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Home » Conto » As Estórias de Zé Maucaco

 

 

por Ronan Caires de Brito

 

O pecado maior de Zé Maucaco era ser feio de doer, parecia uma fruta peca, todo inginhado e com a pele pipocada de alguma varíola adquirida na infância lá em São Sebastião, vilarejo do município de Cairu, na ponta da Ilha de Boipeba.

Era conhecido como um bom pescador de lagosta, mas também era um notório colhudeiro e armador.

Quando ia a Garapua, invariavelmente tomava porrada nas festas apenas por ser feio e nunca fez mal a ninguém.

Certa vez num São João, Zé Maucaco apareceu em Garapua, aproveitando para trazer algumas lagostas para vender e gastar a grana na farra do licor.

Garapua ainda mantém a tradição do São João de antigamente, após o encerramento da novena na igrejinha, o povo se desloca de casa em casa para saborear as deliciosas caldas de jenipapo, limão, gengibre, carambola e maracujá, todas desdobradas com cachaça. As comidas ficam sempre em um cômodo mais reservado da casa, onde os amigos desfrutam da hospitalidade dos anfitriões e experimentam da canjica ao peixe frito, este último, pouco comum nos festejos juninos do interior da Bahia. O ponto alto do buffet, é o queijo de bola fatiado, que vem de pouquinho em pouquinho, oferecido pela dona da casa apenas aos convidados mais chegados. No mais é água dura a noite toda, no dia seguinte e no outro, que é reservado para as mulheres, que bebem o que restou dos dias anteriores enquanto lavam roupa no Poço das Mulheres, bastião da fofoca garapuense.

Mas esse caso de Zé Maucaco aconteceu na noite da festa, quando a Ponta da Areia estava toda iluminada e enfumaçada pelas dezenas de fogueiras em frente às casas. No centro da fogueira, o povo coloca galhos de caroba, uma planta local que faz a alegria das crianças ao estalar que nem traque quando atingida pelas chamas, além disto, deixa um cheiro delicioso no ar.

Foi neste ambiente que Zé Maucaco chegou já completamente embriagado, de bermudas, camisa aberta no peito e um boné que ganhou de algum candidato a vereador na ilha. Trazia também um facão embainhado na cintura. O facão a princípio não era para matar ninguém, apenas uma composição formal emoldurando aquele incrível Dom Quixote das beiradas.

Foi chegando para uma roda de pescadores que detonavam um licor em volta de uma fogueira e puxou papo. Como já havia dito, o bicho era muito feio e logo provocava a arrelia de algum dos presentes, desta feita foi Piolho, filho do grande Da Rampa, exímio pescador e mestre de embarcação, que um dia ainda irei contar algumas de suas estórias. Piolho puxou ao pai, quando bebia ficava presepeiro e encrenqueiro, procurando lero com todo o mundo. Desta vez foi o pobre do Zé Maucaco que caiu em suas redes e começou a provocação. Conversa vai e conversa vem, Piolho deu uma gravata no pobre diabo e tomou o boné que ele exibia com tanto orgulho. Deixou o bicho engarguelado e começou a fazer chicana com o boné enquanto os outros riam da desgraça do coitado. Depois de muito sacanear com Zé Maucaco, Piolho o derrubou no chão, atitude visivelmente humilhante, e jogou o estimado boné na fogueira. Até aí o que era gozação por parte da turma se transformou em uma situação realmente apreensiva, esperando-se qualquer reação violenta por parte do agredido.

 Porto de Garapua

 

Foi ai que Zé Maucaco se levantou todo sujo de areia, desembainhou o facão, brandiu o Tramontina 18 polegadas no ar e para surpresa de todos, principalmente de Piolho, disse: “Vocês querem saber o que vou fazer rebanho de sacana?” Nesta altura a coisa parecia que iria ficar pesada. Zé Maucaco então tirou a camisa e disse: “Já que queimaram o meu boné suas dirgraças, agora tomém prá completá vou jogar a minha camisa no fogo” e dito e feito, num rompante de raiva, picotou a camisa todinha com o facão e atirou os farrapos na fogueira.  Depois desta, saiu resmungando e foi infernar outro grupo mais adiante. Disseram-me depois que fez a mesma coisa, agora com uma carteira de cigarros que ao ser cerrado na marra por outro camarada, jogou a carteira prá cima e meteu-lhe o facão pelo meio, cortando o maço em mil pedaços.

Essa era a raiva de Zé Maucaco, nunca fez mal a ninguém, descobriu esta estratégia auto destrutiva para se livrar dos maltratos a que sempre era submetido, apenas por carregar uma impiedosa feiura.

De outra feita, na época do verão e das águas azuis, Zé Maucaco estava no centro de uma roda de pescadores em Garapua se gabando que conhecia todas as pedras de lagosta que tinha lá pelas bandas de Velha Boipeba e instigava o pessoal a leva-lo para mostrar os pesqueiros.

A turma já sabia que o bicho era mentiroso, mas o papo foi tão convincente, que um grupo resolveu apostar na conversa de Zé Maucaco e arrumaram esta pescaria.

Prepararam o saveiro, o rancho, o gelo e embarcaram com Zé Maucaco com destino à Boipeba.

Quando o saveiro saiu, por garantia, Zé Maucaco começou a contar uma estória de um tal de Zé Bodinho, também das bandas de São Sebastião que era outro pescador de lagosta que mariscava nas águas de Boipeba. O quadro que ele pintou de Zé Bodinho não foi dos melhores, enfatizando a malandragem do outro e pedindo pressa ao pessoal para chegar no local antes que Zé Bodinho começasse a pescar, pois do contrário as lagostas enfurnadas iriam ser logo capturadas pelo malandro e quando chegassem lá não iria sobrar mais nada para a turma de Garapua. Com isto, Zé Maucaco construiu o álibi perfeito para o caso de não encontrarem lagosta nenhuma.

A viagem seguiu apressada, o pessoal puxando pelo motor rumo ao sul e quando chegaram perto da Barra de Boipeba, Zé Maucaco mandou jogar o ferro e deu ordem para os mergulhadores descerem para o fundo junto com ele.

Bateram prá lá, bateram prá cá e nada de lagosta onde ele disse que tinha. Finalmente, Zé Maucaco sobe com uma perninha arrancada de lagosta que achou em cima de uma laje e balançando o troféu no ar, disse para os outros que estavam embarcados: “Tá veno aí? eu não disse? Zé Bodinho já passou por aqui”.

Foi ai que a galera desconfiou da armação toda. Tudo aquilo foi cuidadosamente tramado para o pessoal terminar dando a Zé Maucaco uma carona de barco para Boipeba, evitando assim uma caminhada pela areia fofa de mais de 3 horas pela praia. Não precisa dizer que o pobre desembarcou no cais de Boipeba debaixo de tapa.

   Ponta do Panã com barcos

 

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