caderno-de-cinema

Home » Artigos » Cinema na província

 

 

Por Jorge Alfredo

 

Nos três dias do Laboratório promovido pelo ItaúCultural com os 10 projetos selecionados por Amir Labaki, Carlos Nader e Renato Barbieri, senti uma energia muito positiva vinda de todos os participantes. Foi uma experiência enriquecedora esse encontro com pessoas e projetos tão envolventes. Durante as três oportunidades que tive para falar sobre o meu projeto, fiquei muito satisfeito com a acolhida que teve o Cinema na Província. Isso me deu ainda mais responsabilidade para tratar de um assunto que conta com tamanha expectativa de todos que através de Glauber Rocha e Paulo Emílio Salles Gomes sabem da importância que o Ciclo Baiano teve para o Cinema Novo, mas gostariam de entender melhor o que de fato aconteceu por aqui entre 1956 e 1964. A efervescência por que passava Salvador que resultou no Ciclo Baiano de Cinema, Bossa Nova, Tropicalismo enfim, todas essas maravilhas exageradas da Bahia. De Redenção (1959) até Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).

Logo que retornei a Salvador, em setembro de 2003, consegui um depoimento emblemático de Nelson Pereira dos Santos, (que estava aqui para XXX Jornada de Cinema da Bahia) num local muito significativo; a rampa do velho Mercado Modelo; locação de “Um Dia na Rampa” do Luis Paulino dos Santos, marco inicial do Ciclo Baiano. Consegui também que a produtora Truq Cine Tv e Vídeo e os profissionais que escolhi para me acompanharem nessa empreitada, investissem na idéia, e levamos o grande Nelson às 16.30 horas – aquela luz mágica – para nos dar o seu depoimento; ele falou da sua relação com a boa terra, seu primeiro contato através da literatura de Jorge Amado, sua primeira vinda em 55 para exibir Rio 40 graus, que havia sido proibido; sua admiração e amizade com Walter da Silveira, sua relação com Guido Araújo, que foi seu assistente no Rio 40 graus, sua vinda em 60 para rodar Vidas Secas, onde além de trabalhar com o baiano Miguel Torres, acabou se aproximando de muitos outros baianos, entre eles Glauber, e acabou rodando Mandacaru Vermelho. Conta a história de como Glauber o procurou no Rio em pleno set de filmagem de Rio Zona Norte, e acabou ajudando os assistentes de produção a carregar cadeiras, pegar no pesado…

Principalmente, Nelson fala sobre a importância e significado do que aconteceu por aqui para o Cinema Novo, da personalidade e talento de Glauber, do grande produtor Rex Schindler, das invenções e criatividade de Roberto Pires, da influência do trabalho realizado pelo reitor Edgard Santos, trazendo figuras com Eros Martins Gonçalves, Koellreutter, Walter Smetak, Ernest Widmer, Lina Bo Bardi, Agostinho da Silva, Yanka Rudzka, e de quebra ele conceitua o Cinema Novo, fala da influência do neo-realismo e da nouvelle vague, da importante presença dos atores negros, enfim uma aula de cinema. E o que mais me agrada é a forma descontraída e visceral dos depoimentos. Quando decidi que a gravação seria na rampa, surgia a idéia de obter os outros depoimentos em locações também presentes em outros filmes baianos; a praia de buraquinho (Barravento), feira de Água de Meninos (A Grande Feira), etc…

Os depoimentos de Orlando Senna, eu obtive em duas sessões em dias diferentes, no apartamento em que ele estava hospedado no Hotel da Bahia. Eles são muito esclarecedores e traçam o perfil do ambiente do Colégio Central, das jogralescas, das sessões e das discussões estéticas do cineclube de Walter da Silveira, dos bastidores da Iglu Filmes e Yamanjá Filmes, das produções estrangeiras e nacionais rodadas na Bahia, da intimidade da turma que escrevia crítica cinematográfica, o cunho político das ações, revelando o pseudônimo “De Santis” que inicialmente escondia nada menos que a identidade do nosso querido Glauber Rocha.

jv

Num encontro que tive com Vladimir Carvalho, falando empolgado sobre os depoimentos que consegui de Nelson e de Orlando, ele começou a me contar umas coisas geniais; da cena de Glauber na porta da Civilização Brasileira falando pelos cotovelos com o roteiro A Ira de Deus encadernado debaixo do braço, no entanto sem deixar que ninguém lesse sequer uma só página do que viria ser Deus e o Diabo na Terra do Sol. Aí, pensei; Aruanda foi muito importante para o que ficou conhecido como documentário brasileiro, e Vladimir também paraibano como Linduarte Noronha, que ajudou no roteiro e fez assistência de direção, é a pessoa ideal para falar do impacto de Aruanda nas jovens cabeças do cinema baiano. Convidei o mestre Vladimir para dar o seu depoimento e ele aceitou com satisfação. Por sugestão dele, gravamos na encosta do Corredor da Vitória, que lembrava muito a sua chegada na Bahia e seu “cantinho no restaurante universitário”. Vladimir falou inflamado, tratando os assuntos de forma profunda e arrebatadora. Narra a forma firme como Walter da Silveira interrompeu uma sessão do cineclube e expulsou da sala Glauber Rocha e Fernando Peres que estavam conversando em voz alta durante o filme em tom jocoso. E entre tantas coisas, fala da convivência entre a Universidade e a rua, do erudito e o popular, conta detalhes sobre o bumba meu boi alternativo organizado pelo jovem TomZé que desfilou da Piedade até o Terreiro de Jesus e uma viagem que fez com Alvinho Guimarães e Caetano Veloso pelo interior baiano para resolver detalhes de um roteiro cinematográfico.

O Laboratório foi uma injeção de ânimo para mim; participar com pessoas tão criativas de uma discussão coletiva em torno de projetos tão distintos deu frutos; senti uma inequívoca necessidade de acrescentar também no Cinema na Província, os depoimentos de  Maria do Socorro Silva Carvalho (autora dos livros, “A Ideologia em Barravento”, “Histórias de um tempo em movimento – cinema e cultura na Bahia nos anos JK” e “A Nova Onda Baiana”), de João Teixeira Gomes (um dos amigos mais íntimos de Glauber, participante ativo das jogralescas e geração MAPA, autor do mais profundo estudo do ambiente soteropolitano “Glauber – esse vulcão”) e Luis Carlos Maciel (participante ativo dos anos dourados baianos, ator em Cruz na Praça e autor de “Geração em Transe – memória do tempo do tropicalismo” )  E também de incluir os depoimentos dos atores Antonio Pitanga e Othon Bastos e das atrizes Helena Ignez e Nilda Spencer. Seria consagrador  localizar e entrevistar Luiza Maranhão, a deusa negra do ciclo baiano, que anda reclusa desde o começo dos anos 80.

Fui à luta para tentar localizar imagens em movimento de Walter da Silveira, e encontrei uma boa pista; Roque, figura que participou de várias produções baianas, me assegurou que existe no DIMAS, onde ele trabalha, o acervo da Iglu Filmes e do tele jornal Leão Rosemberg onde existem algumas cenas do professor no cineclube e em algumas pré-estréias do Ciclo baiano de Cinema. Já tomei as primeiras providências e pedi através de um requerimento permissão para consultar o arquivo do DIMAS.

Tendo feito já as primeiras gravações, devido à presença dessas pessoas aqui na Bahia por ocasião da XXX Jornada de Cinema, decidi juntamente com Pedro Semanovchi, diretor de fotografia, optar por uma linguagem ágil, com movimentos de câmara constantes, mas deixando o entrevistado sempre à vontade diante do ritual de gravação, sem olhar para a câmara, eu sempre me posicionando intencionalmente no ângulo ideal para que a conversa comigo ficasse natural, descontraída. O resultado me animou bastante; sem aquele adestramento do olhar, de forma que os depoimentos parecem flagrados. A câmera um, no travelling, quase clássica, vez ou outra se deslocando sutilmente, baseada a cerca de 4 ou 5 metros de distância para que a profundidade de campo se acentuasse, e a câmera dois, na mão,  livre, buscando ângulos inusitados, às vezes funcionando como making of, sempre arriscando, buscando gestos, expressões, closes… O posicionamento do entrevistado sempre com a luz natural em contra luz e o HMI fazendo a luz principal, criando uma atmosfera mágica, sem aquele tom acrílico do vídeo. Esse projeto  é uma espécie de abre alas para o  “Avant-Garde na Bahia”, uma adaptação do livro homônimo de Antonio Risério, que aborda essa mesma época, abrangendo a criação do Seminário de Música, Centro de Estudos Afro Orientais (CEAO) e Escolas de Teatro e de Dança.

Espero que Deus me ilumine e que eu consiga contar com engenho & arte a saga da nossa relação com o cinema.

com Nelson Pereira dos Santos3

 

2 Comentários...

  1. […] Cinema na Província      leia também O Senhor das […]

  2. Henrique dantas disse:

    Parabéns Jorge, belo projeto….. Saudações provincianas…. Massa… Essas pessoas carregam a história nos seus olhares….

    Abração

Deixe um comentário