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por Vitor Hugo Soares

março de 2009 (Suplemento Cultural A Tarde)

 

Encontrei cuspindo fogo nesta segunda-feira(02/03) em um shopping de Salvador, o cineasta Tuna Espinheira, premiado documentarista baiano. No final do ano passado, ele lançou “Cascalho”, seu primeiro longa, baseado no romance homônimo de Herberto Salles, sobre o ocaso da era das lavras de pedras preciosas na Chapada Diamantina, nos anos 30.

Bastam uns poucos minutos de conversa para perceber que o “velho”Tuna tem motivos de sobra para a sua ira. O principal deles é o  injustificável tratamento de pouco caso que o seu trabalho tem recebido em algumas áreas exibidoras de sua terra. Depois de várias tentativas, seu belo filme (vi na estreia e posso afirmar), genuinamente baiano a começar pelo elenco de primeira encabeçado por Othon Bastos e Irving Sâo Paulo (falecido), teve recusadas as solicitações de agenda e datas para a exibição de “Cascalho” em uma das quatro salas do Espaço Glauber Rocha, na Praça Castro Alves.

Pedi a Tuna um texto escrito com o próprio sangue, sobre suas aventuras e desventuras nas últimas semanas, na tentativa de jogar luz sobre o enigma que se esconde sob os tapetes poeirentos das estranhas negativas, que vai a seguir para informação, avaliação e julgamento;

 

Barrado no baile

 

“La Nave Vá…” Esta seria a doce resposta que daríamos aos que nos perguntam sobre lançamento de Cascalho. Os ditames das circunstâncias nos impedem de retrucar com esta placidez de espírito.

É uma situação embaraçosa exercitar explicações suficientes para dirimir que, embora “Lá Nave Vá”, segue enfrentando uma atroz calmaria.

Não seria muito difícil escrevinhar um relatório sobre as mazelas inerentes a uma produção de baixo orçamento, mas isto não passaria de uma tentativa de requentar um assunto velho e indigesto, correndo o sério risco de cair no “Muro das Lamentações”, desaguando em mágoas e outras inúteis perquirições no campo da metafísica.

Mas, em meio a tantas perguntas que me fazem, uma acerta agônicamente e, praticamente, me emudece: “Porque não passou no escurinho do cinema Glauber Rocha?” Decifrar este enigma que o diabo amassou realmente me devora!

O Complexo que trás o nome do luminoso Cineasta, possui quatro salas de exibição, com equipamentos de última geração, contando-se aí, projetores para filmes em película e Mídia Digital (o Código Raien). Coincidentemente, o nosso filme em questão, possui os dois formatos. Ralou para ficar pronto. Hoje está apetrechado, com todos os requisitos técnicos exigidos para toda e qualquer requintada projeção comercial.

O Complexo de Cinemas Iguatemi, brindou o nosso filme com uma luminosa festa de pré-estréia, cedeu uma sala em Salvador e outra em Feira de Santana. Quase um mês depois veio a inauguração deste outro “Complexo”ao qual estamos nos referindo, portanto em pleno lançamento da nossa fita, fizemos o devido contato, reiteramos, por incrível que pareça, nada foi respondido, perpetrou-se o mais completo e abominável “Ouvido de Mercador”.

O filme barrado no baile é um produto genuinamente baiano, 80% dos técnicos e atores são prata da casa, sua produção deve-se a um Edital promovido pelo Governo Estadual. Neste 2009-DC estamos comemorando o cinquentenário do Cinema Baiano (de longa metragem) que se iniciou com o filme, Redenção, de Roberto Pires ( o verdadeiro Borba Gato do cinema baiano), Cascalho completa este período emblemático. É uma mera convenção, mas faz parte das comemorações de cinqüenta em cinqüenta anos, acontece agora com Redenção e Cascalho.

A Bahia sempre teve os seus burocratas da cultura, agora temos um “coronelete” de plantão, uma raça julgada extinta. Censor, porteiro kafkiano, entrincheirado sob os podres poderes, enodoando o nome do libertário Glauber Rocha. Vai chegar o dia em que o personagem, António das Mortes, descerá das telas para prestar contas com este dito cujo. Da nossa parte, sem entrar no mérito do valor, podemos afirmar: Cascalho não é um filme datado. O silencio imposto pela inexplicável e cruel proibição no espaço que resultou da briga do cinema baiano como um todo, não vai ofuscar o direito à vida desta fita, ficará apenas como sendo uma espécie de marca da maldade.

No momento nosso filme está em cartaz na gloriosa Sala Walter da Silveira, pode ser visto e conferido”.

 

 

 

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