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Por Josias Pires

 

 

Concluído em janeiro de 2012, Cuíca de Santo Amaro foi, em seguida, selecionado para o 17o. Festival Internacional de Documentários é Tudo Verdade (02 exibições no Rio de Janeiro e 02 em São Paulo); V Festival do Cine Latino-americano e Caribenho de Margarita (02 exibições na Venezuela); Festival Internacional de Cinema de Arquivo, Arquivo Nacional, RJ; 16a Mostra de Cinema de Tiradentes, MG, cuja exibição ocorreu em praça pública; 3o. Cachoeira Doc; VIII Cine Futuro (avant-première em Salvador) em novembro de 2012; e exibido no projeto Cinema no Telhado, em Luanda Angola, promoção do Instituto Goethe.

A partir do próximo mês de agosto o filme será lançado no circuito de cinema de Salvador e em espaços culturais de 29 cidades da Bahia. O périplo tem o apoio da governo estadual, através da Secretaria de Cultura. Além da exibição do filme vai ser lançado no circuito um DVD com 5 Extras e encarte com sugestões pedagógicas para professores de ensino médio e superior.

Neste balanço inicial é possível dizer que o filme foi bem recebido por onde passou atraindo a atenção dos espectadores pelo que tem a oferecer: um personagem fascinante, “personagem que todo romancista gostaria de ter criado” nas palavras felizes de seu amigo o ilustrador Sinézio Alves; e uma bela montagem com imagens de arquivo da velha Bahia atravessadas pelos fragmentos de memórias de alguns dos seus moradores.

É um documentário sobre a cidade sob o ponto de vista de Cuíca de Santo Amaro – diria hoje do filme e, em muitos aspectos, é um filme-rascunho, se posso dizer assim. Cuíca é um personagem tão rico e diverso que muitos outros filmes e livros terão que ser feitos sobre ele – muitas e muitas vezes penso este documentário como a primeira parte de uma pesquisa para um filme de ficção sobre Cuíca de Santo Amaro, sim, sobre um outro filme com novas histórias de/sobre o trovador repórter José Gomes.

O documentário sintetiza a pesquisa realizada a partir de relatos orais de 50 pessoas que tiveram algum tipo de contato com Cuíca e de cerca 300 folhetos – os livrinhos de histórias, como foram chamados na sua época – e traz imagens de arquivos do Recôncavo e de Salvador – inclusive imagens inéditas feitas em 1947 por uma missão organizado pelo folclorista Alceu Maynard de Araújo, cujos filmes encontram-se na Cinemateca (SP). O documentário utiliza também recursos de animação, inspirados num encontro do escritor Orígenes Lessa com o trovador repórter, na parte alta do Elevador Lacerda, ocorrida no dia 10 de junho de 1955. O filme valeu-se particularmente dos estudos feitos por Edilene Matos, Mark Curran, de precisas indicações do poeta Carlos Cunha e de todos os que compartilharam suas memórias e sentimentos da época.

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Rimas imperfeitas – Como afirma Muniz Sodré, em entrevista que está nos Extras do DVD do filme, Cuíca de Santo Amaro é desconstrutor. A sua performance desconstrói o estabelecido, os cânones, a regra social.   A poética de Cuíca não presta reverência ao acadêmico, ele trafega a léguas de distância do cordel canônico. A cobrança formalista sobre seus “livrinhos de histórias”, como estes folhetos eram conhecidos,  desmerece a grandeza da sua performance oral. Cuíca não precisava nem escrever, bastava falar, lembra Muniz Sodré. A sua poesia estava na Voz, no corpo e não no papel somente. Como na canção, as emissões vocais em Cuíca cobrem os espaços e o tempo que a métrica impressa exige. Na rua como na música a métrica é outra. Autor de poesias-reportagem, de poemas-piadas, ele foi uma espécie de modernizador da linguagem sem se filiar a nenhuma escola. É maldade reduzi-lo a uma nulidade poética.

O discurso de bom tom contra rimas imperfeitas e pés-quebrados tenta esconder a força da atuação de um poeta singular, corajoso, que sapecava a madeira em figurões, nas ruas e praças de Salvador e de outras cidades da Bahia, que fazia o bom e o mau combate, que acendia uma vela para deus e outra para o diabo; que enfrentava e se aliava com a polícia; e se valia da retaguarda que conseguia reunir para proteger-se no mundo cão em que vivia.

“Muita gente tem vontade / que a polícia me encane / acho eu muito possível / que esta gente se engane / pois estou ainda mais forte / e tão firme como arame”.

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O Defensor do Povo 

Até meados da década de 1950 a imprensa tratava Cuíca como um defensor do povo, um herói popular. Na segunda metade da década é que apareceram reportagens descrevendo os métodos de atuação  daquele homem “desassombrado”. Métodos que fizeram d’Ele, O Tal, um poeta que incomodou a todos os poderosos que tinham algo a esconder; ao mesmo tempo que fez a alegria do povo nas praças e ruas da cidade com sua irreverência e destemor. Escancarou os “podres” de uma sociedade hipócrita, que se transformava célere em meio ao turbilhão de novidades que o mundo estava produzindo naquele momento. Fruto do seu tempo, Cuíca defendeu com versos em punho o seu próprio quinhão na guerra diária em que vivia.

Temido e odiado por alguns e amado pelo povo, Cuíca farejava e difundia fatos sempre presentes na história da humanidade: a própria miséria humana. “É desastre, é crime, é inundação, é tubarão explorando o povo, é galego sacaneando a população, é mulher xumbregando … o assunto veio, o folheto sai”, dizia. Era um Nelson Rodrigues popular. Um Gregório de Mattos sem gramática.

O boca de brasa saía todos os dias às ruas e  exultava em dar nomes aos bois. Porém, quem não quisesse ter o nome sujo exposto em praça pública, que pagasse para que a informação deixasse de circular. Era um tipo perigoso, poeta picaresco. Macunaímico. Expressão mítica de um herói – e anti-herói – popular brasileiro.

Quem faz críticas fáceis e formalistas contra Cuíca pouco compreende que esta é uma personagem de mil faces. Andarilho das encruzilhadas, dos mercados e das feiras. O rei do deboche, do riso solto. Assumia os seus preconceitos, os vícios e defeitos e anunciava as suas virtudes, a maior delas: dizer a verdade.

Verdades malditas  – Cuíca de Santo Amaro é um personagem que traz o que Muniz Sodré chama de “rito de veridicção”: expõe verdades não-ditas, para não dizer malditas, incômodas e faz isto com o espírito do grotesco, do grotesco crítico, antecipatório, porém diferente do grotesco mundo cão da TV.

Cuíca de Santo Amaro é uma personagem que nos permite por o dedo na ferida no campo da comunicação. Afinal, teve a coragem, como um pequeno Davi, de encarar e expor podres do sistema de chantagens e extorsões na grande mídia, usual em todo o mundo e em todos os tempos.

Cuíca defendia o seu quinhão com as armas que conseguia reunir. Mas ao contrário de outros jornalistas e radialistas, que recebem suborno e se fazem de desentendidos, Cuíca condena esta hipocrisia, assumindo muitas e muitas vezes a sua produção poética como “matérias pagas”, sem esconder-se atrás do anonimato.

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Desvelador de obscenidades – A sua ética era a do propagandista. Os amaldiçoados métodos de chantagem e extorsão atribuídos a Cuíca eram os mesmos utilizados pela imprensa da época e de hoje. Querer condenar Cuíca e absolver o imperador da mídia, seu contemporâneo, Assis Chateubriand é a manutenção da mesma hipocrisia que Cuíca combatia. Murdoch, Pulitzer, Hearst, os barões da mídia construíram império chantageando e extorquindo.

O buraco é mais embaixo. Cuíca põe ainda hoje no olho da rua a mesma questão: a venalidade de profissionais, radialistas, jornalistas e de proprietários de veículos de comunicação, que são subornados e pousam de vestais. Cuíca levanta o véu, desvela a cena e é injusto condená-lo. Como poucos naquele momento ele dava visibilidade ao que estava escondido, ao fora de cena, ao obsceno.

Quando nos aproximamos do personagem, portanto, damos de cara com um tipo altamente complexo, um esteta das partes baixas, na bela definição de Muniz Sodré (Extras do DVD) como diria Bakhtin nos estudos sobre Rabelais. Esteta das partes baixas, que espelha e distorce a vida dos becos, dos salões e das alcovas. Poeta das fissuras do social, dos porões e não dos altos céus. Sem essa de que a sua verve não serve.

A tentativa de black-out na memória, a insistência de escrever a história da cultura baiana sem a presença de Cuíca de Santo Amaro felizmente não foi compartilhada, p. ex., por Dias Gomes e Jorge Amado. O mais traduzido escritor baiano imortalizou o trovador maldito em sua literatura. Em 1943 publicou no jornal “Diretrizes”, e em 1945, no livro “Bahia de Todos os Santos” textos que enaltecem o caráter de herói popular do Cuíca anti-fascista.

Depois Jorge faria Cuíca personagem dos romances “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, “Pastores da Noite” e “Tereza Batista Cansada de Guerra”. Jorge mais do que citar o poeta Cuíca de Santo Amaro cria um personagem inspirado nele, o Curió. E Dias Gomes revelou o trovador de corpo inteiro na peça “O Pagador de Promessas”, que virou o filme com Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro em Cannes (1962).

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 Poeta Livre – Cuíca é um personagem sobre o qual deveríamos silenciar. É o que pensa muita gente de bem que se recusou a gravar depoimentos para o filme. Tal recusa apenas comprova que o desabusado “trovador repórter” continua sendo temido e odiado por pessoas aparentemente “bem pensantes”, contemporâneas de Cuíca (1907-1964), que ainda o tomam como personagem menor, marginal, insignificante, que deveria ser esquecido.

Quando saiu a primeira notícia sobre a realização do filme, publicada no jornal A Tarde, o texto foi reproduzido num blog sobre Cordel, que recebeu quase uma centena de comentários negativos. A maioria achou um despropósito fazer filme sobre Cuíca de Santo Amaro; e vários comentaristas questionaram a razão pela qual a película não seria sobre o poeta Leandro Gomes de Barros, como se os realizadores de Cuíca tivessem preterido um em favor do outro. Um despropósito. Evidentemente seria maravilhoso fazer  uma obra audiovisual sobre o poeta paraibano. Mas que história é essa de que a memória de Cuíca de Santo Amaro deva ser jogada na lata de lixo da história?

Cuíca de Santo Amaro é um arauto. O anunciador. O anjo torto, da boca torta, poeta livre desancando a hipocrisia. A vida privada nas ruas. A verdade que sai das bocas dos becos, dos subterrâneos. Os ricos já não podem continuar impunes. Ao lado deles ainda está a polícia e o Estado. Mas a voz das ruas agora tem Cuíca de Santo Amaro. O Trovador Repórter. Ele, O Tal!

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4 Comentários...

  1. […] Pierry: http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-volta-pra-curtir/ Cuíca, o desconstrutor : http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-o-desconstrutor/ O Emblema Cuíca de Santo Amaro, por Raul Moreira / Seminário […]

  2. […] – Rodrigo Alzueta e Napoleão Cunha 2012 – 75 minutos Leia também: Cuíca, o desconstrutor http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-o-desconstrutor/ O Emblema Cuíca de Santo Amaro, por Raul Moreira / Seminário Magazine […]

  3. […] Cunha 2012 – 75 minutos Leia</> também: Cuíca, o desconstrutor, por Josias Pires http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-o-desconstrutor/ O Emblema Cuíca de Santo Amaro, por Raul Moreira / Seminário Magazine […]

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