Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » Barra do Serinhaém e Dr. Norberto

 

por Sérgio Siqueira

 

Uma nativa bem descolada me disse que a Barra era o paraíso dos Odebrecht, antes da Lava Jato. Eles tem uma ilha, Kieppe, do outro lado, que dá para avistar de Barra de Sirinhaém, aonde também tem uma casa de apoio, ligada a um antigo projeto de camarão, principal atividade da ilha. As conversas no bar, no barco e na canoa, sempre girava em torno deles e o povo foi se soltando, muita gente trabalhou ou tinha um parente trabalhando em Kieppe. A ilha já teve 15 funcionários, agora só são 6. Nos velhos tempos do verão, chegou a ter 41, do pescador que ia buscar o peixe, ao que ensinava os meninos a pescar, passando pelos garçons e outros mais. A ilha já recebeu muita gente grande, FHC, o presidente de Angola e no dia de Lula houve muita chuva e ele cancelou a ida. Dr. Norberto é lembrado com carinho, ele não deixou a betoneira entrar em Kieppe, para gerar mais mão de obra e só contratava locais. O peixe dele era fresco não ia para a geladeira, e sempre pedia no tamanho entre meio quilo a 800 gramas. Ele dizia que no meio de tanta fartura, não tinha cabimento comer peixe gelado. Se por acaso o encarregado não pegasse o peixe até determinado horário, este já passava um rádio para outro pessoa providenciar. O Velho tinha rotina. Acordava às 6, tomava café, ia para o escritório até às 10, depois um banho de mar, às 12 almoço, rápido descanso, à tarde trabalho, uma taça de vinho antes do jantar e às 8 e pouco se retirava para o sono. Gostava de ter toda a família reunida e os amigos, tendo dias que o cais da ilha tinha 11 lanchas com ancora baixada. O Baixo Sul era seu desvio, sua quebrada.

A primeira vez que vi Dr. Norberto fora da fotografia, foi na Cova da Onça. Fiquei de longe olhando aquele senhor, catando conchas e pedras naquela praia deserta, pós Moreré. Ele também tinha um projeto nessa região, com o nome de DIS-Baixo Sul, comandado pessoalmente por ele quando deixou a presidência do grupo. O DIS-Baixo Sul envolvia cooperativas para criação de tilápias, plantação de mandioca, palmito e sisal na região.. O projeto era via Fundação Odebrecht e o objetivo era fixar o local no local. Quando estava na TV Bahia fiz um trabalho de comunicação para a Fundação que completava 10 anos, envolvendo um vídeo e uma série para exibição nos intervalos comerciais da TV. A ideia que eu dei, era em vez de entrevistar os odebrechianos , minha equipe passar uma semana de vivência na área e fazermos o trabalho pela visão dos beneficiados. Polidoro, o cara de comunicação do grupo, aceitou a ideia e mãos a obra. No meio do caminho o recado: Dr. Norberto queria falar pessoalmente comigo. Fiquei admirado, com tantos assessores ele querer essa reunião. Um amigo que já tinha estado algumas vezes com ele, tinha me dito que ele não era de perder tempo e se estivesse gostando da conversa, ia entrar um garçom com duas maças numa bandeja, cada uma num prato de sobremesa, com uma faca, uma merenda. Cheguei 20 minutos antes e exatamente na hora marcada entrei. A reunião não tinha ninguém, só eu e ele, que foi logo dizendo : “jornalista, vamos ao que interessa.”, e começou a discorrer minuciosamente sobre os projetos, num entusiasmo juvenil. Gostei dele me chamar de jornalista, não sou jornalista, mas, quem sou eu para desmentir, deixei rolar. O tempo ia passando e de repente um toque na porta e entrou o garçom com a bandeja e as duas maçãs, que comemos devagar, eu olhando ele tirar o primeiro pedaço da dele, para sacar como era o ritual. A reunião durou cerca de uma hora e ele marcou outra para 15 dias depois, para eu apresentar o vídeo. Sai impressionado de como ele idolatrava o trabalho, chegando a me sentir de certa maneira, um vadio. Fizemos a vivência na região de Ituberá e Nilo Peçanha, o tempo era muito curto e montamos tudo ainda sem finalização para mostrar, mas isso eu explicaria pessoalmente. Quando fui ver a data, verifiquei que era um domingo, tinha anotado errado e liguei para secretaria que confirmou que era domingo mesmo, na sede da empresa na Paralela.

Quando cheguei, sem muita delonga ele foi logo dizendo : “jornalista, vamos naquela sala” e quando abriu a porta gelei e disse comigo mesmo; puta que pariu, fudeu! A sala tinha 12 pessoas numa mesa grande esperando para eu mostrar um trabalho ainda incompleto e cheio de defeitos, para eles opinarem. Não deu outra, passei o vídeo e o bombardeio começou, cada um botando o seu defeito. Quando chegou na sétima pessoa, mais ou menos, tentei intervir e recebi um chega pra lá nada amistoso, tipo não é sua hora de falar. Me preparei para falar por último, pedir desculpas e dizer que perdi, não tinha entendido a cultura odebrechiana. Quando chegou no último e na minha hora, Dr. Norberto como se tivesse lido minha mente, bateu uma palma seca e disse: Vamos deixar o jornalista trabalhar, ele tem muito o que fazer, encerrando a reunião. Foi foda, mas aprendi e quando estava tudo pronto, depois de muitas noites perdidas, liguei para o executivo que ia aprovar e inverti o jogo dizendo : Tenho 2 notícias, uma boa que o vídeo ficou pronto e a outra ruim, a máquina quebrou e só dá para eu exibir para vocês aqui na televisão. Deu tudo certo e o jogo veio para o meu território, com apenas dois deles assistindo. No final de tudo ,o projeto de comunicação (vídeo + série ) ainda ganhou o prêmio ETHOS, concorrendo no final com a Globo Internacional, que inscreveu uma série comandada por Ednei Silvestre.
Barra do Serinhaém tem histórias odebrechianas, mas é antes de tudo amadiana, no vai e vem dos barcos, no dia a dia dos pescadores. A ilha toda é voltada para a pesca e desponta devagar para o turismo. Isso começou a partir da festa “Universo Paralelo” , a maior festa rave do Brasil, realizada numa das fazendas desses 17 km de rio e mar. Todos os arredores ficam lotados , agora em maio 9 noites estava custando 1.350,00, o casal com café da manhã (150,00 a diária). Na época da festa , de 26.12 a 3.1 , pacote de 9 noites 6.500,00, já estando tudo lotado desde Ituberá. Para chegar lá não é tão fácil. Primeiro você tem que vencer o grande obstáculo, o Ferry Boat, depois uma estrada cheia de quebra molas e sem acostamento, do século passado, passando por Nazaré, Valença, Taperoá, Nilo Peçanha, Ituberá. Em Ituberá você tem que arranjar um lugar para deixar o carro, pois não tem estacionamento pago Deixei no hotel principal da cidade, a principio o cara não queria, mas convenci, dizendo que estava fazendo um levantamento fotográfico da região, o que não era de todo mentira. Quem tem 4 x 4 pode ir por uma trilha de muita areia e uma outra opção é ir pela praia, com a maré vazia. Você tem que dar um impulso no carro pela areia fofa e cair na parte dura. Fiz isso uma vez, pensando que era tipo no máximo 2 km até Barra e eram 17. Fui bem, mas na volta, não esperei a maré baixar toda e num determinado trecho uma onda bateu no carro e quase que o encobriu. Sorte ele não ter parado. Fui de lancha rápida a partir de Ituberá, tipo 45 minutos e também ir de carro pela praia não acho correto. Foi massa, fui antes que acabe, pois li numa o placa um loteamento oferecendo lotes de 250 metros quadrados e a Prefeitura não tem ideia do valor que isso tem ou não tem tempo para pensar nisso.

 

fotos de Sérgio Siqueira

 

 

 

Deixe um comentário