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Um crime que chocou o Brasil

 

por Camila Mota

 
O crime acontecido no dia 7 de abril de 1952 na cidade do Rio de Janeiro, na Ladeira do Sacopã, girou em torno do assassinato do banqueiro Afrânio de Lemos, de 31 anos. Ao que tudo indica, o crime teria sido cometido pelo Tenente Bandeira em um ato de vingança, já que supostamente estaria envolvido com Marina de Andrade, uma antiga namorada de Afrânio.
Várias questões e hipóteses foram levantadas a respeito do verdadeiro assassino de Afrânio. E a população ficou dividida entre acreditar que o culpado era o Tenente Bandeira ou outra pessoa ainda anônima.sa2
Em setembro de 1959, sete anos após o ocorrido, uma reportagem escrita por Ubiratan de Lemos e Indalécio Wanderley para o jornal O Cruzeiro provoca uma reviravolta : Deputado Tenório Cavalcanti toma parte em favor do tenente, afirmando ter provas o suficientes para inocentá-lo.
De acordo com Tenório, desde o inicio ele havia percebido a inocência de Bandeira, e o jovem de 23 anos, que há sete se encontrava preso e perdendo sua juventude, não tinha no rosto a crueldade de um assassino. O deputado afirmava que o sistema havia julgado e condenado a pessoa errada. Segundo as provas recolhidas pelo Deputado Tenório, o verdadeiro culpado pela morte de Afrânio era Joventino Galvão, outro homem apaixonado pela mulher de Afrânio. Assim, a condenação do Tenente Bandeira foi por muitos anos classificada como um dos maiores erros já cometidos pelo poder judiciário brasileiro.sa Até hoje o crime ainda não foi solucionado e sua memória mexe com a imaginação dos brasileiros. No início do ano 2000, duas reconstiuições televisivas foram realizadas e trouxeram para a atualidade os fatos ocorridos no passado. A TVE, num programa que “comemorava” seus 50 anos (2002) e a Rede Globo de Televisão no extinto Linha Direta (2004).
Mas, em 1963, após toda atenção dispensada pela imprensa ao crime, um cineasta percebeu o apelo dramático daquele acontecimento e resolveu transformá-lo numa ficção: Roberto Pires. Por onde anda Crime no Sacopã?
Vindo da Bahia no pós Ciclo Baiano de Cinema, Roberto Pires chega ao Rio de Janeiro em novembro de 1962, com a intenção de gravar o filme Conflitos, escrito por Raimundo Mendonça e Waldemar Lima. Procura os estúdios Herbert Richers, distribuidor nacional, de filme para ser seu parceiro nessa empreitada. Consegue apoio dos estúdios e fica acertado que o filme começaria a ser gravado no inicio de 1963.
Foi nessa ida ao Rio que Roberto conhece Ubiratan de Melo, repórter do jornal O Cruzeiro, que escreveu muito a respeito do crime ocorrido há dez anos na ladeira do Sacopã.sa6 Roberto teve como escola de formação os filmes policiais, então, nada poderia lhe encantar mais os olhos do que uma história envolvendo crimes, suspeitos e um mistério a ser resolvido. Assim, desistiu de gravar Conflitos e partiu para conceber Crime no Sacopã, tendo como produtores e apoiadores Gilberto Perrone, Jarbas Barbosa e o estúdio distribuidor Herbert Richers.
O que mais chama a atenção em Crime no Sacopã (1963) é a questão de trazer o próprio Bandeira como personagem principal e intérprete de seu próprio papel nas telonas. De acordo com registros da época, o ex-tenente utilizaria a oportunidade para fazer revelações que não constaram do seu rumoroso processo. Ao que tudo indica, e as informações aqui utilizadas só me foram acessíveis a partir da leitura dos jornais O Cruzeiro e de críticas realizadas no momento do lançamento da película, o filme dirigido por Roberto Pires não ajudava em muita coisa para a resolução do crime. Primeiramente, assumia-se como ficção, apesar de ser baseada em fatos reais. Os jornais da época questionavam: se o filme era ficcional, por que ter o ex-tenente Bandeira interpretando seu próprio personagem?
De acordo com O cruzeiro: “Crime do Sacopã faz uma defesa agressivamente subjetiva do acusado, denegrindo sem cerimônia a vítima, a policia, a imprensa, fazendo acusações tapadas com a peneira”. Assim, Crime no Sacopã parece não ter sido bem aceito pelo público. E teve ainda um agravante para sua recepção: no dia de seu lançamento aconteceu o assassinato do presidente Kenedy, ou seja, toda a atenção da mídia voltou para os Estados Unidos da América. Diante do assassinato do líder norteamericano, a obra de Roberto Pires sobre o crime do Sacopã tornou-se um fiasco. Ninguém assistiu. Simplesmente desapareceu e desde então continua esquecido, sem que ninguém saiba seu paradeiro. Colocando-me como investigadorasa7
Ao começar a escrever sobre Roberto Pires e Crime no Sacopã, me vi em um verdadeiro labirinto, no qual não conseguia encontrar a saída. Entrei em contato com Aléxis Góis (autor do livro Gente da Bahia – Roberto Pires) e Petrus Pires (filho de Roberto Pires), responsáveis pelo projeto Memória Roberto Pires. Foi a partir desse encontro que descobri informações valiosas.
Existem dois rolos de Crime no Sacopã na Cinemateca Brasileira, chegam a 25 minutos, no máximo. Acredita-se que nos estúdios Herbert Richers existia uma cópia, porém, com o fim da empresa, todos os seus negativos teriam rumado para um dos estúdios da Rede Globo de Televisão, cujo acervo foi destruído por um incêndio em 1970.
Assim, a cada dia, o paradeiro do filme Crime no Sacopã se torna mais difícil de se localizar. Segundo informações de Raymundo Mendonça, assistente de direção, haveria uma cópia na mão da família do Tenente Bandeira, mas, como o filme aborda o crime sem inocentá-lo, os familiares parecem preferir manter a obra escondida, pois até hoje procuram limpar seu nome na Justiça.
Os responsáveis pelo projeto Memória Roberto Pires, que desenvolvem um trabalho de restauração e memória das obras do cineasta, estão determinados a encontrar o filme Crime no Sacopã, restaurá-lo e colocá-lo novamente (ou seria pela primeira vez?) no mercado cinematográfico. Porém, reconhecem também a dificuldade da empreitada, por todos os pormenores que a cercam.
Assim, deixo aqui a indagação acerca do filme: onde se encontra Crime no Sacopã? Estará ele perdido ou escondido? São perguntas ainda sem resposta.

 

cartaz1963- ficção -35mm  – 93min

O filme recria os fatos ocorrido em 6 de abril de 1952, procurando inocentar o tenente da Aeronáutica Alberto Bandeira, então condenado pelo homicídio, e colocando a vítima, o bancário Afrânio Arsênio de Lemos, como chantagista e conquistador.
Bandeira, condenado a quinze anos pelo crime, faz parte do elenco do filme.

elenco; Adiano Lisboa, Agildo Ribeiro, Álvaro Aguiar, Delorges Caminha, Francisco Milani, Íris Bruzzi, Jorge Dória, Maria Pompeu, Mário Benvenutti, Nestor de Montemar, Rodolfo Arena, Wilson Grey, Yolanda Cardoso

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A Trajetória do Artesão Sonhador

Roberto Pires, nascido em Salvador em 29 de setembro de 1934, foi o “cineasta e inventor” da cinematografia baiana. Mesmo tendo Alexandre Robatto Filho como pioneiro, é Roberto quem vai conseguir angariar esse titulo, com sua teimosia, tenacidade e persistência, realizando assim o sonho de se fazer um longa metragem na Bahia. Como destaca Góis, “falar de Roberto Pires é falar de um cinema baiano que conseguiu encantar plateias. Um verdadeiro mestre em seu oficio de entreter e sonhar” (GÓIS, 2009: 43).
Frequentador dos cinemas Santo Antonio, Pax, Jandaia e Aliança, localizados todos no centro de Salvador, Roberto Pires tinha acesso aos filmes da época, e foi aí que se formou enquanto cineasta. Nunca frequentou nenhum tipo de escola, tudo o que sabia aprendeu assistindo filmes, em sua grande maioria, thrillers policiais, gênero que teve influência evidente em suas obras. Trabalhava com seu pai e era com o dinheiro ganho ali que investia em equipamentos, como uma câmera 16mm comprada na adolescência, na qual gravou seus primeiros curtas: O sonho (1955) e O calcanhar de Aquiles (1955), ambos pautados no tipo de linguagem que era utilizada na época (fusões, flashbacks).
Junto com Élio Moreno Lima, Oscar Santana e Braga Neto, fundou a Iglu Filmes e começou a realizar o projeto do filme Estalagem 25, que depois passou a ser chamado Redenção. A produtora fazia dois cine-jornais: o Bahia na tela e o Brasil – norte para angariar fundos para seus projetos cinematográficos. A Iglu produzia filmes, e foi responsável pelos principais do período: Redenção (1959), A grande feira (1961), Tocaia no asfalto (1962) e Barravento (1962), dialogando algumas vezes com produtoras do Rio de Janeiro, onde eram enviados para serem montados e finalizados.
Após gravar seus primeiros filmes na Bahia, o cineasta vai para o Rio de Janeiro e produz mais algumas películas como, Crime no Sacopã (1963), Máscara da traição (1969), Em busca do sus$exo (1970). Passa por um período em que não dirige filmes, trabalhando então como montador e produtor em alguns projetos, e só dez anos depois volta à direção em: Abrigo nuclear (1981), Alternativa energética (1982), Brasília última utopia (1989), Césio 137 – o pesadelo de Goiânia (1990), Biodigestor (1991) e Energia solar (1991).

 

 

 

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