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por Caio Araujo

 

Talvez, essa ação, uma espécie de happening cinematográfico, retrate uma tradição que o Brasil tem em dar contribuições à humanidade através  das experimentações  no campo da linguagem, além de fazer homenagem a própria história do cinema – a mais sofisticada dimensão artística do século XX.
Eu e Thacle de Souza tentamos remontar às primeiras experiências de exibição da história do cinema – levando filmes para feiras livres e trocando por moedas. Talvez, dessas primeiras experiências que surgiu a célebre frase de Auguste Lumiére: “O Cinema não tem futuro comercial”. O fato é que, com a ação, não tínhamos pretensões comerciais: cobramos R$ 0,50 por cada exibição para o povo do recôncavo na Bahia. Tínhamos sim,  a intenção de dar o start de exibição comercial do cinema de realidade virtual nas terras tupiniquins. Talvez, a  utopia do cinema brasileiro de se inventar diante das suas limitações – o que veio a produzir ciclos riquíssimos como o  cinema novo e do cinema marginal – estivesse presente conosco, fazendo com que fizéssemos da nossa precariedade e esperteza, nossas maiores virtudes. Como índios canibais, pirateamos filmes estrangeiros de cinema vr – a grande mudança na forma de se experimentar filmes agora no século XXI. Ficção, animação e documentário – para esgotar de uma só vez as possibilidades. A música “Não tem tradução” de Noel Rosa dá o tom do vídeo registro : “O cinema falado é o grande culpado da transformação” –  trecho que inclusive dá nome ao filme de Caetano Veloso “O Cinema Falado” (1986). A música de 1933, refere-se a um período em que o  idioma francês – de grande influência  mundial na época – era substituído pelo inglês –  que começa a se expandir pelo domínio econômico e tecnológico americano – e, o cinema falado,  também novidade na época, era o grande mote impulsionador das transformações,   influenciando nossa forma de comunicação. Transformações ocorrem nos mais variados campos artísticos, e o cinema, com pouco mais de 120 anos, apesar de ter se engessado tão rapidamente, ainda engatinha.
Entrar no filmes, talvez esse seja o novo grande paradigma. Não um “guarda-chuva”, mas a linguagem muda rapidamente.

O cinema mudou, há agora outra forma de se fazer. Mais do que interesse em saber o que o cinema de realidade virtual fará do Brasil, penso o que o Brasil fará dele. Visto que, “essa gente hoje em dia, que tem a mania da exibição, não se lembra que o samba não tem tradução no idioma francês”.

CineRV

Em 25 de abril de 2016 é realizada a primeira exibição de realidade virtual do MOMA (Museu de arte moderna de Nova York).
Durante o São João de 2015, os cineastas Caio Araujo e Thacle de Souza planejam realizar a primeira exibição pública-comercial de cinema de realidade virtual da Bahia – também do Brasil (com sessão comercial de filme de ficção).  O projeto só se realizou no São João do ano seguinte (2016).
Homenageando a história do cinema, com o apoio de Tâmara Lyra, Poliana Costa e Stefan Laux, decidiram ocupar um box de uma feira livre da cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, e fizeram sessões de filmes de ficção, animação e documentário a preço simbólico de R$ 0,50.

Em outubro de 2016, Caio Araujo  também realiza o projeto PÓSCINE.BA.
Além de live-cinema e vídeo instalação, o projeto contou também
com exibição  do filme, em realidade virtual, ‘Take Flight’ do diretor  Daniel Askill. A exibição teve o valor simbíloco de R$ 2,00.

No dia 11 de dezembro de 2016 o vídeo registro dessas ações é lançado no espaço Coaty, no projeto Dominicaos ( ladeira da misericórdia s/n atrás da prefeitura – 17h ). Caio Araujo fará  nova exibição de cinema de realidade virtual, além de outras expansões do cinema experimental como Live-Cinema e performance de VJ.

O cinema falado ( Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1934 com Francisco Alves (música de 1933)

 

O cinema falado

É o grande culpado da transformação

Dessa gente que sente

Que um barracão

Prende mais que o xadrez

Lá no morro, seu eu fizer uma falseta

A Risoleta

Desiste logo do francês e do inglês

A gíria que o nosso morro criou

Bem cedo a cidade aceitou e usou

Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote

E só querendo dançar o fox-trot

Essa gente hoje em dia

Que tem a mania da exibição

Não se lembra que o samba

Não tem tradução

No idioma francês

Tudo aquilo

Que o malandro pronuncia

Com voz macia é brasileiro

Já passou de português

Amor lá no morro é amor prá chuchu

As rimas do samba não são I love you

E esse negócio de alô

Alô boy, alô Johnny

Só pode ser conversa de telefone

Caio Araujo é um cineartista e pesquisador baiano, transitando em outras linguagens como música e fotografia. Associa linguagem pop ao experimentalismo, no esforço de traduzir um diálogo direto entre cultura de massa, popular, erudita e experimental. Oswaldianamente, defende a mixagem entre a tecnologia mais avançada e o espírito primitivo e tribal brasileiro, caminhando nas franjas de uma hibridização mestiça. De uma linhagem profética, ainda tem esperanças no Brasil.

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