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Mais dia, menos dia

 

 

por Carlos Coqueijo

 

 

Um amigo na rua Chile, e uma aluna, na Faculdade, me perguntaram se eu era cineasta. Haviam sabido disso pela televisão. De qualquer sorte e por algum pêso, eu entrara pelo canal.Uma propaganda de “Meteorango Kid, o Herói Intergalático”, aproveitara, em jingle de TV, frase minha, publicada a respeito do filme revelação desse jovem cineasta que é André Luiz Oliviera.

Aí então me veio à mente, com um certo sabor de saudade, toda uma época –  a do Clube de Cinema, que o pioneiro Walter da Silveira fundou e eu, e depois Santos Cruz, presidimos por alguns anos.

Não se conhecia filme de arte na Bahia.  Começamos em salão da Secretaria de Educação, graças a Anísio Teixeira, então secretário, e Alexandre Robatto, antigo e tenaz cineasta, que conservou aceso o ideal a vida inteira. O filme era “Visitantes da Noite”, e na pré histórica projetora de 35mm que a Secretaria possuía, Robatto e Rômulo Almeida (o paraibano) faziam milagres.

Recordo um critico que, para malhar o Clube, publicou um sofisma mais ou menos assim; “Todo filme Frances é imoral; o Clube de Cinema só exibe filme Frances”.  Logo, Walter picou-se, queria responder, fazer zoada pela imprensa, mas aconselhamos que era melhor deixar pra lá…

Quando Clouzot veio até aqui com sua mulher Vera Amado, resolvi propor a concessão do titulo de sócio honorário do Clube de Cinema da Bahia ao irrequieto “metteur en scène”. Os radicais protestaram, mas consegui levar avante a idéia. Clouzot tinha vindo para descobrir o mistério dos candomblés. Morou num segundo andar do Largo do Rio Vermelho, num casarão de esquina. Logo depois, Caribé reside no mesmo local, amarrotado e abandonado no lixo, o belo diploma que o nosso Clube havia outorgado ao diretor frances.

O primeiro festival de curta-metragem de arte (1951), fomos nós que realizamos, no velho Guarani. O Ministro da Educação era um homem da inteligência de Simões Filho e logo cedeu seu avião para trazer os convidados que fariam conferencias. Imaginem a seleção; Alberto Cavalcante, primeiro diretor brasileiro de nome na Europa; Vinicius de Moraes, a quem não conhecia como musico e que curtiu pileques homéricos no Tabaris; Alex Viany, Salviano Cavalcante de Paiva, Luiz Alípio de Barros.

A província, que começara a esquentar artisticamente com o Anjo Azul, ante escandalizados e falsos puritanos, acordava para o cinema de arte.

Bons tempos, em que eu era rabiscador de critica cinematográfica e escutava muita lorota de Lima Barreto, no Anjo, entre acarajés de D. Vitorina e canecões de brama 50.

 

 3 de junho de 1970 (ATarde)

 

Um Comentário...

  1. Márcia Nunes disse:

    Recordar, reviver, relembrar, reencontrar, recriar e recrear!
    Que memórias…
    Abs,
    m.

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