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por Tuzé de Abreu

 

 

Nos primeiros dos anos de 1960 fui ao aniversário do pianista Perna Fróes, hoje médico no Rio de Janeiro. Perna é um dos grandes talentos musicais que conheci. Lembro dele me ensinado improvisação tonal e ensinando ritmos ao grande baterista Tutty. Apelidei-o de “Turbilhão de Melodias” tal a facilidade com que ele improvisava e compunha. Pelo fato de ser canhoto teve que desenvolver muito a mão direita para solar, com a grande vantagem de fazer os ritmos mais complexos muito bem com a mão esquerda.
Naquele tempo eu era gordinho , cheio de espinhas e muito tímido. Perna comandava a sua própria festa ao piano, na casa grande da sua família no Largo dos Aflitos. Naturalmente hoje é um edifício, como aconteceu também com a casa da minha família. De repente vi sentar próximo ao piano uma garota, um pouco mais velha que eu, muito magra, com um vestido preto, cabelos muito pretos e presos em cima da cabeça , morena, com um nariz interessante e uma expressão de pessoa muito determinada. Tinha aparência de indiana.
Começou a cantar acompanhada por Perna , uma canção que considerei a mais bonita que jamais ouvira. Dizia: ” Na minha voz , trago a noite e o mar…”. Falava de um “Sol Negro” e de Iemanjá. Fiquei muitíssimo impressionado.Tão impressionado que consegui vencer a timidez e falar com aquela pessoa que parecia ao mesmo tempo muito interessante e muito distante de mim. Perguntei de quem era aquela canção. Ele respondeu com alguma rispidez que era do irmão dela, e que eu não o conhecia. Vocês já devem ter percebido que ela era Maria Bethânia. Uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos.
Cantora , meio atriz , grande intérprete também de poesia. Grande profissional. Tive a sorte de trabalhar com ela no disco Drama , nos Doces Bárbaros e na inauguração do teatro homônimo. No entanto , talvez por uma questão de “santo”, apesar de ser um grande admirador dela , tenho muitos dos seus discos e DVDs, nunca fiquei amigo dela como sou de Gal, Caetano e Gil. Sempre nos tratamos bem , porém formalmente. Acho engraçado e mantenho como uma espécie de tradição.
Mas voltando ao “Sol Negro”. Fiquei com aquela canção na cabeça. Nem conhecia Caetano Veloso senão “de nome”. Isto aconteceu antes de “Nós Por Exemplo” e ” Velha Bossa Nova e Nova Bossa Velha”. Minha memória anda perdendo detalhes. Mas o que importa é o essencial. Por esse tempo estourou o primeiro disco de Chico Buarque. Nosso amigo cantor e compositor Píti , hoje falecido, aprendeu várias músicas dele. Eu estava começando a tocar flauta transversal e aprendi a introdução de “Sonho de Carnaval”, que tocava sempre com Píti nos saraus do Vila Velha.
Um dia Píti me chamou para fazer um programa ao vivo, à tarde, na TV Itapuã (acho que se chamava “Sala de Visitas” e era apresentado por Laura Lacerda). Neste programa estavam alguns convidados preparados para falar bem de Chico Buarque, coqueluche do momento entre jovens e velhos. Fui e fiquei no lugar de menor destaque possível. Afinal, além de ser apenas um menino ia tocar somente a introdução de uma música. As outras pessoas iam ser entrevistadas. Estava totalmente distraído quando Laura Lacerda se dirigiu a mim de supetão e perguntou o que eu achava de Chico Buarque.
Tomei um susto com a pergunta, e muito mais ainda com a minha resposta totalmente fora do meu estilo e do meu modo de ser. Eu disse: “Doa em quem doer, a melhor canção que conheço é Sol Negro, de Caetano Veloso”. Ali, com exceção de Píti , ninguém , nem eu, conhecia Caetano Veloso. Foi chocante. No carnaval seguinte , pouco tempo depois, estava passando pelo Relógio de São Pedro quando um “careta” alto, vestindo um pierrô falou com aquela voz de falsete, comum nos mascarados de então: “Caetano Veloso, hein ?”

 

 

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