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por Henrique Dantas

 

Um dia estava com um amigo pensando por que continuamos vivos, sendo que tantos morrem todos os dias no nosso entorno. Essa necessidade de viver tem uma relação direta com a necessidade de fazer, de realizar ideias, ideais, pensamentos, sonhos e vazios (sim, o vazio é importante). Um dia fui assaltado voltando de um show com uma banda da qual fiz parte nos idos dos anos 90. Eles colocaram um revolver grande no meu pescoço e falaram repetidas vezes que iriam me matar ali. A fita é adiantada para hoje, no momento que acabo de fazer dois filmes sobre a ditadura militar na Bahia, contrariando um falso aprendizado que tive na escola, de que a ditadura militar não existiu por aqui. O fato é que estou vivo e prestes a filmar minha primeira série de TV infantil, que veio de um projeto fruto do edital curta criança: “A Bicicleta do Vovô”. Uma série que tem a pretensão de resinificar o lado pesado da vida, quando o olhar lúdico de uma criança transforma uma cadeira de rodas numa bicicleta. Esse projeto foi fruto de uma das interpretações fabulosas que meu filho Cauê, fez/faz do mundo que nos rodeia. Tenho me perguntado muito sobre o sentido desses trabalhos, sobre o que estou fazendo aqui. Qual a real importância dos trabalhos que venho propondo ao longo deste curto período de tempo que labuto com audiovisual? É possível ser um cineasta “em cima do muro”? Pode-se agradar a todos? Tem como ser um cineasta e se preocupar com a próxima campanha política do partido X, ou mesmo com um institucional de alguma Federação das Indústrias de Marte? Será que existe “artista com patrão”?

Eu levei 11 anos para no processo de realização do meu primeiro filme, “Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano”. Depois precisei de mais dois anos para colocá-lo nas salas de cinema. O filme teve uma carreira interessante em diferentes festivais (com algumas premiações significativas), foi vendido para quatro Canais de TV, tem 42 mil visualizações no Youtube, e foi o segundo filme baiano mais visto no cinema no século 21 (com 21 mil espectadores) – perdendo apenas para o fenômeno “Baêa Minha Vida”, de Márcio Cavalcanti.

“Filhos de João” foi um filme que me possibilitou compreender a importância do “fazer cinema”. De buscar algo mais do que o glamour ou o cobiçado prêmio em determinado festival. Quando você está na rua e alguém que você nunca viu te aborda e fala da importância para a vida dele de um trabalho que você fez, isso tem um significado absurdo. Um dia, estava eu imerso nesse cotidiano estéril e recebo por e-mail com uma mensagem de uma pessoa que considero um mestre, Geraldo Sarno. Logo após ele ver o filme, ele me escreveu: Grande Henrique! Assisti ontem “Filhos do João”. Me deliciei!  Maravilhoso tudo! O Tom Zé tá consagrado como o mais profundo filósofo que a Bahia jamais pariu, a quinta essência do mais profundo saber. E a magia dos Novos Baianos… O teu filme é lindo, cara. Parabéns mesmo. Me arranja um DVD. É filme para se ter em casa guardado. E quando, certas tardes, atacar nostalgia de coisa nenhuma, a gente volta a assistir pra saber que poesia e vida podem andar juntas, e a gente nem se dá conta. Obrigado por ter feito esse filme. Geraldo.”

Depois de “Filhos de João”, comecei a exercitar a minha caligrafia cinematográfica e realizei alguns filmes, entre curtas e longas, que me ajudaram muito a entender o meu processo criativo no cinema. Comecei a rabiscar meus riscos, meus ingênuos ensaios de escrita dentro da imagem, e, dentro deles, descobri as influências surpreendentes e maravilhosas das artes visuais. Ao olhar os trabalhos que vieram depois de “Filhos de João”, é notória uma vontade de arriscar, de tentar descobrir digitais nessa escrita, buscando contar histórias, produzir discursos, com pinceladas de escultura, de pintura, de desenhos, de dança, de arquitetura, de memórias e pessoalidades. E muito mais do que preocupado em chegar a alguma teoria sobre qualquer coisa, o que me move hoje são as urgências. As minhas urgências que, naturalmente, envolvem uma vontade cristalina de me posicionar.

Se observados os curtas “Ser Tão Cinzento”, “A Bicicleta do Vovô” (minha primeira ficção), “Galeria F, Quando a Chuva Passa”, e os longas “Sinais de Cinza, A Peleja de Olney Contra do Dragão da Maldade”, e “A Noite Escura da Alma”, teremos um caminho de semelhanças e de particularidades. Mesmo em “Filhos de João”, eu vejo pontos de ligação com esses trabalhos mais recentes.

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Em “Noite Escura da Alma” procurei trabalhar com o hibridismo entre o cinema e a performance, tanto que, por vezes, penso em determiná-lo como uma ficção e não como um documentário. Seria este uma espécie de “ficção performatizada”. Com a colaboração imprescindível dos performers Jack Elesbão, Mila Eólica, Paullo Fonseca, Bertrand Duarte, Zé Mário e Edivaldo Bolagi, foi criada uma atmosfera ritualística em torno do lugar, o Forte do Barbalho, que foi o maior centro de tortura na Bahia, à época da Ditadura Militar. Neste lugar, com situações e elementos previstos e reações completamente imprevisíveis, construímos uma narrativa que acompanha todo o processo dos 92 minutos de filme. Definitivamente não é um filme fácil.

Quando fiz este filme, pensava no ponto de vista histórico. Jamais pensei que ele seria também sobre um futuro e um presente sombrio, que se repete e que voltou a nos cercar com suas semelhanças históricas, seus entreguísmos camuflados e seus clones vestidos de camisas de “SAN NIKE”, atuando completamente na normalidade. Me assusto com a contemporaneidade do tema, me assusto com as possibilidades de viver mais uma vez com medo de sair às ruas, de pensar livremente, de ficar com medo do vizinho.

Há alguns dias recebi um telefonema de Moraes Moreira, que, depois de conversar alguns minutos, me agradeceu por ter feito um filme importante sobre a história da Música Popular Brasileira, sobre sua história, sobre o que ele já foi. Fiquei sensibilizado com a forma como ele se colocou. Moraes é uma pessoa especial na minha vida, não apenas pela música que fez e faz, mas por ter sido o “Novo Baiano” que “comprou a ideia” do filme, e defendeu a importância da sua realização.

De “Filhos de João” até “A Noite Escura da Alma” passei por processos nebulosos no fazer um cinema “caboclo com vísceras”. Adoeci com Olney, chorei e sofri com os Novos Baianos, e depois mergulhei num poço escuro com as histórias de terror da nossa “Terra da Alegria”, em “A Noite Escura da Alma”. Hoje entendo melhor porque aquele gente boa não atirou na minha cabeça, imagina se não estivesse vivo para fazer esses filmes?

 

fotos – Alex Oliveira

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