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por Cacá de Diegues

Na vida de uma nação, há certas circunstâncias do passado das quais é impossível fugir. Ao longo de nossa história, estamos sempre tentando escapar daquilo que somos, da natureza de nosso começo e de nossa formação, da cultura que nos deu origem e que nos permite respirar por nossa própria conta, sem vergonha e sem censura. Mas, de vez em quando, aparece um gênio entre nós que nos obriga a lembrar de tudo isso. Aí recolhemos o facho, encabulados de nosso empenho para negarnos a nós mesmos.
Chico Buarque de Hollanda é um desses gênios, o mais importante e completo de sua geração. Um criador que nos ensina a sermos nós mesmos, a nos reconhecermos e nos regozijarmos com o que somos. Sobretudo a termos consciência de nossos erros, entre os quais o mais grave sempre foi o da desigualdade, esse castigo que a democracia formal costuma esconder.
Conheci Chico em 1966, por meio de Nara Leão. Ela chegava de São Paulo trazendo canções de um jovem compositor que acabara de conhecer. Nara decidira cantar uma delas num festival próximo, mas ainda não a sabia de cor. Ela tirou da bolsa um papel amassado, com versos que ainda não decorara: “Estava à toa na vida/ O meu amor me chamou/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor”. Era a primeira vez que a ouvia cantar “A banda”, que se tornaria um hino adotado por toda a população do país, independentemente de idade ou sexo, independentemente de opção política.
Poucos dias depois, encontrei o compositor num restaurante boêmio de Copacabana e fiquei sabendo que o jovem paulista era carioca, filho de um de nossos ídolos nas atividades culturais da PUC, Sérgio Buarque de Holanda. O autor de “Raízes do Brasil” deve estar no céu, comemorando adoidado o Prêmio Camões que seu filho acaba de ganhar. É a sua cara.
O Prêmio Camões é destinado, todo ano, a um escritor de língua portuguesa que tenha se destacado no uso dela. Nada mais justo que tenha sido dado, em 2019, a Chico Buarque. Não só pelas canções que escreveu e nos fez cantar descobrindo o Brasil, mas também pelas peças e romances que perturbaram nossa convicção de que sabíamos tudo sobre o país e seu povo. Sua obra, por trás de eventuais lágrimas e sorrisos francos, tem sempre alguma coisa a mais para nos fazer conhecer, mais e melhor, a nós mesmos. Esse prêmio já foi dado a muitos de nossos mestres, como João Cabral de Melo Neto (o primeiro a recebê-lo), Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar, Alberto da Costa e Silva, Raduan Nassar, entre outras e outros. Com toda a justiça, toda a honra e toda a glória, Chico Buarque agora se junta a eles.
Com gosto por tudo que é popular no Brasil, como na banda de “A banda”, Chico se espalhou pelos temas que melhor nos representam, como o carnaval, o futebol, o circo, o morro, a malandragem, a dor de corno, os dissabores políticos. E o amor, claro. Além do próprio Brasil, que ele nem sempre identificou em sua obra, mas que está presente nela, como no “Sabiá” e mesmo, surpreendentemente, em “Joanna Francesa”. Por falar em cinema, pelo menos nos filmes que fiz, ele nunca nos entregou com antecedência uma canção prontinha, preferindo escrevê-la no estúdio, antes da gravação. Foi assim com quase todos os números de “Quando o carnaval chegar” e com “Bye Bye Brasil”, cuja letra criou depois de ver apenas uma vez o copião do filme, numa velha moviola.
Chico é um exemplo de integridade. Não importa se você não concorda com as posições políticas dele. Se é discriminado ou odiado pelos que não estão de acordo com suas preferências, nunca o vi praticar qualquer ato de rejeição a uma pessoa porque ela não é lulista ou coisa que o valha. Se Chico se aborrecer com alguém, não há de ser por isso. Mas por outro motivo, como um gesto canalha praticado pela vítima de sua rejeição. É pública a história da noite em que jantávamos com amigos no Leblon e, quando deixamos o restaurante, ele foi xingado em voz alta e agredido moralmente por uns rapazes do outro lado da rua. Pois Chico atravessou a rua para discutir amavelmente com seus agressores, que calaram inibidos e talvez envergonhados.
E aqui peço licença a nosso herói para criticar um ídolo seu, o ex-presidente Lula. Não é verdade que só agora, por causa do Prêmio Camões, Chico finalmente apareceu na telinha da TV Globo, “pela primeira vez”. Que eu me lembre, Chico já esteve antes no próprio “Jornal Nacional”, no “Fantástico”, num tributo a Marielle Franco e em outros programas da Globo, inclusive uma série histórica de shows semanais, em dupla com Caetano Veloso, criada por Daniel Filho. Um líder popular responsável não deve iludir seus admiradores com informações falsas ou com má informação. Não é agindo irracionalmente sobre quem não concordamos que vamos tornar mais racional a polarizada disputa política no Brasil.
Voltando ao que interessa, quem ganhou o Prêmio Camões deste ano foi o Brasil e todos os brasileiros que, como Chico Buarque, sonham com um país mais igual, mais livre e mais justo, onde seja possível viver em paz.

publicado em O Globo

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