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por Jorge Alfredo

 

Num dia ensolarado de dezembro de 1983, eu acordei mais cedo do que de costume, e comecei a arrumar o carro, enquanto Suki cuidava de Pedro Jorge, nosso filho, e separava o que já podia descer pra garagem, para que eu pudesse arrumar o bagageiro do carro – uma Brasília. Isso exigia de mim uma certa técnica para dar o nó de amarração, mas eu já havia aprendido com Chicão (meu sogro) a lidar com isso. Numa dessas descidas parei demoradamente e olhei para a Rua Judite com ares de despedida. Ali tinha sido uma boa morada, ali eu tinha passado bons momentos da minha vida.

Suki, Jorge e Walter - 1979 SP

Pouco depois, parti com a família rumo a Salvador. Carambola, a nossa cachorrinha paulista também nos acompanhava. Já tínhamos despachado as nossas coisas num caminhão e estávamos deixando a cidade de São Paulo de mudança.  Preferimos seguir pela estrada Rio-Bahia, já que a BR-101 estava com longos trechos esburacados. Fizemos essa viagem em 3 dias; difícil foi conseguir chegar a Minas Gerais; tivemos que parar por três vezes em postos da policia rodoviária do Estado do Rio para dar propina a guardas rodoviários corruptos. No primeiro posto, um deles descobriu que o extintor do carro estava com a data vencida e passava por rádio essa informação para o posto seguinte avisando aos outros colegas de farda a mamata. No terceiro posto, eu já parei com a grana na mão. O guarda não acreditou na minha ousadia. Suki ficou preocupada; “Vá com calma! Se um guarda desse se sentir ofendido, no mínimo a gente fica aqui durante horas…”  Porém a viagem seguiu bem dali por diante. Pedro Jorge apesar de pequenino, 1 ano e 3 meses, se sentia confortável com o carro em movimento e brincava com Carambola, cochilava, era tranqüilo… Quando escureceu paramos pra dormir num desses motéis de beira de estrada. No dia seguinte, a viagem rendeu mais, eu já imprimia uma velocidade maior com segurança, enfim já estava num clima on road e, enquanto eu dirigia, a vida como um filme passava na minha mente.

Eu havia tomado uma decisão e tanto; completamente contra a corrente e contra o bom senso, mas extremamente necessária para colocar a cabeça e o coração no eixo e quem sabe, depois, tudo se ajeitasse… Nesse tempo, artista nordestino não tinha outra alternativa a não ser ir para o sudeste em busca de oportunidades. A minha passagem por São Paulo tinha sido muito intensa e proveitosa. Foi lá que eu ganhei meu primeiro bom dinheiro, me destaquei escrevendo no Diário de São Paulo sobre MPB e logo depois gravei meu primeiro LP, “Quem Fica É Quem Traz O Sol” (1979), também  fui gravado por outros artistas e consegui colocar algumas músicas nas paradas de sucesso. Todo esse empenho teve seu momento maior no Lp “Bahia Jamaica – Jorge Alfredo & Chico Evangelista” (1980).

Praça do Por do Sol – São Paulo, 1980

Eu tinha ido pra São Paulo em setembro de 1978, animado com a gravação de Diana Pequeno de Assim Preto, Brasa Branca. Desde que retornei da excursão Jeito de Viver em 77, que planejava tentar novamente gravar um disco e pensava seriamente na possibilidade de ir pra São Paulo em vez do Rio. Eu havia me casado com Suki, participado com Rogério Duarte da trilha sonora ao vivo no set de A Idade da Terra, de Glauber Rocha, feito a trilha do vídeo/arte de José Aguillar, Dança na Praia, o show no teatro Vila Velha,  Banda Elétrica Kamaiurá, com uma nova formação na banda, agora com Edu Nascimento, na guitarra e Afonso Correa, na bateria. Enfim, sentia que era a hora de novamente sair da Bahia, que como bem dizia Marquinhos Rebu; “ficar na Bahia é um luxo!”, justificando sua opção de morar fora. Logo que cheguei em Sampa, consegui um emprego no Diário de São Paulo. Fui apresentado a Oliveira Bastos por Regis Bonveccino e comecei a escrever sobre MPB, numa página semanal. Escrevi algumas resenhas críticas, mas logo optei pelo formato de entrevistas, que tiveram cada vez mais repercussão. Era o último suspiro dos Diários Associados de Assis Chateubriand.

banda

Banda Elétrica Kamaiurá – 1977 – Teatro Vila Velha (Afonso Correa, Jorge Alfredo, Sérgio Souto, Guilherme Maia, Zeca Freitas e Edu Nascimento)

Através de Carlos Pita e Roze conheci o produtor Luis Mocarzel, que me pediu pra lhe mostrar umas canções e se interessou em produzir um disco meu. Viajei para o Rio ao encontro de Armandinho, Tony, Guilherme e Ari para ensaiar o repertório para a gravação do meu disco. Armandinho e Ari estavam envolvidos com a formação d’ A Cor do Som, juntos com Dadi, Mu e Gustavo, mas os ensaios d’a gente ocorreram normalmente. Era época de São João e fomos todos para um sitio onde Os Novos Baianos haviam morado; tinha uma fogueira acesa, milho assado, e isso me deu uma saudade danada de Suki, que tinha voltado pra Bahia. E lá, nesse clima, compus Música Alegre;

Você vacilou, você vacilou

não quis, não viu, nem dançou

aquela música alegre

olho com olho na brasa

na beira da fogueira

boca com boca se fala

no dia da feira

agora a sanfona começa a tocar

no céu as estrelas são muitas eu vejo

enquanto a espiga de milho não assa

vem brincar de balão beijo…

jeito de viver

Barra do Pote (Ilha de Itaparica-Bahia), 1977

No dia seguinte, como se não bastasse, compus Vestido de Prata, também exorcizando a saudade que corroia o meu peito;

Precisa fazer pra baiana

um vestido de prata

que todo dia no espelho,

quando ela se olhar

seja a cara dela!

Já faz tanto tempo

que eu não vejo ela dançar

que a gente não canta junto

uma mesma canção

precisa mandar um presente pra ela

pra ver se desperta o seu coração.

um presente assim

que seja a cara dela.

Um vestido bordado

com contas do mar

uma sandália de couro

ainda mando de quebra

uma guia de Oxalá

pra ela botar no pescoço

um presente assim

que seja a cara dela!.

jag

A vontade era voltar pra Bahia, mas eu resistia; afinal estava chegando a hora de gravar o tão esperado primeiro disco. Só que aconteceu um troço inesperado, quando retornei a São Paulo e telefonei pra Armandinho confirmando as datas de gravação no estúdio; fiquei sabendo que não podia contar mais com ele, nem com Ari. O projeto A Cor do Som estava a mil, e a agenda de shows impedia a vinda deles pra São Paulo. Isso me abalou muito… afinal, como gravar Contando Estória, Notícia Suburbana, Ao gosto dela e Rato Miúdo? Foi tão difícil para mim resolver essa questão que resolvi simplesmente não gravar nenhuma dessas musicas, que eram, digamos assim, os meus hits mais consolidados. Após uma reunião com Antonio Carlos, produtor artístico da Copacabana Discos, decidimos chamar  Amilson Godoi, piano, Heraldo do Monte, guitarras e violas, Dirceu,  bateria – três feras super experientes – e os talentosos, mas novatos em gravações de estúdio, Guilherme Maia e Tony Costa. Gravei o disco com 10 faixas em 8 dias. Tive toda liberdade tanto no repertório quanto nos arranjos e até direito a encarte com as letras das canções, o que provocou ciúme em Wando, Benito de Paula, Genival Lacerda e Gretchen, as estrelas da Gravadora. Para os arranjos de cordas e de sopro foram arregimentados músicos do primeiro time.

Jorge no Programa do Chacrinha 1980_2_2

Programa do Chacrinha

Nessa época ressurgiam os Festivais, e o primeiro  deles foi o da TV Tupi; Chico Evangelista inscreveu uma parceria nossa com Antonio Risério Reggae da Independência e fomos classificados. Ainda na fase de mixagem do meu LP rolou o Festival. Essa música causou a maior estranheza no júri e na platéia. Poucos sabiam em 79 o que era reggae, ijexá, e a data, 2 de julho, não fazia sentido pra ninguém que não fosse baiano. Mas a nossa participação teve bastante repercussão principalmente porque Jorge Ben adorou o nosso swingue e ficou tocando com a gente no camarim e Caetano Veloso disse à imprensa que o Reggae da Independência “era espalhafatosamente a melhor música do festival”. Um dia, fomos eu, Chiquinho e Risério pro Itaim Bibi conhecer o Rasta Bar. Esse nome fez com que a gente começasse a compor uma música. Assim brincando, como quem não quer nada, surgiu o refrão;

 

Rasta pé

é moçada

no passo dessa dança

barra mansa

pisada de afoxé

a bola conhece Pelé

moqueca leva dendê

ba

colagem de Mônica Nunes

No final de 79, já com meu disco lançado, bem acolhido pela crítica, até Tinhorão e Tarik de Souza receberam bem o Quem Fica é quem traz o sol, eu depois de caitituar as músicas de trabalho acompanhado pelos divulgadores da Copacabana Discos no Rio e em São Paulo, fazendo programas de rádio, fui passar o natal em Salvador. Combinamos na Gravadora que eu ficaria na Bahia parte do verão e retomaríamos o trabalho de divulgação no sudeste a partir de março. Em Salvador, agendei o show de lançamento do meu LP no Teatro Vila Velha e dei uma entrevista a Maria Lúcia de Souza, do Correio da Bahia “Eu não faço coro com a tristeza.”

Um dia, na praia encontro Gilberto Gil e, conversa vai conversa vem, ele fica sabendo de um problema que me afligia; eu estava com pauta de quarta a domingo, mas Tony e Guilherme tinham sido convidados pra tocar na banda de Moraes Moreira no Recife, no sábado. Eu estava sem saber o que fazer diante daquilo. Pra minha surpresa, Gil saiu com uma solução pra mim impensável; Ele me disse; “Jorge, eu posso ensaiar com você esses dias, e no sábado, que eles não vão poder tocar, a gente faz uns seis, sete números juntos, o resto você faz parte sozinho, parte com os outros músicos. No domingo, eles já estão de volta…Vai dar certo!”

TVV

Gilberto Gil e Jorge Alfredo no palco do Teatro Vila Velha em 1980

Não deu outra. O sábado foi o dia mais bonito da temporada, e eu lancei com Gil duas músicas novas que eu havia acabado de compor; Rasta Pé e Música Alegre, cantamos juntos Rato Miudo e outras músicas. Foi muito bacana. Os arranjos que Gil fez permaneceram nas gravações posteriores que eu fiz com Chico Evangelista. Logo depois, chegou a notícia que Rasta Pé havia sido classificada para o Festival MPB Shell 80, da TV Globo. Eu tinha que ir pra São Paulo gravar um compacto e registrar a musica. Fui até a casa de Risério com o contrato de cessão de direitos autorais pra ele assinar e pra minha surpresa ele me pede pra que o seu nome não conste na autoria da musica. Poucas vezes na vida fiquei tão perplexo. Ele explicou; uma outra musica dele em parceria com Armandinho também havia sido classificada e ele tinha que optar entre uma das duas. A Cor do Som iria interpretar a musica e ele tomou essa decisão com a maior naturalidade.

capa

compacto lançado em abril de 1980

 

 

 

 

 

 

 

 

4 Comentários...

  1. Monica Nunes disse:

    Ahh!! Jorge querido…quantas memórias, boas memórias…pude participar um “tantinho” disso tudo, desse todo…Alegria recordar…vocês fazem parte da minha formação…aquela parte que tem a cor, o som, o clima, o inusitado da Bahia!! Beijos

  2. Legal, vi vcs uma vez no velho Pelourinho, grupo Arempebe. Estive em Salvador semana passada. No Corredor da Vitória vi Chico, dei um abc. Ele está bem, apesar dos problemas de saúde.

  3. Zeco disse:

    Eu assisti o show na noite em Gil fazia a guitarra, com a hmildade do gênio.
    Abração

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