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por Adalberto Meirelles

 

É fácil deduzir por que há pelo menos duas décadas os versos de Mudanças – cantados por Vanusa com ênfase dramática de fazer corar feministas que na década de 70 queimavam sutiãs em praça pública – são os preferidos de 10 entre 10 travestis e transformistas que fazem shows em boates gays Brasil afora.

Gravada no Lp Mudanças, lançado em 1986, a música, feita por Sérgio Sá e a própria Vanusa, embala o curta-metragem Da Alegria, do Mar e de Outras Coisas, de Ceci Alves, que resgata a história das travestis baianas Luana e Joyce, obrigadas a se jogar no mar para fugir dos tiros e espancamento de dois policiais que as escoltaram à noite até a perigosa praia da Pedra do Sal, em Salvador.

O caso, com ampla cobertura pelos jornais baianos, aconteceu na década 90 do século passado. Joyce morreu, mas Luana conseguiu se salvar e denunciar os militares. Hoje vive na Itália assistida pelo Programa de Proteção a Testemunhas.

Corte!

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Anos 2000: eu, Ceci e Fátima Oliveira, colegas de redação no jornal A Tarde, vivíamos a cantarolar pérolas do cancioneiro popular brasileiro, tipo “Eu vou tirar você desse lugar…” e “Uma tarde tão linda de sol…”, quando eu me saí com essa:

“Hoje eu vou mudar
Vasculhar minhas gavetas
Jogar fora sentimentos e ressentimentos tolos
Fazer limpeza no armário retirar traças e teias
E angústias da minha mente
Parar de sofrer por coisas tão pequeninas
Deixar de ser menina pra ser mulher”

Gargalhada inconfundível de Ceci ecoando aos quatro ventos para se instalar em cada canto da redação. Ninguém entendia nada…

– De onde você tirou isso?, perguntou ela.

-Você não conhece?, respondo.

– Não, me diga!

– É de Vanusa. Em qualquer boate gay, há anos e anos, tem sempre um quadro de shows com um travesti ou transformista dublando isso…

Ação!

Com Rodolfo Lima no papel da travesti de show Nem Glamour, Rodrigo Porto, que faz Joy, representando a que morreu afogada, e Duda Woyda e Adilson Conceição como os policiais que as empuraram para as ondas, Da Alegria, do Mar e de Outras Coisas ganha as primeiras exibições até o final deste ano. E na tela, para a minha Alegria, meu nome estará estampado nos créditos:

– Não lembra da história, Adalbe? Esse filme será dedicado a você”, disse-me Ceci assim que escreveu o roteiro.

“Tranqüila e pacificadora, mas ao mesmo tempo irreverente e revolucionária”, Ceci me passou para ler o roteiro finalmente contemplado em 2010 no edital de demanda espontânea do Fundo de Cultura/Funceb-Ba do governo do estado.

As filmagens duraram três noites do friorento mês de junho passado. O mítico bar de travestis Âncora do Marujo, na Carlos Gomes, o Cine-teatro Solar Boa Vista, o Forte do Barbalho, sede da Bahia Film Comission, e a Praia de Jaguaribe, onde foi gravada a sequência da morte da travesti Joy, serviram de locações.

– Ceci, fale um pouco da história do curta. Na realidade você dá um trato ficcional ao caso das travestis que se jogaram no mar, utilizando a música de Vanusa como tema…

– É isso. Usei esse como exemplar para tratar da homofobia e seus desdobramentos. No caso real, eram duas travestis de rua; no curta, uma delas é de show e sua melhor amiga faz pista. Na noite de abordagem, ela termina sendo levada por engano, junto com a outra, de rua. A de show sobrevive e denuncia os algozes de Joy. E tem que fugir do país para se proteger. Mas, antes, ela faz uma apresentação de despedida, em homenagem à amiga que morreu. Parte da ação dramática do curta acontece durante este show.

A experiência foi tão forte que Ceci pensa em fazer um documentário. “Como se trata de uma história inspirada em fatos reais, gostaria de contar o que aconteceu de verdade e que fim levaram os envolvidos”, diz: “E também mostrar o universo cru e fantástico das travestis, tão à margem de tudo”.

 

FICHA TÉCNICA
Da Alegria, do Mar e de Outras Coisas
Direção: Ceci Ales
Assistente de direção: Edson Bastos
Elenco: Rodolfo Lima (Nem Glamour), Rodrigo Porto (Joy), Duda Woyda (Policial 1) e Adilson Conceição (Policial 2 )
Direção de som: Napoelão Cunha
Direção de fotografia: Pedro Semanovschi
Still: Elói Corrêa
Direção de arte: Renata Soutomaior
Preparação de elenco: Adriano Big Soares
Direção de produção: Vanessa Salles
Maquiagem: Luiz Santana
Maquiagem de efeitos: Mel Meireles
Continuísta e editor: Dedeco Macedo
Produção executiva: Ceiça Boaventura

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