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A PELEJA DE CINE GERALDO

CONTRA

OS DRAGÕES DO MERCADO

por Fernando Belens

 

 

Pra botar um filme na tela

É preciso matar dragões

Mas isso não mete medo

A quem nasceu em Poções

Sertanejo é atrevido

Enfrenta sol e sertões

 

Tem gente que faz cinema

Querendo somente agradar

Esquecem que tem uns filmes

Que são feitos pra pensar

E pra enfrentar os ianques

Que querem tudo tomar

 

Como já dizia o cara

Lá no Velho Continente

Pensar é a maior diversão

Alimenta a alma da gente

Tem platéia para todos

Não só Coro dos Contentes

 

Tem Geraldo de Delmiro

De Viramundo virou

Na caatinga a Terra Queima

Mais a saga de Yaô

Com o Romance de Balzac

O mestre se suplantou

 

O Balzac todo é feito

De grande contradição

De um viés documento

De outro tem ficção

Colorido e preto e branco

Tem cabeça e coração

 

Esse filme diferente

De tantos que a gente vê

O autor diz que é pasticho

Sem artista de tevê

Tem um Balzac assinado

E outro depois de morrer

 

A narrativa assim vai

Coleando em nossa mente

Tem uma arte que mata

Livre, independentemente

O filme é tão provocante

Transita pelo inconsciente

 

Pra fazer o dito filme

Sem nenhuma concessão

Sarno reuniu a equipe

Nesse nosso Brasilzão

A fotografia é deslumbre

A arte é pura tesão

 

A montagem no cinema

É igual corte e costura

Vai juntando os pedacinhos

Dando sabor a mistura

Esse filme é cachoeira

Deságua beleza pura

 

São tantos temas tratados

Nessa viagem profunda

Morte versus Desejo

Pobreza versus Fartura

E um jogo com o Demo

Juventude, Grana e Loucura

 

O filme tem uma parte

Que me deixava encucado

É a historia do livro

Que foi psicografado

Até que o inconsciente

Foi por mim rememorado

 

A raça humana tem mitos

Bases da nossa cultura

Que vão se reproduzindo

E driblando a censura

O grande artista não morre

Mesmo morto ele perdura

 

Depois que o filme foi feito

Com sangue suor e coragem

Queremos vê-lo na tela

Mais aí é outra viagem

Pois o lixo americano

Ocupa toda paisagem

 

Inventaram uma tal lei

Chamada cota de tela

Onde o cinema nativo

Tem de engolir a balela

E nossos sons e imagens

Vão fervendo na panela

 

Geraldo fez Caravana

Teve filme seqüestrado

Os milicos reprimindo

A quem escolhia outro lado

Mas o povo nordestino

Sempre foi o seu riscado

 

Acho que esse cinema

É grande provocação

Pois tem gente que se acha

Todos cheios de razão

Que um filme é só negócio

E não vale a invenção

 

Sarno é mais um guerreiro

Mas ele não esta só

Temos gente pra caramba

Aprontando o qüiproquó

Do jeito que a coisa anda

Não pode ficar pior

 

Aos que leram essas rimas

Peço total atenção

Sabendo que o Balzac

Encontra-se em projeção

Vão e levem os amigos

Garantida a emoção.

 

Ao Cordel peço licença

Pra pisar no seu terreiro

Pois essa é a primeira vez

Que eu uso esse modelo

Pra falar de um pasticho

Faço um pastiche primeiro

 

FIM

4 Comentários...

  1. Sergio Maciel disse:

    A Ultima Obra de Balzac eh instigante e a Cronica de Belens, das mais pertinentes …

  2. jorgecine disse:

    Para fazer um cordel
    de redondilha precisa
    poesia é o axial
    cachoeira rediviva
    Pro Cinema tem Caderno
    Peleja pra toda vida!

  3. Josias Pires disse:

    Muito bem, Belens,
    Muito bom, seu Geraldo,
    este fez filme de primeira
    filme realmente retado.
    E Belens fez bela análise
    da peleja desse Sarno
    cujos filmes batem de frente
    com os dragões do mercado.

    • sophia mídian disse:

      CORDEL UMA SERTANEJA CINEASTA
      pour moi

      Além do mercado
      a mulher tem que sofrer
      o preconceito do legado
      de nada poder fazer

      tem aquela exceção
      que exemplo a todos deu
      mas me diga, quem souber
      em que berço ela nasceu

      eu que vim lá do sertão
      sei o quanto já sofri
      com mentira escabrosa
      de umas “boca” que ouvi

      a beleza é tormento
      nessa terra que é molhada
      a mulher que é singular
      é por todos execrada

      por isso, meus colegas,
      eu encerro a dizer
      é melhor se afastar
      que aos poucos vir morrer

      sozinha e em paz
      vale, às vezes, muito mais
      que ser centro de fofoca
      de gente “mei” amorfa
      que condena a “feminice”
      com boca toda torta.

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