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Home » Artigos » Cairu, onde se escuta o silêncio

 

Lula Oliveira

Sai de Salvador às oito da manhã, de uma quinta feira, 14 de março, de 2019, em direção a cidade de Cairu, na região do baixo sul baiano rumo a uma viagem que tinha como principal objetivo, articular, com o município e a comunidade local, a ideia de realizar de um filme de longa metragem em Cairu e redondezas. Precisava também achar uma casa, um casarão, um sobrado que pudesse ser utilizado como principal locação do filme. Já tinha ido em Cairu. Acreditava que o filme poderia ser rodado na cidade, mas não tinha certeza. Estava fazendo uma viagem arriscada. Tinha apostado todas minhas fichas no meu sentimento, desejo que o filme em Cairu daria certo. Precisava achar a principal locação…

Peguei o ferry boat e já na ilha, um ônibus da empresa Real Cidade em direção a Cairu. O ônibus te leva, cortando a ilha de Itaparica e as cidades de Nazaré das Farinhas, Valença, até uma comunidade chamada Graciosa. Uma viagem que dura cerca de 4 horas.  Nesse local, um barco te leva até o município de Cairu, numa viagem que não dura mais do que 15 minutos. Esse é o melhor caminho para quem sai de Salvador em direção a Cairu. É possível, seguir a estrada, atravessar uma ponte e chegar de automóvel também. Mas, recomendo chegar por Graciosa.

Cairu é o único município arquipélago do Brasil. Está localizado no litoral do território do Baixo Sul da Bahia, ocupando uma área, segundo o IBGE, de 461 Km². Dados do censo 2010 revelam que o município tem uma população de 15.366 habitantes, com densidade demográfica de 33,33 habitantes por quilômetros quadrados. O município apresenta uma peculiaridade em termos populacionais, os moradores estão distribuídos em 13 povoações nas três principais ilhas do arquipélago. Cairu, Tinharé e Boipeba.

Vivendo o silêncio dos pensamentos, das angústias das buscas, da tensão se a ideia do filme seria acolhida, mas também escutando os sons que habitam os espaços urbanos, que acompanham nas  estradas, rios e, finalmente, Cairu. Uma cidade que temos a sensação de escutar o silêncio. Cheguei à tarde e parei no primeiro restaurante que meus olhos enxergaram ao descer do barco. Perguntei se tinha comida e pedi uma cerveja. Comi uma carne de fumeiro, faminto, e observando o movimento silencioso do rio e das poucas pessoas que circulavam na rua. Além da conversa com o dono da birosca para colher mais informações, o único som que ressoava  era o das canoas motorizadas que passavam zunindo que nem um mosquito no ouvido ou de um transeunte e seu passageiro boa tarde, quando passa. O resto é silêncio.

Segui para uma pousada indicada pelo proprietário do restaurante. Um sobrado antigo na principal rua da cidade que o dono dividiu em 8 quartos e que agora virou pousada. A 30 reais a diária (sem café da manhã), deixei a mochila no quarto e fui caminhar pelas ruas da cidade. Na verdade, a cidade tem praticamente duas ruas que te levam ao topo de morro onde está situado o convento… e a igreja… Do alto da cidade se avista o braço de mar que divide a ilha sede (Cairu) de um outra ilha (Tinharé) que também faz parte do município. Do alto desse morro, atrás da igreja, numa sombra depositada em paredes seculares, o vento te chama para ressignificar o tempo. O silêncio te assombra com a sua verdadeira e exata dimensão do nada se escutar, ao redor.  Do outro lado do rio, um verde torna a paisagem monocromática porém colorida de céu e águas escuras e misteriosas da mistura do rio com o mar. Movimento das Árvores que compõem a vegetação do manguezal que dançam com o vento distante. Tudo ali é real e vertigem ao mesmo tempo.

Foi o tempo do sol se pôr e retornar caminhando para a pousada, nas ruas de pedras portuguesas. À noite, poucas pessoas transitando, algumas crianças brincando na praça da chegada, como chamam uma bela praça muito bem cuidada que fica às margens da maré. Uma luz branda demarca as paredes das casas antigas, deixando a cidade na claridade necessária para embalar o silêncio e os sonos que chegam bem cedo. Não se escuta uma voz depois das 10 horas da noite. O silêncio se fazia escutar. E o mais importante. Estava com a sensação de segurança, acolhimento e também pertencimento.

No dia seguinte fui recepcionado pelo Secretário de Infraestrutura do Município, Benedito Passos. Recepcionado é pouco. Fui acolhido. Nos encontramos às 9h da manhã e iniciamos um dia repleto de visitas e articulações. Fomos visitar um casarão na rua principal, com data de construção de 1790. O casarão pertence à prefeitura e está em reforma. Mas, é um casarão belíssimo e exatamente o que estava procurando para o filme. Um alívio e uma fé de que os desejos, as possibilidades de realização vão de encontro. Se já tinha a sensação de que o filme acontecia naquele lugar histórico e belo, agora tenho convicção que o desafio é construir um projeto em Cairu. Realizar, filmar, interagir, agregar e potencializar a arte, a cultura, a memória e a cidade.

O secretário Benedito, não satisfeito de ter já resolvido o grande dilema que tínhamos em achar a principal locação do filme, passeou comigo por toda a cidade conversando com as principais autoridades e cidadãos ilustres. Conversamos com  a secretária de Cultura, a secretária de Educação, a secretária da Juventude, o presidente da Câmara Municipal e o Prefeito de Cairu, Fernando. Caminhamos pelo convento, mapeando a cidade e as necessidades de produção que teremos que resolver mais adiante, na pré produção do filme. Nesse tempo de conversar e andanças, o acolhimento de todos em relação ao projeto era enorme e também pelas diversas possibilidades de interagir com a produção do filme. Foram conversas iniciais, portas que se abriram para que novos diálogos fortaleçam uma construção em parceria que resulte em um belo filme e traga muitos bons resultados para o município e a região.

O filme que estamos realizando se chama A Matriarca, é dirigido por mim e produzido pela DocDoma Filmes. Mas, não é hora de falar da estória do filme. É hora de falar de encontros e silêncios.

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