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por João Carlos Sampaio

 

Negros que após a abolição da escravatura continuam escravos, pescadores dominados pelo misticismo religioso, uma força externa vindo ao encontro deles e em oposição ao “estado de alienação”. Por fim, a revolução contra o patrão e contra Iemanjá, ambos responsáveis por sua miséria. Com estes elementos, o mais importante cineasta brasileiro, Glauber Rocha (1938-1981), estreava seu primeiro longa-metragem, há 40 anos. O filme era Barravento, avant-première do dia 28 de maio de 1962 no Cine Capri, na época a mais elegante e moderna sala do centro de Salvador.

Não há qualquer evento programado para lembrar a data, segundo informa Lúcia Rocha, mãe do diretor e presidente da Tempo Glauber, entidade destinada a preservar a obra do artista. Lúcia desconhece a realização de qualquer mostra sobre o trabalho do filho ou sessão especial de Barravento no país. Também diz que não há previsão de relançamento do filme em vídeo ou DVD – e isto vale para os outros títulos do cineasta.

Barravento foi o terceiro longa com produção baiana. Antes dele, apenas Redenção (1959) e A Grande Feira (1961), ambos de Roberto Pires, haviam sido lançados comercialmente. A expectativa era enorme para a “função de estréia”, conforme destacavam os jornais da época, principalmente em razão das controvérsias que cercavam a produção. Rodado em 1959, o filme foi montado por Nelson Pereira dos Santos em 1961 e só no ano seguinte chegaria aos cinemas, após um intervalo que fazia pairar a dúvida sobre a competência de Glauber Rocha na finalização de um projeto que era inicialmente de um amigo seu, Luís Paulino dos Santos.

O produtor associado de Barravento, Rex Schindler, crê que Glauber estava inseguro. “Ele não gostou do material que filmou, insistia em adiar a finalização. Começamos a produzir A Grande Feira muito depois, concluímos, lançamos e Barravento continuava parado.” Responsável também pelos argumentos de A Grande Feira e Tocaia no Asfalto (1962), Rex Schindler foi o maior investidor do cinema baiano: “Me desfiz de oito apartamentos para jogar o dinheiro na produção”. A idéia era financiar três projetos baratos (BarraventoA Grande Feira e Tocaia no Asfalto) que pudessem render lucros e ao mesmo tempo capitalizar novas produções: “Não consegui recuperar nem metade do que investi.”

Apaixonado por cinema e até hoje dedicado a escrever roteiros – “Tenho um sobre a Princesa Leopoldina que o Nelson Pereira dos Santos está examinando” -, Schindler diz guardar boas lembranças de Barravento. “O lançamento foi uma noite especial, com o Cine Capri completamente lotado”. Fechado após um incêndio em 1981, ano em que Glauber morreu, o Capri vivia o apogeu em 1962. A sala havia sido inaugurada seis anos antes, com dois níveis, decorados com motivos que remetiam à Nápoles italiana. Eram 780 lugares, público oficial daquela exibição, que terminou sob aplausos.

Barravento entraria em cartaz logo após a sessão de pré-lançamento. Uma cópia no Capri e outra no Cine Jandaia, localizado na Baixa do Sapateiro dos versos da canção de Ary Barroso. Fundada em 1911 e reformado na década de 30, para abrigar 2.200 pessoas, era a maior sala de exibição da Bahia. Juntos, os dois cinemas permitiam que Barravento tivesse quase três mil pessoas por sessão. Apesar disso, não foi sucesso comercial. “É um bom filme, mas mistura o tom místico/romântico que (Luís) Paulino pretendia dar com a visão revolucionária de Glauber. Talvez isto tenha confundido o público”, crê Schindler.

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Sobre a troca da direção de Barravento, das mãos de Luís Paulino dos Santos para as suas, Glauber Rocha dizia: “Perdi o amigo, ganhei o filme.” Glauber contava ter sido “praticamente obrigado” a deixar a produção executiva para dirigir. “O Paulino não parecia pronto para filmar. Estava apaixonado pela atriz principal, Sônia Pereira (que atuara em Mandacaru Vermelho, de Nelson Pereira dos Santos), e só filmava as cenas dela”, diz o também cineasta e produtor Oscar Santana.

“Eram cenas demoradas, de forma que, ao final de um dia inteiro de filmagens, tínhamos apenas rodado de dois a três planos”, diz Santana: “Naquele ritmo levaríamos um ano para chegar ao fim.” Com cerca de 15 dias de rodagem, a equipe se irritava com o andamento do filme e com o que Oscar Santana chama de “mania de estrela” de Sônia Pereira. Após reuniões e discussões nos bastidores, decidiu-se pela demissão da atriz e pela destituição de Paulino. “Não havia outra saída”, crê Santana. Schindler acrescenta: “O roteiro do filme chegou até mim através de Glauber, eu não conhecia Paulino e estava investindo para ter um produto pronto. A decisão era dar a direção ao Glauber para que o filme chegasse ao fim.”

O próprio Glauber Rocha dá a sua versão do conflito com Paulino em um dos artigos do livro Revolução do Cinema Novo (1981). “Nos três primeiros dias de filmagem, não apareci no set, para que a minha presença não perturbasse Paulino. No quarto dia, fui procurado por Telles (José Telles de Magalhães, diretor de produção do filme), que falava de como Sônia (Pereira) estava bancando a vedete e Paulino, afundando o filme.” E continua: “Fiz tudo para que ele continuasse, mas com o corte de Sônia, estava arrasado. Ele me xingou na praia, mas eu não deixaria o barco afundar. Em duas semanas, reescrevi o roteiro e retomei as filmagens.”

Schindler diz que o roteiro de Luís Paulino não o empolgava e que a versão de Glauber trouxe mais energia ao filme. Mas afirma que se manteve distante da briga. Oscar Santana lembra que, embora todos estivessem irritados com o ritmo das filmagens, “inclusive o diretor de fotografia (Tony Rabatony), que discutia bastante com Paulino”, foi Glauber Rocha quem primeiro levantou a possibilidade da substituição. “Perguntei a Glauber quem assumiria o lugar de Paulino, ele hesitou um pouco e disse que estava pronto”, afirma Santana. “Houve uma concordância de todos em torno do nome de Glauber, ainda que sua única experiência como diretor, até então, tivesse sido um curta-metragem (O Pátio, de 1959).”

Oscar Santana, autor dos longas-metragens O Caipora (1963) e O Pistoleiro(1975) e atualmente proprietário da produtora Sani Filmes, diz que Glauber Rocha sempre teve “uma paixão” pelo projeto de Barravento. “Nós da Iglu Filmes (produtora baiana da época, que inclui Roberto Pires e Braga Neto) brincávamos dizendo que o grupo a que pertencia o Glauber e o Luís Paulino, a Yemanjá Filmes, deveria se chamar Doze Homens e uma Sentença: Nenhum Filme. Eles discutiam muito, mas não conseguiam filmar, o próprio Glauber escrevia em jornal, às vezes até alfinetando a Iglu, por isso acredito que ficou receoso de nos apresentar um filme seu, e trouxe o projeto de Paulino. Mas era ele quem mais queria dirigir um longa.”

No ano do lançamento de Barravento, Glauber se mudou para o Rio, onde seguiu a carreira que todos conhecem. Luís Paulino, que realizaria ainda dois outros longas-metragens – Mar Corrente (1967) e Crueldade Mortal (1980) -, evita comentários sobre o incidente. Aos 72 anos, está radicado numa comunidade na região da reserva ambiental de Aiuruoca, no interior de Minas Gerais (a 400 km de Belo Horizonte), aposentado da realização cinematográfica.

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Longo caminho
Depois de rodado, Barravento ficou cerca de dois anos “no estaleiro”. No meio cinematográfico baiano, comentava-se até que Glauber Rocha não tinha conseguido fazer o filme que estava na sua cabeça, ou ainda, que não tinha conseguido conciliar o filme que Paulino vinha fazendo com o que veio a ser o projeto, depois que reescreveu o roteiro. Muito pouco do que Paulino tinha filmado entrou no filme, segundo Oscar Santana.

“Aproveitei alguns copiões de Paulino, cortando Sônia (Pereira, a atriz protagonista)”, disse Glauber Rocha no já referido texto sobre Barravento. “O filme cheirava fresco. Esteticista. Sublimação de um amor do personagem de Pitanga por Sônia Yemanjá”, alfinetou o cineasta, que falou também da mudança na personagem de Sônia Pereira, substituída por Lucy Carvalho, descoberta dos produtores Roberto Pires e Braga Neto. “Transformei Nayna (a personagem) numa marginal branca, alienada pelo candomblé, apaixonada por um pescador virgem, filho de Yemanjá, criticada por um negro subversivo que esculhambava a submissão dos pescadores ao candomblé e ao dono da rede.”

Nelson Pereira dos Santos, na época com 31 anos, ainda não era o diretor prestigiado de Vidas Secas, que dirigiria três anos depois, mas o autor de Rio 40 Graus (1955), que expunha o drama social da favela carioca – para muitos, o marco inicial do surgimento do Cinema Novo. Ele estava radicado na Bahia, morando no bairro dos Barris, área central de Salvador. A capital baiana era a base para a rodagem de seu terceiro longa-metragem, justamente a adaptação da obra de Graciliano Ramos. “Só que o sertão nunca viu tanta chuva”, rememora Nelson Pereira, “tudo ficou verde e viçoso de tal forma que mudamos inteiramente o projeto e, ao invés de Vidas Secas, fizemosMandacaru Vermelho (1960).”

Em meio à efervescência que o cinema vivenciava na Bahia do início dos anos 60, Nelson Pereira dos Santos esteve em contato com todos os principais realizadores. “Conheci o Paulino, que foi assistente de fotografia e até tem uma participação como ator em Mandacaru, também o Oscar Santana, o Rex Schindler, o pessoal todo, e, claro, o Glauber Rocha”, conta. “Foi o período em que mais fiquei ligado a Glauber Rocha, na época um rapaz de pouco mais de 20 anos, mas que tinha convicção incrível do cinema que queria fazer”, conta. “Ele tinha me ajudado no trabalho de produção de Mandacaru, queria ajudá-lo também a finalizar Barravento.”

De volta ao Rio, Nelson Pereira dos Santos iniciou a montagem de Barraventono segundo semestre de 1961. Quase um ano depois, o filme entraria em cartaz na Bahia. Sobre seu trabalho na edição das imagens, o cineasta diz que montou o filme que Glauber tinha na cabeça. “Não me ocupei da discussão entre política e misticismo que depois o filme viria a suscitar, não sou, nem nunca fui crítico de cinema”, diz. “Meu trabalho foi extremamente técnico, seguindo à risca as idéias de Glauber, o que ele queria dizer com o filme. Não tive qualquer participação na concepção de Barravento.”

No livro Barravento: A Estréia de Glauber, de José Gatti, consta um dos raros depoimentos de Luís Paulino dos Santos sobre como seria o filme, nas suas palavras um desenvolvimento natural do curta-metragem de estréia Um Dia na Rampa (1959), centrado na ação dos pescadores comercializando seu produto no cais em frente ao Mercado Modelo e o Elevador Lacerda. “Sentia a necessidade de colocar as questões essenciais daquelas pessoas. Pensei na palavra ‘barravento’ para mostrar o sentido revolucionário, mas não queria jamais um trabalho panfletário”, explicou Paulino.

O diretor relembrou o que soube após o seu afastamento: “Passado algum tempo, falaram-me que Glauber tinha assumido a direção e estava mexendo no roteiro. Achei muito normal, mas muita coisa do filme
resistiu”, disse. Já Glauber afirmava que já ao ler o roteiro o achara pouco inspirado, com “materializações arbitrárias” do que Paulino imaginava ser o candomblé. O diretor Roberto Pires, morto no ano passado, dizia que o roteiro de Luís Paulino era mais romântico. “Não tinha o problema do patrão, por exemplo”, disse, em entrevista cedida a José Gatti.

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Olhar devorador
Glauber definiu Barravento como obra de inspiração revolucionária, num dos muitos discursos enfáticos e empolgados que o tornaram a figura mais incisiva e polêmica do cinema brasileiro. “Fiz um filme contra candomblés, misticismos e, num plano de maior dimensão, contra a permanência de mitos numa época que exige lucidez, consciência, crítica e ação objetiva”, afirmou em entrevista concedida pouco antes do lançamento do filme, em 1962, ao jornal baianoDiário de Notícias. No mesmo tom, prosseguia: “O folclore e a beleza contagiante dos ritos negros são formas de alienação, impedimentos trágicos a uma tomada de consciência para a liberdade de uma raça importante em nosso século, como a negra.”

Quem assiste a Barravento percebe este olhar devorador de Glauber Rocha, que se materializa na presença do personagem Firmino (Antonio Pitanga). Mas Glauber também se encantou pelo folclore: a definição do enredo acontece sob Iemanjá, portanto, sob as forças místicas negadas. Da mesma forma, Firmino funciona como um mensageiro entre dois mundos, a civilização que toma contato na cidade e o “modus vivendi” primitivo dos pescadores da Praia de Buraquinho. Cumpre a função do Exu, entidade que, no culto afro-brasileiro, estabelece a comunicação entre os deuses-orixás e os homens. É o ponto de desequilíbrio, da revolta, mas também o arauto da vingança de Yemanjá, rainha soberana sobre as águas de Barravento. Impossível ver o filme sem essa dualidade, talvez até em razão de um roteiro híbrido, que une os desejos aparentemente antagônicos de Luís Paulino e Glauber Rocha. Barravento é o prenúncio de uma obra regida pela dicotomia, de um discurso nem sempre claro e coerente, mas apaixonado, que iria marcar toda a filmografia glauberiana.

 

publicado na Gazeta Mercantil, em 2002

2 Comentários...

  1. […] Negros que após a abolição da escravatura continuam escravos, pescadores dominados pelo misticismo religioso, uma força externa vindo ao encontro deles e em oposição ao estado de alienação. Por fim, a revolução contra o patrão e contra Iemanjá, ambos responsáveis por sua miséria. Com estes elementos, o mais importante cineasta brasileiro, Glauber Rocha (1938-1981), estreava seu primeiro longa-metragem, há 40 anos. O filme era Barravento, avant-première do dia 28 de maio de 1962 no Cine Capri, na época a mais elegante e moderna sala do centro de Salvador. Clique para ler mais: Barravento – Caderno de Cinema […]

  2. André Sampaio disse:

    vejam por aí Estafeta: https://vimeo.com/65872614
    documentário sobre Luiz Paulino dos Santos
    e Luiz Paulino está realizando um novo filme em fase de montagem sobre os índios Zoró, povo que ele tinha filmado 30 anos atrás no documentário Ikatena. Em breve!

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