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por Juca Badaró

 

 

O Cineclube Fruto do Mato nasceu numa dessas conversas despretensiosas, regadas a cerveja e música brasileira. Eu estava em Luanda, Angola, onde conheci a produtora Renata Matos, que já trabalhou em alguns filmes baianos (“Eu me Lembro” e “Esses Moços”). O problema do cinema que não chega a todos era um assunto recorrente em nossas conversas. Baianos que não conhecem o cinema feito no próprio Estado, filmes baianos que ficam restritos aos circuitos dos festivais, canais de televisão que não tem compromisso com a produção local e salas comerciais de cinema que dedicam seus espaços às produções de outros países e, quando muito, ao cinema feito no eixo Sul-Sudeste. Isso tudo nos incomodava, nos inquietava. Mas, por enquanto, nada podíamos fazer. Estávamos em Angola rodando o documentário “As Cores da Serpente”, não havia previsão de voltar ao Brasil, mesmo que a nossa vontade naquele momento fosse comprar um projetor, caixas de som e sair pela Bahia exibindo a cinematografia baiana.

Era um desejo antigo ver “Deus e o Diabo na Terra do Sol” brilhando numa tela imensa ao ar livre, em praça pública, numa cidade do interior da Bahia, rasgando a noite com aquela luz estourada do sertão de Monte Santo. E tentava imaginar a emoção de um sertanejo ao ver, pela primeira vez, o poeta Cuíca de Santo Amaro contar a trágica história de Maria da Feira aos pés do Elevador Lacerda em “A Grande Feira”. Guardamos esses e outros sonhos com muito cuidado e quando retornamos ao Brasil descobrimos que havia um lugar predestinado para a materialização de nossas utopias: a Chapada Diamantina.

Estávamos diante do Teatro de Arena, uma estrutura de pedras, ruínas de uma antiga igreja, localizada no centro de Lençóis. Um lugar perfeito para sonhos e sonhadores. Decidimos que este seria o local em que a tela branca, antes infértil, iria fecundar e se transformar em cinema popular. A céu aberto, gratuito, para moradores, ex-garimpeiros, guias de turismo, estudantes, donas de casa, turistas e forasteiros. Um lugar assim, que não cobra ingresso e descarta a formalidade de uma sala convencional de cinema, se mostrava perfeito para nossos propósitos. E, felizmente, estávamos com razão. Assim nasceu o Cineclube Fruto do Mato.

Decidimos pelo cineclubismo porque acreditamos que ele é a melhor alternativa para exibir filmes com responsabilidade, preocupados com o contexto político, social e cultural em que estamos inseridos. Os cineclubes, em sua essência, devem prestar um papel social na comunidade e são ferramentas de transformação, na medida em que os filmes apresentados falam de nosso povo, de nossos costumes, de nossa cultura. Por isso, o Cineclube Fruto do Mato exibe apenas filmes baianos, realizados por diretores baianos. Queremos nos ver na tela de cinema para enxergar melhor quem somos e qual o nosso papel. Porque o cinema é o nosso espelho e também a nossa janela de transcendência. Ao mesmo tempo em que ele permite o olhar para dentro de nós mesmos, ele possibilita enxergar o outro e nos projetar para o que está fora. Com o cinema falamos de nossa pequena vila para compreender a grandiosidade do mundo.

O Cineclube Fruto do Mato também nasce da urgência de uma formação de público consciente, crítico e capaz de argumentar e formular seus próprios discursos. O principal desafio é fazer brotar essa semente dentro dos frequentadores do Fruto do Mato. Para isso, preparamos uma programação de exibições que vai desde os primeiros filmes de longa-metragem realizados na Bahia, passando pelo Cinema Novo, o cinema marginal-underground, até chegar no cinema baiano contemporâneo. Os filmes foram escolhidos para que os participantes tivessem uma dimensão e um melhor entendimento da história do cinema feito na terra de Castro Alves.

Até agora já exibimos 8 filmes de longa-metragem, alguns médias e curtas, para um público de mais de mil pessoas. Esse número pode crescer ainda mais porque o Cineclube Fruto do Mato também realiza sessões em escolas públicas das zonas urbana e rural de Lençóis.

Pensamos o cinema como ferramenta de transformação social e política, pronto para denunciar os problemas de nosso tempo, deflagrar mudanças e apontar caminhos. Essencialmente, um cinema que nos estimule a ter uma consciência crítica vigilante e nos faça perceber que uma obra cinematográfica é muito mais do que entretenimento e diversão.

Ao longo das últimas décadas, no Brasil e no mundo, foi o cinema quem esteve à frente das grandes transformações e todas essas mudanças foram registradas e documentadas por homens e mulheres que, em poder de uma câmera, também fizeram história e serão lembrados pelas gerações futuras. O Cineclube Fruto do Mato acredita que este é o papel do cinema, este é o mais nobre compromisso dos artistas do audiovisual.

 

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