caderno-de-cinema

Home » Artigos » Como distribuir um filme com amor

 

 

por Sylvia Abreu

 

 

Ontem assisti um debate sobre distribuição de cinema baiano, muito interessante e maduro, como nem sempre acontece por esta praça. Como diria Marcelo Sá (Sala de Arte), parece que estamos ficando adultos. O debate foi mediado com maestria por José Araripe Jr, e estavam na mesa 4 cineastas baianos, com obras lançadas recentemente, de forma tão diversa quanto os próprios filmes. Cada um contou como foi a sua trajetória frente ao desafio de colocar os filmes nas telas.

Adriano Big, falou do “Para Além dos Seios”, documentário feito praticamente com recursos próprios e ajuda de amigos, onde ele, num voo solo, colocou o HD debaixo do braço e foi em busca de telas para exibi-lo, e mais que isto, mante-lo em alguma tela para que pudesse fazer uma divulgação de boca a boca, tornar o filme conhecido e então partir para uma distribuição mais comercial e em cidades para além de Salvador.

Márcio Cavalcante nos revelou como fez para conseguir um público de mais de 100 mil ingressos, para o seu filme “Bahêa, Minha Vida”. Márcio tinha a seu favor uma torcida fervorosa, inclusive com torcedores empresários, publicitários, exibidores, que fizeram o filme interessar a uma grande distribuidora. Conheceu então o mundo do cinema negócio, onde o interesse das grandes majors e do cinema de Hollywood dão as cartas, e perdeu espaço nas telas para “Crepúsculo”, lançado no Brasil com 1.100 cópias, ocupando mais da metade das salas disponíveis no país.

João Gabriel, com a ficção “Travessia”, que conta com atores conhecidos e Globais, fez um plano de negócios ousado, e trabalhou pessoalmente junto à uma pequena, mas influente distribuidora, fez uma campanha intensa e muito bem assessorada nas mídias sociais, e conseguiu lançar em 39 salas. Aí veio o teste cruel do primeiro fim de semana, onde nosso pequeno filme disputa o público e as salas com os grandes lançamentos e em duas semanas já não tinha sala em Salvador e só umas poucas em outras cidades. Continua otimista mirando as janelas subsequentes: TV, VOD, DVD, etc.

Paula Gomes, com o “Jonas e o Circo sem Lona”, conseguiu seguir o caminho mais apropriado para o seu filme. Percorreu os mais importantes festivais dedicados a documentários, conquistou a crítica e pode inclusive escolher entre 3 distribuidoras interessadas, a que julgou mais adequada. Embora o público alcançado nas salas de exibição pareça insignificante, não é diferente do que ocorre outros documentários. O filme já foi vendido para 20 países, fazendo uma ótima carreira internacional.

Depois da exposição da mesa, muitos se inscreveram para falar e fizeram colocações pertinentes, sem os ânimos acalorados que muitas vezes temos visto em outros debates. Tão pouco se falou em culpados ou algozes das nossas dificuldades, que são as mesmas dos produtores, distribuidores e exibidores. Nem se colocaram como vítimas dos cariocas e paulistas que roubam todo o espaço que deveria ser destinado ao injustiçado “cinema baiano”. Aliás, felizmente, pouco se usou este adjetivo. Estava-se discutindo a distribuição de filmes nacionais, que não é muito diferente do que acontece com o cinema independente dos outros países. O mundo mudou, a produção de filmes cresceu geometricamente, as salas de exibição diminuíram e as novas formas de distribuição, mídias e janelas ainda não estão satisfatoriamente desenvolvidas.

Eu, diante de situações onde a palavra é muito disputada, me acanho e prefiro não falar, deixando o espaço para os demais. Por isso não me manifestei. Mas, fiquei com um sentimento de que tinha a obrigação de contar a minha experiência de vários filmes lançados nos últimos 16 anos.

Por isso resolvi faze-lo agora, aqui, por escrito, onde me sinto mais confortável para falar.

A Truque, na década de 90, tendo Moisés Augusto à frente da produção de cinema, realizou vários curtas, que tinham lançamentos glamorosos e superconcorridos nas salas Walter da Silveira ou no Multiplex Iguatemi. Naquela época, pós Collor, fazer cinema por aqui parecia impossível. Moisés resolveu colocar 5 curtas juntos, que nomeou de “Curta Cinema”, e com o apoio de Aquiles Mônaco, colocou em uma sala do Iguatemi. Acho que ficou 2 ou 3 semanas em cartaz e vendeu mais ingressos que muito filme atualmente consegue.

Aí veio o primeiro longa, “Três Histórias da Bahia” (2001), que embora composto por 3 curtas, era oficialmente um longa, mais longa que o Curta Cinema. O alvoroço era enorme, a expectativa maior ainda, e com uma pré-estreia simultânea nas 12 salas do Multiplex Iguatemi, todas lotadas, com cartazes do filme espalhados por todos os lados, campanha publicitária nos mobiliários urbanos recém-inaugurados em Salvador, Bus Mídia, Out Door, etc. Parecia que o filme ia decolar em Salvador. A estratégia era semelhante à de Big, e que recentemente deu certo com o cearense “Cine Holliúdy”: fazer sucesso local para chamar a atenção dos distribuidores e depois lançar nacionalmente. No nosso caso não funcionou. O filme não fez sucesso por aqui, foi ignorado pelo público, e logo saiu de cartaz, apesar dos ingressos vendido para empresas distribuírem com os funcionários, que não o foram ver, mesmo porque, após a primeira semana ele ficou programado apenas para o horário da tarde.

Quase ao mesmo tempo tínhamos finalizado “Samba Riachão” (2001), que foi selecionado para o Festival de Brasília e surpreendeu conquistando o prêmio de melhor filme pelo júri oficial e do público. Voltou glorioso para Salvador com pré-estreia lotada na enorme sala do UCI Aeroclube. Inexperientes em termos de distribuição, cometemos aí um primeiro erro: fazer uma pré-estreia como aquela, sem perspectiva de lançamento comercial, que só ocorreu 3 anos depois, quando conseguimos o patrocínio da Petrobras, através de edital. Neste momento aprendemos que não basta ter uma distribuidora (Pandora) e dinheiro para a distribuição. Numa época em que ainda não contávamos com as mídias sociais, um documentário sobre um sambista baiano, desconhecido do grande público fora da Bahia, com a repercussão de Brasília já distante, não conseguiu se sustentar nas poucas salas onde conseguiu ser exibido. Fez um público de 1.330 ingressos, número bem comum hoje em dia. Passou por vários festivais em diferentes países, mas não foi vendido para fora do Brasil. Aqui foi vendido para 4 canais de TV.

Aí veio “Eu Me Lembro” (2005) que ainda em finalização, foi selecionado para o Festival de Brasília. O primeiro longa de Edgard Navarro causava grande expectativa entre os críticos e fans, após o cultuado “Superoutro”, hoje na lista da ABRACCINE dos 100 melhores filmes brasileiros. E arrebatou quase todos os candangos do Festival. Agora sim, teríamos um sucesso de bilheteria! Mesmo dividindo a crítica, entre os que amaram e os que se decepcionaram, todos falaram dele. Era um filme de fácil acesso a qualquer público. Também tivemos patrocínio da Petrobras para comercialização. Mas claro, vida de cineasta não é tão fácil assim. O filme estreou em várias capitais, ficou um bom tempo em cartaz, em São Paulo, e fez 20 mil ingressos. Seria quase um block buster nos padrões atuais. Na época se conseguia um pouco mais de público, acho que porque tinham menos filmes desse tipo sendo lançados. O filme viajou para alguns festivais e teve uma mini distribuição na França. Foi lançado em DVD pela Videofilmes e vendido para 2 canais de TV no Brasil.

Na carona do “Eu me Lembro”, lançamos “Esses Moços” com a mesma distribuidora, que colocou seu adicional de renda, fez 03 cópias 35mm e o lançou em umas poucas salas. Fez um público de 3.000 ingressos, foi lançado em DVD, vendido para 4 canais de TV no Brasil, uma em Moçambique e 2 companhias aéreas.

“Pau Brasil” já nos indicava ser um filme difícil, pela sua densidade. Teve uma sessão gloriosa no Teatro Castro Alves, lotado, durante o Cine Futuro. Atraiu boas críticas, mas foi pouco visto. Só conseguimos coloca-lo em algumas poucas salas, graças a uma verba de edital do Fundo de Cultura da Bahia e um enorme esforço da distribuidora Caliban, que também o lançou em DVD. Posteriormente foi vendido para o Canal Brasil

“O Homem que Não Dormia” era novamente Edgard Navarro, desta vez com um filme de narrativa bem mais difícil, polêmico, adorado e odiado pela crítica e por quem chegou a vê-lo. Também distribuído pela Pandora, com um público bem menor que o anterior, 4.200 ingressos, foi vendido para o Canal Brasil e não saiu do Brasil.

O documentário “Pra Lá do Mundo”, sobre os habitantes de várias nacionalidades que se integraram aos nativos no Vale do Capão, pode ser distribuído graças ao histórico de parceria com a Pandora e fez quase 2 mil ingressos. Foi exibido na Mostra Internacional de São Paulo e vendido para o Canal Brasil que o colocou também no Net Now.

Agora será a vez de “Abaixo a Gravidade”. Ainda não consigo advinhar o seu futuro. É esperar para entender por onde seguir. Cada filme é um filme e cada tempo é um tempo. E tudo está sempre em movimento.

Esta não é uma história de fracassos, mas sim de sucessos alcançados por cada um dos filmes que, se conservados (isto já uma outra questão bem importante) poderão ficar para a eternidade. Penso que cada filme tem o seu lugar ao sol e mereceu ter sido realizado. Todo realizador quer que seu filme seja visto pelo maior número possível de pessoas e de preferencia ganhar dinheiro com isto, mesmo aqueles que não o admitem e fingem não se preocupar com o público. Nem todos conseguem ter a dimensão do potencial do seu filme, nem compreendem qual o público para o qual devem direciona-lo. Há que se aprender na prática.

 

8 de abril de 2017

Deixe um comentário