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um filme sem pudor para um personagem libertário

leia também Por um circuito alternativo

 

por Fernando Belens

 

A primeira vez que eu assisti ao filme “Cuíca de Santo Amaro”, longa metragem documental, dirigido por Joel Almeida e Josias Pires, confesso que me diverti muito mesmo, porém mais que diversão ele me provocou um monte de reflexões e dúvidas. Sou atraído pelo cinema que me provoca dúvidas, por aqueles filmes que ficam um pouco mais conosco do que aquele breve tempo que passamos juntos, e, foi a partir dessas dúvidas e reflexões que procurei ver mais uma, mais duas, mais três vezes o filme, em vídeo, e não na tela grande, onde ele com certeza têm outras coisas a nos dizer.

O filme persegue a imagem de um artista popular, de quem se tem pouquíssimos registros, e o modo de vencer a “lata de lixo da história” é através de uma extensa e fragmentária polifonia. Inúmeros atores sociais reconstroem a figura ímpar desse artista que renascentistamente escrevia, divulgava, vendia a grosso e a varejo, preferencialmente na Baixa dos Sapateiros a sua poesia bárbara, forte, incisiva, panfletária  e incendiária dos usos e costumes, mazelas e glórias da cidade da Bahia.

Cine Jandaia – foto: Davi Caires

Apoiado por imagens da cidade do Salvador em belíssimo preto e branco , recuperadas de vários arquivos, a carne de Cuíca nos é antropofagicamente oferecida através da  arquitetura e de seu povo: as filhas de santo que distribuem pipocas, o menino que carrega água no seu burro, os pescadores e sua lida, o bonde, o ônibus elétrico, entre outras, são imagens poderosas que parecem colar nos versos sem nenhum pudor.

Cuíca é o Tal, é como ele próprio se denomina.

O filme dialoga com os também viscerais “Samba Riachão”, de Jorge Alfredo, e “Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano” de Henrique Dantas; essenciais documentários, onde a verve libertária se presentifica em cada fotograma. A música em “Samba Riachão” é a vitória final de um compositor popular que vive música. A renovação proposta pelos “Novos Baianos” e toda uma discussão sobre repressão a costumes de uma geração sufocada pela ditadura e em luta aberta contra a censura, é a vitória da geração do desbunde. A eles se juntam Cuíca: desbocado, cronista social de uma época onde a Bahia é terrivelmente periférica. O depoimento de Julio Medaglia que entende ser o Poeta precursor do movimento Tropicalista é preciso. Cuíca estava muito além do seu tempo, como todo grande artista.

A montagem de Bau Carvalho tem a sensibilidade de também não ter nenhum pudor, utiliza na construção fílmica, estilos os mais variados, podemos encontrar em algumas seqüências uma exata montagem métrica, onde planos tem o mesmo tamanho, para, mais adiante, nos depararmos com elementos das montagens rítmicas, tonais e dialéticas, este último estilo de montagem pode ser ilustrada com a fragmentação em duas unidades do depoimento do íntegro político Waldir Pires, onde a primeira parte do depoimento significa o presente e a segunda nos remete ao passado, onde apóia a candidatura de Waldir  a governador,  em um dos seus livretos.

A montagem moderna, fragmentária, ondulante e funcional vai conduzindo nosso olhar através de depoimentos, desenhos, textos e material de arquivo, de um modo sutil e saboroso. A trilha sonora é belíssima, recuperando pérolas do cancioneiro brasileiro das décadas de 30, 40 e 50. Um dos mais belos momentos da narrativa é quando Walmir Lima canta uma paródia de Cuíca sobre a base musical de “Pombo Correio”, de Benedito Lacerda e Darcy de Oliveira, neste momento o documentário soa sublime: passado, presente e futuro se entrelaçam numa luta vigorosa contra o tempo repressivo e a favor do princípio do prazer.

Entre vários momentos provocadores, podemos citar a discussão entre Sante Scaldaferri e Mário Cravo e a critica sem embasamento de Mino Carta.

Em outro momento, comovente, ouvimos a fala de seu filho enquanto a câmera desfila sobre a precariedade do local onde morou o Poeta.

Em momentos extremamente populares ouvimos Chocolate da Bahia, Detinha de Xangô, Alaíde do Feijão e Roberto Alves.

Cuíca transita do lírico ao trágico, da sátira à denúncia, do drama mais comezinho ao épico mais engajado; por isso fala de traições de casais, descoberta do petróleo, o cerco de Stalingrado, a chegada de Hitler no Inferno, assim como da mulher que cortou o pênis do marido infiel. Sem nenhum medo, de nenhuma palavra, do mais alto ao mais baixo calão. Afinal ele repete sempre o bordão “Comigo não tem bronca”.

Como um Macunaíma sem caráter, vende versos não escritos a poderosos, esconde escândalos que descobriu e recebe algum para fazê-lo, e, moderno e verdadeiro, registra nos folhetos que aquele produto é matéria paga. Não por acaso foi preso várias vezes.

“Cuíca de Santo Amaro” é um filme indispensável à construção da nossa identidade de povo brasileiro, do povo da Bahia. A importância desse bardo foi saudada por nada mais nada menos que Glauber Rocha e Jorge Amado, entre outras personalidades da maior importância para a cultura de Pindorama.

Bola pra frente Joel, Josias, Lula Oliveira, Tuzé de Abreu, Adler Paz, Paulo Hermida, Ian Sampaio, Rodrigo Alzueta, Napoleão Cunha, Marise Berta e Luciana Freitas. Mais um!

 

20 Comentários...

  1. Essa Revista de Cinema de Jorginho Rasta- Pé, é muito boa. A Bahia me vem com tudo. “Eu vim da Bahia, qualquer dia eu volto pra lá”

  2. […] Texto do cineasta Fernando Belens sobre o filme […]

  3. […] Leia também: Cuíca volta para curtir, de Marcos Pierry: http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-volta-pra-curtir/ Cuíca, o desconstrutor : http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-o-desconstrutor/ O Emblema Cuíca de Santo Amaro, por Raul Moreira / Seminário Magazine http://cuicadesantoamaro.blogspot.com.br/2013/04/o-emblema-cuica-de-santo-amaro.html Texto do cineasta Fernando Belens sobre o filme: http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-de-santo-amaro/ […]

  4. […] Mais informações sobre o filme em  Caderno de Cinema. […]

  5. […] Texto do cineasta Fernando Belens sobre o filme: http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-de-santo-amaro/ Site do filme: http://www.cuicadesantoamaro.com.br/ Página no […]

  6. […] Texto do cineasta Fernando Belens sobre o filme:http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-de-santo-amaro/  Site do filme: http://www.docdoma.com.br/cuicadesantoamaro/ […]

  7. Sergio Maciel disse:

    Um ótimo documentário que nos deixa cheios de orgulho !!!

  8. BERNARD ATTAL disse:

    Cuica pertence ao grupe desses filmes dos quais vc sai mais rico e mais feliz. E um filme alegre, fluido, muito bem montado e sonorizado. Me deu orgulho de viver nessa cidade tão abandonada por um lado mas por outro lado sempre regenerada por seu povo criativo e generoso. Parabens e abraço grande para Josias, Joel e a equipe toda.

  9. zezao castro disse:

    Seu Bira, sogro do meu irmão, trabalhava no Banco Econômico nos anos 60. Um dia parou para engraxar o sapato próximo ao Elevador Lacerda. O engraxate saiu com o sapato dele na mão e começou a demorar. Nisso passa Cuíca e ele comenta: “Cuíca, o sapateiro fugiu com meu sapato, rapaz”. O poeta, de bate pronto, responde: “se ele não lhe devolver me diga”. Era assim, no fogo fátuo do cotidiano, que a verve do poeta azunhava o papel jornal , futuro cordel.
    Só para completar: O sapato foi devolvido

    • Pequena Flor disse:

      É tão estranho algo do passado existir no futuro. Deveria seguir os passos do passado e estancar o tempo, a memória, as coincidências e toda juventude que inevitavelmente se vai. Mas tudo vem passando e contra toda a relutância, você se dá conta que já fazem muitos anos e já não se é mais uma Pequena Flor, mesmo ainda sendo jovem. Só há o tempo árido, lento e implacável marcando a Flor.

  10. […] as cenas animadas da abertura do filme. Leia texto do cineasta Fernando Belens sobre o filme: http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-de-santo-amaro/ Leia texto de Josias Pires sobre o filme http://cadernodecinema.com.br/blog/o-vies-do-personagem/ […]

  11. […] tela grande: bahia e angola __ Posted: September 26, 2012 in cinema, josias pires neto 0 Filme baiano será exibido em Angola e Venezuela no mês de outubro O filme documentário de longa metragem “Cuíca de Santo Amaro”, dirigido por Joel de Almeida e Josias Pires será exibido em Luanda, Angola, no Projeto do Goethe-Institut Angola no próximo dia 09 de outubro, às 19h. Ainda em outubro, o filme será exibido também no V Festival do Cine Latinoamericano e Caribenho, na Ilha de Margarita, Venezuela, nos dias 26, 28 e 31 de outubro. A estreia em Salvador será no dia 09 de novembro, na abertura do Cine Futuro, VIII Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual. Sinopse do filme: Na idílica Salvador dos anos 40 e 50 Cuíca de Santo Amaro atenta contra o pudor e brada contra a hipocrisia, revela em praça pública segredos de alcova e trapaças de ricos marreteiros. É o cronista social. Nada lhe escapa: o custo de vida, os crimes mais comoventes, manobras dos líderes da II Guerra Mundial. Suas histórias não raro obscenas vendem como caninha nas feiras de Salvador e do Recôncavo da Bahia. Transformado em personagem dos escritores Dias Gomes e Jorge Amado e de filmes de Roberto Pires e Anselmo Duarte, Cuíca deixa atrás de si um rastro de polêmica.  “Comigo não tem bronca”, garantia. É a versão popular do boca de brasa, o Gregório de Mattos sem gramática.  Herói e anti-herói. Trovador reporter. O maior comunicador que a Bahia já teve. É um performer antes de Salvador virar metrópole. Leia texto do cineasta Fernando Belens sobre o filme: http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-de-santo-amaro/ […]

  12. carlos verçosa disse:

    viva a poesia viva do cordel

    viva ele, o tal

    cuíca de santo amaro

    viva joel, josias e belens

    longa viva o cahier de cinemada bahia

  13. edilene matos disse:

    Belo o texto de Bélens! Belo, certamente, deve estar o filme de Josias! (ainda não vi e estou ansiosa). Tenho certeza disso por conta dos contatos que mantive com o Josias e para quem disponibilizei meu acervo. Feliz iniciativa a desse documentário sobre o boquirroto poeta da Bahia , trabalho criterioso de Josias e sua equipe.
    No tocante aos registros, vale apontar três livros de minha autoria. 1. Notícia biográfica do poeta popular Cuíca de Santo Amaro (publicação do Centro de Estudois Baianos da UFBA, 1985) . 2. Ele, o Tal, Cuíca de Santo Amaro (duas edições – Secretaria de Cultura do Estado da Bahia) 3. Cuíca de Santo Amaro, o boquirroto de megafone e cartola (Rio de Janeiro: Editora Manatti, 2004.

  14. alba liberato disse:

    Parabens turma! Aguardamos encantados em poder rever a bocarra de Cuica recitando escandalosamente ali na subida do Elevador Lacerda, minha mae andando pra frente e me puxando pela mao. Sem duvida, identidade nossa das mais marcantes, viva Cuica, o Poeta e o Filme! Alba

  15. Eleonora Lemos Rabêllo disse:

    Que maravilha o texto de Beléns. Sinto ainda não poder ter visto (espero tere esta oportunidade quando voltar ao Brasil), mas, me aproximei um pouco, quando, ainda em processo de montagem, Josias, tão generosamente dividiu a sua pesquisa sobre Cuíca com os jovens integrantes do CRIAPoesia (grupo do CRIA instituição onde trabalho), que no momento, montava um recital de poesia, no qual, esta figura lendária era homenageada… Que vivam os Cuícas, os Bélens, os Josias… para que a nossa história e a nossa cultura não sejam enterradas! Que viva a memória!

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