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por André Setaro

 

A perseguição é implacável. Garota que chega, mala na mão. Cidade grande. Pesadelo. Escuridão. Vontade de deitar e rolar na relva. Sentar e comer. Esticar a carne nervosa que, assada, sacia a fome. Luiz Gonzaga. O discurso se dilata. A personagem pula. A imagem, montagem, é que dança. Tem início o relato, anti-relato, pluralidade de sons, de visualizações do imagético enquanto imagético e pleno de camadas significantes. A impressão aqui registrada é primeira. Aquele que escreve só viu Brabeza uma vez. Rapidamente. Vão impressões passageiras, ligeiras. Há necessidade de uma degustação mais apurada. Mas é preciso aguardar. Fica a primeira visão, o primeiro momento de encontro com um exemplar superoitista que foge à regra, que ultrapassa as limitações da pequena bitola para vir a ser cinema – não – importa-em-que-dimensão-celulóidica-seja-feita. Apenas isso, um feito, uma vitória, a coroação de um peregrino ou, melhor dizendo, de dois peregrinos, andarilhos da imagem.

A garota chega na cidade. Indefesa. A coragem é intrínseca e extrínseca a solidão. Mas não é nada disso. É o aparelho repressor, é a invasão na privacidade do ser, é a metáfora, é o símbolo implacável, é o perseguidor rude, cruel, que palita os dentes cinicamente enquanto destrói o ser. É o conflito em movimento. É o trem que passa, chega e vai embora. É a descida da garota a um inferno dantesco onde a figura demoníaca de um sistema operante tenta desmascarar o que não é mascarado mas puro e ingênuo. Para isso talvez seja preciso montar atomicamente a obra fílmica, desestruturando-a. Pensando em despojar no espectador uma nova maneira de degustar a iluminação feérica dos fotogramas iluminados por Robinson Roberto. Rasgar estruturas que não se rasgam mas que se redimensionam numa nova perspectiva. A garota que chega alcança uma situação-limite num plano existencial-cinematográfico, porque, afinal de contas, Brabeza, antes de mais nada, fala muito de cinema, desse universo imagético que se ejacula num transe lazeriano.

A obra se destina à leitura em vários níveis. E possui de tudo um pouco. Força a barra do visitante acomodado na poltrona e corrompe a pequenez da bitola diminuta. Voa alto demais. Inserir Guimarães Rosa numa perspectiva de coroação de um determinismo regionalista, o qual se desdobra, passa por cima e termina num choque violentíssimo em termos de impactualidade cênica. Aí entra toda uma carga de sensação camerística.

Brabeza surpreendeu incrédulos e desnudou a face oculta do Super-8. Num crescendo absoluto, numa subida incessante, numa ascensão ritualística enquanto às vezes até mesmo brincadeira com o-que-fazer-do-fazer cinema, Brabeza, se bem percebido, é um libelo, é uma exaltação. É um feroz mergulho que tenta agredir e fugir para uma dimensão de reflexionamento. Acabado o choque, findo o espetáculo, a comédia é finita!, o autor dá a volta por cima. Desmancha a eletricidade para redimensiona-la numa outra, numa fonte de esperança, de abertura. E a descontração final se faz um dos fortes momentos da contração inicial. Processo masturbatório de criação, ejaculação superoitista que macula um racionalismo enquanto racionalismo, transcendendo o nível estático. Talvez mesmo uma contagem regressiva.

Para os cinemaníacos, a obra revela surpresas. Descubram a homenagem que José Umberto prestou a Jean Vigo. E sintam o palpitar do charleston, universalidade posta em cena. E, sem querer, na euforia criativa, num momento de rodopios, o autor (ou os autores, por que o filme é co-realizado por Robinson) se faz Corisco na terra do sol deste 78 em pleno decurso.

BRABEZA _ Tribuna da Bahia (André Setaro) _ 12.08.1978 001

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