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A permanência dos vagalumes

 

 

por Cristina Amaral
 .
Algumas pessoas luminosas pontuaram a minha trajetória e a minha vida dentro e fora do cinema. A primeira delas foi minha mãe, mulher forte e independente que nos deu (e continua a dar) muito carinho e nenhuma moleza: “Se tem que estudar, estude”.“Se tiver que fazer algo, faça o melhor possível”. Desde cedo, me contam, os livros me atraíam como ímãs. Não apenas os livros, qualquer texto escrito. E, das minhas leituras, eu me recordo de uma revista sobre cinema que minha mãe colecionava.
Não me lembro do nome, mas, através dessa revista, todos os grandes astros dos cinemas americano e europeu se tornaram meus conhecidos íntimos – eu sabia o nome de todos (corretamente, porque meus irmãos mais velhos me corrigiam na pronúncia), reconhecia suas fotos, sem nunca ter visto nenhum de seus filmes, porque não tinha idade para isso.
Não sei se foi nessa mesma revista que vi, mas me lembro de um faroeste em formato de quadrinho – balõezinhos contando a história e os diálogos, as imagens sendo os fotogramas do filme.
Amarcord
Não me recordo qual foi o primeiro filme a que assisti. Mas consigo sentir no corpo a memória da sala cheia de crianças (como eu) berrando e correndo, reagindo e interagindo com as imagens da tela. Até hoje, me emociona o momento em que as luzes se apagam para começar a projeção de um filme. Mais tarde, quando compramos a primeira TV, lembro-me que só assistia a filmes-seriados e de longametragem. Na adolescência, não sei se foi presente de aniversário ou de Natal, mas um dia ganhei uma máquina fotográfica. Automática, muito simples, mas que me tornou a fotógrafa oficial da família. A fotografia me levou ao Curso de Cinema, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). As aulas do curso de Cinema tinham o encantamento de virem acompanhadas por projeção de filmes. Era o reencontro com velhos conhecidos meus.
Terra em transe
Paulo Emílio Sales Gomes: por causa dele, mesmo sem conhecê-lo, fizemos uma greve geral na escola.
Fazia dois meses que as aulas tinham começado, e a reitoria da USP tinha recebido ordens da ditadura militar para não renovar o seu contrato, por considerá-lo subversivo. Mal sabiam que ele, na verdade, era anarquista, livre e libertário. O trote na ECA era uma semana com apresentação de atividades artísticas e de palestras de conscientização aos calouros. Nesse contato com os veteranos, tivemos a noção da importância da pessoa de Paulo Emílio, e a importância de reagirmos à prepotência de um regime atroz. A paralisação da Escola deu resultado, e ele foi recontratado. E a importância de um posicionamento político justo e íntegro ficou impregnada em mim. Paulo Emílio Sales Gomes era como um sol aberto às 8 horas da manhã. As suas aulas me lavaram os olhos e me trouxeram a essência do Cinema, que é a Vida. Trouxeram-me a consciência do que é a responsabilidade e o vínculo do fazer cinema com o cotidiano e com a realidade de um país. Ele nos trazia a história, com os primeiros filmes, os clássicos de Humberto Mauro a Mário Peixoto – a produção recente comercial ele nos fazia assistir nas salas de cinema e depois discutíamos na sala de aula. Assistíamos de Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Paulo Cezar Saraceni às pornochanchadas.
Bang bang/Blablablá/Jouez encore, payez encore/Crônica de um industrial/Lilian M/Matou a família e foi ao cinema/O bandido da luz vermelha
Mas havia também uma produção contemporânea à qual ele deu um espaço que os feudos de poder do cinemão brasileiro bloqueavam. A esses filmes eram vetadas as fontes de financiamento e as portas de exibição. Paulo Emílio emprestava as cópias e as exibia para nós na sala de aula, muitas vezes acompanhadas de conversas com os realizadores. E foram esses filmes e seus autores – principalmente Andrea Tonacci, Carlão Reichenbach, Luiz Rosemberg Filho, Julio Bressane e Rogério Sganzerla –, com as suas inventividades, energia, rebeldia e sinceridade, que me deram um norte e uma profunda conexão com esse jeito de estar no mundo. Me fizeram entender que mais importante que o ponto de chegada é a busca. Tínhamos também as aulas específicas: história do cinema mundial, roteiro, fotografia, som, direção, produção, animação e montagem. Foi muito importante para mim ter aprendido todas as outras áreas da realização cinematográfica até chegar à montagem. No primeiro momento, recuei, achei que não daria conta de todas as operações necessárias em uma moviola, reconhecendo a minha falta de coordena-
ção motora. Depois, resolvi encarar e me enfiava horas a fio nas salas de montagem (que ficavam abertas o dia todo). Organizei todas as salas, enquanto me familiarizava com o funcionamento da moviola. Gostei. E, quando tive o conhecimento e o entendimento do trabalho e da função da montagem dentro de um filme, fui fisgada totalmente. Achei a minha praia, mas todo o aprendizado das outras funções me serve até hoje, é vital e complementa meu trabalho de montadora. Montei vários curtas na Escola e, ainda durante o curso, fui indicada pelo professor de Fotografia, Chico Botelho, para o trabalho de assistência de montagem em um longa-metragem. Terminei o curso e continuei fazendo outros trabalhos de assistência. Um montador foi muito especial para mim naquele momento: Umberto Martins. Um gênio, um vulcão de criatividade e paixão cinematográfica, que me iluminou o ofício da montagem – antes de qualquer coisa, é preciso paixão e entrega. Além de tudo, um amigo generoso e um exemplo
profissional. Simultaneamente, continuei montando os curtas dos meus amigos. Muitos filmes.
As mesmas perguntas– curta de Joel Yamaji. Continuamos até hoje a amizade e a interlocução iniciadas na ECA. Monto seus filmes e nos encontramos com frequência para “passar o mundo a limpo”.
Nós de valor, nós de fato – Denoy de Oliveira me fazia rir o dia inteiro. O seu bom-humor era contagiante, e o seu olhar generoso e humano para com os desvalidos era comovente. Ficamos muito amigos e eu carrego essa relação muito próxima até hoje com a atriz Maracy Mello, sua doce esposa. Com esse filme, fiz a minha primeira viagem à Europa.
Ôrí– trabalho de anos, dirigido por Raquel Gerber, que deixou uma amizade eterna e uma cumplicidade. Seu pensamento é amplo, livre e profundo: filosofia e poesia, onde nada é gratuito. Fizemos belos trabalhos juntas, e estamos prontas para os que vierem. Sabemos que contamos uma com outra.
Alma corsária
Um dia me tornei montadora de longa-metragem. O primeiro longa que montei, sozinha e em completo, foi o Alma corsária – um presente inesperado. Carlão Reichenbach fazia parte daquele grupo de realizadores que tinha me tocado e inspirado profundamente nas aulas do Paulo Emílio, e eu seguia todos os seus trabalhos. Bastava saber que ele ia filmar para ficar feliz. Evidente que seria um sonho montar um filme dele, mas eu nunca verbalizei esse desejo para ninguém, nem para mim mesma. Além disso, eu sabia que ele trabalhava com o montador e produtor Éder Mazzini e, por uma questão ética, esse desejo morria no segundo seguinte. Só que, naquele momento, por estar envolvido em um trabalho na Secretaria de Cultura, o Éder não poderia fazer o filme e, daí, o Carlão me procurou. E eu digo que este filme foi um marco divisor na minha vida. Tudo mudou a partir dele. Tudo ficou melhor.
Fizemos juntos vários trabalhos, eu montei todos os seus filmes a partir dali. Mais que uma mera relação profissional, construímos uma profunda amizade, para a qual ele trouxe a Lygia (sua esposa) e toda a sua família. O trabalho de montagem era permeado de longas conversas sobre o cinema, sobre literatura, sobre música, sobre a vida, sobre o mundo. E, ao fim do dia, quase sempre tínhamos uma pequena e divertida reunião com Sara Silveira e Maria Ionescu, suas produtoras. Tudo muito afetuoso, mesmo quando tínhamos problemas, mesmo quando alguém discordava.
Paixões
O Carlão me apresentou pessoalmente o Andrea Tonacci que, ao término da montagem do Alma corsária, me chamou para montar o Paixões. E, aqui, além do reencontro com um cinema que fez tremer o meu chão, encontrei o meu companheiro de vida. Desde esse primeiro encontro, tudo tem sido muito
intenso, todos os trabalhos que fizemos foram “montanhas-russas”, sempre surpreendentes ao final do
processo, um aprendizado de vida. Fizemos vários trabalhos juntos, montei todos os seus filmes a partir daí. Nenhum filme foi igual ao outro. Eu tive que desaprender um para fazer o outro.
Serras da desordemé algo à parte e é emblemático do que é Andrea – sua intensidade, sua integridade, seu rigor, seu amor pelo risco, sua inquietação, o seu olhar profundo para a humanidade. O Paixões nunca foi finalizado. Uma parte da pré-montagem está inserida no Já visto, jamais visto, filme que
realizamos em 2013. Junto dos filmes, da vida, Andrea me trouxe muitas questões. Ao lado dele, tive que me envolver mais e me preocupar mais com os aspectos da produção de um filme. Não que eu fosse alheia a eles, nunca fui. Mas passei a lidar de perto com essas questões. Aprofundei também a reflexão do como e do porquê fazer cinema, sobre essa responsabilidade que é colocar uma imagem na tela – conversávamos muito a respeito dessas questões. Acho que isso é o corpo do meu trabalho hoje.
Eu, hoje, monto os filmes pensando no mundo, pensando no país onde vivo, cada vez mais sentindo a necessidade de estudar a História, de atravessar o tempo para todos os lados. De ir além. Revejo e encontro a cada momento, a cada trabalho, uma parcela muito grande de cada uma dessas pessoas
essenciais e fundamentais que entraram e permaneceram na minha vida. Elas continuam a me nortear, a dia logar com os meus passos e com os meus pensamentos. Elas continuam a me impregnar de ideias, de dúvidas, de questionamentos, de anseios e de luz. Elas me dão força e coragem para seguir e, além disso, me colocaram por perto pessoas que tocam o cinema com o mesmo diapasão (como Edgard Navarro) e alguns jovens realizadores, seus afilhados, muito inquietos, muito talentosos, muito sinceros. Continuo bem acompanhada.
* CRISTINA AMARAL é cineasta formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Montadora, viúva de Andrea Tonacci, coordenou com ele a produtora Extrema Produção Artística. Hoje é gestora da obra do realizador.
Com agradecimentos da autora a Joel Yamaji pela leitura e revisão do texto.
publicado em filmecultura

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