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por Sérgio Machado

Eu estou bem nas vésperas de rodar o meu próximo longa (o título provisório é Heliópolis). Os dias que antecedem uma filmagem normalmente são mais  tensos (e intensos) do que a própria filmagem. Tecnicamente falando, estou bem no olho do furacão. Mesmo assim achei que não podia deixar de atender o convite de Jorge Alfredo para escrever um pequeno texto para o Caderno de Cinema.

Resolvi revisitar um email que escrevi para Lázaro, Wagner e Alice Braga nas vésperas das filmagens de Cidade Baixa. A carta, escrita há oito anos numa situação bem parecida com a que estou vivendo hoje, me fez perceber que as coisas que eu quero para o meu novo filme são muito parecidas com as que eu desejava para o Cidade Baixa.

Esse texto foi escrito em Cachoeira, numa noite de insônia, poucos dias antes de começarmos a rodar. Imagino que, para quem gosta de cinema, seja interessante entender um pouco do que o que se passa na cabeça de um diretor nos dias que antecedem uma filmagem, os desejos, as ansiedades, o medo do goleiro diante do pênalti…

Truffaut uma vez disse que o cinema é a verdade a vinte quatro quadros por segundo. É este tipo de cinema que mais me interessa.

É preciso que as pessoas acreditem no nosso filme a cada segundo – se por um momento as pessoas duvidarem de que o que estamos fazendo é verdade, a gente errou em algum lugar.

Eu me interesso mais por filmes que falam de gente e não de grandes eventos – esta história não é uma denuncia sobre as condições de vida das prostitutas ou dos malandros do cais do porto. É uma história de gente como nós, que deseja, sente, ama, sofre, tem tesão, tem medo, caga, chora, tem raiva, goza, é boa e é ruim, é violenta e é plácida…

Um dos personagens que eu mais admiro é Travis Bickle, motorista de táxi interpretado por De Niro em Táxi Driver. Gosto especialmente, de uma cena entre ele e  a personagem de Cybill Shepherd. Ele entrega um disco de presente para ela que contém a música “Walking Contradiction” e ela diz que é isso o que ele é: uma contradição ambulante. Acho que a força deste (e de qualquer outro) personagem está justamente nas contradições – ele te surpreende a cada cena, é cavaleiro andante e psicopata, não é possível antecipar o que ele vai fazer. As pessoas – ao menos as mais interessantes  – são assim. Santas e putas, anjos e demônios, tudo ao mesmo tempo.

Acho que a gente deve buscar a cada dia de filmagem as contradições destes personagens. Torná-los humanos, dar vida a eles. O período de ensaios vai ser fundamental para isto. O roteiro deve ser tomado como um guia de viagem (a palavra roteiro já sugere isto) – a gente  deve buscar outros caminhos, encontrar atalhos ou às vezes até caminhos mais sinuosos.

É sempre melhor quando a gente consegue definir os rumos nos ensaios. A filmagem é sempre mais cheia de tensões – existe mais pressão e menos intimidade.  Isso não nos impede de arriscar também durante as filmagens.

Um dos maiores riscos que corremos é o de cair em estereótipos – A PUTA, O MALANDRO BAIANO – o problema é que este é um universo  fascinante a ponto de ser uma tentação descrevê-lo – isto seria um erro. Vale repetir: o filme não é uma crônica de costumes, é uma história de pessoas.

Os personagens devem se relacionar sempre uns com os outros, nunca com o público. Naldinho só pode fazer uma piada se for para Deco rir – se o público achar graça também, vai ser ótimo – mas não deve ser esta a intenção. Karinna é sedutora para os dois e não para os espectadores do filme. Deco, Naldinho e Karinna é que devem me dizer onde colocar a câmera, eles vão mostrar a Toca como iluminá-los, a Marquinhos como deve ser o seu entorno… o filme deve ter o ritmo da batida do coração destas três pessoas.

O ambiente da malandragem e da prostituição sempre deve ser encarado como pano de fundo. O jeito de falar dos baianos, a sensualidade e a dureza da vida das putas nunca deve ser o assunto principal de cada cena. Isto pode enriquecer o filme se for mostrado na medida certa, mas nunca pode estar na frente do que nos interessa: o desejo dos personagens.

Naldinho, Deco e Karinna poderiam trabalhar em um supermercado, ser atores de um filme, bater ponto numa grande empresa ou num Shopping Center. Poderiam ter nascido na Noruega ou na Etiópia. Eles agiriam de um modo diferente, mas poderiam se amar e sofrer do mesmo modo… ou seja o que é essencial, o que nos interessa realmente se mantêm.

Eu quero buscar o Deco que existe em Lazinho, o Naldinho que existe em Wagner e a Karinna que existe em Alice.

Contar uma história bem contada já não é fácil, mas gostaria de tentar fazer mais que isto. Gostaria de falar de sentimentos que são universais, que dizem respeito a cada um de nós. Lealdade, paixão, ciúmes, inveja, coragem, medo, tesão, amizade… Isso é pular num abismo sem ter medo do que vai encontrar lá em baixo. É acreditar muito um no outro, é se permitir buscar coisas que a gente nem têm certeza que existem.

Atuar tem muito que ver com a arte de pular do trapézio –  com o momento em que o trapezista larga a  sua barra e tem que acreditar que o outro estará do outro lado pronto para segurá-lo.

É isso aí, por enquanto, vamos pular juntos e rezar para Deus, Oxalá e todos os Orixás  nos ajudarem nesta jornada…

Beijos para todos,

Sérgio

20 Comentários...

  1. aicha marques disse:

    Essa carta é para todos os atores. Serve como inspiração para entender o processo de filmagem, o grande jogo que é viver a cena. O velho “se fosse” do Mestre Russo. Cinema é a arte do mergulho no instante presente eternizado. É risco, é entendimento, e desassombro. Amo cada vez mais fazer cinema. Obrigada, diretor. Evoé! !!!!!!!

  2. Rita Albano disse:

    Voltei no tempo, Sérgio! Linda carta! Foi uma grande aprendizado estar ao seu lado nesse filme, que carrego feliz em minhas reminiscência.

  3. Rita Albano disse:

    Voltei no tempo, Sérgio! Linda carta! E maravilhosa experiência que foi estar ao seu lado nesse set. Apredizado que carrego com muito carinho em minhas reminicências.

  4. Paula Franco disse:

    Que delícia ler isso Sergio.Parabéns,você atingiu o que pretendia ao ler sua carta , pois cidade baixa é fantástico,um dos filmes nacionais que mais gosto. E com certeza por causa dessa sua sensibilidade e preocupação com o sentimento das pessoas e nao na obra por sí apenas.

  5. Adrian Cooper disse:

    Uma carta precisa e comovente Sergio… lendo, bateu uma baita saudades da convivencia com essa sua entrega, sensibilidade e generosidade aglutinadora com seus parceiros (sem esquecer o simples prazer do trabalho!). Muito boa sorte para Heliópolis… força e dias sem chuva para todas!

  6. Terezinha Berber disse:

    Que proveitoso adendo esta pontual carta, pra mim que vi, vivi e pude sentir toda esta busca sua, ao assistir esta encantadora entrega destes reconhecidamente ótimos atores.
    Puro deleite esta entrega.

  7. Muito Legal a carta! Fiquei emocionado e lembrei da ansiedade que passei fazendo 3 meses de pré em Cachoeira. Imagina você escrevendo esse roteiro por tanto tempo. Quando for realizar algum filme consultarei essa carta. Boa sorte no novo filme! Abraço
    RPM

  8. Graziela Teixeira disse:

    É uma honra para Heliópolis um filme com Sérgio. Obrigado por mostrar para nós a maravilha que é o cinema,

  9. Maria Dirce Couto disse:

    Já era fã do seu trabalho , e pra mim foi uma felicidade participar do bate papo com você no Studio Fátima Toledo , poder te ouvir , perceber o tamanho da sua sensibilidade , a franqueza e generosidade divididas ali com a gente, atores; sempre aflitos e frágeis , sempre que nos deparamos com o prazer desafiador de uma nova experiência . Pude sentir um cúmplice , isso foi muito bom . Essa carta reforça a sensação boa de acolhimento e cumplicidade no processo onde mesmo quando a equipe está rodeada da equipe há uma solidão comum . Essa carta complementa aquela conversa , recebo com uma aula . Obrigada ! Um abraço . Sorte sempre !

  10. Ingra Liberato disse:

    Que carta profunda, simples e verdadeira, Sergio. A busca da verdade e a completa entrega do corpo e da alma na vivência da cena, muitas vezes vai sendo substituída por necessidades de realizações que não tem nada a ver com arte. Sua carta deve ser dita como mantra para que não esqueçamos porque estamos nesse caminho sem o qual não conseguiríamos viver plenamente. Obrigada!

  11. Ingra Liberato disse:

    Que carta profunda, simples e verdadeira, Sergio. A busca da verdade e a completa entrega do corpo e da alma na vivência da cena, vai sendo esquecida e substituída por necessidades de realizações que não tem nada a ver com arte. Sua carta deve ser dita como mantra para que não esqueçamos, porque escolhemos esse caminho sem o qual não saberíamos mais viver. Obrigada!

  12. Rita Carelli disse:

    Bonita mesmo, Sérgio. Denota uma sensibilidade, uma generosidade e uma crença no trabalho dos atores a da equipe que é uma benção para qualquer ator. Sorte deles. Sorte sua por se deixar permear. Sorte nesse novo filme. Abraço. Rita.

  13. Celene Fonseca disse:

    Acho que o segredo é contar uma história bem contada. Sem mais. Sem menos. É cortar a “gordura”. Assim, a “peça” fica bem encaixada. O problema todo é saber o que é “gordura” naquele filme específico. E, claro, o que é essencial para passar a mensagem. Não podemos esquecer da mensagem. Sem pieguice, mas mensagens sempre existirão.

    Gostei de ter notícias de Jorge Alfredo. Ele foi meu colega no curso de Ciências Sociais.

    Abs,

  14. Solange Lima disse:

    Sérgio,
    AMEI ESTA FRASE: “É preciso que as pessoas acreditem no nosso filme a cada segundo.”
    Vou citar por onde for.
    Se não virar camiseta…rsrs
    Pode deixar que citarei o autor.
    Sucesso na nova jornada acreditando a cada segundo.
    Pessoalmente lhe agradecerei uma outra faze que me falastes no lançamento do Cidade Baixa no TCA que me marcou e me transformou.
    bjs,
    Sol

  15. Iracilda Figueiredo disse:

    Estou atenta para ler os comentários pertinentes a Revista, são esclarecedores no que trata da realidade do cinema baiano o que nos tira da alienação do acontece com o cinema e os muitos talentos aqui existentes.

  16. ana luiza campos disse:

    Adorei Sergio, esse texto me fez mergulhar nas lembranças do meu primeiro longa, Cidade Baixa. Que alegria, a de 2004 e a de hoje. Fiquei mais feliz ainda em saber que a iniciativa foi de Jorginho, querido Jorge Alfredo que não vejo a um bom tempo. Parabéns e sucesso a ambos.

  17. jose araripe disse:

    Maravilhoso o relato. O calor que emana da tensão de estar tão perto e tão longe do que se deseja intensamente. Documento especial de como nasce – amdurece – um filme. Muito bom conhecer esse segredo.

    abrc, campeão.

    Arara

  18. Edyala Yglesias disse:

    Encontro Sergio na sua carta, nesse caderno de cinema que se torna uma esquina para encontros e conversas inesperadas. Longa vida ao Caderno. Pra Sergio,
    sucesso no seu novo longa!
    Beijo em todos,
    Edyala

  19. João Paulo Costa disse:

    Belo texto, Sérgio. Certamente essa qualidade ao escrever o pessoal da velha Facom não conhecia. Pode funcionar realmente como um manual para cada e qualquer um, filme, peça, livro. Sem verdade, intensidade e foco, a arte passa desapercebida.
    E parabéns Jorginho pela iniciativa para reunir os bons, ou maus, os feios….os bonitos, os todos.

  20. josé joffily disse:

    uma beleza a carta do sergio machado. Ainda melhor o prólogo, porque está escrito no laço. Abraços e boa sorte para Heiliopólis!

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