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“Meca do Cinema Brasileiro”

por José Umberto

Nos primórdios do século XX a Bahia destacava-se na produção do cinema nacional. E o filme Carnaval Cantado na Bahia, 1920, de duração acima da média, veio sacudir a poeira da provinciana belle époque soteropolitana. Os produtores/realizadores foram os conhecidos donos do antigo e movimentado Cine Ideal: José Nelli e João Lima, proprietários da produtora Nelima-Film. Destaque para Nelli, na atividade de “cinematografista”, denominação da época, além de amigo de Francisco Serrador e Paulo Botelho, influentes empresários de cinema do “sul maravilha”.

José Nelli esteve na Itália entre 1912 e 1914, em Roma e, percorrendo a Cines entre outras editoras de filmes cinematográficos, ele se aperfeiçoa aos conhecimentos de camera man. Entre 1915-16, na Bahia, já fazia filmagens de assuntos naturais, acontecimentos e festas na cidade de Salvador, com uma aparelhagem ainda um tanto primitiva. Filmava com a câmera Lumière, possuía uma copiadora Debrie, tanques cilíndricos de flandres recobertos de um betume que o próprio José Nelli preparava para a revelação, fixagem e lavagem dos rolos de 25 ou 30 metros de película. A imagem era feita em bastidores verticais, de madeira (técnica empregada na época) e, na falta de melhor aparelhagem, os filmes se apresentavam um tanto quanto deficientes ou precários tecnicamente.

Nesse período, a ênfase foi o documentário de acontecimentos como A Chegada de Sacadura Cabral e Gago Coutinho, Raide do Jahú, Ilhéus – Rainha do Sul e outros filmetes. Além de temas como festas tradicionais na Bahia, a apoteótica chegada de Ruy Barbosa, em Salvador, ou o puro registro de atividades dos governos estaduais de Antonio Moniz e J. J. Seabra.

O público se espelhava na autoimagem

Lá por volta de 1917, o arrendatário do Cinema Ideal (situado na ladeira de São Bento ao lado do Hotel Sul Americano, hoje Edf. Sul América) João Gaudêncio Lima exibia esses filmetes baianos em seu cinema. E essas sessões faziam sucesso de público, pois a plateia ou os novos espectadores vinham se auto identificarem nas imagens de 16 quadros por segundo refletidas na grande tela mágica.

João Gaudêncio de Lima, animado com o incipiente negócio da exibição cinematográfica na capital baiana, teve também decisiva atuação em São Jorge de Ilhéus, onde filmou algumas coisas na região cacaueira e era proprietário do requintado Cine Elite, inaugurado em 1912.

A Bahia chegou a ser considerada a “Meca do Cinema Brasileiro” graças ao encanto de sua paisagens, à vida provinciana destacada da cidade de Salvador, à luz tropical, os coqueiros, as praias, ocasião essa em que a musicalidade da terra já se despertava com Dorival Caymmi e seu violão praieiro.

É a partir desse fenômeno de massa, denominado “cinematographo” – que aglutinava multidões no mundo dito civilizado -, que José Nelli, entusiasmado, associou-se ao João Lima e tentaram a ousadia pioneira do filme “posado” (sic), “por artistas” (sic) ou candidatos a “artistas”, enfim o cinema ficcional acoplado ao documentário. Apesar das dificuldades reinantes, surgiu a firma Nelima-films, com escritório na Rua da Misericórdia, no centro da capital, defronte da então Imprensa Oficial, enquanto que o laboratório de revelação da película em preto-e-branco foi instalado na Av. Luiz Tarquínio, 65, na Cidade Baixa, em grande casarão – onde depois funcionou a fábrica de Óleo Piatan. No pavimento superior desse mesmo casarão residia a família Nelli.

O ficcional e o documentário se fundem

Os animadores dessa iniciativa empresarial com opiniões, palpites, comentários e críticas na imprensa eram o Dr Afonso Ruy, Dr. Jaddo Maciel, Dr. João de Mattos Filho (redator do “Diário de Notícias”), Arézio Fonseca (diretor-técnico da Imprensa Oficial e editor da revista “Arte e Artistas”) e Braz Fonseca, sendo que este chegou a entrar com algum capital financeiro no empreendimento.

Embora o interesse essencial desses pioneiros fosse realizar um filme “posado”, nas plataformas tradicionais de drama, comédia ou revista, o então “autêntico” cinema artístico. Para tal, lançaram mão de concurso para ator/atriz e concurso de argumento, contanto esbarrassem sempre na questão financeira. O João Lima, por exemplo, alugava filmes europeus para exibir no Cinema Ideal com a finalidade de auferir recursos pra tal desejo, mas não eram suficientes para bancar uma produção arrojada como almejavam.

Até que realizam Carnaval Cantado na Bahia, 1920, cuja temática momesca era dominantemente atrativa, sempre, tanto na soteropolis quanto no território brasileiro em geral.

Elenco: Brasilino e Vanda Nelli, ambos filhos de José Nelli (produtor). Entre outros intérpretes, também faziam papéis de destaques o telegrafista Frederico Castro, travestido de mulher e o comerciário Antônio Silva, conhecido ator de teatro local, no papel de “Coronel”.

Caiu no esquecimento total

Colaborou no argumento do filme o escritor Xavier Marques (1861/1942), célebre romancista baiano aclamado pela crítica no seu regionalismo de temática praieira cuja obra Jana e Joel (1899) representou um marco significativo dentro da literatura brasileira.

O filme Carnaval Cantado na Bahia, 1920 fora realizado mas caíra no esquecimento total. A partir de um depoimento escrito à mão, no ano de 1924, pelo próprio ator do filme Brasilino Nelli, é que pudemos lançar mãos de alguns informes precisos sobre essa realização “pioneira” (sic) do cinema na Bahia. Brasilino, partícipe atuante desse movimento fílmico regional, inclusive atuando também como cameraman, conforme declarou então, foi durante muitos anos o proprietário da Papelaria Americana e que depois (junto com sua irmã Vanda Nelli) foram residir em uma fazenda em Serra Negra (São Paulo), não retornando ambos mais à Bahia.

A história foi baseada num casal de jovens tabaréus que tinha vindo de trem de Orobó (atual cidade de Ruy Barbosa) saltando ambos na estação ferroviária da Calçada, em Salvador, para assistirem ao animadíssimo carnaval de rua, com blocos, ranchos, carros alegóricos e outras atrações em voga.

Desse simples enredo inicial, constava a estadia do jovem casal em hotel, nas lojas, consumindo nas compras, etc.

O “set” era um tablado de madeira

As filmagens entre Plataforma, Periperi e Paripe causaram celeumas entre circunstantes e passageiros do comboio. Desde a viagem, o casal comete muitas gafes hilariantes, quando se utilizavam e aplicavam as gags ou piadas do gênero através de imagens cinematográficas. O rapaz trajava-se à moda “almofadinha”, roupa de “urucubaca” (xadrez, preto e branco, miúdo), paletó cintado, calças apertadas nos pés, calçados de bicos alongadíssimos e finos “pirolitos”, chapéu de palha. A esposa, de saias compridas e bata de rendas, conjunto já obsoleto na época.

Grande parte das filmagens, representadas por elenco genuinamente local, foi implementada em “estúdio” ou “set” em um tablado de madeira levantado defronte do Teatro São João, na Praça Castro Alves.

O filme foi apresentado durante duas semanas consecutivas, com grande sucesso aos padrões da época, no Cinema Ideal, e bem apreciado por todos. A plateia reagiu bem ao espetáculo com piadas criativas e muitas gargalhadas pela comicidade de alguns tipos populares da cidade que foram aproveitados em cena. A plateia se sentia reconhecida e se identificava na tela.

Todas as músicas em voga – sambas e marchas exibidas pelos grupos – foram filmadas e, com letreiros superpostos, apareciam as letras ou estribilhos dessas canções para que os espectadores pudessem acompanhá-las. Ao passo que, atrás da tela, os artistas em coro e numeroso instrumental de baterias, batucadas e algazarras interpretavam “sonoramente” as cenas exibidas na tela.

A música puxava a fita

O fim do filme foi rodado defronte da Igreja da Boa Viagem onde, na Quarta-Feira de Cinzas, o “Coronel” aparecia de testa pintada, com a cruz de cinza da Quaresma, cantava um samba em voga e, depois, com a família partia de volta para a sua terra do sertão entre lágrimas e adeuses da “ingênua” mocinha e do “galã”, tudo sem malícia ou gravidade melodramática, mas com certo humor saudoso. Usou-se, para encerramento do filme, uma outra música, “Seu Delfim tem que voltar”, com a imagem em movimento do trem se afastando, e então, se aproveitava – para efeito artístico da narrativa – as paralelas dos trilhos, em fuga.

Por fim, o casal jovem volta ao sertão desiludido e ávido para o retorno à vida pacata do interior. Algo meio saudosista e de cunho tradicional que remete às raízes da terra de origem.

As filmagens de Carnaval Cantado na Bahia, 1920 transcorreram tranquilas e com certa originalidade no tratamento da história. Apanharam o movimento de ruas, os prédios altos da soterópolis, as pranchas que a Companhia Circular alugava e eram ornamentadas com gosto e profusamente iluminadas à noite. Também fazia sucesso o caminhão da família Lanat, geralmente utilizando bonecos em movimento e jogos de iluminação com originalidade e boa técnica.

Em seguida, dando continuidade ao entusiasmo, foi filmada a revista Pozada, com o famoso ator Brandão Sobrinho que, nessa ocasião, apresentava-se com sua Companhia no Teatro São João, cujo título era Bahia – Boa Terra, de autoria de do escritor Afonso Ruy.

O centenário de nossa Independência

O governador da Bahia José Joaquim Seabra, ao se interessar pela “Grande Exposição Internacional do 1º Centenário da Independência do Brasil”, começou a formular e promover atividades para a participação da Bahia no 7 de setembro de 1922, no Rio de Janeiro, e nos festejos da Independência da Bahia, em 2 de julho de 1923. Aí seria apresentado o documentário Ilhéus – Rainha do Sul, de João Gaudêncio de Lima, da Empreza Cinematographica Bahiana, um filme de metragem regular, constituído de seis rolos grandes de filmes, rodado na cidade de Ilhéus, Bahia, em 1920.

Um “nítido trabalho em 6 longas partes, destinado a mostrar as grandes conquistas da cidade de Ilhéus. A opulenta cidade do sul da Bahia, apresentada com todo o seu desenvolvimento e progresso. Interessantes particulares sobre a cultura cacaoeira e muitos outros assumptos”, conforme documento de então.

O jornal “O Comércio”, da cidade de Ilhéus de 25 de setembro de 1920, assim também se reporta ao filme hora em ação: “No seu desempenho a Empreza Cinematographica Bahiana está por aqui apanhando vistas da cidade, dos seus estabelecimentos commerciaes, para em film exhibil-os pelo mundo a fóra, mostrando o nosso adeantamento comercial. Hoje os representantes da Empreza transportaram-se para o interior do município, onde vão levantar filmes das importantes fazendas cacaoeiras dos Srs. Coronéis Miguel Alves e Amando Peixoto, sem dúvida os de mais adiantada perfeição no seu genero. Em ambas serão captadas informações photographicas e cinematographicas de todo o preparo do cacao desde o plantio, colheita, ensacamentos e embarque para exportação”.

Imagens da memória afogadas na Baía

Quando de sua exibição, em Salvador, o jornalista Simões Filho escreveu na “A Tarde”: “Dando cumprimento ao seu programa, a Empreza fará focalizar, hoje, no “Cinema Ideal” um film da própria cidade de Ilhéos apresentando o que de mais importante existe ali”.

Esse movimento empreendedor baiano se associa ao trabalho pioneiro, já mais antigo, de Diomedes Gramacho, cineasta e jornalista.  Dono da empresa “Photographia Lindemann” situada na Av. 7 de Setembro e Rua da Piedade, fundada em 1865, e diretor da revista “Renascença” (1916-1926), publicação mensal, cor, papel couchê, além de editar o “Jornal do Comércio” e “O Dia”. Não podendo se dissociar do cinegrafista, seu sócio, José Dias da Costa, outro militante do cinema baiano.

Diomedes morre aos 87 anos de idade e foi sepultado no Cemitério das Quintas, cidade de Salvador. A “Foto Lindeman”, na antiga Praça Castro Alves (no tempo do Teatro São João), tornando-se também clicheria que servia a todos os jornais da época da capital baiana. Houve um grande incêndio na filial, situada à Praça 13 de Maio (Piedade), em 1920, provocado pela fagulha de um engomador da localidade, resultando na combustão das películas armazenadas, quando então Diomedes, logo depois, com medo, joga suas películas na Baía de Todos os Santos, apagando a memória visual nascedoura e de mais de meio século da História da Bahia clicadas [também] pelo fotógrafo alemão Rodolfo Lindemann.

Diomedes deixou viúva a Sra. Domitila Gramacho e os seguintes filhos: Diomedes Gramacho Filho, Descartes Gramacho, profa. Elza Gramacho de Castro, Domício Gramacho, Antonieta Gramacho, Dilson Gramacho, Dagmar Gramacho Mayorcas, profa. Dalva Gramacho, Dr. Doris Gramacho, profa. Dilka Gramacho, Déa Gramacho e Darkes Gramacho.

Acrescentem-se, aos anos 20 da belle époque, as presenças também incentivadoras de Alfredo Luxardo e o seu filho Hélio Luxardo que se associaram a uma geração pioneira do cinema baiano.

6 Comentários...

  1. Beto Magno disse:

    A Bahia precisa retomar essa força, o Brasil precisa começar a pensar o cinema nacional como uma grande industria competitiva, lucrativa e global.

  2. Aurora Vasconcelos disse:

    A Bahia sempre na vanguarda das artes no país. A pesquisa
    de José Umberto mostra que antigas gerações baianas já davam seus passinhos na sétima arte.
    Uma história que precisa ser contada.

  3. carlos verçosa disse:

    parabéns pela pesquisa
    e pelo artigo que resgata
    a memória e a historia
    do cinema baiano
    josé umberto

  4. Fabi Penna disse:

    Importante e interessante pesquisa sobre o cinema baiano.Foi possível imaginar como tudo se passou na época!

  5. Alberto Olivieri disse:

    Pesquisa muito importante sobre as origens do Cinems Baiano

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