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cinema é cachoeira, diamante e acesso

 

por Marcos Pierry – curador do Cine Diamantina

 

Na Chapada a paisagem define – o semblante do homem, sua fome e forma de criar. Na Chapada, de maneira literalmente geológica, encontra-se a matéria prima das imagens em movimento antes do cinematógrafo precipitar o primeiro giro e faiscar a lente. Há por lá, como que contaminando os modos de viver, cachoeira e diamante numa expressão de natureza, legado e intriga. Elementos com potência para fazer figurar todo e qualquer drama a ser representado. Cachoeiras dinâmicas, belas e contínuas – para invocar o maestro de Cataguases Humberto Mauro. Diamantes indomáveis, monométricos e de brilho-mor – para invocar os gregos, mestres na etimologia do termo e na origem da encenação; bem como os ourives, mestres locais que poliram a pedra e do lastro de fortuna do puro carbono também fizeram ferramenta, instrumento de trabalho para fabricar outras tecnologias e sintaxes.

Assim mesmo, no encanto e na precisão das mitologias reais da Chapada, projetam-se as linhas de ação do Cine Diamantina 2017, não deixando de assumir-se no vapor do calendário nacional de golpes e galopes como um gesto político. Sim, quando política quer dizer cineclube (assistir e debater), escola (audiovisual articulado à formação), memória (rever para avançar) e resistência (uma mostra audiovisual onde não há salas de projeção). Para tratar de infância, ecologia e – não menos – de cinema, tudo parte da tela e vai para ela. A temporada ocupa três semanas da agenda de comunidades em diferentes municípios e foi concebida em diálogo com educadores e representantes de cada lugar.

Tomando o paradigma do popular como desafio, e não como concessão, quatro mostras temáticas repercutem veios recentes, remotos e de pegadas diversas da produção brasileira: Curta a Infância!, em cartaz no ambiente escolar, enxerga professores e alunos de oito a dez anos plugados no brincar como pedagogia de pertencimento e descoberta rumo a territórios da memória pessoal, social e natural dos infantes; Eco Cine aponta diretamente à pauta ambiental de cada cidade, com programação específica por ponto de parada versando sobre a questão da água, o agronegócio e os incêndios florestais; com foco regional, Cine Baiano propõe-se a apresentar os diamantes da casa, fazendo apostas em novos talentos e repercutindo nomes e trabalhos em ascensão ou já reconhecidos; e a mostra Cine Nacional tenta pluga o espectador num breve e estimulante inventário do que se fez de relevante em 12 estados brasileiros nos últimos dois anos, às vezes um pouco além, demarcando um jogo de presença e ausência – subjetiva, histórica e, uma vez mais, política – que, seja na ficção ou na produção documental, procura tanto quanto possível eleger a essência feminina como diferencial da experiência.

A recompor ou estilhaçar a moldura do discurso, são trabalhos na premência de chegar à tela e, a meio caminho do que disse Guy Debord, pressentem a imagem não como um espetáculo, mas um meio para a emergência do extraordinário na natural ecologia que se estabelece entre os indivíduos em seus processos de sociabilidade. Dito de outro modo, o Cine Diamantina busca encaixar um discurso em que a imagem possa ser vista no arcabouço de sua gênese sem prejuízo do olhar como inefável prazer. Aqui entendida sempre como uma narração que não deixar de envolver a dimensão sonora, a imagem não é a verdade nem o simulacro. Mas um terceiro ponto do sentido a se constituir, e que define a condição de existência do humano.

Entre a abstração e a realidade, a provocação maior é ver e matutar juntos – em escala menor, mas a ser observada com atenção, também criar e produzir juntos no contexto das oficinas. Assim, os números que materializam a carta de intenções do Cine Diamantina e prefiguram sua vontade de chegar lá, de fazer existir acesso ao audiovisual brasileiro onde não há salas de cinema: mais de 50 filmes e 40 sessões compondo 60 horas de programação, ao longo de três semanas, para um público de quatro mil pessoas. As quatro oficinas a serem realizadas irão somar 80 horas de atividade acompanhada para 125 alunos com idade a partir de oito anos.

Primeiro evento com este nome, mas calçado em seis outras exitosas edições de imersão audiovisual na região da Chapada, o Cine Diamantina 2017 tem a pretensão de expandir interiores geográficos para uma realidade cinematográfica e audiovisual brasileira – com brios e beleza de diamante e cachoeira.

O evento acontece de 15 a 21 de maio em Andaraí, de 22 a 28 de maio em Mucugê e de 29 de maio a 4 de junho no Capão, distrito de Palmeiras. Mais informações do evento, podem ser obtidas no site www.cinediamantina.com

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