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Cinema e Sal, idealizado pela cineasta Lara Belov, está na ilha do arquipélago baiano Cairu com o intuito de realizar oficinas de audiovisual com jovens das comunidades pesqueiras e resultará em uma mostra de cinema com curtas produzidos por eles; adolescentes de outras ilhas pelas quais o projeto passou, como Garapuá, estarão presentes com o intuito de promover intercâmbio entre as cidades.

 

 

A cineasta Lara Belov, da produtora Tenda dos Milagres, chega à Boipeba com o projeto Cinema e Sal, contemplado pelo Rumos Itaú Cultural (2015-2016), um dos principais programas de fomento à cultura do país. É a última cidade a ser visitada entre as três previstas situadas no arquipélago de Cairu (BA). As anteriores foram Garapuá e Gamboa. O projeto é destinado a jovens de comunidades pesqueiras e se inicia com oficinas de documentário, encerrando com uma mostra dos filmes produzidos por eles. As atividades acontecem até o dia anterior à exibição das obras, marcada para o fim de semana dos dias 18 e 19 de fevereiro. No sábado, os participantes do projeto em Garapuá também estarão presentes, já que um dos objetivos é promover o intercâmbio entre as ilhas.

“A juventude das comunidades pesqueiras do arquipélago vive um momento delicado, marcado pela pouca oferta artística e cultural e o aumento do tráfico de drogas na região”, comenta Lara. “Esses jovens sofreram, ainda, uma nova ameaça: a retirada do ensino médio presencial nas comunidades de Garapuá, Cova da Onça (São Sebastião) e Galeão, já que os governantes alegam não terem a quantidade mínima de alunos para abrir turmas nas comunidades.”

Nos encontros dos três lugares, Lara levou referências, tanto em vídeos quanto em textos, para embasar os alunos. Os filmes foram: Quando sinto que já Sei, da Despertar Filmes; Educação Proibida, também realizado por jovens e com direção de Germàn Doin; Ausência: Sobre a Má qualidade da Educação Pública, feito por adolescentes do Instituto Criar; e Vídeo Nas aldeias: Produção Indígena, sobre a importância dos saberes locais, de se poder ter uma vida sustentável, do valor da população indígena e de iniciativas que contem a história tendo como ponto de vista inicial o interior da comunidade, de dentro para fora.

Entre os textos estão Sobre o Bom Viver, de Alberto Acosta, e os materiais disponíveis no site Educação Integral, que apresenta modelos desse tipo de educação no país; no Portal do Educador – trazendo exemplos de escolas de educação democrática no mundo; e no Portal aprendiz, com modelos de cidades educadoras.

 

Oficinas e mostra

 

A primeira âncora de trabalho são as oficinas de documentário destinadas a adolescentes da ilha, com idades entre 13 e 17 anos. Nelas, os jovens têm contato com tecnologias acessíveis, como câmeras fotográficas e softwares simples de edição. A duração é de três semanas, que finalizam com a criação de dois curtas documentários.

Em seguida vêm a mostra audiovisual, aberta a todo público, na etapa final das oficinas. É o momento no qual são exibidos os curtas produzidos pelos participantes e outros filmes brasileiros e latino-americanos, que mostram a relação do ser humano com o mar. A exibição dessas obras é um estímulo para que uma ilha conheça o histórico da outra e outras histórias do mar, fortalecendo a cultura e a autoestima da região.

 

Rede para intercambio

Na terceira etapa acontece a Formação de Rede e Bases Audiovisuais no arquipélago. Diz respeito à continuidade do projeto e ao intercâmbio audiovisual e cultural entre as ilhas e demais regiões. Para a implementação de uma base audiovisual, cada ilha, dentro do âmbito da escola pública, recebe um kit com câmera, tripé e computador com ilha de edição – um estímulo para seguir experimentando e construindo representações genuínas por meio desta ferramenta. “O audiovisual é uma arma para se defender, contar o que achamos e expormos nossas opiniões”, afirma Gabriel Alves, de 15 anos, participante do processo.

As aulas começam promovendo, por exemplo, a interação entre os participantes. São abordagens educativas que contemplam a inclusão, o despertar da sensibilidade e a criação de cada um. Uma das ideias é fazer com que os jovens trabalhem a auto-representação.

Das oficinas realizadas em Garapuá, surgiram dois temas que guiaram os filmes: a diluição da pescaria a cada geração e a importância de passar esse conhecimento adiante, dando origem ao documentário curto Herança de Mar; e a defesa do território diante da vinda de grandes empreendimentos turísticos para a comunidade, que resultou em Território ocupado. No segundo local, Gamboa, surgiram O Pandeiro te conhece, que aborda o resgate da cultura local como fortalecimento da identidade, e Uma fonte, um lençol, sobre a história das lavadeiras da ilha e como as fontes naturais e as de renda se entrelaçam na história das comunidades.

No sábado, 18, durante a manhã, os jovens de Boipeba lideram, pelas ruas da comunidade, a estratégia de divulgação, como parte das oficinas também, para que os filmes cumpram o seu ciclo, sendo acompanhados da ideia à chegada ao público. A Mostra, marcada para acontecer na praça da Velha Boipeba, às 18h, nos dois dias, sábado e domingo, conta com 12 filmes de curta-metragem produzidos pelos jovens do arquipélago de Cairu, de cinco comunidades: Garapuá, Gamboa (Ilha de Tinharé) Velha Boipeba, Monte Alegre, (Ilha de Boipeba) e Cairu (Ilha de Cairu). Também fazem parte da programação, obras do Cinema Comunitário na América Latina, como Varada, de Lobitos Cinema Project, do Peru, e Meu Minuto, da Argentina, produzido por Cine em Movimiento.

Ao longo do trabalho nas ilhas, a equipe do Cinema e Sal propôs encontros com educadores das escolas locais para transmitir a eles conceitos comunitários, discutir e compartilhar experiências em educação e o potencial do audiovisual como ferramenta de expressão dentro e fora da escola.

O projeto

 

Cinema e Sal é um trabalho de cinema comunitário, educação popular, inclusão e acessibilidade audiovisual, também de luta por formas novas e genuínas de representações e pela preservação da cultura do mar, em um local em que os dois principais sons são o da televisão e o das ondas. Junto à Lara, estão nesta caminhada Cecília Amado, na produção executiva, Irá Santos, educadora nativa do arquipélago, que assumiu o cargo de coordenadora de produção, e a educadora do projeto Natalie Hornos, que também coordenadora de Programas Educacionais do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias (SP).

O projeto faz parte da Rede de Cinema Comunitário da América Latina e do Caribe e é guiado pelos princípios desse tipo de arte: modo de produção horizontal e colaborativo que valoriza os saberes locais; prática em que as comunidades se apropriam das ferramentas audiovisuais para se auto-representar e fazer visíveis suas realidades; processo integral de gestão, produção, exibição, circulação e consumo, que inclui ativamente a comunidade em todas as suas etapas.

 

 

Um Comentário...

  1. Diogo disse:

    Oi, como faço para cobrir o festival, alguma ajuda??

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