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por Raul Moreira

 

Independentemente das questões de fomento, mercadológicas e estruturais, a sétima arte local bem que poderia aproveitar a Semana do Audiovisual Baiano Contemporâneo para fazer uma autocrítica do que se produziu a partir de 2001, quando se deu a retomada, com a materialização do longa “3 Histórias da Bahia”, formado pela união de uma trinca de curtas.

Tal reflexão seria importante não apenas para desconstruir certo ensimesmamento do cinema baiano, como, também, conferir-lhe maturidade. Assim, as novas gerações poderiam compreender que há uma longa estrada a ser percorrida, pois, verdade seja dita, pouco se fez de substancial nestes anos de retomada.

Certo que muitos podem argumentar que o cinema baiano conquistou prêmios importantes no Festival de Brasília, com “Samba Riachão”, de Jorge Alfredo, “Eu me Lembro”, de Edgard Navarro, e “Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano”, de Henrique Dantas. Mas se o fez, foi mais pela emoção e força dos personagens do que propriamente pela consistência da filmografia.

Sim, o cinema baiano ganharia muitos pontos se viesse a reconhecer que não foi capaz de produzir uma filmografia de pegada contemporânea, o que não é crime e lhe é de direito, diga-se de passagem.

No entanto, ao abdicar de trilhar tal caminho, por razões que caberiam em um livro, no seu conjunto não conseguiu ofertar aos espectadores algo de instigante, capaz de saltar aos olhos e levá-los aos caminhos da reflexão.

Pernambuco

Para se compreender a situação e sem estabelecer elementos comparativos com o cinema pernambucano, por exemplo, pois seria covardia, basta confrontar a produção dos dois estados hoje: enquanto a Bahia vem de Revoada, obra do veterano José Umberto que finalmente ficou pronta e está prestes a estrear, Pernambuco manteve a média e apresentou no Festival de Brasília, que se encerrou ontem, Brasil S/A e Ventos de Agosto, respectivamente de Marcelo Pedroso e Gabriel Mascaro, filmes que fizeram discutir pelo arrojo.

O diabo é que, no horizonte, à parte Depois da Chuva, filme bem-sucedido de Cláudio Marques e Marília Hughes, que vem tendo boa acolhida em festivais internacionais e brevemente entra em circuito, causam preocupação as dificuldades que a nova geração vem encontrando para produzir longas.

Que o diga Daniel Lisboa, que espera pacientemente a boa vontade do Estado da Bahia em liberar a última parcela que lhe é direito via edital e, ainda, enfrenta a burocracia na prestação de contas para finalizar Tropykaos.

Pendenga jurídica

Por sua vez, o irrequieto Fábio Rocha vive um pesadelo que mais parece uma fábula bíblica. Por conta de um desentendimento com a produtora a partir da qual se uniu para realizar Cidade Alta, contemplado em edital, passou a depender da sensibilidade do Estado da Bahia para inverter uma pendenga jurídica e realizar uma obra que é reconhecidamente de sua autoria.

Que a Semana do Audiovisual Baiano Contemporâneo se faça frutífera e possa abrir os caminhos da sétima arte local, fazendo-a madura a partir da consciência de suas limitações e, também, estabelecendo objetivos a cumprir, sob pena de afogar-se em águas turvas.

 

 publicado em A Tarde

3 Comentários...

  1. João Guerra disse:

    Concordo que o maior mérito desse texto é tocar no assunto Cidade Alta, o problema é que Raul Moreira reproduz uma informação equivocada, que foi criada a partir de uma versão difamatória e mentirosa sobre o processo, a autoria e as causas da interrupção do projeto/filme/roteiro Cidade Alta. O outro lado da notícia nunca foi procurado, condição primária de um jornalismo de qualidade. Uma coisa é gritar pelos quatro cantos da cidade a outra é publicar em um jornal, por isso espero um espaço no mesmo jornal para esclarecer essa questão. Principalmente porque esse factoide criado por Fábio Rocha, dentro desse contexto local, me prejudica e inclusive pode interferir em decisões de novos editais, o que prova outro traço da fragilidade de como está organizado o nosso cinema. Então a importância de se esclarecer essa questão não diz respeito apenas ao Cidade Alta, mas sim ao cinema baiano.

    • Jorge Alfredo disse:

      João, o espaço do Caderno de Cinema está à sua disposição; tanto pra falar sobre Cidade Alta, quanto para qualquer outro assunto. Já lhe fiz esse convite uma vez, lembra? Não é somente em relação ao seu projeto em parceria com Di Rocha, que o texto de Raul suscita réplicas e tréplicas…. rsss ; o que ele diz sobre os 3 filmes baianos que brilharam no Festival de Brasília é foda! Mas também Raul sabe que sempre terá lugar aqui para escrever o que bem entender.
      Vamos que vamos!
      PS. e não somente, aqui, nos comentários, mas em matérias próprias

      • A ROCHA disse:

        O Tempo dos Assassinos, Henry Miller
        *
        […]

        O que nós todos gostávamos era de poder dar uma escapadela. Estamos fartos, totalmente enjoados dos nossos trabalhos, mas vamos ficando. E ficamos porque nos falta a coragem, porque nos falta a imaginação para lhe seguir o exemplo. Não é por nenhum sentido de solidariedade que ficamos! Não! A solidariedade é um mito, pelo menos nos tempos que correm. A solidariedade é para os escravos que ficam à espera até que o mundo se transforme num enorme covil de lobos, para depois se atirarem todos juntos e desatarem a rasgar e despedaçar o que lhes aparecer pela frente, como animais invejosos. Rimbaud era um lobo solitário. E não se escapuliu pela porta das traseiras com o rabo entre as pernas. Não, nada disso. Assoou-se ao Parnaso, e aos juízes, aos padres, aos professores, aos críticos, aos condutores de escravos, aos ricaços e aos palhaços que constituem a nossa distinta sociedade cultural. E não se orgulhem de pertencer a uma época melhor que a dele! Não pensem nem por um momento que esses miseráveis, esses maníacos, essas hienas, esses falsários de todos os quadrantes acabaram! Este problema é tão vosso como foi dele! Mas dizia eu que Rimbaud não estava preocupado com o facto de não ser aceite… é que desprezava as satisfações mesquinhas que a maior parte de nós anseia. Percebeu que era tudo uma fedorenta porcaria, percebeu que tornar-se em mais um número histórico não o levava a lado nenhum. Queria viver, queria mais espaço, mais liberdade: queria exprimir-se, fosse como fosse. E portanto disse: “Vai-te foder! Vão-se foder todos!” E, dito isto, abriu a braguilha e pôs-se a mijar sobre as obras.

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