocês na intimidade delas?

Em cada família a negociação se deu de um modo diferente. A família cearense, por exemplo, desde o primeiro instante se sentiu à vontade com a câmera e como Natalia e a mãe estavam sempre muito ocupadas com a preparação de um show, eles sempre agiram com naturalidade e pouco se importaram com nossa presença.

Já a família que vivia na floresta amazônica que tinha uma realidade bem menos dinâmica teve muito mais dificuldade de ignorar a presença da equipe.

 

Por que você optou pelo cinema direto, sem intervenções? Qual é o ganho dessa escolha para o filme?

Objetivo central do documentário foi fazer com que o espectador entrasse na casa das famílias. Queríamos transforma-lo num cumplice, para que ele partilhasse as dificuldades e as conquistas de cada família. Para isso tentamos interferir o mínimo possível no cotidiano.

O que mais nos interessava era entender aquilo que não aparece em pesquisas e em dados estatísticos: a subjetividade, o sentimento das pessoas.

Durante os mais de dez anos em que trabalhei na VideoFilmes tive o privilégio de acompanhar de muito perto a trajetória de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Não podia ter tido melhor escola. Através de João conheci os filmes dos irmãos Maysles, Robert Drew e Frederick Wiseman. Coutinho – a quem o filme é dedicado – é o diretor brasileiro que mais admiro e que mais me influenciou.

 

Como é a reação dos retratados nesse dia a dia de convivência com vocês?

Optamos por trabalhar com equipes reduzidas e nos dividimos para tentar interferir o mínimo no cotidiano das famílias. Eu filmei as famílias do Amazonas e do Ceará e o Fernando Coimbra as do Piauí, São Paulo e Rio Grande do Sul.

A ideia era criar uma atmosfera intima e fazer com que as famílias se esquecessem da presença da câmera. Tentamos manter uma certa distância e uma relativa neutralidade, mas devo confessar que criei um inesperado vínculo com algumas famílias.

 

Você acredita na mudança recente do país? Como você acha que isso vem impactando na população mais simples?

A sensação que tivemos durante toda a viagem é a de que existe realmente uma mudança em curso, mas ainda precisamos trilhar um vasto caminho para vivermos num país justo que dê aos seus habitantes conforto, justiça e segurança. Dez anos obviamente não foram suficientes para inverter uma história de séculos de desigualdades.

Apesar do Ceará e do Piauí estarem enfrentando a maior estiagem dos últimos 50 anos durante o período de filmagens não nos deparamos com casos visíveis de desnutrição. Constatamos que a energia elétrica está presente em quase todas as casas e o acesso a bens de consumo como geladeira, fogão, celular, televisão é uma realidade mesmo nos vilarejos mais isolados do semiárido nordestino.

Uma dos efeitos mais visíveis do programa é a posição de destaque das mulheres na organização familiar. Elas passaram a decidir sobre como vai ser aplicado o dinheiro e ganharam autonomia (Apesar disso continuam sendo comuns os casos de abuso e violência contra elas).

Entrar na universidade é o maior sonho de quase todos os jovens que conhecemos durante as filmagens e a pesquisa. Existe também uma visível diferença entre as gerações. Na média, uma família que vive nas regiões mais pobres do nordeste tem: os avós analfabetos, os adultos semialfabetizados e os filhos que sonham em entrar na universidade.

O fiel da balança nos pareceu ser a educação. Durante a pesquisa entrevistamos dezenas de estudantes. No Ceará, onde as escolas têm instalações razoáveis e os professores nos pareceram motivados – os alunos demonstraram interesse no diálogo e entusiasmo. Já no Piauí, onde a educação é mais precária, havia uma visível apatia e um sentimento de estagnação.

 

O filme traz alguma mensagem? Qual é?

O principal objetivo desse documentário é mostrar que o combate à miséria e à fome transcende as questões ideológicas e partidárias.

Gostaria que o filme defendesse a ideia de que a desigualdade no Brasil (e no mundo) é aviltante e imoral e que qualquer pessoa honesta deveria apoiar iniciativas que a combatam.

 

Você se sentiu pessoalmente tocado pela história dessas famílias?

Cada família me comoveu de um modo particular. Fiquei impressionado com a trajetória de Ângela, em São Paulo, a batalha dela ilustra algo que percebemos em diversas regiões do Brasil, que a mulher é quem movimenta esse país. Acho bonita a união dos gaúchos, é uma família estruturada que em breve deve sair do programa.

Eu pessoalmente acabei me tornando mais próximo da família do Ceará e mesmo depois das filmagens tenho acompanhado a luta de Natália e de Helena para manter a família de pé apesar de todas as dificuldades. Fico comovido com a capacidade que elas tem de sonhar e projetar um futuro melhor.

 

Você lembra de algum momento particularmente emocionante da época das filmagens?

Fiquei muito comovido quando Jonas, o irmão da Natália, me perguntou se eu gostava do meu filho. Eu achei estranha a pergunta e respondi que meu filho, que era da idade dele, era a pessoa que mais amava no mundo.

Ele fez um longo silêncio e me contou que o pai dele não se importava e mal o conhecia. Aquilo me deixou abalado, eu estava há várias semanas fora de casa e sentia muita falta da família. Fiquei pensando o quanto eram diferentes as oportunidade de Jonas e de Jorge, o meu filho, que nasceu cercado de confortos e foi amado desde o primeiro dia.

Desde então passei a me incomodar ainda mais com os excessos, com o desperdício e a ganância.

 

O que te guiou na edição do material bruto?

A montagem ficou muito à cargo da Karen Arckerman, que fez um trabalho impressionante de síntese e, com muita sensibilidade e talento, deu significado a uma quantidade enorme de material bruto. Eu só interferi na montagem num segundo momento, quando ela e Fernando já haviam chegado em um primeiro corte com cinco famílias.

 

Você acha que esse filme pode trazer transformações pessoais para quem assistir e ampliar o debate público sobre inclusão social?

Essa é uma pergunta difícil de responder. Torço para que o filme dê margem à debates que transcendam às mesquinharias e à questões partidárias. Meu sonho é que as pessoas que assistissem ao filme tivessem a sensação de que o dinheiro gasto para combater a fome e diminuir o enorme abismo social no nosso país é o melhor investimento que se pode fazer.

Acredito absolutamente intolerável que alguém passe fome num país rico em recursos e que não está envolvido em uma guerra ou no meio de uma catástrofe natural. Não tenho muitas ilusões sobre a possibilidade de um documentário mudar a cabeça de ninguém. Mas o que posso dizer ao certo é que a filmagem de Aqui Desse Lugar foi para mim uma experiência marcante e transformadora.

 

 

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