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Por Caco Monteiro

 

 Continuei caminhando na noite enluarada sem destino, até que vi um barracão de madeira projetando um facho de luz que saia de uma fresta em minha direção. Olhei para um lado, olhei para o outro, e não havia uma vivalma ao redor. Tudo quieto. Olhei em direção ao barracão e vi um pequeno buraco do tamanho de um olho entre duas tábuas. Desconfiado, fui me aproximando bem devagarinho e observando tudo em volta, nada nem ninguém por perto. De repente começo a escutar o som de vários projetores de cinema sair de lá de dentro do barracão. Pensei: “Será que é o barracão de Thomas Edson?!” e comecei a rir baixinho. Continuei caminhando. Aproximei o meu olhar esquerdo naquela pequena fresta para dentro, e para minha total surpresa, vi cenas de filmes sendo projetadas e acontecendo pelo barracão inteiro, cada canto tinha uma cena minha, de algum filme que fiz…

 

A minha primeira história com o cinema foi no Colégio Antonio Vieira, 1978, quando uma turma de jovens abusados (Anaiçara Góes, Sahada Mendes, Solange Galvão, Roger Pires, eu e mais uma galerinha) resolveram fazer um festival de filmes de curta metragem de ficção em Super 8. Tres filmes se inscreveram neste festival e eu atuei em dois. O Cabeludo era a história de um jovem que não conseguia emprego pelo simples fato dele ser como ele era; um cabeludo e nada mais. Nunca me esqueço de uma seqüência em plena avenida sete, em Salvador, ao meio dia, tudo muito mambembe e improvisado. O Roger, que dirigia, falou para um maluco na Piedade: quando ele passar por você, você olha, puxa o cabelo dele e grita “Cabeludo, Filá da puta!!”. Beleza. Vamos rodar! Ação!! Passei pelo maluco, ele agarrou meu cabelo, e gritou cabeludo filá da puta 17 vezes e não largava, mesmo a galera gritando cortou, cortou, cortou, cortou caralho!! Quando dei por mim, eu tava atracado com o maluco, “ Me solta sinhá pôrra!! Tomá no Cu, caralho!!”

Adoraria ver esse filme de novo um dia!! Assim eu debutei no cinema de bitola Super 8.  Depois eu fiz  A Herança, direção de um outro colega, Henrique Jesuino, filmamos boa parte no cemitério do Campo Santo. Meu personagem era o Morto e eu ficava deitado no caixão dentro da Igreja no Campo Santo; Detalhe: meu figurino era um tapasexo branco e o resto do corpo todo besuntado de pasta d’agua branca! Foi uma das coisas mais bizarras que já fiz na minha vida! Nesse filme, atuaram Fernando Guerreiro, Ricardo Bittencourt e um longo e louco jovem elenco.

Fazia cinema, teatro e jogava bola pra pôrra até então! Um dia, Bemvindo Siqueira foi assistir no Vieira uma peça que eu atuava, Celacanto provoca Maremoto,  um drama socio-adolescente, e ele pirou comigo porque toda vez que eu entrava em cena e falava qualquer coisa, a platéia caia na gargalhada sem parar. Viu um palhaço em potencial. Daí então, ele me convidou para fazer parte do projeto de circo que ele queria fazer com o Teatro Livre da Bahia. Prontamente aceito. Assim começou a minha vida de ator, em 1980.

Meu primeiro longa foi A historia da minha vida, de Alvarina de Souza, no Rio de Janeiro, eu e a turma do meu grupo de teatro Lanavevá. Sem comentários, tudo muito sem conhecimento cinematográfico, com um agravante de que o filme todo foi rodado com sobras de filmes virgens de alguns longas e algumas sobras até com validade vencida de LC Barreto (Alvarina foi empregada de Barretão), ou seja um filme bem turvo e embaçado. Vi uma cópia pela primeira vez há dois meses atrás. Muito engraçado o tempo. Foi o primeiro longa que a jovem e talentosa atriz Dira Paes rodou no Rio, ela havia feito uma produção americana no Amazonas,  A Floresta de Esmeralda e daí veio para o Rio. Uma querida.

Quando voltei para Salvador, em 94, a Monique Gardemberg me convidou para fazer uma participação com o personagem Zé, (um lider sem-terra) juntamente com o Bando de Teatro Olodum no filme Jenipapo. Foi o primeiro filme que eu morri, sim porque em A Herança, já comecei o filme morto, lembram? Jenipapo foi legal;  eu contracenei com um ator hollywoodiano chamado Henry Czenzy. Filmamos em São Gonçalo dos Campos, perto de Feira de Santana.

Em seguida veio Tieta, de Cáca Diegues, esse filme sim, haja histórias que aconteceram comigo, pois foi o primeiro filme que participei quase que o tempo todo (12 semanas) com o meu personagem Ramiro, marido de Elisa (Debora Adorno), cunhado de Tieta (Sonia Braga). As histórias mais engraçadas foram com o Chico Anisio, claro. Tive o hilário prazer de trabalhar com ele. Aprendi e me diverti muito com ele!! Nunca me esqueço na noite que pegamos um jatinho, só eu e ele, para Vitoria do Espirito Santo, saindo das filmagens de Tieta em Feira de Santana (Olha Feira de novo na minha vida), para uma vernissage de quadros dele, e essas duas horas de vôo de ida e as duas de volta, foram mágicas, risadarias antológicas. Ele ensinou  para minha pessoa, a melhor cantada de todos os tempos: “Posso convidá-la para jantá-la!”. Outra história engraçada com o Chico durante as filmagens de Tieta, era que a gente filmava em “Picado”, um vilarejo tico, tico, tico de pequeno, há 30 km de Feira de Santana, e dormíamos na Princesinha do Sertão (Feira City). Nas folgas o que fazer? Chico ligava para meu quarto e falava: “Caco? Tá fazendo? EU: “Nada!”. Chico: “Vamos pro Bingo que é a melhor opção cultural prá gente aqui nessa Feira de Santana!”. Cinco e meia da manhã a gente voltávamos, rindo, claro, sempre rindo prá caralho!!

O poder de improviso do Chico era tamanho, que quando a gente ia filmar (Ele fez o Zé Esteves, o pai de Tieta), a galera ficava apavorada, e olhe que eu tô falando de Marília Pera, Sonia Braga, etc., ninguém sabia o que estava por vir…era muito engraçado! Depois das filmagens de Tieta, ele me convidou pra fazer uma participação na Escolinha do Professor Raimundo, foi um das experiências mais deliciosa que tive na minha humilde carreira de ator, ver aquele balaio de puta comediantes juntos num só estudio, e ele comandando aquelas palhaços e palhaças com enorme maestria! A gente ficou mais amigo ainda porque aqui na Bahia, ele torcia pro Vitória. Ai já viu, né?. Esse filme tinha um elenco de gente e técnicos bem legais: André Vale, Zézé Mota, Marília Pera, Sonia Braga, Claudinha Abreu, Edgar Moura, Cecilia Amado, Stu Deutch, Vicente Amorim, Katia Lund, sem contar a nossa turma baiana: Frank Menezes, Lelo Filho, Ricardo Bittencourt, Debora Adorno, Claudio Simões, Wilson Mello, enfim, era gente bacana pra caramba. Foi um filme que acabou e começou diversos casamentos. Como eu estava solteiro nesta época, passei em revista praticamente uma moça de cada departamento do filme, era quase um Tieto.

Em 1996, comecei a trabalhar com a geração de cineastas baianos da retomada, mais precisamente com José Araripe Jr., meu querido Ara.  Primeiro com Mr. Abrakadabra!, depois com O Pai do Rock e e por ultimo com Radio Gógó, o primeiro filme de curta metragem que protagonizei. Todos produzidos pelo querido Moisés Augusto, colega da época do teatro do Livre Teatro Livre da Bahia na década de 80. Mr. Abrakadabra me fez conhecer a cidade de Cachoeira no recôncavo baiano, e contracenar com o mitológico Jofre Soares, foi muito legal! O Pai do Rock foi uma curtição que  o Araripe havia viajado no meu personagem do espetáculo que estava encenando, Divinas Palavras, eu fazia um “Mefistófoles,” , Sétimo Miau, o nome dele, e Araripe colocou o personagem em cena no filme representando o produtor da indústria fonográfica. Foi bacana brincar com o Oswaldinho Mil, Fabio Lago, Daniel Boaventura e George Vassilatos, Os Cafajestes, a peça.

Ai veio  Rádio Gogó, um filme que eu adorei e batalhei para fazer, pois o Araripe queria chamar o Tom Cavalcanti. Aleguei que ele precisava fazer com um ator baiano, e esse baiano só podia ser eu, e aí ele comeu minha pilha e comprou a idéia. Espero não tê-lo decepcionado, acho que não, fiz com o maior carinho e tesão esse personagem. Nesse filme, a seqüência mais louca que fiz, foi na torre da TV Itapoan numa noite madrugada adentro. Era uma logistica complicada e o tempo passava, a gente não filmava, não me lembro porque, lembro da minha angústia de estar lá em cima horas com o tempo passando, com fome e frio prá caralho, preocupado com a hora, pois eu tinha que pegar um avião cedo na manhã seguinte para o Rio de Janeiro, porque estava ao mesmo tempo filmando um curta chamado Orgasmo Total de Luis Abrahmo e tinha que filmar lá. Era praticamente uma época de cinema de guerrilha, a gente filmava com poucos negativos, com muito pouco dinheiro, muitas brigas, mas filmávamos com o maior tesão.

Orgasmo Total, um curta metragem carioca e primeira direção do meu querido amigo e super fotógrafo de cinema Luis Abrahmo, filho do nosso legendário cineasta baiano Fernando Coni Campos. Nesse filme meu personagem era um reporter policial idealista que havia descoberto que havia um tarado na cidade do Rio de Janeiro que matava as mulheres por orgasmo e ninguém acreditava nele, até o dia que ele estava ao vivo num programa de televisão sensacionalista e alguém liga para o estudio dizendo que o tarado estava entrando no seu apartamento juntamente com a sua esposa. Lembro que pedi para a produção sair com uma equipe (reporter e fotógrafo) do jornal EXTRA, aquele jornal que você espreme e sai sangue, para sentir o clima de uma diligência jornalística/ policial. Depois de passar o dia vendo um monte de cadáveres junto com a galera do jornal, perguntei para o fotografo como é que ele conseguia fotografar aqueles corpos sem vida com tanta frieza, e aí ele me disse: “Caco, para mim eu estou fazendo a foto artística mais linda do mundo, pois se eu achar que aquilo é um cadáver, eu não trabalho”.

Eu sempre gostei de viajar, viajo sozinho desde os 10 anos de idade. O cinema e o teatro me fizeram viajar por todo o Brasil e alguns outros paises também. Conheci praticamente o Brasil com o Grupo Lanavevá na decada de 80 e um dos poucos estados que eu não conhecia era o Amazonas. Quem me deu esse privilégio foi um filme que fiz chamado Eclipse de um diretor alemão, Hebert Brodl era o nome da fera. Ele chegou até mim através da sua assistente de direção, a minha querida amiga Ana Cecília, baiana, morena de olhos verdes e além de ser linda, uma excelente atriz. Pois bem, esse filme teve duas curiosidades interessantes. A primeira é que eu nunca havia visto um diretor confiar cegamente num diretor de fotografia, pois foi o primeiro filme que participei que não existia o video/assiste, ou seja o diretor olhava a cena pelo olho do fotógrafo, por sinal bom pra caramba. A outra curiosidade foi que o filme era uma produção alemã, toda a equipe técnica praticamente alemã que não falava a nossa lingua, somente o diretor, e o filme era todo falado em português e todos os atores brasileiros (eu, Matheus Nasthergale, Cida Moreira, Ivone Goffman, Paulo Vespúcio, entre outros). Dois meses filmando em Barcelos no alto Rio Negro, perto da fronteira do Brasil com a Venezuela. Foi uma experiência incrível. Lembro que antes de viajar para as filmagens, o meu personagem era um piloto de avião chamado Jacaré e eu fui até o aeroporto de Salvador, mas precisamente na BATA- Bahia Taxi Aéreo, pedi  para que me mostrassem o painel do piloto, para que eu pudesse conhecer de perto o painel dos instrumentos de navegação de um avião tipo Seneca, que era o que eu ia “pilotar” no filme, pois quando fosse rodar as cenas eu não fizesse feio. Pois bem, cheguei na Bata, joguei a conversa de que era ator, que ia fazer um filme no Amazonas, etc., o cara não só comeu a minha história, como me convidou para o acompanhar num vôo até Morro de São Paulo, pegar um casal. Eu achei sensacional, vamos nessa.  Levantamos vôo e o piloto começou a me explicar a função de cada instrumento. Daqui a pouco o cara diz para eu assumir a direção, para que eu pudesse ter uma noção do peso do avião, eu ai disse: “Perái bróder, precisa não, era só para ter uma noção mermo do painel!” Piloto: “Vá rapaz que tá seguro. Tá vendo aquele morro ali na frente? Centralize o bico do avião bem no meio e vá em frente.” E ai não me fiz de rogado, peguei o “Manche”, o volante do avião, e já senti logo que tava pilotando uma folha de papel A4, de tão leve e sensível que o bicho era. Fiquei nessa onda durante uns 10 minutos, quando fomos nos aproximando do Morro de São Paulo, aí falei pro cara, “Pode pegar de volta que eu já enjoei!”, ele ai pra me “sacanear” me deixou pilotando até quando eu ameacei me transformar num Kamikaze se ele não pegasse a porra do manche de volta. O cara desceu num campo de futebol que eu não acreditava que era possível. Incrível. A gente deu muita risada depois do meu sufoco na entrega de volta do manche.

Outra história de incrível pilotagem nesse filme, foi no dia que eu não filmava, estava de folga e a galera tinha uma noturna numa ilha fluvial perto da Barcelos. A cena se passava num barco-gaiola típico da região amazônica, e a produção tinha uns botes de aluminio com motor na pôpa que funcionavam como verdadeiras “motos” fluviais. Cansado de “piruar” as filmagens dos outros, pedi a produção uma carona num desses botes para voltar para o hotel descansar. Era noite sem lua, eu não enxergava um palmo a frente do meu nariz, e olhe que meu nariz, quando eu jogava futebol, era praticamente um centroavante adiantado,  vivia em impedimento de tão grande que é!… Bem, noite preta, nada se via diante de mim, nem o meio do rio, nem a margem dele, e o louco, o pescador, o marinheiro, nem sei que diabo que o cara que tava dirigindo era, desceu os afluentes do Rio Negro, percurso totalmente  curvilineo, “escalifando”, virado na pôrra, e eu só rezava para os espíritos da floresta, que a gente não pegasse pelo meio do fuças um “tronquinho” de arvore qualquer perdido no meu do rio, porque eu tava odiando a idéia de ser comida de jacaré. Engraçado que com o tempo, no meio do caminho a vista começa a se acostumar com a escuridão e comecei a perceber o limite entre o rio, a floresta e o céu que corria ao longo do trajeto. Vinte minutos depois de cabelos ao vento e o corpo retesado de pavor, chegamos. Eu parecia um náufrago do Destino de Poseidon.

Veio então, o segundo diretor baiano que trabalhei, Edgard Navarro, com o filme Eu Me Lembro. Minha participação se resumiu em duas ceninhas cômicas; a primeira um roça/roça de sacanagem numa arvore de praça com a Rita Assemany, curiosamente uma atriz que eu não falava, por razão de uma sacanagem profissional que ela e Aninha Franco haviam feito comigo meses antes, porém meu lado profissional bateu mais alto e realizei a cena como se tivesse o maior tesão nessa pessoa. A segunda cena, foi uma hipnose coletiva ministrada pelo ator George Vassilatos, muito engraçada. O resto eu não me lembro.

O próximo filme que fiz foi O Caminho das Nuvens de Vicente Amorim. Conheci o Vicente nas filmagens de Tieta, ele era o primeiro assistente de direção  do Cacá Diegues, e ficamos amigos. O Caminho das Nuvens me levou para Juazeiro do Norte, cidade do “Padim Ciço”. Como esse Brasil de meu Deus é eclético e poético. Meu personagem, Severino,  era um vereador que foi eleito pelo povo com 242 votos, alma boa e que dava guarita para a família do Wagner Moura e da Claudia Abreu, com seus cinco filhos que estavam descendo para São Paulo de bicicleta. Numa noite de folga, uma segunda-feira em Juazeiro do Norte, onde ir? O unico lugar aberto e animado era um brega da cidade. Fomos eu e alguns técnicos jogar uma sinuca. Na entrada, havia uma placa, meio que uma tabela de preços: Boquete R$ 5,00. Papai Mamãe R$ 10,00. Frango Assado R$ 15,00, etc. Em baixo do aviso/tabela uma observação: Não trabalhamos com cú, por favor não insista! CORTA gritei eu!!

 

O terceiro cineasta baiano que trabalhei foi o Tuna Espinheira, diretor do filme Cascalho, uma adaptação do épico livro de Herbeto Sales, ascensão e queda do diamante e carbonato na região da Chapada Diamantina. O Tuna não me conhecia, procurei ele e a Iara, sua esposa e co-produtora do filme, fui na cara dura falar com eles para fazer o filme. “Sou bom ator Tuna…Iara, olhem pra mim, acredite em mim…podem me chamar, vocês não vão se decepcionar”. Eu havia lido o roteiro e visualizei um super Nordestern Baiano. O Tuna me presenteou com o Delegado Esquivel, um policial corrupto e medroso. Adorei fazer, principalmente porque contracenava com a velha guarda, Wilson Mello, Harildo Deda, Jorge Coutinho, Roque Araújo, isso mesmo, o querido Roque. Teve uma sequencia de uma “tocaia” que filmamos madrugada adentro nas margens de um dos rios que cortava a cidade de Andaraí, e eu me lembro que eu estava sem  lentes de contato e sem óculos, e tinha que correr em direção ao corpo alvejado de balas de Jorge Coutinho, e eu até hoje não sei como que eu consegui enxergar o caminho completamente escuro e acidentado de pedras por tudo que era lado e fazer a cena. Coisa dos Anjos Cinematográficos. Esse filme teve um elenco 99% masculino, e com grandes figuras do teatro baiano; Wilson Mello, Harildo Deda, Gildásio Leite, Othon Bastos, Lucio Tranchesi, Agnaldo Lopes, entre outros. Um trabalho minucioso e raro do departamento de arte do filme comandado pelo talentoso diretor de arte Moacyr Gramacho, revivendo a cidade de Andaraí nas décadas de 30 e 40 do século passado e uma fotografia de tirar o fôlego de Luis Abrahmo. Foi um barato ver a cidade toda envolvida com o filme durante as 8 semanas de filmagens. O cinema tem essa magia de mudar o astral de uma cidade, as vezes até o seu próprio destino.

Minha primeira participação numa produção internacional foi o longa The Snake King de Alan Goldstein, uma produção americana para o canal fechado SiFi. O curioso é que a história se passava no Amazonas e 90% do filme foi rodado dentro “floresta” do quartel do exército brasileiro do 19 BC no bairro do Cabula em Salvador. Eu me divertir a valer. Era um filme de ação, com todos os seus ingredientes trash americano filme B, beirando ao C.  Fiz porque queria fazer uma produção americana gastando o meu inglês de anos. A sequencia mais divertida de fazer foi a minha morte, olha eu morrendo aí de novo. Eu ficava dependurado de cabeça para baixo, com as minhas pernas amarradas por cordas elásticas que faziam meu corpo subir e descer com um fundo enorme em Chromaqui verde para que no AfterEffcts eles colocassem a projeção da cobra de duas cabeças gigante dilacerando meu corpo ao meio, uma engolia o lado direito e a outra o lado esquerdo. Bota trash nisso. Meu personagem chamava-se Will Bahia, um biólogo que fazia parte da equipe que foi para o Amazonas descobrir a localização de uma aldeia indígena onde seus habitantes viviam 300 anos. Todos morriam, só ficavam o mocinho e a mocinha para contar a história. O “mocinho” principal era o ator Stephen Baldwin, que figura. Ficamos muitos amigos. Ele ria muito comigo.  Tentamos até fazer um projeto cinematográfico juntos mais tarde, mas não andou. Ele era muito evangélico, não bateu com o meu Candomblé!

Na Copa do Mundo de 1986, no México, eu tive o prazer de conhecer uma jovem turma carioca de cinema bem divertida; Tuca Moraes, José Tadeu, Bruno Fernandes, Jorge Saldanha, Lula Leite Franco, Beth Koslowisky, Rudi Lagemann, todos comandados pelo meu bróder e cumpadre Chico Diaz, o ator que tem mais filmes rodados do que anos de vida, um lenda. Sob sua direção, rodávamos o filme documental da primeira missão cultural brasileira depois da ditadura militar fora do pais, Circo Volador – México a Missão, uma loucura maravilhosa que fizemos na cidade de Guadalajara, sede do time do Brasil. Teatro, dança, circo, cinema, capoeira, música, carnaval, baiana, enfim uma geléia cultural verde e amarela de 200 integrantes. Eu estava com o grupo Lanavevá de teatro, e também fazendo parte de uma adaptação do conto do poeta russo Vladimir Maiakóvsky “O Poeta e a Bailarina”, uma historinha de amor ficcional dentro do documentário que estava sendo rodado sobre a missão no México. Meu personagem era o Poeta que se apaixonava por uma  linda bailarina (interpretada por Titila Tornaghi, mãe adorável do meu amado filho, Matheus Tornaghi Monteiro) numa festa de futebol, a Copa do Mundo. Foi uma loucura essa viagem, além da parte sensacional e lúdica de mostrar o que tínhamos de melhor representado da cultural brasileira, era a volta da seleção de futebol a cidade de Guadalajara depois que o escrete canarinho de 70 havia enlouquecido os mexicanos. E também a seleção de 86 comandada por Telê Santana com a maioria dos seus artistas/jogadores que haviam perdido o mundial da Espanha/82,  seleção que havia encantado o mundo quatro anos antes. A seleção de Sócrates, Falcão, Junior, Zico e os cambaus. Teve uma sequencia do filme que rodamos nas arquibancadas do Jogo Brasil X Espanha, o primeiro jogo oficial da seleção na Copa do México 86. Tinhamos ido para o Estádio Jalisco de Guadalajara paramentados de La Porra Brasileña (Torcida Brasileira),  e antes de começar o jogo rodaríamos a cena que era um sonho do poeta, ele encontrava a bailarina debaixo de um bandeirão enorme do Brasil na arquibancada, a camera na mão viajando com o meu personagem naquele universo onírico verde e amarelo.  Antes de rodar a cena, fomos trocar o figurino e  a galera do filme fez uma barreira, uma espécie de camarim improvisado para mim e a Titila no anel de baixo da arquibancada. Estávamos trocando nossas roupas, quando de repente começamos a ouvir uns gritos vindo da parte de cima do anel superior: “Tira-los, tira-los, tira-los!”. Quando olhamos para cima tinha uma multidão de mexicanos olhando pra baixo, em direção da gente para pegar um lance da Titila nua. Era um cinema de aventura total. E foi nesta viagem que conheci, o Rudi Lagemann, o Foguinho, assistente de direção do Chico, um gaucho gremista ferrenho e com muito bom astral. Nos tornamos grandes amigos.

Em 2004, Foguinho veio rodar na Bahia o filme Anjos do Sol, seu primeiro longa como diretor, depois de trabalhar como assistente de direção para diversas feras do cinema, da telenovela e da publicidade brasileira. Depois do México, nos afastamos um pouco e fomos nos reencontrar, alguns anos mais tarde, num comercial de televisão para os Postos BR, sob a direção do João Moreira Salles.  Dai fizemos outro reclame publicitário, uma campanha de lançamento do conhaque Domus e em seguida, eu fiz a produção local do documentário Jorge Amado do João Moreira Salles também, e todos com o Foguinho, assistindo o João. Em 2003, antes do Foguinho fazer o seu Anjos do Sol, acompanhei um pouco da historia que ele queria contar, desde quando o filme foi pensado como um documentário sobre prostituição infantil no Brasil, até quando o Foguinho de tanto ouvir histórias “fuderosas” deste delicado tema no Brasil, resolveu fazer um drama ficcional baseado na vida de uma menina que é vendida pelos pais pescadores para dar de comer aos outros irmãos. Além de fazer uma participação como ator no filme, Foguinho me convidou para fazer a coordenação de produção nas cenas que seriam rodadas na Bahia. Escolhemos uma locação perfeita de casas de palha ao longo do mar (uma colonia de pescadores em Poças perto do Sitio do Conde, para ser a casa da família da menina que é vendida). Nada de arte precisaria ser feita de tão perfeita que era a locação. Acertamos tudo com a comunidade de pescadores, que voltaríamos daqui há duas semanas e fomos embora. Quando voltamos para filmar, desespero, metade da aldeia estava chamuscada por causa de um incêndio que havia rolado na noite anterior, em conseqüência de uma forte chuva, e um raio  havia caído em uma das antenas de televisão causando um curto e o fogo se espalhou por todas as outras casas. Falei pro Fogo: “Pôrra bicho, tudo bem que seu apelido é Foguinho, mas não precisava tanto”. Ele queria me matar com a piadinha que fiz. Gosto muito desse filme.

Estranhos, de Paulo Alcantara, meu quarto diretor baiano, foi produzido pela Araça Azul da minha querida Solange Lima, em 2006. Lembro que fiz o teste para o personagem Geraldão, um bandido macho, porém gay (interpretado no filme pelo Nelito Reis), mas aí Solange, que havia se apaixonado pelo meu trabalho no Cascalho de Tuna Espinheira,  falou para o Paulo que eu me encaixava melhor no Valmir, um empresário de classe C, um brutamontes escroto, casado com uma ex-puta e que batia nela o tempo todo por ciúmes. Não entendi porque me escolheram para fazer um personagem com um porte físico forte e grande como era descrito no roteiro de Carla Guimaráes, já que eu tenho apenas 1,70 e que ele teria que enfrentar na porrada o personagem do Jackson Costa, maior e mais forte do eu. Bem, aceitei o desafio. Falei pro Paulo que queria construir o personagem a partir do bigode dele. Ele topou na hora. Deixei meu bigode crescer e curvá-lo para baixo. Meio caminho andado para o estereótipo malvado do cara.  A escrotidão do personagem já vinha estampada da cara, antes de qualquer olhar ou atitude. Gosto de diretor que discute com o ator tudo, desde a linha interpretativa até o seu visual. Não acredito em diretor que não dirige ator, entrega os atores do seu filme, para um “preparador de ator”. Se fuder!! Sou ator que gosta de ser dirigido pelo “Maestro”. Sou da turma do Glauber, do Godard, do Herzog, do Fellini, do Woody, do Clint, do Kurosawa, do Foguinho, do Paulinho e de tantos outros diretores que acreditam que o ator é seu “cavalo” que vai levar os seus “dizeres” pra frente da camera e consequentemente para o publico!! Diretores que lapidam seus personagens no corpo e na alma dos seus atores! Não acredito em diretor que entrega seus atores para as “Toledos das câmeras”. Não acredito no metodo: “Vamos limpar tudo e começar do zero!!” Hã? E eu estudei anos para que?! É Yoga ou é Cinema? Diretores que pegam “seres” da vida pra tentar ser o mais documental original possível para atingir a verdade!! Argh!! “No acting de cú é rola prá mim!”. A sequencia  deste filme que mais me diverti fazer foi exatamente a cena da briga com o querido Jackson Costa. Ele grande, dois de mim, e eu metade do corpo dele, tudo na paz de Jah!  Era a minha cena final, eu tinha que surrá-lo, para em seguida a Mariana Muniz,  atriz mineira querida, que fazia a minha mulher, dar um chute de misericórdia nos “corneos” dele. O fotógrafo Antonio Luiz Mendes juntamente com seu assistente Haroldo Borges, queria a camera na mão acompanhando toda a “porradaria”.  Era uma noite quente prá pôrra, numa locação no bairro Caminho de Areia, e a cena  comendo. Lembro que eu ficava meio receoso de bater em Jackson, e ele: “Manda brasa Caco, que eu seguro no abdômen!”. Tá bom, pensei…eu aí fui com a pôrra! No outro dia Jackson chegou no set com a barriga com pequenos hematomas. Falei: “Tá reno aí, eu não queria, mas você insistiu! Sou pequeno, mas boto prá bater?!”. Caimos todos na gargalhada. Acredito que seja o meu melhor trabalho em cinema. Obrigado Solange, Carla e Paulo por esse belo trabalho.

Caco dirige Chica Carelli em Meio Poeta

2008 foi um ano especial para mim, foi quando eu me formei em Bacharel de Comunicação Social com Habilitação em Cinema e Video na FTC. Foi o ano que eu dirigi o meu primeiro filme; um curta metragem na bitola de 16mm. Tinha um sonho em dirigir um filme e o Meio Poeta me proporcionou isso. É uma adaptação que fiz de um conto do Luis Fernando Verissimo que guardei numa gaveta por 21 anos, depois que havia lido em 1987, quando ainda morava no Rio de Janeiro. Eu nem pensava ou sonhava em fazer cinema, quando li o conto, pirei e falei para mim mesmo: “Um dia eu ainda adapto para um roteiro e filmo ele!”. E esse dia chegou, no sétimo semestre da faculdade, quando a turma  tinha que apresentar um projeto. Trouxe o roteiro  adaptado para a sala de aula e a galera topou, mas aí eu falei; quero dirigir também. Hamilton Oliveira, meu querido amigo fotógrafo “puta” velha e colega de sala, me ajudou muito neste momento. Valeu Hamiltinho! Pedi a Sylvinha Abreu, da Truque, para emprestar a camera e ela foi muita querida e emprestou para esse filho de Oxaguian e Oxum que vos fala. Produzi o filme como se fosse um longa metragem, levantei um dinheiro para poder pagar a turma da pesada (eletricista, maquinária, contra-regra, etc. e também alimentação e transporte da galera).  Além de Hamilton Oliveira (Fotografia), tive  a parceria de Dedeco Macedo (Camera), Lara Belov e Dodi Só (Produção), Jerônimo Soffer (Primeiro assistente de fotografia) e Gabriel que foram super, somados aos colegas de outros semestres do proprio curso de cinema da FTC. Matheus Vianna, foi meu assistente e parceiro de todo momento, Clarisse Rebouças (continuista), Napoleão Cunha (Som direto), enfim uma galerinha super do bem. Chamei Mauricio Martins para o Figurino e Maquiagem e Carol Tanajura assinando a sua primeira direção de arte. Quis aplicar na prática tudo que havíamos aprendido em sala de aula. O conto é a história de um jovem casal que volta da lua de mel, quando a garota vai até a casa dos pais revelar um segredo do marido que ela havia descoberto na noite de núpcias, causando assim um transtorno familiar terrível. Uma comédia de situação deliciosa do LFV, que para mim é um dos melhores autores do gênero. Na adaptação, fiz um trabalho de pesquisa com uma grande amiga, professora e doutora em Letras da UFBa, Dalila Machado, que me ajudou na pesquisas dos poemas que queríamos incluir no roteiro.

Caco dirige Bertrand Duarte em Meio Poeta

Queria trazer poetas baianos pouco conhecidos do público e ela me trouxe Sosígenes Costa, Carvalho Filho, entre outros e pedi pelo Gregório de Matos presente também, pois na minha adaptação eu fiz uma homenagem ao cineasta Edgard Navarro, trazendo de volta o personagem central do clássico filme dele, Superoutro, vivido na pele do meu querido Bertrand Duarte, vinte anos antes. Foi sensacional o Bertrand ter aceito fazer o filme, e com esse personagem. Nos divertimos muito, nunca havíamos trabalhado juntos. Para compor o meu elenco eu chamei a minha  querida Chica Carelli para fazer a mãe, o Ricardo Luedy, para fazer o pai e também a direção musical. Laura Campos para a interpretar a garota e o Bernardo Del Rey, um jovem ator talentoso, para fazer o poeta e marido, além da atriz, que para mim é a mais completa dessa geração de atrizes baianas, Evelin Buchegger, para fazer uma super participação especial. Sim, sem contar na pessoa que vos fala, porque não dá pra ficar só atrás das cameras, eu tinha que estar em cena também, aprendi com o mestre Hitchcock. Esse filme é um balaio de homenagens, começando pela poesia baiana, o cinema baiano, e principalmente a Salvador, minha cidade natal que eu amo (Há uma passagem de tempo no filme que rodei em diversos pontos da cidade, mostrando a velha São Salvador e a parte mais nova da cidade). Dirigir o Meio Poeta me trouxe um conhecimento amplo do trabalho minucioso, perseverante e dedicado que é realizar uma obra cinematográfica. Desde o roteiro até o lançamento do filme. Acredito que todo ator deveria passar por esse processo. Esse foi um sonho que realizei, e que está na lata, impresso no nitrato de prata com o tutano do boi.

Caco Monteiro em Todo Esto me Parece un Sueño

Antes de falar do quinto diretor baiano com quem trabalhei, Geraldo Sarno, diretor do filme Todo Esto me Parece un Sueño, queria falar do mestre Orlando Senna, ambos cineastas baianos de uma geração, que junto com o Glauber Rocha e tantos outros, revolucionaram o cinema brasileiro na década de 60 e 70,  com o Cinema Novo. Sempre ouvia falar do Orlando, como um dos criadores da Escuela de Cinema de Santo Antonio de Los Baños em Cuba, e também por causa do seu clássico filme Iracema.  Em 2007, eu fui convidado pelo cineasta Pola Ribeiro, diretor do IRDEB – Instituto de Radio Difusão do Estado da Bahia para criar e gerenciar a Bahia Film Commission, um órgão facilitador para atrair produções audiovisuais nacionais e internacionais para serem filmadas em locações na Bahia. Orlando era o Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura na primeira gestão do Governo de Lula e que durante as suas férias, sempre ministrava um curso de roteiro de cinema em Lençóis na Chapada Diamantina. Ainda aluno de cinema da FTC, fui participar do curso dele. Foram dez dias de imersão total em como saber contar uma história na linguagem cinematográfica. Sensacional. Nos tornamos amigos, juntamente com a sua esposa e atriz Conceição Senna. Carinho e admiração profunda que tenho pelos dois e quero muito ainda ser dirigido por ele. Foi nesta mesma época que conheci o outro mestre, Geraldo Sarno. Figuraça. Não consegui ser aluno dele na FTC, mas fui dirigido por ele numa pequena participação no seu “Doc-Fic” Todo Esto me Parece un Sueño, um documentário sobre um general brasileiro pernambucano, Abreu e Lima, que lutou junto com o revolucionário Simon Bolivar na Venezuela. Geraldo teve a base de produção do filme dele no Forte do Barbalho, o Forte do Cinema, sede da Bahia Film Commission, onde também outras produções tiveram suas bases de produção. Geraldo então me convidou para interpretar um Frei Franciscano que dava a extrema-unção do personagem principal, o General Abreu de Lima, interpretado pelo querido e saudoso Wilson Melo. Foi muito divertido, porque toda vez que eu e o Wilson nos encontrávamos, só falávamos sacanagem. Não tinha jeito. Geraldo sério, chamou a gente prá marcar a cena antes de filmar. Beleza, vamos nessa. Wilson deitado na cama com um camisolão e cabelos todo branco e arrepiados pra cima, e eu sentado ao seu lado, com aquele meu cabelo raspado tipo franciscano e batina marron!…Marcamos a cena. Maravilha.   Aí antes de rodar, eu pedi para fazer mais um ensaio. Geraldo, tudo bem Caco, Vamos lá.  Eu aí prá pegar o Wilson na sacanagem, fiz a versão gay do padreco dando a extrema-unção dele. Wilson não se fez de rogado, na mesma hora veio junto na bagaceirada, foi sensacional. Geraldo não acreditou, caiu na gargalhada da nossa brincadeira, queria morrer de tanto rir! Filmamos num casarão colonial do século XVIII no recôncavo baiano muito legal. O grande barato é poder trabalhar e reverenciar os nossos mestres, ao mesmo tempo, dando muitas risadas.

Sou um fã e leitor do escritor colombiano Gabriel Garcia Marques desde a minha adolescencia. Cem Anos de Solidão foi um soco no meu jovem estômago quando li, e até hoje procuro no GPS por Macondo. Garcia Marques também foi responsável pela existência na minha vida do cineasta chileno Miguel Littin, com o livro Miguel Littin; Un clandestino no Chile. Li esse livro na decada de 80 no Rio e fiquei louco com a história, que narra a ousadia do cineasta, exilado na Espanha pelo governo do ditador militar Augusto Pinochet, entrando no pais depois de fazer uma plástica para ficar irreconhecível, para filmar os horrores da ditadura chilena. Vinte anos depois, o “double” de produtor e cineasta baiano Valter Lima, o Valtinho Alma de Jegue, carinhoso apelido dado pelo Glauber Rocha, me chamou durante o II Seminário de Cinema para ser um dos atores de um filme que ele iria co-produzir chamado Dawson Ilha 10 com a direção do Miguel Littin, narrando a terrivel história do confinamento na Ilha de Dawson no extremo sul do Chile, dos ministros de Salvador Allende, presidente deposto pelo golpe militar do ditador Augusto Pinochet… Eu: “Hã?”. Atordoado pelo baque do surpreso convite falei: “Tudo bem Valter, aceito, mas e o diretor conhece o meu trabalho?” Valter com um olho aberto e o outro fechado disse: “Caco, eu sou um dos produtores do filme, tenho que indicar dois atores e você é um deles, pôrra”…Beleza! Vamos nessa!”. Valter indicou o João Miguel para ser o outro ator, pois o Littin havia visto ele e adorado seu trabalho no filme Cinema, Aspirinas e Urubus de Marcelo Gomes, mas não conseguiram fechar o item grana. Valtinho então indicou o Jackson Costa, prontamente rejeitado pelo diretor porque não tinha o perfil físico de um chileno. Aí falei para o Valter, também com um olho aberto e o outro fechado: “Valter, chama o Bertrand Duarte, que tá louco para voltar para a vida artística, depois que ele finalizou a sua pausa mais do que dramática no mundo publicitário!”. Valter aí, abriu os seus dois olhos e disse. “Pôrra Caco, você matou a pau!”. Maravilha, Bertrand foi unanimidade na produção e na direção. Fomos para Santiago do Chile por um mês, eu, Bertrand, o Nicolás Haullet e a Simone, sua companheira e sócia, fazendo o som direto do filme. O Bertrand havia ido antes filmar na Ilha de Dawson na primeira fase das filmagens. Para não dá uma de menino diante do mito Littin, comecei a ler livros, estudei profundamente a história do golpe, assistindo uma caixa de 04 DVDs do documentário “A Batalha do Chile” de Patricio Guzman, além de estudar um semestre de  espanhol no Instituto Cervantes para hablar un espanhol tranquilo e satisfatório, mesmo sabendo que ia ser dublado, por causa do “acento” chileno. O que mais me marcou no processo desse filme, foi que antes de cada cena para ser rodada, todos os atores ficavam em silêncio, ouvindo o relato do Littin sobre o clima que existia naquele difícil momento no Chile, pois a maioria dos atores chilenos que estavam atuando, eram crianças quando aconteceu o golpe, sem contar comigo e com o Bertrand, que éramos brasileiros interpretando personagens históricos de uma realidade totalmente chilena. Lembro que teve uma cena em que eu gesticulava “brasileiramente”, e aí o Littin, educadamente pediu para o Jean Littin, seu filho e fotografo cortar.  Ele veio até mim e disse calmamente: “Caco, nosotros chilenos, no hablamos  tanto com las manos asi! Somos un pueblo travado e timido.” O cinema para mim é mágico por isso, pois te leva para épocas, lugares, países, pessoas e costumes que você nunca imaginaria que iria viver, e que ficam marcados pro resto da sua vida. Agradeço muito ao Valter Lima por ter me dado esse presente cinematográfico. Valeu Valtinho!

Um dos projetos cinematográficos que mais me encantou durante o tempo que fiquei a frente da Bahia Film Commission, foi o filme Capitães da Areia de Cecília Amado. Conheci a Cecilia no seu primeiro trabalho em cinema, Tieta. Ela me procurou junto com o Bruno Stroppiana, para que o filme tivesse um suporte logístico da Bahia Film Commission, desde as locações até indicação dos profissionais para trabalhar. Creio que foi o único filme que utilizou toda a estrutura que havíamos montado para dar esse suporte, pois a sua finalidade como Film Commission era exatamente essa. Cecilia teve a preocupação de contar a história adaptada do livro homônimo de seu avô, junto com uma garotada desconhecida, oriundas de projetos sociais como o projeto Axé, o CRIA, Cipó, dentre outros. Foi um processo longo e trabalhoso, mas eu sabia que ia dar certo, pois ela estava sob as bênçãos de Yemanjá, porque a primeira coisa que fizemos antes de começar o processo, foi ir ao mar da Bahia pedir licença para a Rainha. Lembro que um tempo antes das filmagens dos Capitães, eu e a minha querida amiga Fátima Mendonça, fomos visitar Dona Zélia Gattai. Foi uma tarde agradabilíssima, Dona Zelia, contando histórias maravilhosas dela e do Jorge Amado em diversas situações cômicas por esse mundo de meu Deus. Uma certa hora, Dona Zélia e a Fátima combinaram de fazer uma ponta no filme da Cecília, seriam duas freiras do convento que a Dora, amor do Pedro Bala, fica internada. Tudo bem, fechado. Meses depois e antes das filmagens começarem, Dona Zélia foi encontrar o Jorge no céu, e Fátima, não quis mais participar do filme. Cecília insistiu para que ela fizesse e me pediu uma ajuda. Fui até Fátima, e só disse uma coisa prá ela: “Vá Fá, faça, imagine seus netos tendo o deleite de estar assistindo Vóinha num filme com uma história de Jorge Amado e dirigido pela sua neta! Sua imagem vai ficar eternizada numa película!”. Fátima aparece no inicio do filme numa fila dos presentes para Yemanjá no dia 02 de fevereiro, falando para o Sem Perna, um dos Capitães, ficar quieto. Nome da sua personagem nos créditos do filme?! Zélia Gattai!!

Em 2011, participei da última produção baiana ainda inédita, A Coleção Invisivel de Bernard Arttal, um francês quase baiano que é dono do Trapiche Pequeno, um mini-centro empresarial de audiovisual aqui em Salvador. Ele se interessou pelo tema da decadência do império do cacau no sul da Bahia, realizando e dirigindo um doc-tv chamado Os Magníficos, sobre os barões do cacau no passado e como estão agora, para em seguida realizar com o mesmo tema A Coleção Invisível. Ele me convidou para fazer uma participação especial, simpática e engraçada no filme. Um policial que dá uma dura no personagem do Vladimir Brichta, personagem central da história. Fiz o personagem do policial inspirado nos irmãos Cohen. Foi tão rápida, que não deu nem tempo de ter alguma história engraçada para contar prá vocês.

Participei recentemente de Faroeste Caboclo, de Renê Sampaio, uma produção carioca, baseada na música de Renato Russo, narrando a história de João Santo Cristo, interpretado pelo bom ator Fabricio Boliveira. Mais um policial no meu curriculum, esse também muito escroto, que mata o pai do João Santo Cristo ainda criança, e que na fase adulta volta ao mesmo local  vingar a morte do pai, onde ele havia assistido ao assassinato anos atrás. Achei bacana ter feito esse personagem, porque ele tem uma passagem de tempo de 15 anos, e eu e o Renê, discutimos bastante como o policial seria na fase do João criança (bigode, cabelo penteado, farda limpa, etc.) e na fase do João adulta (já decadente, gordo, barba por fazer, farda surrada, etc.).  A cena da morte do meu personagem é sensacional, com direito a efeito de tiro explodindo a cabeça e tensão, muita tensão. Gosto de fazer filme de ação e comédias. Reencontrei a turma de efeitos do The Snake King, a turma do Farjala. Pessoal super “profissa”, com o maior cuidado para que eles não estourassem a minha cabeça de verdade, pois eu tinha uma “bombinha” de pólvora misturada com  mel e anilina vermelha, ligada por um fio elétrico e costurada ao meus cabelos e couro cabeludo . Eles com um controle remoto na mão que iriam detonar na hora do tiro,  fazendo o efeito do sangue jorrando na minha cabeça. A tensão rolou na hora das filmagens, porque era final do dia, a luz estava caindo, havíamos passado o dia inteiro rodando outras sequencias de baixo de um sol escaldante em um povoado chamado Pau Velho no interior de Pernambuco. Filmamos as cenas mais abertas da sequencia e chegamos ao momento do plano fechado. Ensaiamos exaustivamente para que tudo rolasse no “Take One” e ser “Take Embora”, sem repetições. Era uma cena difícil e com nenhuma possibilidade de vacilo. Porque além do  impacto do efeito (podendo me causar dor de cabeça), a sensação era como se você tivesse tomado um forte “cascudão” nos seus miolos,  eu tinha que deixar o pescoço bastante relaxado, podendo travar o pescoço, se algo falhasse, não havia possibilidade de repetição nenhuma.  Ok, galera, vamos nessa? Grita Renê: Ação!! Fabrício: POW! … Quando eu assisti a cena depois no video/assiste, pensei , “Caralho que maravilha que deu tudo certo nesta minha última morte!”.

Sou ator de teatro, porque amo o sorriso da platéia!

Sou ator de cinema, porque sei que minha família vai chorar e rir de mim prá caramba!

Sou ator de publicidade, porque adoro dar um recado!

Não sou ator de televisão, porque ela, é muito pequena prá caber a minha Cia. de Personagens de Mim!

3 Comentários...

  1. Emmanuel Requião disse:

    Muito bacana Caco!

  2. Rui Manthur disse:

    Bela história, Caco. Lendo-a, reafirmo a escolha que fiz em ser ator, mesmo dividindo o meu tempo com outra profissão, reconhecendo cada imagem produzida nas suas palavras. Saúde, prazer e sucesso sempre. Axé

  3. Bertrand Duarte disse:

    Caco Monteiro, um ator, um currículo vivo do teatro e do cinema. Parabéns irmãozinho. Te admiro muito! bjs

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