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por José  Umberto

Dedico a Carlos Vasconcelos Vaz de Athayde

Aquele sábado de tarde foi feliz porque filmava. Não parava de rodar a manivela, e disparar o obturador. Filmar, rodar, filmar. Embora não atinasse que o cinegrafista voluntariamente esquecesse (ou não quisesse lembrar) de colocar o rolo de 30 metros [100 pés] de película negativa Fuji, preto-e-branca, Plus-X, dentro da chassis da câmera 16mm. Ouvíamos a engrenagem mecânica (grifa) do aparelho com a sua potência de ilusianismo análoga ao canto enfeitiçado das sereias. Ao embarque de fresca alucinação da juventude.

Antes, fora possível utilizar câmera de bitola 8mm, sendo substituída pela suíça Paillard Bolex, 16mm, à manivela, velocidade alternada, com paralaxe, recurso técnico de retorno da película para exposição dupla (fusão, superposição, fade-in, fade-out ) e torre e torre de três lentes: grande angular (16mm), normal (25mm) e a teleobjetiva (75mm) – autênticas janelas da vigília abertas às possibilidades oníricas [porém limitadas tecnicamente]. Além de ser um aparelho leve, portanto manual (câmera-na-mão), ágil (ideia-na-cabeça), com a vantagem de se adequar ao baixíssimo (bote baixo nisso!) orçamento de uma produção independente de cinema periférico, autônomo, cinema de pura invenção, até adolescente.

Filmar sem filme, que piada. Quiçá fresca metonímia. Ou simplesmente rodar, rodar a roda da fina película do mundo.

Estamos na cidade da Bahia de meados dos anos 60 do século XX. Uma cidade cercada pela fortaleza de província. Ondas de vento da orla atlântica convivem com a calmaria de uma portentosa baía acolhedora. Coqueiros rimam com o acarajé atávico em fim de tardes a não se acabar mais.

O cinema era uma vírgula na paisagem salitre.

Muitos de nós vínhamos do interior de diversas regiões identitárias. Todos cumprindo a sorte da corrente migratória a todo o vapor. Cada qual a acatar sua sentença de existência; um rosário de vida em cada ladeira, em cada átrio de igreja, em cada terreiro de santo, em cada sobrado, praça, encruzilhada, beco… e em cada anoitecer provável.

A maior parcela da gente baiana era visivelmente negra africana, embora pululasse, nas ruas estreitas, traços índios, portugueses e espanhóis comerciantes sobretudo, árabes, italianos e os cantantes verdureiros sergipanos das redondezas dos vales, em peregrinação diuturna, com enormes tabuleiros equilibrados nas suas cabeças a engordarem as panelas de barro com o cozido colorido, picante e apetitoso. O enxame da emigração que diversifica, expande e amplifica os sotaques, arremedos, gingas, faceirices e os destemperos nos círculos de gente. Essa circulação persistente de noite e de dia, rotina de estrelas no firmamento, fartura de corpos e o sem-fim de pensamentos avulsos ao ritmo de cada coração. Uma corrente a pulsar.

Um cinema em cada esquina. Um caubói na cidade alta e os peles vermelhas na cidade baixa. O resto ficava por conta de sonhos e pesadelos que alisavam os paralelepípedos e os estômagos da grande feira de Água de Meninos.  As noites eram em cinema a céu aberto. As estrelas cuidavam de piscar tontas ao sono de cada um. Os mais despertos iam fazer serenatas nas areias brancas do Abaeté ao clarear de lua cheia. E a capital da Bahia tomava ares de sonâmbula sob o tempo da malemolência.

A antiga rua Chile velava as madrugadas à dentro que vinham banhar a superfície insone da vacilante baía de Todos os Santos. A altura benfazeja favorece o eflúvio de faróis fulgurantes. O vento nos remetia ao invólucro úmido, à redoma de salitre, à mônada de água a anunciar a tempestade de pensamentos fustigada por relâmpagos.

Lá prás bandas do bairro do Uruguai, refulge nas marés volúveis os reflexos coloridos das inumeráveis palafitas de Alagados. Beleza abstrata de uma miséria social que plasma a plástica do desigual. Assim vive a puta de uma velha cidade adormecida em seus contrastes oníricos a fundir o exótico e a degradação: um subdesenvolvimento cru & “poético”.

Até aonde o olho condensa o virtual e/ou suporta o real? Desse desafio, emerge a aventura rocambolesca de experimentar a textura soteropolitana.

Cinema é clarão a 299 792 458 metros por segundo. Ele cega e fura a bolha no expresso da expressão.

Língua simples, desapegada, antagonista de glamour, meu amor. A luz desperta as sombras. Esse bruxulear de serpentes que rodopiam ao dia e hibernam no veneno da madrugada roxa. Uma projeção contínua de visagens. Ou aquela usina de redemoinhos a dançar para o espanto de uns e a graça de outros, aquela linha dúbia. Extática fantasia de ilustres prestidigitadores afoitos. Um alvoroço de esquisitices malucas. Transtorno transcendental da persistência retiniana que delineia a magia da anatomia com seus choques elétricos.

Cinema é serotonina na veia, amor.

Seguindo a linha curva de sacerdócio do ritual da arte, da entrega à epifania e ao rigor da intuição, essa curvatura côncava que se sustenta na zona de força de gravidade da consciência. Solene doação íntima que exige preparação. Transmissão de ondas soníferas cujo transe se materializa na jogatina da linguagem. Um ponto de partida lúdico até o módulo de chegada com sentido apolíneo. Numa síntese da forma que envolve ritmo, pulsação, textura e conteúdo. Ou quando a semântica recebe o sopro da criação pelos sinais do fôlego do talento. É a pulsão da destruição na metamorfose da construção. Ou seja, a obra como ordenação final do caos original. Um processo em cadeia, uma fissão, o baú de segredos.

Retorno ao fato inusitado da filmagem sem colocar o rolo da película no estojo da Bolex. Esquecimento ou ato falho? O cinegrafista exótico (reprimido) dedicou todo o seu foco no ato-de-filmar-em-si. Uma abstração prática de gozo na plenitude da fruição. Ou um gesto alegórico de fundo metafórico. Quiçá o delírio de transcendência que se estende à utopia. Terreno do (im)possível que atende à urgência do livre pensar como também comporta à exigência do desconhecido. O cinema como geografia da busca, como território de investigação, como ocupante da experimentação, preenchedor do vácuo da inovação, habilitador da conveniência do talento, fertilizador do signo da originalidade e o protetor da língua como oxigênio do habitat estético.

Um Comentário...

  1. carlos verçosa disse:

    ganhei o dia

    obrigado,

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