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por Jorge Amado

 


Esse pianista e compositor Carlos Lacerda é neto do Elevador Lacerda, ou seja, – neto do construtor do Elevador Lacerda, engenheiro ilustre e progressista. Já nasceu o jovem Carlos ligado à própria vida da cidade do Salvador, numa família dada às matemáticas. Ora, como se sabe, a matemática e a Música são vizinhas e parentes. Assim, em vez de engenheiro, deu um músico, o nosso Carlos.
Quem lhe descobriu o talento foi o maestro H. J. Koellreutter, cuja obra na Universidade da Bahia perdura até hoje em suas consequências e em seus resultados. O ilustre músico tomou o moço Lacerda sob sua orientação, seu primeiro importante mestre. Viria também o pianista professor Pierre Klose, também fundamental na formação do musicista baiano e viria depois Bené Nunes, que se fez amigo particular e lhe ensinou os segredos de um piano popular ao mesmo tempo de alta qualidade. Vieram seus companheiros e amigos compositores, pianistas, maestros, músicos diversos, como Paulo Gondim, Henrique Gregori, Júlio Medaglia, Carlos Veiga,  Luisinho Eça, Ubirajara Quaranta, Fernando Lopes, Sílvio Crespo, Benito Juarez, Hermes Fernandes, Moisés Mandel e Yulo Almirante Brandão, cuja personalidade irrequieta inspirou o neologismo “YULESKA”, com que Paulo Gondim batizou uma de suas composições. Esta composição abre este LP de Carlos Lacerda e onde estão músicas do próprio Carlos, de Jocafi, Alcyvando Luz, John Sebastian Bach, Ildásio Tavares e do maestro Henrique Gregori, cuja personalidade é de vital importancia ao próprio Carlos.
Composições de autores brasileiros que se impõem por si mesmas e também pela interpretação e do excelente pianista que é Carlos Lacerda. Acompanhado por MOACYR (baixo), TUTI (bateria) e MIGUEL (ritmo), o jovem maestro baiano mostra neste LP do que é capaz, exibe seu domínio do instrumento e seu talento de musicista.

Carlos Lacerda é um nome popular na Cidade do Salvador e no Estado da Bahia. Não quis ele viver das glórias do avô, grande engenheiro, o Lacerda do Elevador. Fez seu caminho, marcou sua presença, deu à família de engenheiros a sonoridade da música. Ainda muito moço, todas as portas do sucesso estão abertas em sua frente.

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por Luiz Vieira

 

Fui incumbido pela direção da “AUDIO FIDELITY”, para escrever a contra capa deste LP de Carlos Alberto de Lacerda, o moço que eu tive o ensejo de conhecer há cerca de um ano atrás, quando desejei estrelar um meu programa na TV Itapoan de Salvador e precisei da colaboração deste jovem talentoso Maestro, orquestrador, professor da Reitoria do Estado e, hoje, pianista oficial do Palácio do Governo da Bahia.
Não desejo estender-me muito a respeito de Lacerda aqui, pois creio que o melhor mesmo é procurar ouvi-lo e o disco está aí. Quero todavia acrescentar o seguinte: – Se você sentiu a saudade bater aos umbrais de sua alma entristecida pelos desenganos… ouça este disco e se sentirá melhor. Se você, na vertigem febril e delirante de um amor qualquer, traz em seu ser uma esponja embebida de soluços derradeiros… ouça este disco de Lacerda e se sentirá melhor. Mas, se você, nunca sentiu saudade porque na busca frenética de fervidas espumas de crença ainda não encontrou nenhum… ouça Lacerda no lado B deste LP e sentirá saudade e ternura agora. – Ouça Aloísio Silva, um novo cantor de Salvador que estamos lançando neste mesmo LP de Lacerda, cantando duas músicas preciosas do próprio Carlos Alberto e sinta a voz meiga e acariciante que tem esse rapaz, cuja sinceridade de interpretação, mais parece uma ventura doce ou luz infinita de amor espalhando ternura como o riso de uma criança que assiste pela primeira vez o nascimento de uma rosa. Lacerda, este extraordinário Lacerda, que é bisneto de Antônio Francisco de Lacerda, o homem que construiu o mais famoso elevador da lendária, mística e divina cidade do Salvador e que porisso mesmo é chamado elevador Lacerda. Nosso pianista e maestro Lacerda, é, consequentemente, um nome que já traz do passado, uma eloquência caprichosa partilhada de certa tradição da grande terra baiana.
Lacerda é ainda comandante de uma das melhores orquestras da Bahia. Sua “banda”, conta com mais de trinta figurantes, quase todos professores da “SINFÔNICA” de Salvador. Todos são unânimes em afirmar: “Lacerda é um extraordinário”. Lacerda consegue ter em si mesmo, o “dom” divino de uma versatilidade musical invejável e fora do comum. Em sua arte, ele se estende a proporções fabulosas. Além do maestro e arranjador fenomenal, como músico executante, vai com um brilho quase indizível pelo seu encantamento, desde a música erudita, até ao mais moderno e imensamente atual gênero popular brasileiro, como poderão notar no lado A deste doze polegadas, onde a “ginga” característica do “sambalanço” e da “bossa-nova” se acham tão a gosto da nossa gente moça. Creio que assim, posso apresentar em alguns traços, a figura deste moço notável que toda a Bahia se orgulha e aplaude. Espero agora que, se você ainda não o conhece, procure fazê-lo já, botando no prato de sua eletrola o disco, para ter a oportunidade de endossar a nossa opinião a respeito deste jovem. Mas!… cá para nós, tenho certeza de que você dirá nem que seja em silêncio: – “Salve a Bahia sinhô, que dá um cabra da peste desse, bom prá homem nenhum botar defeito.

 

 

 

Um Comentário...

  1. Tadeu Bahia disse:

    Conheci muito o Carlos Lacerda com a sua natureza feérica e neuroticamente fenomenal ao tentar “nos afinar” com os gritos nervosos das teclas do seu piano… Início dos anos 1970 e as belas e saudosas tardes na TV Itapoan, Canal 5 e as eternas recordações do amigo Carlos Pitta ganhando o Festival daquele ano ao defender a música “O Tropeiro”, da autoria do outro nosso amigo, o escritor e poeta Fernando Antônio Pinto. Tudo com o “espírito” do maestro Carlos Lacerda por trás, e os seus louváveis ensinamentos! Anos depois fui colega da sua esposa, a Irany Lacerda, na Secretaria de Educação e Cultura onde trabalhamos juntos no final da década de 70. O inominável maestro Carlos Lacerda é um nome a ser resgatado para conhecimento das novas gerações. Parabéns pela nota postada no Caderno de Cinema, um grande abraço, meu nobre Jorge Alfredo Guimarães!

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