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por Jorge Alfredo

 

Na Ribeira, a nossa casa era na rua Lélis Piedade, nº105.

Quando chegamos de Jequié pra morar em Salvador, eu estava com 12 anos de idade e tinha acabado de retornar de uma temporada de seis meses no Rio de Janeiro. A praia do Bogari, o Clube de Regatas Itapagipe; basquete e remo eram as modalidades de esporte preferidas do bairro. Eu praticava natação e competia pelo Esporte Clube Bahia, como faziam todos os meus irmãos, na recém inaugurada piscina de 50 metros da Fonte Nova. Remo eu nunca arrisquei, e no basquete e na natação nunca consegui ser campeão. Tanto meu pai quanto meus 3 irmãos foram todos campeões e recordistas baianos. Mas eu consegui apenas um honroso 2º lugar certa feita, e só. Me dava melhor no pingue-pongue e no tabuleiro de xadrez. Frequentava assiduamente as matinés do Cine Roma e também curtia uma paquena na Sorveteria da Ribeira, Porto dos Tainheiros, Penha, Alto do Bomfim, Ponta do Humaitá, Plataforma, Passeio Público, Solar do Unhão…  Fiz bons amigos na Ribeira; Toinho Macunaima, Guida, Paulinho Fossa…  Meu pai, Moacir, costumava sair da beca, aos domingos, vestia um pijama e subia pro terraço pra empinar arraia de tardezinha – arraias que ele mesmo fazia, assim como o tempero da linha. Eu adorava fazer companhia pro velho. Eu estudava no Ginásio São Bento e o contato diário com a Cidade Alta ampliava meu horizonte.

Lázaro, meu irmão mais velho, que já morava em Salvador por causa dos estudos, desde que a gente chegou do interior, veio morar conosco; a presença dele trouxe para a minha vida os livros, os discos e o violão; isso preencheu um vazio dentro da minha alma. Comecei a ler muitos livros – ele tinha uma estante recheada de literatura de primeira. E também ouvia os discos que ele trazia pra casa. Talvez pela vida itinerante de meu pai, fazendo a carreira de promotor público, de comarca em comarca pelo interior até chegarmos a Salvador, nunca tivemos em casa uma grande biblioteca. Eu sentia falta dessa experiência táctil com os livros e discos. Sempre que vinhamos de férias pra Salvador, gostava de ver a biblioteca de tio João, irmão de meu pai, que ocupava toda uma grande sala, e sempre me impressionou. Com a presença de Lázaro isso muda. Ele começou a trabalhar cedo como jornalista e logo foi formando uma biblioteca muito boa. Portanto, a minha adolescência foi cercada de discos e livros e por um hábito muito forte de ir ao cinema, fazer serenata e boemia, e ler livros e mais livros. O gosto por cinema começou antes, ainda em Jequié. Lá, em 1958, tinham dois cinemas; o Cine Jequié e o Cine Bonfim. Todo semana mudava a programação e passavam geralmente dois filmes em cada sessão. Domingo tinha matinê. Aos poucos eu fui conseguindo, nos dias úteis, entrar até em filmes impróprios pra minha idade com a cumplicidade dos porteiros, e virei um aprendiz de cinéfilo. Na Ribeira, tinha o Cine Madragoa e o Cine Roma, que também ficavam no bairro. Mas, eu costumava ir também com freqüência aos cinemas da cidade alta; Tamoio, Guarani, Tupi, Liceu, Excelsior, Jandaia, Capri, Politeama. Que interessante eu incluir os cinemas da Baixa dos Sapateiros também como cidade alta! Mas é quase de propósito. Isso sempre me intrigou; por que o pessoal da Barra não se situava também na cidade baixa, como a gente da Ribeira?

foto terminus

jornal A Tarde – 1971

Certo dia, tempos depois, já nos anos 70, eu decidi trancar a matrícula do Colégio João Florêncio Gomes. Estava de saco cheio de freqüentar as aulas; me sentia deslocado, com os interesses voltados para outras coisas. Não enxergava futuro ali na sala de aula. Já tinha dois livros prontos; O Poeta Incendiado e Intestinal. Estava na hora de me dedicar à vida artística. Tinha tomado gosto pela pintura, e meu pai facilitava isso dando-me dinheiro para comprar tinta importada, cavalete, telas, pincéis e espátulas. Lia e relia com muita atenção e disciplina o Itinenário de Pasárgada, de Manuel Bandeira. Esse livro era pra mim uma fonte inesgotável de informações, muito provavelmente o responsável por eu nunca ter tido coragem de escrever as minhas memórias. Depois de assistirmos Easy Ride no Cine Capri, eu, Candinho, Fatinha, Rose e Sérgio, decidirmos ir de carona de caminhão rodar o mundo. Eu e Candinho tocávamos violão e as meninas recolhiam grana dos ouvintes…  Só voltei a me matricular no Colégio Central dois anos depois, onde concluí o Clássico e depois fiz vestibular pra Direito, na Católica, e Ciências Sociais, na UFBa.

Meu gosto musical sempre foi difícil de se entender; ouvia João Gilberto e Nara Leão, mas também os discos da Jovem Guarda e dos Beatles e sempre prestei muita atenção a tudo que fazia sucesso no rádio e na televisão. Sempre me olharam desconfiados por causa disso. E fui acrescentando a esses autores outros que aprendi logo cedo a gostar; Vinicius de Morais e Manoel Bandeira, que muitos consideravam “poetas menores”.

Um dos nossos vizinhos na Lélis Piedade era o professor Adroaldo Ribeiro Costa, autor do hino do Bahia e criador da Hora da Criança. Foi através dele que compus o hino do Colégio Luis Tarquínio, quando tinha uns 16 anos de idade. Ele tinha recebido essa encomenda e parece que, ou não tinha tempo ou estava sem saco, e de tanto me ouvir tocar violão, sugeriu ao meu pai que me desse essa incumbência. Daí, eu compus o hino e também fui à cerimorina de inauguração do Colégio, e ouvi a  minha música ser executada publicamente pela Banda da Polícia Militar dos Dendezeiros, a letra cantada por um enorme coral.  Foi a glória! A primeira vez a gente nunca esquece.  Nessa época, comecei a tomar aulas de teatro influenciado por uns amigos. Era tempo do Teatro dos Novos de João Augusto. Cheguei a interpretar João Grilo, numa montagem no Teatro Vila Velha, também me apresentei no auditório do ICEIA, no Barbalho, com o Grupo Comunicação.

Gostava muito de viajar. Creio que isso se intensificou desde a minha primeira viagem ao Rio de Janeiro em 1962; dali em diante, eu sempre encontrei um motivo pra viajar. Cheguei a ir pro Rio certa vez exclusivamente para ver a Semana Godard, no Cine Paissandu. Voltei todo compenetrado já que quase ninguém na Bahia havia assistido  Pierrot le Fou, Alphaville, Masculin/feminin, Deux ou trois choses que je sais d’elle, Weekend e La Chinoise. Aqui só tinha passado Les Carabiniers (Acossado).

parafuso

sitio de Parafuso – 1972

Através da minha amizade com Jonar Brasileiro, Candinho e Messias Santiago comecei a levar mais a sério a composição musical. Participei do Festival Nordestino da Canção da Tv Itapoã e classifiquei 2 músicas “Cisne” e “Contando Estórias”, ambas em parceria com Jonar Brasileiro. Fomos pra final com Contando Estórias, mas os vencedores foram Vevé Calazans, Carlos Coqueijo e Alcivando Luz. O maestro Carlos Lacerda me impressionava de sobremaneira, nos bastidores. Que figura!

No início de 1971 conheci Eramita, que gostava de cantar. Com Era Encarnação, tive um relacionamento intenso e adentrei no mundo da música de corpo e alma; inicialmente formamos um grupo junto com Jonar Brasileiro, Lázaro, Soninha, Hélio Gazineo. Animados com a seqüência de ensaios e pequenas apresentações, tomamos coragem e produzimos um show de estréia no TCA. “E Deus Criou O Som”. O nome do grupo era Terminus (claro que com esse nome não duraria muito tempo mesmo). Conseguimos colocar somente dezenas de pessoas naquele grande teatro de 1.600 poltronas, mas achamos tudo maravilhoso. E até merecemos uma crítica muito positiva na coluna de Carlos Coqueijo no jornal A Tarde.

Meses depois voltaríamos ao mesmo palco no I Encontro de MPB, um grande evento, iniciativa de Lázaro Guimarães, que reuniu Nelson Cavaquinho, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Carlos Lira, Batatinha, Gereba, Messias, Carlos Lacerda Trio, Armandinho e o nosso grupo Términus. Cantei  no Teatro Vila Velha e no último dia no TCA.

tv velha

Um galo sozinho não tece uma manhã…

Meses depois fizemos um show acompanhado pelo grupo Creme (Jaime Sodré, Moisés Gabrielli, Messias e Perinho Santana), e na sequencia participei de um movimento “Salve o Vila Velha” para chamar a atenção dos gestores públicos para o TVV que estava prestes a fechar as portas por falta de conservação. “Um Galo Sozinho Não Tece Uma Manhã”, acontecia uma vez por semana e reunia também muitos artistas da terra no Palco do Teatro Vila Velha; Marco Antonio Queiroz, Edu Nascimento, Cacá Dourado, Beto Marques, Ricardo Augusto. Depois, em companhia de Candinho, Jane e Era, veio o show, em setembro de 1972, Palito de Fósforo, no Teatro Vila Velha, que tinha uma formação musical maravilhosa; Vivaldo Conceição (cello e clarineta), Elena Rodrigues (flauta transversal), Armandinho (bandolim e craviola),  Betinho (baixo) e Jaime Sodré (bateria e percussão).  As minhas canções e as de Candinho estiveram em boas mãos… Ainda em 1972, viajei mais uma vez para o Rio de Janeiro com Era, Candinho e Jane na esperança de gravar um disco. Ficamos hospedados na Tijuca. Não conseguimos nada de concreto, mas adorei conhecer os corredores das gravadoras.

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jornal A Tarde – show no Teatro Vila Velha em 1972

Os desdobramentos da tropicália chegavam com intensidade até mim, me agradava por demais,  e isso se intensificou quando me aproximei mais de Caetano e Dedé, na temporada que eles moravam em Ondina. Eu lia compulsivamente Pessoa, Rilke, Mário de Sá Carneiro, Camões, Cesário Verde, Hölderlin, Drumond, Cabral, Oswald, os irmãos Campos, Malarmé; “poesia não se faz com idéias, mas com palavras.”

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Salve o Prazer – Icba 1974

A amizade musical com Armandinho se intensificava mais a cada dia e começamos inclusive a compor juntos. Não tinha uma semana que a gente não ensaiasse e fizesse gravações caseiras. As vezes, isso acontecia 3, 4 vezes na semana. E nos tornamos fregueses do abará de Zefa, no Caminho de Areia, depois dos ensaios, que ela só abria o ponto depois da meia noite. Tudo isso culminou no “Salve o Prazer”, que estreiou no ICBA em 1974 e foi pra São Paulo, no Anhembi.

Um dia, Risério cruzou comigo na rua e começou a citar trechos inteiros de músicas minhas que ele tinha ouvido no show Palito de Fósforo; nos tornamos amigos e parceiros de muitas canções. Anamelinha, Sylvinha Abreu e os irmãos Pepeu, Mônica e Bete… Os ensaios de Salve o Prazer se tornaram diários e era cada vez mais dificil freqüentar o curso de Ciências Sociais da UFBa, em São Lázaro. Nesses tempos eu amadureci muito artisticamente e sofri todo tipo de influência comportamental e sócio-cultural. Eu que assistia, indiscriminadamente, a todos os filmes que chegavam às telas, aos poucos fui ficando mais seletivo, apesar de ainda hoje ver muitos filmes e manter um hábito de, simplesmente, ir ao cinema.

Dentro dessa nave louca eu mergulhei fundo!  Foi aí que Nando Barros me emprestou uma filmadora super 8 Canon e eu rodei os meus primeiros planos de cinema.

Relendo o que acabo de escrever, fico indignado comigo! Como posso falar de coisas tão importantes em uma, duas linhas, onde páginas e mais páginas não bastariam?

Porém, mais eu não digo, por que como dizia Waly Salomão; a memória é uma ilha de edição.

jorge e riso

Jorge Alfredo e Antonio Risério (com Paulinha Herrera)

 

4 Comentários...

  1. Lázaro Guimarães disse:

    Bonito, Bode, adorei suas memórias, e mais ainda nelas figurar

  2. Marco Antonio Queiroz disse:

    “Meu tempo é hoje” diz Paulinho da Viola. E o passado, presente. Vivo. É ótimo contar essas histórias, Jorge. Obrigado!
    Você tem a nossa foto do “Galo” completa. Eu só tenho uma cortada para jornal. Me mande por email, por favor. Abraço.

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