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AS  DIMENSÕES DE UM CINEMA E SEUS ABSURDOS OU POR UMA ESTÉTICA DO ZIGNAU

 

 

Por Fábio Di Rocha

 

 

Die Wüste wächst: weh dem, der Wüsten birgt

Fiedrich Nietzsche

 

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Contextura

Antes de qualquer coisa, os pressupostos que norteam as cinescrituras que apresento: um afeto, um protocolo. Cinegrafar e escrever; retirar as imagens, as palavras e as coisas do curso “correto”, normatizado do mundo; anotar, apontar; uma espécie de relação política permanente entre o eu e o si contra o EU + EU = NÓS do cinema…Anotação, rasura, pergaminho rabiscado, articulação num lugar específico: a Bahia com toda a sua indolência e mutismo…Um espaço especifico: o solo em que se pisa. Uma topoanálise dos valores vitais em termos cinemáticos. Trata-se mesmo de um conjunto de linhas que se ligam a experiências, e mesmo uma tentativa de fugir do jogo narcísico, essa doença individualizante. Deixo claro somente, que a potencia de deflagração aqui confere as escrituras, um valor que não é tipicamente da negatividade, mas da criação positiva. Um lugar de risco frente à normatização em curso. Alguns irão entender! Um caderno de anotações; uma montagem paralela: de um lado, uma narrativa de si mesmo; cavalgar de um modo que faça aparecer no hiato, na inadequação da contextura baiana, entre significados e significantes; uma postura política (o pensamento aliado à experimentação) e uma fala errante cortando o establishment das iamgens e sons. Do outro lado, breves ponderações, acerca do vazio e do preenchimento num lugar destruído de cabo a rabo. Trago algumas regras de prudência, e certos elementos que não constam em qualquer manual; uma escritura-processo do desastre, um protocolo de experimentação, uma contra-efetução…

A Viagem é reelaborar o fracasso coletivo do chamado CINEMA BAIANO, cujos quadros são formados numa rede indistinta de tenebrosidades: memórias falidas, maus encontros, esquecimentos, boemia, desejos frouxos, referências embaralhadas; confusões, (des)entendimentos, fugas, vadiagem, etc…Tudo isso que faz parte do dispositivo desastroso, formado historicamente por esse lugar. É também para fazer ver e dizer os pressupostos de um estratagema inaudito, que pretendo escrivinhar, colocando sempre que necessário, o grau de diferencialidade de certos processos em relação ao mundo de aparências. Com efeito, gostaria de destacar uma prática, muito mais que exercitar uma teorização inócua; e isso diz respeito a uma “Saída pela esquerda” dessa tão propalada, e até mesmo buscada com bastante empenho: revolução quantitativa; uma imensa vontade de verdade (Paradoxo nihilista: se a verdade não existe, a declaração “a verdade não existe” é uma verdade, provando-se, portanto, incorreta), que se ouve e vê pelos quatro cantos. O fracasso-produtivo como elemento microrevolucionário, diante da extremada modelização do design contemporâneo; demonstrando e combatendo, de modo sub-reptício – ou não – algumas estratégias das formações do desejo no campo social.

Pouco importa os possíveis leitores dessas passagens, o que faço aqui pode ou não encontrar um terreno fértil para ressoar, ou até mesmo um paredão pra se rebater, mas o que vale é cravar esse atestado de trajeto e trejeitos no estabelecimento do si-cinemático; tão adequado e completo quanto possível. Além do que, nesse plano de composição, o que está em jogo é a consistência com a qual se produz uma vida-obra, no embate com certos “Homens da cultura”, reunidos num saco de elementos heterogêneos e disparatados, tentando dar conta das misturas tenebrosas em andamento. O que quer que seja, que se diga; é sempre a mesma onda: Do it yourself! O que significa essa fórmula esquisita? Apenas isto: Faça você mesmo! Tá ligado! Ainda trata-se de acompanhar as conexões variáveis, as relações de velocidade e lentidão; atentar para a matéria anônima e impalpável, dissolvendo formas e funções; liberando partículas de (des)afectos, e sempre que possível traçando a tática de proliferação e de contágio, que é próprio da contextura do mundo dos frames e grafitis…O resto é conversa pra boi dormir! E isto já é um bom motivo para conservar um certo nojo desse ambiente, manter­me em certa distância, com tal espanto com a galerona; me aproximar com escolhas, selecionando os encontros, na admiração que tenho por certos diretors, produtores, por uns poucos; estranhamento com os demais, e uma frustração que se localiza entre a demanda ficional e essa renúncia real…A textura aqui é a invenção de uma “treta” própria, de um modus operandi – como queiram – algo essencial para a criação artística, e, grosso  modo, a única coisa que interessa vitalmente agora, que é fazer funcionar essa máquina de produção, de registro; fazer emergir cousas que estão sendo omitidas, ou simplesmente estão “catrocas”, e que são abafadas já no nascedouro.

Ora, sou mais afeito ao anti-modelo; a astúcia contra-social; e que não deixa de ser um comportamento completamente (in)adequado à nossa época. Daí o desejo de colocar em pauta uma espécie de Diário de bordo em terceira e primeira voz; com certo distanciamento crítico; desde que se exercite perfunctoriamente; e se demonstre a densidade (a liga), a ondulação de um fazer. Seja como for; seja um fazer fragmentado, aleatório, tosco, incompleto; situacional; contínuo; inacabado; que seja inventado e se acredite nele, pouco importa o sucesso ou a desgraça que o ronda feito fantasma (Fantasma só vem de galera!). A obra de arte nesse império do vazio, ainda e sempre, a existência de uma contextura do imprevisto e do acidente em contraposição a serializacão dos modelos e das cópias; evidenciar o modo pelo qual o ponto onde a liberdade individual se reflete como ética, a possibilidade da insubmissão mediante as relações de confronto.

Bem, se é verdade que cada ser pode se expressar de mil e uma formas, e que essa expressão vai variar de acordo com a potência de cada um, posso dizer sem pestenejar, que o ser sintético do cinema está arrasado, já que a expressão mesma do cinema cedeu lugar para uma luta equivocada no mercado de trocas simbólicas. Está tudo uma merda só, Jão! Um bando de cata-mocréia, coiote, mala; uma rapeize inteira; muita gente fina se lançando numa carreira rápida e fugaz, sem pegada; outros permaneçendo na mediocridade uma vida inteira; há ainda os fracassados, os especialistas, os tecnicistas, os conspiradores, os X9 da criação, os gogó de ouro, e essa pretensa igualdade-diversidade, que, em vez de sugerir uma riqueza, não passa do atestado de uma dergaça coletivizada. Não sou nenhum profeta meteorológico, mas o tempo fechou! Penso que isso não tem importância agora. Não pretendo ser alguém que reinventou a Lanterna Mágica no nosso tempo, procurando de dia um homem do cinema. Continuo através da fenda, insistindo na passagem, contrariando mesmo aqueles que querem transformar esse lugar numa espécie de Meca do cinema (alguns chamam de Pólo de cinema); se nem sequer saimos do retrato da escravidão. O tempo continuará ruim!  Haverá mais calamidades, mais morte, mais desespero pra filmar, registrar, montar, exibir, distribuir. Não há a menor indicação de mudança em parte alguma! Nossos heróis morreram ou estão se matando aos poucos. Os anti-heróis vazaram.

Se cada um tomar por realidades as afecções de sua imaginação, isso significa que haverá tantos julgamentos da realidade quanto forem os corpos afetados, agora resta esclarecer o conteúdo representativo entre aquilo que chamo de timeline da escritura, de “Processo de experimetacão cinepolítico”. Tomando o Circulus (in)sanus das dizibilidades locais, a relação entre estado e terror, sujeito e norma, os impasses da ética, gostaria de vasculhar de modo caótico e situacional, essa memória imprecisa daquilo que convencionou-se chamar: “Nosso cinema Baiano”. Em certa medida, todos os desconstrutores por aqui se posicionam a favor de algum tipo de operação que possibilite retirar os eventos do seu curso ordinário. Essa introdução se fez necessária, para adentrar no Páthei máthos, na quintescencia da discórdia no campo do cinema. Alguns impasses, linhas duras e suaves se roçam; ao tempo de uma recusa das sínteses generalizantes e apaziguadoras.

Em primeiro lugar a questão deve ser formulada inequivocamente, da seguinte maneira: Como manter sob controle uma massa de insatisfeitos? Devo, contudo, antes mesmo de responder a essa questão, demonstrar o desgarramento de uma qualquer função de representação, situando-me mesmo no esvaziado, no  nonsense, nas formas desaparecidas, e na esteira da derrota coletivizada; assumindo uma posição de autonomia. Na prática, uma luta para existir em meio a uma maioria decrescente nas sociedades pós-catastróficas. A todo momento ouço falar de superação da crise, mas isso já dura uma profunda década, e , de fato, não passa de uma corrida entre a lebre e a tartaruga. É aquela velha história; não existe obra de arte que não faça apelo a um povo que ainda não existe. Percebi ao longo desse tempo que é profundo demais tem uma máscara inquembrantável, pois, não se avexem – comme d’habitude – as prescrições de um verbo solitário. Coloco a princípio uma linhagem de pensamento libertário, que contesta a fixidez do pensamento e da ação, pulverizado na contextura social e inscritora, como uma condição essencial da experiência cinemática; sem a qual só restaria o mass media, e uma marca de tropeços; a construção de uma memória ruim; e um ressentimento com o fora íntimo desse lugar de produção; rendimentos decrescentes, a obscura e a confusa competição em arte; deixando para trás o tempo da experimentação de novas sensibilidades e da experiência do acaso. Toda a possibilidade mesma do acontecimento que continua sendo o álibi dos defensores manhosos que inundam a velha Kirimurê, e que não passam de miolos de pote, com suas caretices de modelo e cópia ruim. Um toque se faz necessário: precisamos armazenar menos memória! Uma potência: a combinação de desejos e apetites num compartilhado de diferenças! Caso contrário, o cinema por aqui (feito a culhão) morrerá asfixiado em suas próprias utopias de triunfo.

É preciso ir mais longe! Pensar os encontros (bons e maus) que se dão por aqui; não sem antes dizer com Agamben: – Que é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com ele, nem se adéqua a suas pretensões e é, portanto nesse sentido inatual(…) Um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe que irrevogavelmente lhe pertence, sabe que não pode fugir dele…Minhas “crecas” existiam antes de mim! Pergunto: como fazer com que o conteúdo representativo desses encontros penetre em tudo que existe?  Respondo: admitindo sempre o desvio como condição sine qua non da produção, mesmo e, sobretudo, quando os saltos qualitativos podem nos precipitar num beco sem saída improdutivo. Menos as formas que as forças, menos as propriedades de si que os devires para fora de si. Morô?

Para essa conversação, trago uma voz-escritura no fio de uma navalha: A coragem é aceitar fugir, em vez de viver sossegado e hipocritamente em falsos refúgios…Começo do meio do arerê; tecendo linhas desencontradas de um Cinema-desafio; justo aquele que contém na sua superfície, a essência de uma guerra sem batalha, um “abrir o gás” e um traço de fogo frente as incomunicabilidades e imperfeições nas/das políticas audiovisivas Glocais. Não se trata de um investimento libdinoso somente, uma perversão e um pessimismo de carteirinha, nem tampouco uma comunicação; o planômeno de expressão aqui se confunde com uma trajetória de revide micropolítico! Esse “minha” cinescritura – ainda na infância, ainda em curso – te convida à baila; se não para dançar, pelo menos para se juntar a esta mesa amontoada de fluxos: Cave de Ladac, calcinha vermelha, abajour dayligth, 300 fios de um amarelo pop, cabelos ao vento, bota de couro, Leonard Cohen, Pan lenta dos pés a cabeça da moça à beira do parafuso (leia-se Elevador Lacerda); uma imobilidade produtiva, uma faca cravada no peito por uma prostituta, uma impossibilidade de amor; toda a violência que gruda na parede do Socius Inscritor, e que grita ainda com Antônios, e outras mortes, Marias e Marias, e tantos outros “Zé Ninguém”. Palavras e imagens de um terrorismo poético ameaçando o cinema de Estado; e o pensamento do fim entendido como o propósito (end/purpose -Ende/Zwech). Devo lembrar o texto de Robert Kurz, O colapso da modernização como inspiração: (…) Quando esses homens, povos, regiões e Estados perceberem que nunca mais terão alguma chance de vencer e que as futuras derrotas inevitáveis os privarão de qualquer possibilidade de viver, lançarão, mais cedo ou mais tarde, o tabuleiro no chão e dispensarão todas as regras da chamada civilização mundial.

Sigamos. Gostaria de, precisamente me centrar na questão da mentira dita de outro modo. Enquanto alguns cozinham o galo, outros ficam na dor de viúva, vou largar o verbo numa espécie de essência documental; e num revide ficcional, porque não quero bater a caçuleta feito banana-mole, com esses chavecos presos na garganta, e um bando de chiada pulando no olho do furacão. Tudo sem ressentimentos é claro! Aviso aos navegantes: você (quem quer que seja) não se atreva, pois, a falar em nome de um protocolo de experimentação, enquanto não tiver feito isto ou aquilo que atravesse a espessura macrosocial deste lugar (e de outros); ou se não tiver visto isto ou aquilo que contribua com o delírio universal do olhar; caso não tenha fotografado isto ou aquilo que não está em cena; caso não tenha montado nisto ou naquilo, cavalgado mesmo na poesia cinemática contra a prosa normatizadora do Cinema estabelecido (Um mentiroso é sempre pródigo em juramentos, nos diz Pierre Corneille); ou, na pior das hipóteses, não tenha mesmo, diante das pressões modelizantes e mesmo por uma xurumela de servidão voluntária, vivido com uma fagulha de loucura na invenção do cotidiano.

Compenso-me de muitas maneiras quando não estou num set de filmagem, numa ilha de edição, e quase nunca estou na porta de uma instituição de caridade, cheio de guéri-guéri “mendigando” (esmolér) crowdfunding, cheio de nove-horas, viajando mais em Product Placement, economia de centavos, editais, talento, etc…(Um contrato não vale a tinta que é assinado!)…do que no cinema em ci: planos, volume, profundidade de campo, etc. Justo porque um manual prático do desejo se interpõe; madrugas de encontros: Nick´s Movie, Saló, Caberças Cortadas, Noites de Cabírias, Meteorango Kid, F for fake, O crepúsculo dos deuses, Uma simples formalidade, Zabriskie Point; Lucrécio, Spinoza, Manuel de barros; Pasolini, Agripino; Paul Valéry (Um homem só está em má companhia!) Nick Cave, Dziga Vertov, Fritz Lang, King Crimson, Lou read, o Réqueim de Mozart; Sergei Eisestein, Robert Bresson, Nouvelle Vague, Jean Renoir, Neo-realismo, André Bazin, Cinema Novo, Luchino Visconti, os marginais, década de vinte e por aí vai; Grierson, Hitchcock & Truffaut, Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Claude Chabrol, Lautréamont, Borges, Blanchot, Proust, Joyce, Jacques Rivette, Eric Rohmer, Akerman, Ruiz, Cahiers du Cinéma, Mallarmé, Cézanne, Roberto Rosselini, De Mille, Griffithi, Chaplin, Sennet, Flaubert e Mallarmé, Jacques Beinex, Luc Besson e Leos Carax, Raymond Queneau, Camus A. Artaud e Guyotat, Kleist, Holderlin, Gaspar Noé, Ridley Scott, Mankievics, Alain Robbe-Grillet, Luis Buñuel, Dickens, Langdon e Duras, Flaherty, Ivan Passer, Jirí Menzel, Vera Chytilova, Milos Forman…tudo isso no estilo jegue-manso!

A mentira em termos de cinema é, sem dúvida, muitas vezes tão-só um truque para conseguir algum dinheiro; na maior parte dos casos, é simplesmente o modo de disfarçar o embaraço e a vergonha de não experimentar um universo gigantesco que se abre; ou serve para se justificar perante os seus; uma irresistível pulsão de escape e de auto-alienação. Quando o plano de filmagem emperra, transar com alguma atriz sem precisar de teste do sofá ajuda a desenrolar o pacote encruado; passear pelos problemas reais na arquitetura dessa destruição; lançar mão de escrituras que contribuam quid facti, para a derrubada desse terror que caminha nos trilhos, e no metrô inacabado da história é um dos remédios contra o câncer que está-nos comendo a todos sem excessão. E mesmo os bandidos do cinema me parece que continuam com a luz vermelha acesa, à espreita de um novo kinoglass, de outra configuração para essa varanda; em busca de uma total transmutação ser-cinematonômica, não somente tridimensional, e sim múltipla, que vai da complexidade dos raccords da existência à simplicidade das regras de prudência: fugir a todo instante dos investimentos eróticos do poder; da interioridade e do idealismo em nosso lócus de produção. Esse cinema – duplo da vida – um tornar-se contínuo e permanente; não existente, porque incorporal; ávido pelo próximo passo, porque vivo é o que está em questão. Mas é justo nesse ponto fulcral do diálogo (?) que é preciso entrar de sola; com o elemento extra-social na composição: uma vida cinematográfica e não um repertório de filmes (no fazer, no ver e no dizer) de desejo frouxo…Uma superfície em construção, com a prudência necessária para “fugetar” com alguém ou detonar a si mesmo. Um cinema que se liga Full Frame  ao fora, numa espécie de Real Time Poltik…e que se insere nesse contexto de absurdos e indefinições, como parte do conjunto de  imagens que afeta e é afetado  pelos exercícios biopolíticos, ligando o corpo ao Zeitgeist através da memória…e tendo sempre na “caixa de foco”  o esquecimento como força ativa, e uma garruncha  de cano longo sem balas, nem alvos, como imagem-mor desse presente.

Um cinema de pesquisa ético-estética que se confunda com o próprio brilho da infelicidade; que se resolva com a falta – esse obscuro objeto do desejo – e que ajuste o diafragma ao core, as vísceras, ao obturador de plano focal; em nome de um sentido mais útil e vantajoso dessa abjeta coletivização dos costumes. “Apois”, alguma coisa (qualquer coisa) que seja um passo na dissolução do mesmo, ou para a sua metamorfose. Com esse vasto cinema-poiésis, pude ver que a própria vida é a coisa mais rara do mundo; a maioria das pessoas apenas sucumbe alienado!…Lombro-me que a cada roteiro engavetado, a cada filme que não fiz, a cada encontro que não se efetuou, a cada invento de liberdade; em tudo ouço som de gargalhadas, euqnanto as variações sobre o corpo vão se dando no encaixe com a máquina, objetiva-olho que tudo-nada vê, e que jamais olha para o mesmo plano de outrem, justo pela originalidade-diferença que se produz nas andanças no nosso virtual e atualíssimo terreno.  Um cinema – do modo como o concebo – deve estar na espuma do poço, deslizando; jamais no fundo da cultura, justo porque não depende de nada para se concretizar, e ainda que se enfraqueca muitas vezes na vontade de nada que está “na reta”; já é um grande passo não ser modelizado.

 Uma segunda dimensão: enrrabamento em altura e profundidade; desejo demasiado de superfície, alisamento do espaço esburacado; da Vasco da Gama à distribuição dos filmes, passando pelo palco das picuinhas de panela; surf nas calhas críticas, clínicas e cínicas que formam esse foço de quimeras, e se debatem no muro da crise de representação. O cinema do desejo, já não é o mesmo da competição (Lição de Millôr Fernandes: O humor é a vitória dos que recusam a competir!)…É como no amor cortês, você tem tudo na sua mão, menos o que lhe falta, e é aí que se produz o Élan vital próprio do cinema; o próprio amor pelas imagens, antes da visão colonialista de algo que se pretende alcançar como objetivo final…Analisar uma obra pondo-a distante do seu autor, sem levar em consideração as motivações – internas e externas – que levaram-no a produzi-la é burrice em demasia. Então, “bota o cú” na tela para devenir um Super-Supra-Outro cinema efetivo…

Tão longe, tão perto da beira-mar, de um porto de decepções, se virando e revirando a caixa de ferramentas em meio à burocratizacões e institucionalizações; um cinema do sentido-acontecimento está em vias de nascer, um cine de novidades: uma busca mesmo; uma procura pela pele, e ninguém que está no “bolo doido” – salvo engano – atravessou o espelho…Tá me comediando é?…Não, mopai!!!…Eu num tô “comeno” é nada dessa sede de poder. Enquanto essa murrinha segue curso, surgem outras paisagens. O que vislumbro nelas? Um tornar-se constante, como procedimento do fora; um cair fora dessas interioridades chapadas, sem contraste, sem Magic Bullets; um vazari desse borbulhar de referências morta. Subverter, implodir com os véus opacos, sem transparência, e retornar a imagem precária, de que ainda não nos livramos. E ainda assim, devo dizer que alguns envolvidos na resistência ao mutismo e a catóstrofe coletiva, ainda continuam traçando suas estratégias de intervenção criativa nesse – chamemos por hora – de espaço amorfo. Neste sentido, um cinema que se pretende superficial deve necessariamente percorrer esses bueiros, as margens, com algo que quebre rápido, ainda que provisoriamente, com certas hierarquias rígidas, e com esta infeliz vontade de verdade. Cinema que nasce e morre no capote de Gogol, com a língua afiada no ecrán, mas que já não mais se refira a este ou aquele, com aquele ar de boca-fala que nos é culturalmente atribuído: a tal da “maledicência”…A fofoca e o fuxico, deus é mais, deus é mais, deus é mais!…Cinematonomia sem origem e finalidade?! Embarcar na constituição de realidades intensas; inventar em função daquilo que pede a contextura…Pergunto: – Que modernidade cinematográfica surgirá de óculos 3D virados para uma sujeira e decrepitude em cada esquina? Que salto daremos, se as sequências são quase sempre estetizadas e não realmente tranformadas em potência? Ampliado na quarta dimensão de nossa (tele)ologia fechada, questiono…Quem acredita em Cinema de estado, identidade baiana, terra da alegria, jeitinho baiano? Tudo Kaô…

Antes de escrevinhar esse ensaio, revi algumas páginas de Assim falou Zarathusta, “Do novo ídolo“…: “O Estado? O que é o Estado? Agora vos peço abrir as orelhas porque vos direi a minha palavra sobre a morte dos povos. O Estado é o mais frio dos monstros gélidos. Ele mente friamente e esta mentira que escorre de sua boca: “Eu sou Estado, eu sou o povo”. Dispositivos: interiorização e invisibilização da norma na malha fina da vida…Se isso não diz nada por aí…aqui não deve ser somente uma crítica a profundidade de campos regionalistas, essa imensidão de axé-babás das imagens e sons.  Gritos e sussurros tradicionalistas; zoadas antiquárias de tambores monumentais, e regulações tacanhas (Olhar de caolho) ainda formam a nossa tão renitente identidade dos diferentes. E ainda há os que dizem que são as nossas “raízes”; pura invenção recente, e que não se sustentará por muito tempo, a depender do caminho que se tome daqui pra frente. Quanto a transversalidade de um ruído em várias direções, em todos os sentidos; Castañeda nos diz algo:…“Tudo é um entre um milhão de caminhos. Portanto, você deve sempre manter em mente que um caminho não é mais do que um caminho; se achar que não deve segui-lo, não deve permanecer nele, sob nenhuma circunstância (…) Esse caminho tem um coração? Se tiver, o caminho é bom; se não tiver, não presta. Ambos os caminhos não conduzem a parte alguma; mas um tem coração e o outro não. Um torna a viagem alegre; enquanto você o seguir, será um com ele. O outro o fará maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece.” …Haja Tubérculo…

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O grau -1 da cinescritura

Fiz comigo mesmo um pacto silencioso de não alterar uma linha seque do que escrevo e faço. Não estou interessado em aperfeiçoar meus pensamentose minahs imagens, nem minhas ações por conta da identidade cultural. Prefiro mesmo investir (custe o que custar) no estilo; numa marca, e é dela que se originará a força; que resulta nas alianças, nas similitudes de composição. Um pacto que recebemos com o nome, o dom que carregamos a vida inteira; o resto é roubo! Esse estilo que rege uma escrita autônoma, insubmissa, e desgovernada… Lou Read canta com estilo: You’re going to reap just what you sow…Você irá colher o que você plantou!

Um grau abaixo do zero: o problema não é se estou certo ou errado nas escrituras; mas sim o que é vital ou não; como se constrói uma realidade. Deixo meu corpo vibrar, me entrego ao acaso-contrução, ao ato violentamente poético da vida. Deixo falar o desnível essencial para a criação, um desequilíbrio orientado, um lugar fora-de-lugar.

Um traço a ser notado: a constatação de uma luta e de um luto…A maior angústia dessa linhagem de cinema é se debater no silêncio e na confusão da “democracia” dos impotentes, esse pólo reacionário. Como, pois, fazer falar e pensar o pior em cinema? No tenebroso eterno e retornante baixio das bestas? Fechando os olhos? Costurando a boca? Amarrando as mãos? Regurgitando a densidade de um verbo solitário? Talvez, sendo escolhido pelos temas, e não o contrário: tematizando os preteridos…Os motivos desse cinema de linhagem autônoma são os mesmos: o salto! Um giro em torno de si mesmo, uma caderneta impessoal, uma nota de passagem! Um “cada qual cuide de si”, e uma renúncia desse si; e que não me venha nenhum Zé mané fazer isto aqui de tábula rasa…tá ligado piveti!! Estor levantando esse cinema, duplo-vínculo entre as desgraças e a ingenuidade (mas sem neurose), e que não passa de um inconsciente em construção; um trator-tritor que derruba com os vales de lágrimas, com as esperanças e as subjetividades forçosas, e dissipa com a expectativa de uma recompensa que não virá. Mário de Andrade se alia agora no trio elétrico da discórdia: “(…) Enquanto isso os sabichões discutem se doce-de abóbara não dá chumbo pra canhão”…Não há decerto nada para gabar-se nesse barril em que se encontra o cinema regional…

É muito difícil tirar um cineasta de suas manias e depressões: a nacionalidade, o localismo, os integralismos mundiais, os territórios asfixiados, o pessimismo com que se rasga o ventre à sua mãe, não é contra isso que essas escrituras se insurgem, mas um combate incessante contra os aparelhos de engaiolamento; briga de galo contra o recalque das “Gerações perdidas“; contra os nefastos “donos do poder”, não somente um solavanco nos chatos, improdutivos, viúvas, broxas, avarentos, desdentados, e sim, colocar uma positividade nas inadequações, nos pessoalismos, nas personificações enrrustidas do kino-Ustraat; com suas tristezas e retórica de pseudocoligação; contra a mais-valia de código pulando de terreiro em terreiro. É antes uma onda louca de abrir uma broca no guarda-sol do compadrio como sugere Lawrence: rasgar até o firmamento, para fazer passar um pouco do caos livre e tempestuoso e enquadrar numa luz brusca, uma visão que aparece através da fenda. No outro cinema, quase tudo é codificado: O BEIJO, o sotaque, a mise-en-scène, o plano orçamentário, a licitação do fazer, as conversações, os encontros de classe, até mesmo O DESPREZO, A NOITE, O SACRIFÍCIO, tudo é sobrecodificado numa paleta acinzentada; sem esquizitice alguma. Do limiar ao LIMITE, é sempre isso que está em jogo, um “sair na mão” entre o cinema-Bas-Fonds (pl. fig. camadas miseráveis e moralmente degradadas da sociedade e o cinema-caboclo, o cinema-bebida, cinema-vícios contra o cinema-passione, cinema-compadrio, cinema-balcão, o cinema-vale da morte na cola cinema-macabro, cinema-satãnico com o cinema-Hamlet, o cinema-egomania, cinema-infantilização, cinema Édipo-afinal na lona. A rede impercptível que está se formando, a mandioca  empastada, a cebola apodrecida; e não há Rav (radícula do audiovisual) que dê conta de uma afirmação de simulacro; é sempre a mesma história fiada: Lapinha, Santo Amaro,  territórios de identidade, sisal, vaqueiros, Boca do rio, Pelourinho, Feira de São Joaquim, garotos de rua, favela, pobreza, reisado, salvador, piriguete, “viadagem”…Sim, sim, sim, sim…Não, não, não, não! Pra que ser-tão assim? Abaixa logo essa gravidade “cumpade”, para que os espíritos de peso possam dançar nesse abismo que cresce aí na frent. Entre o “aquilo mesmo” que entremeia as cidades alta e baixa e suas blasfêmias escatológicas, um convite a dança…Quando você olhar para o abismo, ele olhará também pra você.  É preciso chamar a atenção para algo que retire essa gente do sufoco; para que se possa mesmo correr léguas do dispositivo de escravidão, que está, sobremaneira, entranhado nos paralelepípedos e nos bits e nitratos…(Você vai colher só o que plantou!), ainda que não seja sinal de saúde estar ajustado a uma sociedade completamente adoecida. De paradoxo em paradoxo, você já sacou que o que vale aqui são as intensidades fugidias. Nosso critério, princípio, e regra somam-se a um breviário de preocupações: uma grande angular em cada instante por segundo, uma prática política, u  despacho, bozó no contrato de co-produção entre as mentiras macrosociais (É tudo verdade!) e os truqs da sociedade civil, na regência dos seus papéis. Quanto cinismo diante das pequenas e grandes peças do desejo, hein!…O jogo solto é a vibração de um pensamento da inconstância, da negação de modelos e a instalação de uma dúvida avassaladora: O que filmar? O que montar? Os REAÇAS  (reativos + mossaças) serão limados, feito pombos sujos na batalha da bestialização dos formatos, dos meios, e das mensagens…

Ainda vejo o grau de potência como uma holografia, um vômito de picardia no abará da cultura cinematográfica. Chega desse papo furado-ultra-passado de uma Bahia para todos!!! Ouça! Ou sua língua o manterá surdo! Enquanto isso, traficantes de projetos, virgens, velhos, mortos sosobram nos falsos-raccords, dando lugar ao vampiro infame da captura mágica. Ainda cabe um filme sobre a derrocada? Fim do cinema? Pergunta a Godard ou a Edgard? Por hora o que importa é encontrar os seus: o cinema-assexualidade, cinema-incorporeidade, cinema-hiato, cinema-vertigem, cinema-afeto, cinema-queda-de-cavalo, cinema-esquizitão, cinema-daquele-jeito, ou mais lama e tapinhas nas costas!? Alguém poderia dizer quanta contradição e contra-senso há num pulo de gato? Numa lira de cinqüenta anos? Nos ESTRANHOS que perambulam feito Ariel e Caliban? Há muitos paradoxos nas FOLHAS de um sono profundo, nos jardins de CASCALHOS ditosos? Nos CÃES astutos que inundam a nossa praia? EU ME LEMBRO daquele HOMEM QUE NÃO DORMIA na sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais! E, diga-se de passagem, não havia por aqui um TRAMPOLIM sequer para os fortes, nem um SARCÓFAGO para as noites d’estio, um CARRETO para levar-nos – Um por todos, todos por um –ao prelúdio da ave d’aurora. Se essa PELEJA prosseguir rumo afora, na MANHÃ CINZENTA que nos inebria, na REVOADA que não chega, com esse VÍCIO DE LUGARES anacrônicos, teremos, enfim, formado a nossa geografia cinemática quebrantada e dispendiosa, cujas mãos livres e a laringe flexível – próprias do cinedesejo – jamais produzirão um córtex cerebral coletivizado; e não será inventado nenhum contraluz de ULTRA-CINEMA, que por hora, nos sonhos morre sorrindo, e acordado vê o cine virar ceninha. Conclusão-diagnóstico: o PAU do cinema-BRASIL está brocha!!! Vai chorar, é?

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Processo de diferencialidade

Uma dimensão fundamentalmente prática, uma co-existência entre a preguiça e o sentido; uma sobreposição de lugares. Essa atitude de descrédito em relação ao lugar de verdade do cinema me chegou bastante cedo; e hoje fico vendo “gentinha”, sem dente, coma vida em frangalhos, “inda” nem bateu o reboco da parede de casa, sem um tostão furado pra ir à feira do Dois de julho comprar farinha; e ainda vem com o discruso da perfeição; quando não, o que se vê é um assistencialismo piegas. Prefiro não compactuar! Como se fosse possível mesmo reverter o quadro de revertrés em que foi metido, ou melhor, que se produzi. Sonhando se fez um pesadelo! Mas a criação pela diferença é uma necessidade – nem que seja pra criar um caso – um fragmento de loucura que se desprende dessa caretice toda (tudo que caiba na linha abstrata) proporciona um modo mais veloz e sintético de alcançar a  tese paradoxal – o grau máximo da diferença é o que existe na repetição de algo idêntico. O que evidencio é um desvio provocado por uma escritura mais retesada, que sempre apara as arestas, encaixando as discórdias, os disparates, as desumanidades; um claro-escuro, noite-dia, ficção-real, erotismo-morte; interna-externa; encontros e não dualidades; tendo sempre na cartola a clareza de que duas coisas só são diferentes se forem expressas por conceitos diferentes, e é isso que importa agora. Pergunto; vamos deixar a ultra-viagem cósmica, que só se alcança com o cinema, ser apagada (pisoteada) pelo romantismo de um mundo-ideal? Dicotômia em cinema? A minha terra, o meu povo, a minha baía, os meus planos; observo com uma lente zoom 4.7 – 500 mm…Esse jogo de espelhos entre o idêntico e a multiplicidade das suas repetições; quem se aliou com quem; quem trapaceou; quem deu o braço a trocer; que sucumbiu; quem se subordinou a quem. Vamos continur mentindo e vociferando por aí que existe o que não existe? Ou vamos partir de uma diferença que exista em si mesma, e que seja anterior à própria categoria de identidade, e fazer derivar daí as condições de possibilidade da experiência do mesmo e, portanto, da própria generalidade na representação?

Nessas páginas sangradas de uma história ainda mal-contada, eis que surge uma espécie de 5D (quinta dimensão) da  auto-sátira, ou ainda uma melancholia  em termos de teoria dos humores cinemáticos; uma bile negra associada à irritação comum. Enquanto isso a CUÍCA continua vulvuzelando alto em noites de tavernas, e regurgitando constantemente esse pobre cinema-macário, cinema-decadente, cinema-baixa tendencial, cinema-sem destino; sabe de uma: o Super-outrem quando bebe é um rei-cineasta, 4 K de autarquia na cabeça, mas quando acorda na ressaca, um mendigo roto com uma Hi-8 nas mãos; sem bolsos, nem dinheiro. Pauperia abstrata do cinemão?! LET´S GO: uma só e mesma história para todos: um admirável mundo velho baiano!!! TUDO ISTO NÃO PARECE UM SONHO? (…): “Sejamos felizes, tudo vai mal”…Vumbora nessa preguiçosos e indolentes, a urgência na Bahia tem que deixar de ser uma utopia; a ignorância um modo de assujeitamento; cadeias coletivas de inexpressividade borbulham na ira e na desavença com a expressão incorporal; assim também os modos de usar os afetos; a fabricação da falta; as demandas moralizantes por objetos e formas de empoderamento (impotência como vontade de poder / desejo como falta de objeto), acoplando-se a uma rede de poder que constitui o Juízo, enquadra a vida, esmaga as singularidades, violenta as diferenças e promove o triunfo de uma política do ódio e dos juízos morais como gosto generalizado pela reatividade e pela inveja. Vale o encontro com Scott Fitzgerald: Não se escreve por se querer dizer alguma coisa, escreve-se porque se tem alguma coisa para dizer…Estendo isso ao cinema!

Já está mais que na hora de  promover uma micropolítica dos afetos, para pôr em movimento devires ativos, investindo uma ética e uma estética pautada nas alegrias ativas, na invenção de si e em modos libertadores de existir;  como o faço agora, problematizando as políticas culturais e inventando uma maneira de pensar e praticar as artes, as técnicas, os modos de sociabilidade, cujo crivo é a desmodelização e a afirmação de modos intensificados. Uma Paranomásia de dispersão: Exportar é o que importa! Mas o que temos pra exporta, se o cinema por aqui anda embotado? Antes é preciso formar um  novo  corpo  no espaço intersticial  das  diferenças. Seria absurdo dizer, pois, que esse “Cinema baiano” tem algo de ver com uma deriva, como que placas tectônicas se chocando, fazendo soltar moléculas de verminagem para todos os lados; fazer as cenas se encontrar com continentes, montanhas, vales, fissuras, terremotos e maremotos. O que mais absurdo: uma causa direta para o cinema, uma origem baixa desse cinema, a Pangéia cultural (Continente único para a cultura), ou a mundialização dos gostos e gestos? O aparecimento do macaco antropoides da finalização, o eoceno cretáceo em telecine, o carbonífero na moviola, ou um monte de angiospermas do audiovisual se batendo com seu Édipo em todos os planos de filmagem, em todas as telas, afinal? A título de provocação: não é esta a emergência dos fluxos descodificados que queremos combater com um cinema menor??? Porque então um desejo de grandeza? Talvez seja um absurdo pensar que a expansão da tecnoartisticidade tenha – na janela de exibição que se abriu a pouco mais de um século – se auto-destruíndo nessa geologia abismal, mas a apologética aqui vai no sentido de exaltar uma uma ética-estética que dê conta – não dos bilhões de anos da terra: dos procariontes aos eucariontes – e sim que pule da precariedade em que “nos” assentamos; que mostre a cara do seu processo de diferencialidade.

Absurdo pensar os multicelulares pulando dos óculos, e uma prática das multiplicidades no fotograma? Se ainda houver um plano topológico para o cinema daqui, devo dizer que é o do real, o da terra que faz isto ou aquilo se deslocar! O fim foi e sempre será o começo de uma nova era; a variação continua de um evento transevolutivo. Seria absurdo, pois, na escala geoteológica do tempo audiovisivo, afirmar a sua infância, ao tempo em que se proclama a sua morte precoce? Morreu de início! Será absurdo empunhar ainda a câmera como um motor que vá numa veloz fotomicrografia, da proto-história (primeiro o desejo) ao seu Karyon = núcleo social, passando pela mistura tenebrosa do Kino-Glass? Quem o homem do cinema pensa que é? Absurdo, uma REVOLUÇÃO AUDIOVISIVA que prime pela qualidade? Introjetar um transe na terra da imbecilidade? Fugir do “saci” e da paranóia das reservas de mercado? Mistificação de retardamento? Opacidade ou transparência? O Motor da terra parou para dar passagem ao corte translongitudinal da topografia imagético-sonora? Que absurdo! Velocidade ou lentidão nessa viagem ao centro do vazio? Origem do universo, origem do homem, origem do cinema, origem do fim! Que tara! Aqui fiz uma ligação direta da terra com o homem, do homem com o cinema para dizer que a nossa história continua em migalhas!!!

Absurdo não dizer duas ou três coisas que sei (Eu sei tudo..né não Edgard!) sobre a merda que está em curso! Esse cinema: Duração: séculos. Cor: círculo cromático. Trilha: o vento. Som direto: Terremotos. Um abismo na morfologia de um trajeto; uma lógica de sentido no terreno patafísico e transhistórico que se abre para a ação. Absurdo não dizer guaguejando o que Fellini dizia rindo: – Que somos, ao mesmo tempo, a infância, a velhice e a maturidade! A Longa duração, os estratos se chocando, os desertos que crescem, a viagem imóvel (o sonho de Joe Bousquet e Beckett): eis uma utopia-concreta! Seria absurdo desejar um naturalismo em cinema? Uma etologia fílmica? Uma arqueo-paleontologia em lugar de um teatro privado?

 Minha galera: John Cassavetz, Miizoguchi, Hitchock, Stroheim, Antonioni, Straub, Kurosawa, Olney São Paulo, Chantal Akerman, Kurt Kren, Syberberg, Duras, Tarkovsky, Ozu, Marcel Camus, Glauber Rocha, Mack Sennett… Alvar Aalto, Mustafa Abu Ali, Marina Abramoviç, Vito Acconci, Reza Abdoh, Adbusters, Bas Jan Ader, Masao Adachi, Fatih Akin, Sam Peckinpah, Peggy Ahwesh, Eija-Liisa Ahtila, Doug Aitken, Igor and Gleb Aleinikov, Alive from Off Center, Francis Alÿs, Omar Amiralay, Erik Anderson, Laurie Anderson, Kenneth Anger, Ant Farm, Karel Appel, Cory Arcangel, Skip Arnold, Art & Language, Antonin Artaud, Robert Ashley, Olivier Assayas, Fred Astaire, Behnam Attar, Michel Auder, Kianoush Ayari Beth B, Francis Bacon, Alex Bag, Derek Bailey, John Baldessari, Craig Baldwin, J.G. Ballard, Banksy, Piero Bargellini, Matthew Barney, Eric Baudelaire, Colin Barton, Pina Bausch, Jean Baudrillard, Otmar Bauer, Jean Beaudin, yann Beauvais, Stephen Beck, Samuel Beckett, Captain Beefheart, David Behrman, Giselle Beiguelman, Zoe Beloff, Guy Ben-Ner, Lynda Benglis, Walter Benjamin, John Berger, Charles Bernstein, Joseph Beuys, Dara Birnbaum, Jeremy Blake, Juliette Blightman, Christian Boltanski, Gregg Bordowitz, Jorge Luis Borges Jennifer Bornstein, Walerian Borowczyk, Guy Bourdin, Paul Bowles Stan Brakhage, Antonello Branca, Bill Brand, Ian Breakwell, George Brecht, Robert Breer, Ann Van den Broek, Marcel Broodthaers, James Broughton, Lenny Bruce, Klaus vom Bruch Matthew Buckingham, Chris Burden, E.F. Burian, William S. Burroughs, Mary Ellen Bute, James Lee Byars, David Byrne, John Cage, Alexander Calder John Cale, Bonnie Camplin, Mircea Cantor, Raymonde Carasco, Cioni Carpi, Louis-Ferdinand Célin, Jack Chamber,Paul Cha,René Char, Yin-Ju Chen & James T. Hong, Sidi Larbi Cherkaoui, Don Cherry, Spartacus Chetwynd, Abigail Child, Segundo de Chomón, Henri Chopin, Chris & Cosey, Cinema of  Transgression Robert Clampett, Rene Clair, Lygia Clark, Shirley Clarke Carlfriedrich Claus, Chuck Close, Bob Cobbing, Jean Cocteau Émile Cohl, Joe Coleman, Phil Collins, George Condo, Julian Cooper Anton Corbijn, Jospeh Cornell, Pierre Coulibeuf, Merce Cunningham, Ivor Cutler, Keren Cytter, Jonas Dahlberg, Salvador Dalí, Dance with Camera, Jim Davis, Emile de Antonio, Storm de Hirsch, Brian De Palma, Guy Debord, Wim Delvoye, Thomas Demand, Jacques Demy, Maya Deren,Eugene Deslaw, Karel Dodal, Harry Dodge and Stanya Kahn, Peter Donebauer, Cheryl Donegan, Stan Douglas, Jean-Marie Drot, Marcel Duchamp Germaine Dulac, Henri d’Ursel, Eric Duvivier, DV8 Physical Theatre, Gwilly Edmondez Viking Eggeling, Ed van der Elsken, Tracey Emin, Ed Emshwiller, Brian Eno, Gerhard Ertl & Sabine Hiebler, Koto Ezawa, Robert Fairthorne & Brian Salt, Forough Farrokhzad Cao Fei, Molissa Fenley, Luc Ferrari, Robert Filliou, Morgan Fisher, Robert Fitterman, Kit Fitzgerald & David Sanborn, Thorsten Fleisch, Flux Films, Harrell Fletcher, Richard, Foreman, Luke Fowler, Forum Lenteng, William Forsyth, Hollis Frampton, Tessa Hughes-Freeland, Dara Friedman, Su Friedrich, Buckminster Fuller, Rainer Ganahl, Philippe, Garrel, Antonio Gaudí, Ernie Gehr, General Idea, Jean Genet, German Dada, Alberto Giacometti, Gianikian and Lucchi, Beatrice Gibson, Peter Gidal, Frank E. Gilbreth, John Giorno, Gilbert & George, François Girard, Paul Glabicki, Leslie Asako, Gladsjø, Philip Glass, Doron Golan, Nan Goldi,  Kenneth Goldsmith, Jack Goldstein, Piero Golia, Dominique Gonzalez-Foerster,, Rodney Graham, Amy Granat, Peter Greenaway, Johan Grimonprez, Elke Groen, Groupe Medvedkine, Gutai, Brion Gysin, Barbara Hammer, Alexander Hammid, Hilary Harris, Mona Hatoum, Carl Michael von Hausswolff, Todd Haynes, Laszlo Hege, Her Noise, James Joyce, Sankai Juku, Jesper Just, Mauricio Kagel, Yves Klein The Living Theate, Sharon Lockhart, The Lumière Brothers, Chris Marker, Henri Michaux,, László Moholy-Nagy, Meredith Monk, Otto Muehl, Takeshi Murata, Bruce Nauman, New Humans, Hans Ulrich Obrist, André Luiz Oliveira, Bob Ostertag, Ulrike Ottinger, Nam June, Paik, Paper Tiger TV, Sydney Peterson, Tom Phillips, Amos Poe, Pranks TV, Rosa Von Praunheim, Angelin Preljocaj, Seth Price, Sun Ra, Dick Raaijmakers, Eliane Radigue, Yvonne Rainer, Robert Rauschenberg, Maja Ratkje, Sabrina Ratté, Man Ray, Red Crayola, Steve Reic, Alain Robbe-Grille, Roulette TV, Sackner Archive, Situationist Documentary,Susan Sontag, Alexander Sokurov, Gertrude Stein, Karlheinz Stockhausen, Superflex, Survival Research Laboratories, Ten Women Who Use Film, Wim Vandekeybus, Stan VanDerBeek, Agnes Varda, Robert Watts, Peter Weiss, Frans Zwartjes, Orson Welles…a trilogia da incomunicabilidade…Ufa! E para não esquecer…devo fazer um parêntese para citar Walter Benjamim, acerca da própria CITAÇÃO no processo em questão, e que corroboro e levo adiante…goste ou não os ignorantes-tirânicos que vêem nisso apenas um “pé no saco”…”As citações, no meu trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam o consciente do ocioso viajante.”….posto que devo citar algo (cada um saberá reconhecer suas citações) para confiramar o negócio: O tédio é um tecido cinzento e quente, forrado por dentro com a seda das cores mais variadas e vibrantes. Nele nós nos enrolamos quando sonhamos…

Não é algo apenas que se movimentam cifras, vaidades, e sim viagens num mesmo lugar, escapada dos códigos; pouco pra mim é muito! O que isso quer dizer? Absolutamente nada! Irei onde se possa cantonar o evento na curtíssima duração; cinema de calango; e nada de descansar dentro da tal “linguagem”; esta imposição da subject dominante; e nada de qualificar um cinema, e sim estabelecer a sua condição; filmar do seu próprio modo; fazer da câmera o patoá contrasocial, etc e tal. Um cinema-aberto…abertura e enrrabamento…mudar a natureza das cenas a cada instante! Nesse cinema, não saimos da metamorfose, são vulcões em planos, rachaduras em montagens, eclipses em correção de cor, tufões em figurinos; borrar a maquiagem que perdura…Então me poupem do absurdo maior de identificar certas fissuras com a origem do cinema, da terra, do travelling desfocado de uma vida-fichinha; e não me venha com profundidade de campo em um organismo degenerado; deboche com a carancuda planonemia…Seria absurdo, então, trocar o Regime–silício pelo regime-emoção?

Eu faço, eu sinto, eu funciono! Eu tive uma idéia! Eu viajo, eu revejo! Coloco a máquina para respirar um ar de pintura do cotidiano, um corte sempre inacabado nos costumes em comum, um plano que faltava; microcenas que escapam à lógica comercial do puro entreteniment; entre a retina e o retido: o tempo não cronológico, sem temor de que se possa fracassar. É como ter uma incerteza com o coração aberto; uma série de pequenos fragmentos cuja conexão não está pre-determinada, e muitas vezes a distância faz com agente aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande…Experimente! Alerta geral: vivemos todos apertados dentro de nós mesmos, e não vemos um palmo diante do nariz…O eu sinto do cinema não pode ser prisão, e sim ponte!

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Campo e contra-campo

Campo: a proto-história do cinema local foi/é, em seus zilhões de fotogramas, uma abertura para o acaso e para o caos: A grande Feira, Redenção, Barravento, O caipora, O mágico e o delegado, Barravento…Contra-campo: Já não é mais! Que a terra do cinema ainda sofrerá mutações, não temos dúvida…Lámour à mort, Resnais, um homem que ressurge dentro dos mortos…só não se sabe como e quando uma escrita atonal e não-linear ultra-passará o desastre. Um vigésimo absurdo é que o cinema-nômade não quer se mexer, é mais que preguiçoso… é simplesmente anti-produtivo…Vai encarar? Ação, cine-olho, Contraponto orquestral, Cor, Corpo, Enquadramento, Êxtase, Fragmento, Gag, Iconoclastia, Ilusão, Metafilme, Plano sequência, Diegese, Flashback, Mimésis, Re-make, Sinopse, iverosímilhança, Cristalino, Ralenti, Regra dos 180o, Trucagem, Melodrama, Política dos autores, Pornografia, Pré-cinema, Terror, Underground, Western, Barroco, Burlesco, Expressionismo, Brakhage, Bresson, Dulac, Eisenstein, Epstein, Frampton, Godard, Kulechov, Pasolini, Pudovkine, Rohmer, Rossellini, Ruiz, Vertov, Douglas Sirk…Se mexe “fi de deus”…chega de nordestinização abjeta. Van der Keuken que ir para o sul, necessariamente fugir daqueles que querem ficar onde estão, na quinta dimensão do psicoparalogismo; e por fim, avançar 4K na absurdidade protocinemática; mas continua paralisado, infinitamente do para trás e eternamente desejando ir para frente. Sem um pouco de possível morrerão todos sufocado em sonhos impossíveis! Campo: quando o próximo furacão passará e deixará novamente a terra desolada e pronta para uma nova experiência de olhar?

Contra-campo: jamais se é obrigado a fazer um filme! Jamais se é obrigado a fazer um texto! Jamais se é obrigado a falar disto ou daquilo! Jamais se é obrigado a iniciar ou findar nada! Tudo é desejo! Desejei dizer algo sobre o nosso inverno. Está nevando em Salvador! O Vento por aqui é frio: tristess(z)a, caipirismo, solidão, uma terra choxa-xoxa, inundada de palermas – artistas de plástico, filósofos de bar – ávidos para meter lenha na fogueira entre o Regional X Nacional; loucos para inventar e atualizar a “mossassice” que nos tradicionaliza. A menor partícula de matéria viva sabe que a Bahia não é o lugar do futuro, tampouco o seu cinema…além do que é preciso re-dizer que o nordeste é uma invenção muito recente, que na luta e partilha entre o sul e o norte, quando os DONOS do poder tiveram que – no inicio do seculo XX – angariar fundos para esse lugar, acabaram por prouzir esse lugar, com sua indústria da fome, da miséria, da seca; invenção das elites, para angariar fundos para o lugar (estilo veminagem) que continua até hoje….a manutenção desse lugar de coitadinhos, pobrizinhos, misráveis…isso faz parte de uma política levada à cabo e que até hoje continua sendo, menos um debate, muito mais uma falácia de dispersão…A criação da Sudene foi outro passo importante para que os ladrões da geopolítica continuassem a mentirada…essa porra da seca, dessa região carente de investimentos, de um lugar marcado pela necessidade de ajuda, e é isso que tem passado para todas as áreas, pelo cinema , inclusive e sobretudo, a idéia de que precisamos de ajuda, que somos os coitadinhos, os pobrezinhos atrás de cotas na divisão do bolo, os “fudidos” que são excuídos do eixo de decisões; isso não passa de resquício de metafísica… e nele expressa uma afirmação da dimensão autoinventiva, autoatualizadora, que nada tem de ver com a maneira como a própria produção se organiza; uma vez que é aí que se instala mecanismos de esvaziamento de dinâmicas produtivas, que reduzem a vida, o cinema, e o lugar a um estágio de ‘menos ser’: a um certo pathos de impotência… Em outras palavras: a miséria nas mais diversas feições que ela pode assumir entre nós é questão política, nem todos somos vitimados, nem “comemos a pilha”, porém, dessa incúria de um poder que está sempre nas mãos da outra região…Chega de coronéis e jagunços, cangaço e messianismo, sol e seca inclemente, chega de CONSELHEIROS de um lugar comum…Operação Nordeste, política da SUDENE, ganância, fanatismo, compadrio, a vida seca…tudo isso ainda é muito atual e virtual…Josué de Castro…me ajudeeeeee!!!!

Essa equivalência entre som e imagem, ou entre imagem e palavra é , aqui, uma espécie de transdução dese castigo, auto-punição que se construiu por aqui, ou mesmo uma compensação por não ter levado adiante uma outra pegada…como dádiva, como prêmio , além das estatuetas, a obediência alienada e até inconsciente como pagamento da dívida…Alugem me disse certa vez que: Uma das principais tarefas da arte sempre foi criar um interesse que ainda não conseguiu satisfazer totalmente….Acreditei! Se a primeira vista isso parece uma crítica, trata-se, porém, de um “abra seu olho” para o deslocamento do próprio lugar que quer empreender… E por isso, em vez de perder tempo com o já-passado, prefiro o florescimento e o auge da literatura Americana, que me trouxe a pegada política, que levo a cada passo, do curtíssimo ao longo, fazendo durar noutra assertiva, uma outra prática…um outro tipo de encontro: Walt Whitman, Mark Twain, Henry James , Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne , Emily Dickson, John Steinbeck, Ernest Hemingway, William Faulkner, John dos Passos, Gertrude Stein, Truman Capote, Saul Bellow, Henry Miller, J. D. Salinger, Vladimir Nabokov, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs…e por aí vai…

Jamais se é obrigado a pensar! A brasilidade e a sua maçonaria intelectual é outro impasse…um cinema nacional que torna-se, de mais a mais, um idealismo sem precedentes; resistentes à modernização, ávidos pelo Oscar…Filmes do ‘nada querer’. Este foi um ano ruim!  A morte desse povo, de suas forças é consciente, empreendida, racionalizada, buscada; as tristezas são administradas no decurso do tempo. O resultado: medíocres perfurações, realismo patético; a bestialização é geral; gelo; era glacial da cultura, enquanto o Homem Revoltado – Coitado! – vai morrer do peito, pois já não há no sangue – desde a era da vovó – oxigênio suficiente para irrigar a estranha alegria que insiste em apanhá-lo! A tragicomicidade que o acompanha é irreverente, ou melhor, irrelevante… Não haverá riso exterminador que dê conta dessa doença integrada em frases curtas, em plano sequência…Morrerá de boca, o homo cinemático? Campo: Quem filma demais, anda mal!…Não, não, não, não!!! Contra-campo: cinema-diagrama, em contraposição aos de sistema ou estrutura; coligação real. Não quero apenas dizer que falta isto ou aquilo, mas propor uma alternativa processual a essa feiura toda; e me instaurar no limiar de frequência, entre essas oscilações que ameaçam, todo o momento, a estabilidade dos lugares fixos…Desejei estar sempre em outros cantos; fugindo daqui e dalhures, sempre com uma questão que emerge entre o campo do real e o contra-campo cinemático: relações de força ou nigrinhagem? Pensar e viver o cinema tem que deixar de ser uma tralha inútil… Meus pensamentos sempre se acordaram com meus atos…Precisamos urgentemente de fogos caramurú: aqueles que não dão chabú…

Ou fazemos novos lances, como bem colocou György Pálfi no seu excelente Taxidermia: Quando algo chega ao fim, o seu princípio ganha importância!…ou não sairemos dessa muvucagam“Leve fé cabeça”! Vamos nos apropriar desse Mercado (Iscrôtu) e das intarfaces aí imbricadas: valor, mercadoria e alma coletiva. Lembro agora que Fellini insitia em perguntar, e insisto em repetir: Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade! Insisto também em fugir dessa quase-morte que nos acomete…então se plante môfio…onde é que estão as consistência das interioridades? Só podem estar “na cocó”! Enquanto isso alguns – ainda bem – continuam dando o “vazari” das causas externas, e dos efeitos dessa tonteira. A profundidade desses vazios continua à mostra, a pleno vapor, com durezas provenientes de diferentes lugares, e que implica em uma subjetividade comum para a comunidade cinematiquè. Campo: nesse lugar de cineasta pequeno, jamais se é obrigado a sorrir! Contra-campo: um corpo tem sempre o ideal que merece, e o real que produz! Campo: jamais se é obrigado a falar bem ou mal; a ver isto ou aquilo; a se esconder ou aparecer; jamais se é obrigado a ser bom ou ruim! Contra-campo: os infelizes tentarão em vão suavizar a dor com uma taça de vinho barato e um tropeço a cada passo político – Zoo Politicon – um macaco desastrado com uma câmera na mão e nada na cabeça: eis a caricatura do cineastro! A SÁTIRA perguntará enquanto boceja: adonde estás esse kynema? Direi com Xenôfanes de Colofão: “Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm.”…Os deuses da cultura nos obrigam, no entanto – na estação dos seus pés – a desenhar com sangue, a filmar como boi; a desenhar a tensão pela qual a força primordial foge sempre pela imaginação! Campo: jamais se é obrigado a saber que quando do acaso se procura um centro para sorrir, haverá sempre um deserto crescendo ranzinza. Contra-campo: um cinema Gourmantché: “Quando a boca morreu, consultamos as outras partes do corpo para saber qual se encarregaria do enterro (…)” O peito na alça da frente, as mãos acorrentadas, os pés sacrossantos atados…logo atrás, uma procissão com faixas e cruzes..:Viva o cinema de autovigilância! Esse estranho ideal policialesco de ser a má consciência de alguém que ri e o espreita em outro galho…Lasciate ogni speranza, voi ch`entrare…. Jamais se é obrigado a ter esperança!!! A gargalhada: Era uma vez essa Bahia!

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A cinescrita do desastre

Uma Imagem-conceito da produção numa terra a ser conquistada: criar uma nova era, um novo homem, e fingir que somos todos iguais! Uma Imagem-abstrata: o improdutivo, o catatônico, a desobediência civil com uma arma de brinquedo, criando  uma guerra santa! Precisamos é de um povo de guerreiros que retire – fora as partes – os homens amortalhados das suas caixas pretas; e as putas de luxo que se arrastam no lodo e nos bueiros por aí, aqui, alhures; o chão, a gente, a paisagem, os céus, as rebeldias, as inquietações, que se mude tudo, e não se prenda mais a nada! Eis um primeiro ponto para florescer a Cinescritura do desastre: duvidar de tudo que é muito bom, e de tudo que é muito ruim! Vou arriar o balaio vú! …”Larga o doce vey!”… Que se mude a phýsis; o ser e corpo dessa terra; que se leve o consumo e o registro à produção. Um roteiro: o homem solitariamente povoado sai pelas ruas no esforço de pensar o estado de horror em que se vive por essas plagas. Porque a vida aqui é só dendê e batucada? Ora, se pensarmos na tão propalada KRISI atual; a crise da invenção do homem; a crise da morte do homem; se pensarmos na anatomia do ruído, com as suas compulsões improvisadas às pressas, quais sejam: o orgulho e a autopromoção, a dissimulação; as manias de juventude e de eternidade; a avareza e seu duplo consumismo débil; a ira e o deboche; a mais-valia do trabalho; essa gigantesca teia de valores morais que nos identifica e fixa; não teremos dúvida de que urge clamar por novos devenires…e ainda há aqueles que odeiam os críticos, sobretudo, os de cinema, justo aqueles que ,de algum modo, se lançam na tentativa de contribuir para o desenvolvimento da Sétima Arte. Sétima? Para fazer cinema é preciso primeiro ter um olho! Depois sair “avionado” da fixidez! Ele garante ter um par de olhos e de pernas para atravessar os estratos que compõem a natureza da sua existência, muito embora isso implique sempre em outros meios e ritmos, motivos e contrapontos.

Um perseguidor com suas armas secretas para habitar um lugar inóspito; a parte maldita desse estado (de coisas) com suas paixões tristes; um corpo catatônico; dificultando tudo nesse lugar de heróis equivocados e construídos artificialmente pelas elites. Alguém (até que enfim, e ainda que na ficção) para colocar um elemento de antiprodução; menos atos mirabolantes de heroísmo cultural, muito mais a busca por uma expressão nesse pasto de piolhos; sem pestanejar, sem deixar de escaldar quem quer que seja de abjeto caráter; usando a palavra contundente, aceitando os dissabores, mas sem esmorecer, e levando a cabo os florilégios da tra(d)ição boca de brasa: Tristes sucessos, casos lastimosos. Desgraças nunca vistas, nem faladas. São, ó Bahia, vésperas choradas. De outros que estão por vir estranhos.  Nada passará incólume!

Um escorpião encalacrado à espreita de um evento singular, contra o bestiário da morte e as bestas mais humanas, caipiras, e ingênuas que o triscam, que o faz ganhar-perder algo; e entre todos os fogos, ele é o próprio fogo que vai direto à essência das coisas, como quem diz a esta “canalha infernal”: Sentimo-nos confusos e teimosos. Pois não damos remédios as já passadas, nem prevemos tampouco as esperadas. Como que estamos delas desejosos. Levou-me o dinheiro, a má fortuna. Ficamos sem tostão, real nem branca, macutas, correão, nevelão, molhos: Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna, E é que quem o dinheiro nos arranca, Nos arrancam as mãos, a língua, os olhos. Algumas vezes numa longa viagem ao imperceptível descomeço; Devir-Aleph, ele atira contra todos e contra ninguém: nesse instante gigantesco, vi milhões de atos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição; a única porção da extensão que interessa, e que é ao mesmo tempo percebida e sentida, instaura a gênese do paradoxo: como criar um corpo alegre na vida que se esvai com tanto terror? Os átomos vivos flutuam aí como pó em gato de luz; enquanto os trapos, farrapos, palhaços num mar de outdoors, vivem seus muitos naufrágios com muita pompa…

Um livro no colo, enquanto os filmes seguem a culhão, a facão, no estilo abafa-banca…La Fontaine, que já começa com “Os companheiros de Ulisses”; metamorfoseados em animais, eles não querem mais voltar a ser humanos, admitindo com isto que encontraram, finalmente, seu ponto de equilíbrio definitivo, seu verdadeiro caráter, sua paixão fundamental. Eis como e porque os homens podem transformar-se em animais, por que seu próprio corpo imita uma espécie e as fábulas escrevem sobre eles. É por isso que os contos de fadas fascinam tanto as crianças, porque munidos da mesma liberdade que os bailarinos e os ginastas, seus corpos se prestam a todas as transformações possíveis; por meio de uma deliciosa cinestesia, essa adaptabilidade quase infinita os faz compreender interiormente as operações da varinha mágica, menos ilusórias do que os virtuais, menos inspiradas pela magia do que por uma pedagogia do possível. Os marinheiros de Ulisses a perderam…URGENTE: Retirar os automatismos/determinismos do homem…Cansei-me desses homens excelsos, os melhores dentre os melhores, cuja ‘excelsitude’ dá-me ganas de fugir (Zignow) – para o alto, para longe e avante! Diógenes-kynikos (Diógenes de Sínope) acreditava que os humanos viviam artificialmente de maneira hipócrita e poderiam ter proveito ao estudar o cão…Diferentemente dos humanos, que enganam e são enganados uns pelos outros, os cães reagem com honestidade frente à verdade…Enquanto a Mania de Verão (Transtorno Afetivo Sazonal) segue o curso, talvez ainda caiba vagar pelas ruas , a migué, com uma lanterna procurando um homem de cinema…Che cosa vuoi ancora?

Uma câmera stylo protagonizando a maquinação e permeando a experiência da arte, provocando dois tipos de rupturas com o sedentarismo em questão; lidar com distâncias e diferenças, rompendo com a subjetividade de “aposentado no banco da praça da piedade”; e outra rompendo com o papel passivo do espectador, fazendo do cinema uma verdadeira arte da ruptura e da coligação. Não é dado a qualquer um mergulhar na multidão, meu caros…O passeante solitário, pensativo extrai uma singular embriaguez dessa absoluta comunhão[…] Estranheza: é o que se precisa para penetrar na imagem e instalar-se na sua potencia!

Algumas outras imagens: a busca do tempo perdido num vulto suspeito, e num pulo de susto voltando no peito; a reversão de todos os benfazejos erros do socius (a sujeição, a loucura e o modo de vida policialesco, o postulado da propriedade, do recalcamento) tudo isso e um pouco mais; acelerar o desmoronamento dessa civilização de prótese. Numa imersão psicodélica, vamos desse lugar (qualquer lugar, todos os lugares) de uma invenção horripilante do cotidiano a um beco sem saída; caminhamos a esmo, num leque de abismos entre um eco e os seus mesmos…A noite – sozinho – quando ainda mais trancafiados na doidera, sob o canto de insetos, o homem daqui se assusta e sai correndo desumanizado…ENTRE CORTES…algo se impõe: um rosto passeando pelos túmulos de um cemitério, uma subjetiva pelas ruas vazias e arruinadas da cidade, um passeio de carro com o Sr. Cinema; pés sangrentos pela periferia, vidas esvaziadas em close-up pelas vielas do centro. Entre a música Fúnebre (Lindembergue Cardoso: Choro de Carpideiras) e o silêncio, um homem em colapso; aflito; forte; arruinado; confiante; esquecido; tranqüilo; inseguro; idolatrado, e apesar do “medo”, vem à tona uma grande saúde, a de uma vida (cri)ativa, com intensa atividade espiritual. Muitas vozes continuam a gritar em meio às estátuas que glorificam o mármore dessa existência coletiva; ao tempo em que ouvimos objetos desarranjados de várias procedências sendo quebrados, e muitos aplausos para esse curto passeio pela semelhança cadavérica. Nas lápides; na ausência-presença de um deus inferior (Paradoxo da onipotência: Um ser onipotente seria capaz de criar uma rocha pesada demais para levantar?), num jogo desinteressante de força e gozo: o tempo não reconciliado, e sua repetida saudação…Oh! Geração dos afetados…consumados e consumadamente deslocados…Essas xurumelas daqui geralmente, não me incomodam mais, a não ser pelo fato concreto de um certo abuso quando vou ver um filme, quando vou no brega, quando passeio livremente pela rua e vejo que o dito cujo cinemão, não tem feito muitas coisas, quid fcati, para microfissurar com índices de transformações imprevisíveis e necessárias esse terreno. Mas, à medida que percebo que a captura das forças não se dá de maneira integral, nem se exerce sem fomentar lutas e choques, fico instigado, na lógica do desafio, sem desdém para os  pequenos golpes e para os grandes sucessos das minorias.

Outro dia um Zé bedeu veio me falar de medo em termos de cinema…Me faça uma garapa!…Não se deve, por uma questão de protocolo, temer a forma, o conteúdo e a expressão numa indiscernibilidade… Você é Paga-pau do estado é?…Quem é doido…?! Como se fosse mesmo possível delinear o menor denominador comum desse cinema supracitado… A noção mais apropriada seria a de inacabamento, e não medo, esta que parece ser uma das inquietudes comuns da rapaziada das artes; mesmo para aqueles que “já não comem nada” dessa gaiva de mercado das artes, com seus bajuladores contumazes, etc e tal…É aquilo mesmo, nego…já tô careca de saberBaratino puro!…

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Microcinema: uma breve contribuição à história do horror

Há uma ambição aqui: alcançar o lugar dos que se permitem os vôos e revôos concretos e reais; um cinema pequeno, ainda que afundado em multidões… Enquanto o pau come no centro da politicagem, esse trânsito pela periferia detona com a sensação de acabamento, de finitude e a necessidade social de terminar algo que se encontra no intermezzo… (Paradoxos de Zeno: Quando você chegar ao local onde a tartaruga está, ela já terá avançado um pouco, de modo que você nunca será capaz de alcançá-la). Digo de antemão: as expectativas foram estilhaçadas e a recompensa não virá! Facacinema cortando a carte dos que queriam a redenção e acabaram numa grande feira, perguntando: Qual a idade da terra? Voluntária ou involuntariamente a insanidade aqui se confunde com a lucidez…Quiviagi né? É como inscrever a indecidibilidade em filmes que se atentam mais para questões exteriores a arte. Quando e por que acabar? Relaxe mô fiu! Há os que ainda enxergam uma saída para a cegueira através de uma rede colaborativa; individuações sem sujeito, micro-intervenções voltadas contra a padrozinação dos gostos e dos gestos, contra a idéia da consciência como atributo do ser cinemático.

Uma anarco-autonomia do ver, autogoverno do agir…Enquanto passeamos pelos poros do homem (MICROCINEMA) vemos uma criança sendo castrada, e uma série de estátuas de SANTOS (Ícones) fragmentados em pedaços (alguns de ponta à cabeça) dentro de gaiolas, presas no teto; algumas dispostas no chão…Fundo preto…muitas secreções no lugar…A luz de um projetor atravessa as gaiolas num corte proposital, de modo que Anamorfoses Cronotópicas são geradas na parede, borrados na quarta dimensão do tempo (Câmara com obturador de plano focal). Faremos isso com a superposição de camadas; com o princípio-colagem: paroxismos visuais, texturas sagradas, margens borradas, altos contrastes, baixa velocidade de captura dos registros, reorganização do contexto com granulações e recopiagens, referências cruzadas de imagens do HORROR com seus duplos…

 Alguns elementos de registro (construções interessadas) pulam num ato essencial de fazer sobressair formas-modelos, para em seguida destruí-las numa tentativa de concretização de uma Ontologia fílmica contra o cinema Transcendental…Deixa quieto! O gesto aqui deve ser o de proliferar os sentidos das dimensões mnemônicas e imaginativa, e colocar o tempo como descontinuidade meu pêxe…Essa Breve contribuição à história do horror é um evento de cinescritura, cujo procedimento corre no sentido de diferenciar as redes acerca da sacralização dos artifícios, e entender o ritmo dissonante que atravessamos. O automoatismo do corpo, o encontro do erotismo com a morte; misturar tudo, de modo que isso rache com seu próprio sedimento. Momento de pausa para pensar com a imagem: o autômato purificado sai atirando as fagulhas de um inconsciente enlouquecido, enquanto um truque de luz sobre algumas formas inutilizadas de código vem à tona; embriaguez, fascinação, desvario, frenesi, um rasgão, mudança de atmosfera; um sopro no hiato desse erro geológico chamado aqui. Nas démarches, o fundo recém sublevado de um mar extinto, e o próprio campo ótico sendo questionado, como quem diz: o que se quer ver nunca está onde se olha! Uma contra-invenção desse, nada discreto charme da burguesia, se cristaliza nos nossos passos; uma bagunça perfeita…co-habitação do ruim com a voz do relâmpago. É desse jeitão: – sei que esta periferia é meu único lugar, eu morreria se me deixasse levar ao centro da confusão, mas também, certamente, se eu abandonasse a multidão! Tudo isto exige uma grande tensão, mas me dá um sentimento de felicidade violenta, quase vertiginosa, saber que a Câmeracorpo aparece na polifonia que criamos. Enquanto volvemos o olhar – não para história do “Homem” – e sim para o THERROR que nos invade, temos que tentar entender a situação, para escapar, sobretudo, de nos tornarmos uma espécie de bibelôzinho(…)

                O que interessa nesse cinema são essas (anti)narrativas pulando da época das perplexidades, rumo ao salto qualitativo. A cada instante o coração quase vencido, o sangue correndo férvido nas artérias; arroxado-se e congelando, fugindo dos grande lugares, emergindo dos menores, e eliminando tudo que é dejeto. Uma partícula de alegria move esse tipo de cinema…Como isso pode acontecer de modo tão simples e ainda continuar complexo? Cada um chora no pé do caboclo que tem! É preciso ,antes de qualquer investida, educar o olhar para a vida. Seria preciso não oferecer mais alvos, e sim uma linha de trepidação; um passo assignificante… Esse Cinema menor (e talvez fale isso ainda para muito poucos) é uma prova que permanece indeterminada para os grandiosos que aqui habitam… Microcinema: pequenas extensões que não cansam de tornar o autor-ator, um indície de indeterminação da substância audiovisiva…Tela-papel-em branco…ESTRANHO! Não sei como? A questão aqui já não é somente como isto ou aquilo do seu orçamento funciona, o que se quer com este ou aquele plano, a causa separada do efeito, e sim, como funciona a expressão, a produção de produção; como agenciar o as imagens e sons com o espaço literário, sem que as esferas ou circuitos relativamente independentes se sobressaiam um sobre o outro; a questão está em retirar o discurso dessas esferas fechadas, tornando tudo co-extensivo a tudo; máquina-natureza-história. A expressão de conteúdo, essa que corre com funções de provisão, de deslocamento, de evasão e de ruptura; que foge do espírito entapa-foda vitrificado (Traje de vidro) para o lugar da resolução de tensões…eis o cinema mínimo, um corpo, um cérebro que em nada se compara com a grandiosidade de inventar regiões e segredinhos. Contornar o discurso da esmola geopolítica dos trópicos; o coronelismo do olhar e fala; as identidades forjadas; a baianidade abjeta; o decalque que deu a esse lugar um desenho sinistro. Passar para uma outra correnteza, para o canal de interconexão das operações de combate,  um formigamento, uma inflamação, um afogamento em sua própria combustão, uma torrente de afetos desembestados nessa Ítaca impossível…

                Esse cinema-barco pretende empreender um acidente no tecido, com qual a tela planonêmica se dobrando e se multiplica intempestivamente. A substância de expressão e a substância de conteúdo da cinematonomia em questão, o planômeno, “o plano de imanência” é necessariamente um povoamento de feitiços. Uma luz explodindo, talvez? Para terminar também no meio, para que se abra o olho no justo momento da escuridão, para por fim em qualquer juízo, para não mais recorrer a territórios de identidade, e que torna o cinepensamento uma experiência do sujeito na loucura. Encontrar não-ditos no que está dito…Quomodo omnis generis instrumentorum rede in remotissima spacia propagari possuit (Pela qual todas as formas de rede instrumental podem ser transmitidas a lugares remotos)…Aí vejo que se podee mesmo questionar todas as gerações de derrotados, todos os corpos sem alma, e almas de jegue, almas sebosas que empestiam essa terra desolada; todas as hastes desencontradas, todos os perdidos em ilusões que escalifaram a memória social; e todas as recreações psicotropogênicas e garganteiras…Isso serve aos que resolveram “não morrer na praia” e morreram, aos que atravessam o horror feito jóquei de cabrito…Superar esse colapso de modernização antes que seja tarde demais…Mingau de cachorro de paripe à Vitória da Conquista…

                Diante do imponderável, ser mais um vulcão entre tantos “vulcão” (assim mesmo no singular já que só houve um)…Fazer do olho um espírito! “É niuma, miserê”…Cê tá ligado que que pensar é um ato de vitalidade e uma questão de morte!…E sempre vem aquela voz que nunca cessa de se perguntar, com certa tiração de onda: Quelle est votre plus grande ambition dans la vie? E se responde em seguida para trinta e poucas cabeças nas redes de controle socialDevenir immortel…et puis mourir!!! Num transe da terra, caminhei outro dia pelo baixo meretrício, e alguma voz etérea invadiu minha viagem: Não anuncio cantos de paz/ Nem me interessam as flores do estilo/ Como por dia mil notícias amargas/ Que definem o mundo em que vivo/Não me causam os crepúsculos/ A mesma dor da adolescência/ Devolvo tranqüilo à paisagem/ os vômitos da experiência/ Todos somos simpáticos, desde que ninguém nos ameace... Em todos os lugares a mesma lombra, uma prática de vendaval, uma um microcinema, uma ESTÉTICA DO ZIGNOW…Estética do armengue…da gambiarra…uma deriva…um funcionar incessante…deslocando as palavras e as coisas…atravessando-as com outras lógicas de sentido…se livrando do “Homo Clausus”…(fechado em si mesmo) e caindo no Herkunft…na história efetiva; num Play continuum…O Frederico acerta no alvo, enquanto as flechas continuam sendo devolvidas ao orgaismo social: (…)A história pertence ao ser vivo por três razões: porque ele é activo e ambicioso; porque tem o gosto pela conservação e pela veneração; porque sofre e tem necessidade de libertação. A essa relação tripla corresponde a forma tripla da história, na medida em que é permitido distingui-las: história monumental, história tradicionalista, história crítica(…) Quando o homem que quer criar grandes coisas precisa do passado, usa a história monumental. Ao contrário, aquele que quer perpetuar o que é habitual e há muito venerado ocupa-se do passado mais como antiquário do que como historiador. Apenas aquele que a necessidade presente sufoca e quer a qualquer preço afastar o seu peso sente a necessidade de uma história crítica(…)

            Não tem errada! (Paradoxo do mentiroso: “Esta sentença é falsa“!) Que fique claro , ou menos turvo  no Microcinem, a ausência de qualquer conotação valorativa; o que está em jogo são os alinhados na perspectiva: autores pequeninos contra o cinemão estabelecido, sem evitar o aparente paradoxo da preguiça de um caminho diferenciado (O asno de Buridan: Como uma escolha racional pode ser feita entre duas possibilidades de igual valor?)…O ser cinemático pleno, perambulando e duplicando os sentidos da sua própria trajetória, numa espécie de anedotismo, dissociação e sacrifício; revelando o que há de mais profundo nos sujeitinhos de merda, e contribuindo para detonar com essa FARSA (A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, dizia o barbudo), e o que há de mais chulo nos encontros…Onde é que eu fui amarrar meu jegue! Fugir dos que se entorpecem de poder, dos falsamente esclarecidos, dos distúrbios sensoperceptivos; daqueles que tentam ver e dificilmente enxergam; e que talvez quando conseguem um clarão, não seja coisa alguma, senão a pura cristalização de uma rocha no cérebro, e que sai feito pus pela ocular. (Paradoxo do poeta: O poeta não escreve vendo e sim escreve sentindo.) No meio do oceano, um barco à vela…penso alto em esperanto, mas sem esperança alguma: Jaroj pasintaj – for de l’ memor’, Tagoj fluantaj – nin ne katenas, Tempojn venontajn – ni ne divenas…Jen nia vivo, horo post hor’...Anos Passados – longe da memória, dias correntes – nos aprisionam, tempos vindouros – não adivinhamos…eis nossa vida, hora após hora…Depois desse microterreno atravessado, vem um silêncio ensurdecedor, e vem também uma grande tormenta…no melhor dos causos: Uma Breve contribuição à história o Horror… jogue duro parente!!! Como diria o poeta Waly Salomão: Me Segura Queu Vou Dar um Troço…

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Protocolo de Experimentação ou Vício de Lugares

Para começar, Round About Midnight…Um cinema que seja uma pulsação POLÍTICA do desejo…Sua proposta é a dissolução do senso comum e do bom senso,  contra a superstição e a tirania; o sacerdotismo e a ignorância, justo porque no fundo de cada um dos nossos contemporâneos reside latente instintos dum carrasco, prontos para interpreta, julgar, moralizar os costumes e a ação; e os cinemas em sua grande maioria seguem essa correria. Dê um passeio pelo seu lado selvagem, descubra o outro lado da demência, o protocolo: uma máquina de bofetadas dirigida contra tudo que é normal, na moral, quer dizer na ética! Um cinema que vive passando por zonas mal controladas, abismos, miragens, pelo sol enganador e pelo frio interno; e que seja o fora-íntimo da tolice capitalística (capitalismo periférico; o Brasil não é o país do futuro!); quebrador das vacilações ecumênicas absolutamente locais. Com um badogue atirando Cristos e orixás mortos nesse inferno de cidade sem inverno, enquanto vocifera: – Nada é tão mais difícil que a simplicidade da experimentação do real!!! Esta é a tarefa: fazer com que as estrelas imóveis caiam do céu…e enquanto o céu dos céus não se aproxima; traçar, anotar, se virar com o mapeamento transversal de sujeitos, castrações, leis, negações, com a declinação das moléculas, as anomalias do organismo social e a obnubilação do pensamento…É nesse ponto, talvez, que o ecúmeno desse cinema está prestes a destruir o sujeitinho da regra (Paradoxo da exceção: “toda regra tem uma exceção”. Se considerarmos isso uma regra, então ela deve ter uma exceção. Se ela tem exceção então haverá regra sem exceção)…um desvio que chega como um turbilhão, com o ritmo, a pulsação interna, o imprevisto, a discórdia a um só tempo; com a reversão que se quer de todo e qualquer kineplatonismo…Um Script que use a todo instante – como uma escrita no próprio corpo – a expressão super utilizada pelos cineastas franceses: Monde reversé (mundo às avessas) onde as coisas estão invertidas, ou simplesmente funcionando sob lógica nenhuma…Esse reviramento para enxergar o avesso da consciência tecnocrática, e as experiências de mecanismos implantados merece mesmo um atletismo afetivo, cuja postura radical que se assume – porque nele há a marca discreta da morte – o faz injetar na irrealidade dessa imagem buscada  a realidade do movimento e, assim, a máquina empurrada a um grau nunca dantes alcançado…E nunca confunda movimento com ação, sugere Ernest Hemingway…

                Um vício: proveito de fruídos num imprevisível que jamais se repetirá… para este cinema a vida é uma luta brutal, e é preciso lutar contra as concepções de continuidade, origem e finalidade, nas quais estariam assentada a verdade sobre o os cento e poucos anos de cinema; esta fajuta e tola assertiva dos bobos, bufões, que não preservam o espírito da infância, e vive “pagando pau” pro rei, pro governador, pro secretário, pro dono da Tv. Cinema de sentidos alertas! O que se quer exprimir e alcançar é o exterior do dispositivo cine-verdade, esse que se debate para fazer a assepsia, a criminologia, a eugenia, a exclusão dos degenerados do conteúdo. Aqui vale mais o encontro com uma cena, com uma paisagem sonora, com um pescador, com essa força que existe oculta, imperceptível; com tudo que implica necessariamente numa visibilidade do fracasso contemporâneo; esse que se revela não apenas como ruína e aniquilação, mas como possível indício de um processo infindável…Nunca ninguém se torna mestre num domínio em que não conheceu a impotência…A persistência é o menor caminho do êxito, cantou a pedra, o pensador Charles Chaplin…

                Tudo por aqui está solto e esparramado; os dispositivos de controle em redes gigantescas; a culpa e a infantilização; a ciberfanatização do corpo, que leva a uma produção de mediocridade em escala planetária…Se para alguns o importante é colocar os personagens da vida numa gaiola de manias reducionistas, para o homem das multidões (se quiser: um Homem sem qualidade) o que vale é a fresta, um recorte em silhueta; a brecha que se abre para negociar e conflitar com o presente, e com o estágio em que nos encontramos. É válido dizer que surpreendentes encontros que poderiam ter se produzido em outro lugar, antes, depois, ou, não produzir-se jamais, aconteceram situacionalmente; voyerismo exacerbado, excitação pela imagem precária, terrorismo do mass media, falsa virtualidade proposta pela internet; enquanto sonhos alienantes se apregoam nas calçadas sem fama. Uma pergunta; o que resta depois das repetidas cenas perversas de turbulência e agressividade competitiva? Depois da estranha entidade, cujo sono do pensar e a vigília da moratória ilimitada fazem da morte uma presença constante? Com qual rigor devemos agir para aquilo que convém ultrapassarmos? Bem, o limiar da dispersão, o monumentalismo assombroso das tristezas, e o anedotismo pedagógico que passou a ensinar palavras cínicas dvem mesmo ser colocados em cheque com a força operante em que está em ação…Corta! A formula para o sucesso: Agrade a todos; A formula para o fracasso: Desgrade-os!

                Chamo a atenção para as conexões e alianças, uma educação da diferença, uma aisthésis; La mutiplicité…Il faut Le faire…para nós: A multiplicidade é algo que devemos fazer! Diria Manoel de Barros… A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos…O nó-cego: a conversa desenvolve-se sem rumo; sabendo-se que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, fita magnética, nem com balanças nem barômetros…Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós…E é assim que tem que ser! Sei que difícil acompanhar um deserto contra as práticas de fascização, contra a militarização da vida…mas o que vale aqui é fazer da astúcia um projeto, em nome do mais perfeito que a máquina, e do menos caricatural que o chimpanzé…Se liga corisco, somos cratilosáuricos demais para caber numa ideologia…Estamos voltados somente para os acontecimentos; pergunta pruma raíz, para um tubérculo, para um Bulbo qualé de merma?:…Saber detonar os explosivos nos momentos adequados durante toda a Ação, já é um grande passo, mas conquistar as Vias do Vazio para fazer os movimentos da Ação, no limiar até sem detonar o explosivo, esse é o passo para o que só me vem à cabeça chamar de Plenitude. O menor esforço não é uma economia das forces apenas porque não a gasta, mas, sobretudo, porque produz a força. É preciso combinar as coisas: tanto não detonar o explosivo no Vazio para preenchê-lo quanto aproveitar o recheio de Vazio deixado pela tempestade das detonações. Fazer um movimento com tal, digamos, Leveza, ou Velocidade, que não dispare os ultrassensíveis sensores da bomba. Que homem estaria pronto para uma tal Leveza? Talvez aquele a quem não reste nada, nem sequer o furor de um guerreiro derrotado de antemão…se é preciso pensar o Impensável, perceber o Imperceptível, e assim por diante, então é preciso também sentir o Insensível? Assim, a sensibilidade do dente expressa a mente do zen e é também a natureza do riso e da anestesia. Tendeu? O desastre em termos de cinema-escritura é alguma coisa sem lugar…e arruína tudo, e tudo permanece intacto…um movimento que está para além da fratura…existe a questão, e nada que pode ser dito, mas justamente esse nada para dizer é o que interessa agora…A diferença entre partilhar um espaço fechado e se repartir num espaço aberto, entre distribuir aos homens um espaço consequentemente dividido em partes e distribuir os homens num espaço indiviso, tem primeiramente um sentido pastoral…o nomos grego, antes de significar a lei, remete em primeiro lugar a atividade de “fazer pastar”…

                Nosso cinema de Estrada – Road Movie semi-árido – atesta para nós duas vias, duas manias: a do criador e a da criatura? Nós ficamos em cima do Muro! Decerto não totalmente segurao, já que, por sua vez, os valores socio-históricos não se sustentariam se o muro caísse, e com ele todos os que não emitiram através de sua arte, de seu cinema, de sua música, uma tomada das forças produtivas; no nosso caso, talvez possamos agora dar o incremento que faltava a esta falsa justificativa: fazer um cinema simlesmente político…lente de aproximação e de afastamento…fuga do estranhamento e da desnaturalização das cretinices que insistem em nos constituir…

                É nesse sentido que o cinema de correria se define e se definha, menos por seus deslocamentos, como o migrante furtivo, do que pelo fato de habitar um espaço “sôrto”; que nos permita viajar nessa imagem caquética, e no limiar, propor outras… quem sabe, com bastante prudência, abordar e detonar a relação entre IDENTIDADE, MEMÓRIA, e ERRÂNCIA. A forma desse cinema é simples para um conteúdo complexo! Sugerimos um tipo de estrutura em blocos interconectáveis; digamos uma rede rigorosamente trespassada pelo olhar tecnológico acerca dos eventos, sobrepondo-se às texturas da tradição; com um imbricamento da fabulação na realidade…sem esquecer, sobremaneira, da pausa para um olhar mais íntimo para o corpo-a-corpo, para a lama que dá cintura; para uma visão de fora acerca do lugar de dentro dos eventos; um voltar-se para as das mudanças, e concomitantemente para as persistências.

                Esse traço da montagem deve atravessar o plano de composição; e diz respeito aos documentaristas (chega de tanta ficção esvaziada) se relacionando com personagens reais; produtos materiais e imateriais, imagens de arquivo; manifestações culturais; com a própria idéia de memória e documento, e com o ato de confecção de um filme; as vozes etéreas – Voice-over –  ditando o ritmo da montagem (o olhar não é livre, mas dirigível) com as questões que fizeram com que nós mesmos percorrêssemos esse dispositivo…Um cinema de busca…Cinema-Viagem (Motivo perpétuo), uma tentativa de encontrar lugares estranhos e quietos, que nem todos encontram – ou simplesmente não podem enxergar – na loucura da Invenção do Cotidiano. Lugares-esquisitos que têm uma beleza própria (uma beleza encrustrada na pedra), muitas vezes abandonados, ou perdidos, esquecidos; mas com uma carga revolucionária implícita que deve ser achada em cada plano…não num conjunto de filmes (estatística do insucesso); mas numa tensão fecunda de investigar-propor-realizar fora do tempo do controle…Nada mais que um pequeno trajeto, real travessia: pontes de linguagem…Gostamos de ir sozinhos, apesar de atravessarmos vários cantos (perigo das misturas tenebrosas) e todo tipo de gente, gostamos de nos perder e nos encontrar nas palavras e nas coisas; temos um instinto muito especial para achar o que desejamos, e é isso que estamos procurando-achando: os espaços quaisquer para a criação, sobretudo, submetendo o olhar a um escrutínio cuidadoso, num pequeno número de trabalhos que instalam sempre o poético pela via do paradoxo, justo porque temos a obsessão do banal e do mistério, que muitas vezes fazemos coincidir…

É muito raro que alguém tenha nos mostrado por aqui alguma coisa interessante nos últimos anos (salvo o próprio lócus do cinema) queremos colocar a lente de aumento para ver mais de perto, olho de peixe do real-onírico. Constatamos numa pesquisa rigorosa, que a maioria das pessoas não tem sequer curiosidade nas suas próprias casas, e dizemos isso com Wim Wenders: “Você acha que sabe tudo, você conhece seu caminho usual, mas não conhece os segredos da sua cidade.”…Nós experimentamos justamente esses mistérios guardados nas colunas da tradição e da modernidade, fissura entre a natureza e a cultura; e durante essas viagens (Cronograma descontínuo) não surgem idéias ou locações para o próximo filme, porque estamos Além das nuvens, mas com o pé no chão…e tentamos não ter muitas idéias; apenas atravessamos os quadros de vida e dor, a superfície; esse lugar da inscrição dos fatos…Queremos conhecer esses lugares, descobrir suas almas, o espírito dos tempos (Zeitgeist), as histórias que suas populações (volksgeist); o que seus homens e mulheres têm para contar…Uma questão intuitiva, e não temos nenhuma outra intenção, senão estar lá e fotografar, e ver, e ouvir…

VÍCIO DE LUGARES; de mar, de céu, de carro, de bike, de helicóptero, de caminhada, de trem. Um cinema de trânsito entre cidades; um giro; um reCORTE a partir desses encontros; um passeio buscando as relações menos prováveis entre o indivíduo, a estética e a magia. Cada corte-fluxo, uma mudança de trajetória, na arquitetura social…Pensamos que há sempre um espaço-tempo privilegiado para questionamentos e para a criação, na medida em que o uso das estradas possibilita uma reinvenção das esferas de poder; tanto pela desestandardização de estruturas, quanto pela multiplicidade de quadros de sentidos na atual conjuntura mundial integrada. No imprevisível do trajeto e, sobremaneira, pelos signos ligados à modernização e a mundialização, redirecionaremos o boom do nosso cinema, não mais como Forma-mercadoria, mas como devenir-andarilho, para revelar as demàrches desse “desencantamento com o mundo”…pelas paisagens urbanas, pelas formas de trabalho escravo, ainda que não estejamos em busca da Galáxia de Gutenberg, e sim de algumas pequenas galáxias inventadas a cada passo…idas e vindas entre uma casa do cinema e um cinema de rua

Muitos paradoxos até então invisíveis devem emergir do Acaso-construção (sobredudo o da solidão-multidão)…e os que têm algo de ver com a querela entre o profundo e o superficial, entre o tempo e o movimento, entre o coletivo e o singular. Ademais, e justo porque um encontro nunca acontece completamente forte, é que vemos nessa intenção-processo, nesse nosso vício do fora, uma possibilidade de diálogo entre o local e o absoluto. Isso seria por si só uma justifica bastante plausível no “Campo da Cultura”… fazer da produção de registro imediatamente uma produção de consumo; uma produção de produção; e em última instância, uma reação à pauperia, ao silêncio, e ao esvaziamento e vacuidade de grande parte das produções contemporâneas.

Gritaremos com esse Cinema-urgente como um duplo vínculo entre a existência material e a poética, entre a fixidez e a mobilidade. A vida em movimento e a reconfiguração dessas temporalidades numa trip suave…Tudo aqui é movimento em falso…Queremos saber qual o estado das coisas na atualidade? Como ligamos uma obra verdadeiramente cinematográfica com a arquitetura, e os labirintos de algumas cidades? Um passeio pela evolução física da cidade mais quente ao sul do Equador; e pelo que há de mais frio na alma humana, o seu intermezzo…

Queremos (Sempre o desejo!) reagrupar os instantes, aceitar e evidenciar o extemporâneo para, enfim, jogá-lo no fluxo da Montagem de Giro, e definitivamente passar de um lugar para outro no couro de um banco de carro, nas asas do avião, nos trilhos do trem; sempre com um espírito de gravidade (como bem colocou o alemão: “Quando não se coloca o centro da gravidade da vida na vida, e sim no além, no nada, tirou-se da vida o seu centro e gravidade”…) Ora, se o escapismo é um dos temas preponderantes desse cinema que nos cruzou o caminho; esse que encontramos por aí, já não há dúvida de que esse é o único modo para existirmos cinematograficamente: questionar a própria natureza do ser cinemático!

Pensamos poder utilizar esse elemento como mote para outras questões menos prováveis entre os fluxos contemporâneos, as mutações do corpo e a polifonia das cidades-mundos. Ordem do dia: fazer ver e dizer isso nas telas…o automóvel e o cinema; a estrada e o homem; a cidade e o criador como fios condutores do processo documental; verificando através das transformações na História das Mentalidades; em quais circunstâncias os monumentos do cinema se transformam em documentos e vice-versa. De que modo se materializa o diálogo entre o auto e o móvel; entre a alegria de se movimentar e a plenitude da imobilidade? Eis a nossa questão, eis o nosso recorte…vamos subir bem alto (da torre de televisão Fernsehturm) para um olhar mais amplo…

O encontro de corpos é aqui (easyrider) uma exigência elementar para a experiência documental, sem dar a bobeira de parar; recusamos a máxima de que quem pensa, pensa melhor parado! Somos peripatéticos; e se alguém quiser saber o que isso significa, melhor nos diz o Inventor do Ditirambo: “(…) não queremos apenas ser compreendidos ao escrever, mas igualmente não ser compreendidos(…) E, falando cá entre nós, sobre o meu próprio caso – não desejo que minha ignorância e a vivacidade de meu temperamento impeçam que eu lhes seja compreensível, meus amigos: não a vivacidade, por mais que ela me obrigue a lidar velozmente com algo, se chego a lidar com ele. Pois encaro os problemas profundos como um banho frio – entrando rapidamente e saindo rapidamente. Que assim não possamos chegar à profundidade, descer o suficiente, é uma superstição dos que temem a água, dos inimigos da água fria; eles falam sem experiência. Oh! O frio intenso torna veloz! – E pergunto de passagem: uma coisa permanece de fato incompreendida e não conhecida por ser apenas em vôo tocada, avistada, relampejada? É preciso absolutamente ficar sobre ela? Chocá-la como a um ovo? O que isso significa? Nada! Se vire com o que tem!!!

A produção de um corpo-obra não é tranqüilizador, podemos falhar é verdade; somente através de um conjunto de práticas, às vezes aterrorizante, às vezes de uma alegria intensa, é que podemos, como um espírito de gravidade, nos tornar bons dançarinos do acaso e do caos; dançar no ar e deixar nas nuvens essas cine-anotações, justamente as práticas de elaboração de si (áskesis), resultando na constituição, ou melhor, na criação da paraskheué ou instructio, de uma espécie de preparação para os reveses da própria vida, uma espécie de escudo, armadura, proteção, defesa que se tem à mão para enfrentar ou se ajustar àquilo que conhecemos a vitalidade, uma coragem da verdade, donde o de falar (parrhesía) vira escritura; anotações pessoais, com que precisamente poderemos, graças à leitura do olhar ou a exercícios específicos do cérebro, produzir uma ética do cuidado de si…

Por outro lado, e, antes de tudo, pensamos ess onda como uma Produção de Sentidos…uma onda nova(?) inundando as sarjetas…Raridades, furores secretos, abismos, disso que convencionamos chamar de “Dispositivo Cinemático”, ou seja, um conjunto de enunciados; leis, psicologia de massa, em suma, tudo aquilo que circunda e atravessa o fazer audiovisivo. Nossas mãos contornarão o discurso da esmola da dos trópicos; o coronelismo do olhar e da fala; as identidades forjadas; a nordestinização abjeta; o fluxo de formações imagéticas que deram a este lugar um desenho estranho, quando não ressentido. Buscamos a emergência, aquilo que permite um forçar do pensamento, como constituição de problemas que correspondam à nossa própria história, e a uma pequena parte da história do cinema. Essa paisagem nova, essa reorganização súbita do campo que encontro, pela minha teimosia e pelo meu interesse, e já dispondo da chave da desilusão, é que constitui finalmente o interesse em direção às coisas presentes…é o solo epistêmico por onde caminhamos. É possível que alguém diga que esse tipo de escritura seja um disfarce, uma camuflagem; por isso deixamos claro que é também nossa intenção investigar essa ambigüidade na efetivação dos diálogos. Dito de outro modo é como se houvesse um processo de desreificação no próprio decurso da cinescritura…O cinema dia-a-dia é o único motivo que ainda pode salvar um cineasta da sua decadência, converter o impedimento em meio, o obstáculo em estímulo, a adversidade em bênção…Fazer um cinema dessa maneira é uma pequena vitória sobre o espírito de peso, uma superação da falta, da preguiça e da pusilanimidade que levam alguns a uivar com os lobos e renegar nosso verdadeiro si-mesmo; como quem diz minha doutrina está em perigo…

Aqui não há herói que desafia o monstro para a luta. O  que se apresenta aqui é uma atitude verbal ameaçadora, um posicionamento de peças de artilharia mais pesadas… No primeiro round estão os saturados de toda essa bagatela (Qualquer coisa é melhor do que deixar que esse estado se mantenha). A inconsciência subseqüente faz com que se experimente no segundo momento, o desafio na seqüência inversa, nomeando o tema do combate e sublinhando a certeza da vitória…e como sinal de vitória, aceitamos o desafio de fazer um cinema sobre  o próprio MOVIMENTO.

Um cinecircular, donde toda verdade é curva…Como? E o fim? É apenas o começo da partida! Uma reta é um círculo de raio infinito…tudo novamente do mesmo modo, na mesma linha…Essa radicalização acerta na medula o “pessimismo fraco” dos que não acreditam que o cinema diz respeito ao modo como se cruza territórios existenciais. Não se trata de fazer apenas guerra contra a feiura, menos ainda acusar este ou aquele; e sim desviar o olhar e o trajeto…O que nos move não é a penúria alheia, mas o transbordamento de coligação, uma alteração efetiva de posturas.

 O conceito de resistência aparece aqui como outra peça-chave…Quando tudo parece acabar, tem sempre algo mais. E quem resiste responde a alguma coisa ruim…Sua ação supõe a positividade…A Ars polítyka aqui corre no sentido de marcar posição…consiste em inserir a fala, (seja em Off ,seja em Sync) no lugar, procedendo por variação; uma démarche de heterogêneos, um mapa que pode ser desmontado, revertido e conectado em outros lugares; um conjunto de linhas de horizontalidade…O ponto de partida para os trajetos; aquilo que podemos chamar de imagens-sonoridades “não-convencionais”, o ponto de chegada, temos uma ligeira impressão. Três critérios, porém: 1 – separação da imagem e do som (separar para depois sintetizar); 2 – composição em múltiplas camadas espaciais (preenchimento do espaço físico e não somente do tempo); 3 – igualdade entre tom e ruído (princípio da atonalidade). Outro elemento importante que destacamos: quando o olho experimenta o limiar entre as cores ou somente tons de cinza, ou ainda as nuances cambiantes do céu no lusco-fusco…velhas paredes começam a ruir…Esta dimensão autopoiética é também um deixar-se tornar…

A tática e a estratégia devem ser ágeis e flexíveis…uma economia de presentes (gift economy); e um explorar de furos no sistema (loopholes); eis o que possibilita a infiltração…Um cinema-evento de divergências e convergências que se mesclam a lei seca do pensamento…um misto de tudo que acreditamos durante o trajeto: as flores do estilo, as notícias amargas, as mudanças mais radicais, o abandono, a desordem afetiva, o poder e suas inflexões, as fissuras sociais, a queixa, e o vago tremor de estrelas que sentimos…E isso diz respeito a uma série de questões relativas a prática de crítica de arte, pondo-a a dialogar com a diversidade herdada das lutas estéticas modernas…e também um flanco de aventura, desfazendo juízos provisórios e instalando novas soluções, de modo que podemos perfeitamente dizer que o cinema ainda não chegou ao fim! Ser auto e mover-se…esses são os nossos instrumentos, numa trajetória incerta. Afinal: “se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer: entre no meu carro”…Caminhado, enfim, podemos celebrar a vida…

Diga aê moral”: Quando e por que cortar ou deixar durar uma cena, ou plano-sequência? Colé miserê, como isso tudo roça o cinema major? Isso inda vai dá um pé de pica da porra…Cinema-filho do fogo que grita da ladeira da montanha: distraídos venceremos…Justo uma imagem: os bons filmes foram feitos em língua estrangeira, na gagueira. Se se quer criar um povo “na tora”: eis o erro de composição! Se se quer mostrar um povo (realismo débil) dê uma câmera ao povo; eis o erro de conduta e de método! Se se quer um cinema de guerrilha: eis o erro de transe de terceiro-mundo!… Nada pessoal; cê tá ligado né vei; essa bahia (que por hora faço questão de botar em minúsculo) é a minha vida!!! Mas se trata mesmo é de colocar o elemento contrasensual na parada; o abismo que separa a representação de um real desejável…Não queira destruir meu abismo com uma simples palavra de ordem…se o caráter de estilhaços ainda incomoda; é isso que é “Di fudê”…e eis vantagem do esquecimento…é que  os espíritos superfinos se estremecem quando avistam um cinegenealogista subindo  a montanha; eles sabem que nenhum gozo pode existir sem a faculdade do esquecimento, sem aquilo que Agamben chamou de “Acontecimento de um fora”…pois então…fique na sua que ninguém te bole! Vai violar seus vinte fracassos e mudar de tom…

É sempre a mesma onda: através de muitos sofrimentos conquista-se uma nova saúde; um recalcamento cedendo lugar a uma liberação dos elementos que estão aprisionados. O cinema do fora é a passagem…da discórdia surge a mais bela harmonia. Ou seja: tudo que não invento é fácil…Ninguém sabe o que pode até experimentar! E é isso que estamos buscando (essa linhagem) experimentar um corpo de imagens roçando a crise…Queremos perceber melhor o nosso ser-no-mundo e concordamos com Merleau-Ponty, para quem: “Perceber não é experimentar um sem número de impressões que trariam consigo recordações capazes de completá-las; é ver jorrar de uma constelação de dados um sentido imanente sem o qual nenhum apelo às recordações seria possível.” …Mas ,se a percepção (prefiro o conjunto de percepções: percepto) se torna uma mera interpretação, corremos de um lado para outro como um percevejo; frágeis e fedorentos…ou feito Sísifo condenado…

* * *

O ad infinitum do cinema

O que quero evidenciar aqui, é menos o desfecho da intriga, muito mais as  finalidades incertas. Começe a rodar, arrisque no final da partida, mas a energia vital para durar o processo de uma obr, cambiar entre a clareza do começo, a obscuridade da origem, e a confusão do final é que é onda. O d’en finir se debate na estranha governamentabilidade, na vontade plena de fragmentação, no fracasso, na idéia de acabar. O inacabado é assim o fator de invenção de uma outra tática de aproximação do real, démarche de passarelas invisíveis. Devo lembrar aos neófitos que Existir significa: estar de fora, sistere ex…O que está no interior, portanto, não existe…Esse cinema-maladresse é mais uma cintilação do desvio; seu único lançe tem sido desesperadamente ter bater perna, numa fascinação pelo inacabado; talvez um exigente não-senso esteja vagando por aí; daí a fuga do leprosário para invadir os inacabamentos pictóricos do próprio estado…Quanto ao risco de não terminar um filme ou um livro, um quadro, um poema e para acabar com essa conversa pra boi dormir de que “temos” que fazer mais e mais filmes….vou colocar em cheque essa vontade de saber…Isso é uma preocupação rara em matéria de discurso estético…Proust escreveu um livro-vida: Em busca do tempo perdido, que é uma a sua própria busca para não perder a vida, e nisso  môfio posso dizer sem titubear…um cinema está para além de um filmeco como campo do possível. A única justificativa bastante plausível para uma produção de massa seria fazer da produção imediatamente uma produção de consumo, e em última instância uma reação a pauperia dos intelectos, ao silêncio dos (de fato) medrosos, e ao esvaziamento e vacuidade das produções que se amontoam feito lixo eletrônico. Se plante! O acerto tem que ser de contas! Uma Imagem-concreta da produção-distribuição-exibição: o cinema não é uma linguagem! A linguagem é um sistema de comando e não um meio de informação. Eis uma fórmula rediviva em tantos clarões: falar sem dar ordens, escolher, sem regime de balcão; devorar sem enigmas; fazer cinema sem língua! Que tal se seu filminho questionasse os valores do sacerdócio, da servidão voluntária, a miséria, a falsidade, a CIDADE realmente BAIXA! Um idealismo em  quadros: uma vida forte, um povo de pensadores, artistas aos montes; não desses que já nasce estreando, mas que se esforçam para conquistar uma terra. O cinema tem uma força secreta: ele pode muito contra os fascistas do nosso tempo, contra os poderes estabelecidos, contra os policiais de plantão, contra a política da agonia levada a cabo. Uma Imagem-conceito-concreta da produção de cinema: Amar! É irrelevante fazer pensar quando as CABEÇAS estão CORTADAS! Um avatar dos delírios do cinema ligado a terra: novas maneiras, novos operadores, novas intensidades para a vida e o seu duplo cinematonômico…uma vida-cinema de escapadas! Os inocentes dirão: egomania; os idiotas: arrogância…os imbecis: pretensão…os incompreendidos sempre dirão: a vida como obra de arte!

Alguma coisa deve pular para fora do nitrato de prata, dos bits, o que quer que seja, o cinema ainda não ocorreu por aqui; o que temos é uma imagem arcaica e despótica que perdura do primeiro ao último; toda uma passividade exibida e exaltada, um idealismo em montagem, um cinismo temático, uma breguice distribuída, um golpe para controlar o fazer, o dizer, e o ver…Uma concretude da produção imagético-conceitual em cinema: não se deseja a visceralidade Gerônimo, justo porque o incorporal foi colocado à deriva do seu trilho. Quem? Quantos? Quando? Uma viagem-conctreta, síntese conectiva do cinema: enquanto os bestializados da nossa época assistem boquiabertos as obras e as vidas dos pontos desse triângulo estranho, o cinema-artífice (pýr teknikón), cinema-pneuma, cinema-lógos seminal exige a usina de expressão e não um teatro a 29.97 quadros por segundo! Um cinema-abra-seu-coração contra a “punheta” dos bufa-frias…Uma realidade da produção de cinema: sair da clandestinidade especulativa com a voz ainda mais rouca, com as placas batendo ainda mais fortes, acelerador a mil pra revelar o intolerável, tirar Romeu da jogada…Uma loucura desse cinema: A saída fica no exterior! Um último suspiro: uma cólera contra a nossa época, frame by frame, secreção interna; out…out…out…outside… Jeito bainao de ser….Ou cai fora ou já era…..Zignow…recombinação dos   dados  da  realidade já!  Que fuleragem é essa de gente dando lundun? “Para mim, pensar é como um vasto e unitário êxtase, feliz, que explode em pequenas gargalhadas, desconexas e, no entanto, reunidas sob a imensa superfície em movimento. Acima dos incontáveis Anjos, bochechudos e sopradores, em caótico alarido, avança um grande Arcanjo, vento por trás das asas, cuja vontade me empurra para onde desejo ir.” (A Lenda dos Anjos. SP, Aleph)Sacou que a DIAGONAL implica a ABERTURA a um de-Fora…Um fim de mar sempre colore o horionte…

Aproveitamos tudo nesse cinema: os drogados, as putas, os periféricos, a renúncia, o abandono, a desorientação, a banalidade, o cinismo, a omissão, a indiferença, a inumerável imbecilidade, a estupidez generalizada (só existe o dom e o roubo) menos para extrair uma fórmula, muito mais para reduzir os danos dos abusos cometidos: bastidores, alcovas, secretarias, procuradorias, tribunais de conta, fazendas…Um último avatar: a antiprodução; o pistoleiro; o câncer; o grito da terra fazendo ecoar outros supra-cineastas que não dormiram no ponto até agora, e cujo sonho nunca passou de um tremendo pesadelo! História única! Cinema Múltiplo! O Uno-múltiplo em cinema:  CINEMA DE RUA contra uma praia de gabinetes. Ação-caligrafia: Quem não tem nada…não tem nada a perder! CINEMA-INCOPORAL: total mistura do vazio com o preenchimento; mudança de natureza…cinema-lekton, exprimível e sem expectativa,, ou seja, imanência variodimensional; um povoamento do que ainda não existe; uma mistura disimétirca do que já foi com o que está por vir…Video Meliora, proboque; Deteriora sequor…Ainda que veja o melhor e aprove, faço sempre o pior… Cinema- lógica do pior; que por enquanto, nas inconclusões sem finalidades dessa dimensão menor da cinexistência, garante que o novo pós-exú está em vias de vingar, mas agora tenho que ir, estou de olho nos imperceptíveis, e imperceptivelmente sem ver nada…Cinema-corpo tencionando esse jogo de afetos que torna o “bolo doido” pura matéria de expressão…Em outras palavras…aquilo que desperta o hábito do ilocalizável é a latitude mesma das experiências…Colé, men…não sabe para onde as intensidades vão? Ad infinitum…É um jegue dentro do trem bala…ou você não se tocou ainda que a maior riqueza do homem é a sua incompletude?! por hora o decalque se faz ao mesmo tempo em que as paisagens mudam de contorno…troque as linhas do sul pelo norte, inverta as posições, projete ao contrário de tudo até agora e você terá o seu próprio cinema…Nego…Fuja!!! Fuja…Nego!!! Reclama o inconsciente….Corta!!! Parece que as paisagens geopolíticas continuam as mesmas desde a sua invenção; e também suas queixas, seus pedintes, seus idealistas, seus críticos, suas traças e trapaças, suas ganâncias, suas desgraças…como diria Raul: Se uma uma coisa não deu certo….TENTE OUTRA VEZ…Êa!” O deserto cresce: ai de quem abriga desertos….Fechou lá….

 

6 Comentários...

  1. Júlio Góes disse:

    bom exercício de escritura, tal como fazíamos nas cavernas, pensar algo mais que o socialmente aceitável

  2. lucas valadares disse:

    É uma pena que ainda tenhamos que nos referir ao cinema nacional, apesar da adversidade cultural presente em nosso país, com suas culturas e formas de expressão, seus povos e hábitos, com as suas mais variadas manifestações populares, de forma tão retalhada: parafraseando Edgard Navarro, o cinema nordestino, o cinema sudestino, o cinema baiano, e por aí vai. Mas infelizmente sempre foi assim, salvo o período do cinema novo, com glauber e tantos outros importantes artistas envolvidos neste movimento na época, quando o dito “cinema baiano” teve um destaque de repercussão internacional através de um dos seus mais importantes expoentes: Glauber. E ainda bem que tivemos ele. Teremos, então, que esperar o surgimento de um outro gênio cem anos depois? Não! Não! Os gênios se fazem pelo momento histórico e as necessidades artísticas, que nem sempre são as do mercado!! Não devemos esperar a nada! Por isso Fábio, que os seus escritos possam reverberar, ecoar, ainda que vc, que nós, não sejamos escutados pela elite, pelos guetos e panelas já favorecidas através de articulações que intimidam, muitas vezes, o nosso desejo em realizar algo com originalidade, com tesão, com fé naquilo em que, verdadeiramente, acreditamos. Temos que responder. E as suas inquietações são caminhos, ainda que já discutidos historicamente, para mais uma vez, elucidar e refletir sobre algumas questões pertinentes ao cinema de forma geral.

    Lucas Valadares

  3. DI ROCHA disse:

    João rodrigo (Jim Morrison tupiniquim) fico agradecido pelo comentário…a antipatia mútua tranforma-se em agenciamento….sempre que alguém grita ABRA SEU CORAÇÃO….mas veja de bigode em bigode continuo supracitando vc mesmo (quer dizer o Jim de lá) “Se exponha aos seus medos mais profundos, depois disso, o medo não terá poder nenhum.”……muita coisa que parece hermética na verdade está na cara…….e quanto ao tamanho do texto não se atenha tanto a isso….é uma questão minha……basta ler o FINAL…que é o INÍCIO DA PARTIDA……

    massa cara……se todo mundo puder falar abertamente o que pensa,…..se gosta ou não….porra não haveria antipatia alguma nesse joça….

    abs

  4. Fora do país durante 5 anos, por intermédio da pirotécnica lista CineBa tive acesso – por email – a estes textos “rochosos”, sem sequer conhecer o seu controverso autor.

    Antipatizei na hora. E olha que isso nem é do meu feitio. De volta a terra mater, o conheci, e por idas e vindas nos tornamos amigos. “Papuco Ramirez” é o seu codinome (para mim).

    Devo admitir que retórica, informação, referências e inteligência não faltam à tão bem-famado escriba, mas preciso confessar que para mim o seu vasto bigode latino é mais acessível que os seus intrigantes parágrafos.

    Hermetismos Pascoais ? Porque não ?

    João Rodrigo.

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