Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » Cuíca volta pra curtir

 

cuica2

por Marcos Pierry

 

Figura emblemática da cultura popular, basta uma remissão aos cordéis que mercava em praça pública para constatá-lo, Cuíca de Santo Amaro estendeu sua celebridade gauche ao cinema baiano no início dos anos 60, quando o cinema ainda era parte da cultura popular, e a província já tinha como hábito adorar e temer seus folhetos fulminantes. Foi quando Roberto Pires lançou A Grande Feira (1962). Cuíca faz duas breves aparições no filme, no começo e no encerramento. Nas duas, ele está a divulgar em voz alta libretos com a trova cujo teor principia e arremata o enredo.

É como se o personagem franqueasse ao diretor a condução da narrativa e voltasse a assumi-la no epílogo, em um jogo de dupla incorporação (sintática e semântica) do trovador popular interiorano que o posiciona como um elemento que narra a história ao mesmo tempo em que, ainda que tangencialmente, como parte da trama, também é narrado. Uma duplicidade que se torna recorrente a partir de então nos filmes de realizadores como Nelson Pereira dos Santos, Paulo Gil Soares e Glauber Rocha, embora os personagens de perfil semelhante que pontuam as tramas ganhem contornos bem particulares conforme a caracterização e a jornada que lhes é destinada nos desdobramentos da ação interna da ficção.

CUICA 07

(Se bem que podemos suspeitar desta ambivalência em propostas de outro apelo, mais ou menos distantes dos tempos e dos pressupostos de engajamento do cinema novo, que trazem tal espécie de pícaro medieval deslocado para a caatinga, a capoeira, o meio-sertão, a zona salobra do recôncavo e as ruas da cidade da Bahia. Vejam uma referência patente que chega às telas no mesmo período de segundo longa de Pires, como é o caso do personagem de Roberto Ferreira em O Pagador de Promessas, Dedé, explicitamente baseado em José Gomes, nome de certidão de Cuíca de Santo Amaro.)

Pouco tempo após o lançamento de A Grande Feira, em 1964, José Gomes morre e os vestígios mais concretos de sua obra (a que foi publicada e a que foi performatizada no espaço público) vão se apagando à medida em que, aqui e acolá, sua força criativa passa a ser recuperada como empuxo de mise-en-scène, programa libertário e reinvenção formal. O momento era de ebulição político-institucional e apropriações tecnológicas definidoras no mundo das artes e espetáculos. Que o digam os tropicalistas baianos, os concretistas de São Paulo e os homens de rádio e TV do Rio de Janeiro.

CUICA 06

Ouvir em 2013 Julio Medaglia falar sobre José Gomes, no filme Cuíca de Santo Amaro, é como ler um texto de Augusto de Campos no encarte do primeiro LP do Novos Baianos. É constatar a receita da geleia geral. Ambos a tomam como a totalização desmedida e desavisada que a individualidade criadora, em sua carnavalização exasperada (desencantada às vezes), propagava nos recantos de uma proto-contracultura.

Cuíca de Santo Amaro, o documentário de Josias Pires e Joel de Almeida, repõe o personagem ao mundo das sombras elétricas e o afirma, na picardia da pena e no gestual serelepe que se advinha, como ente da algazarra. Cuíca, mostra o primeiro longa-metragem da dupla, foi um dos artífices da máxima segundo a qual a festa instaura o campo semântico-sensorial da revolução por meio da dinâmica caótica que insta e faz conviver os extremos (da expressão e do sentido) e arestas (ideológicas, políticas, intra-pessoais) que engendram o novo. O tipo naif-barroco que, na prática, operou – em sua estampa de cromatismo fubá, o terno puído, o chapéu côco e o bigode gráfico – na melhor sintonia com o que propunha as teorias estruturalistas de sua época.

CUICA 04

Para muito além do personagem, por assim dizer, de extração cinematográfica, o filme oferece uma série de pistas para uma cartografia do lugar, o campo de ação do agente que funcionou em esquema de redemoinho na clausura midiática e moral da província, erguendo e derrubando, a um só tempo, personagens e denúncias, histórias e estórias, contraprovas e reputações. As dezenas de depoimentos de intelectuais (Yeda Pessoa, Ubiratan Castro, Muniz Sodré), jornalistas (Mino Carta), políticos (Mário Kertesz), artistas (Chocolate da Bahia, Armindo Bião, Edvaldo Gato), leitores e familiares restituem com fartura a polissemia e o modus operandi do vate errático, a quem Getúlio Vargas, garantia ele, havia prometido favores. Cuíca parecia intuir como ninguém a viração que o sinal dos tempos estava a proceder em seu território. A Salvador que adentrava a modernidade nacional e planetária ainda permanecia enraizada no bucolismo do barro, do saveiro e das monoculturas identificadas a princípio com os pólos do recôncavo, como Santo Amaro da Purificação e Cachoeira, e a aparente calmaria da Baía de Todos os Santos.

cuica3cuica1

 

 

Quase sem explorar imagens literais de José Gomes, Cuíca de Santo Amaro, o traz em cores fortes, reavivado por trechos de seus cordéis, intervenções de animação digital e os inserts dos filmes resgatados, que ainda contemplam, desta vez com a função de expor as “vistas” e as “novidades” dos logradouros, preciosidades pouco vistas (Um Dia na Rampa, de Luiz Paulino) e mesmo outras reveladas somente agora (Acervo Maynart). Do menestrel propriamente, a imagem mais forte que surge é a do totem chapliniano, que Bião, Castro e Sodré fornecem com empolgação. Todo o conjunto é sedimentado pela arejada direção musical-sonora de Tuzé de Abreu e a sobriedade da montagem de Bau Carvalho, ainda que o corte seco pareça afiado em dois ritmos, tendendo a acelerar-se na segunda metade do filme.

Eis o documentário que, por fim, se enxerga, intenso e rico em elementos sem abrir mão da prerrogativa da entrevista como fio condutor. Um perfil atualizado e particularizado da cidade, em sua projeção pelas fronteiras do recôncavo baiano, composto a partir das evocações que os depoimentos, mas não somente, fazem do personagem. Nos estertores do Estado Novo, no período JK e nos urdimentos de uma contracultura que se seguiu ao avanço autoritário, Cuíca funcionou como turbina para furacão.

CUICA 14

O filme de Joel e Josias, sem esgotar o viço do poeta, dá conta de suas façanhas e o faz retornar às suas ainda necessárias indagações sobre a Salvador macro e microscópica. Na tela, vemos que persiste a cidade da alegria, do demônio nas ancas e da pimenta na língua – que, por sorte, soube ao menos reter um grande personagem. Retomando Alex Viany, ao falar sobre Humberto Mauro: homem e paisagem integrados pela realidade brasileira.

O espectador irá se abastecer de emoção, possíveis lembranças e, quem sabe, argumentos para o que entendemos ser, em alguma medida, uma impostação por demais inquisitória em torno do cordelista pinga-fogo. Como se a discussão proposta sobre os desvãos éticos da mídia, mais que oportuna, se voltasse, de repente, contra ele. Risco maior que correm os autores de Cuíca de Santo Amaro.

CUICA 16

Caribé, Cuica de Santo Amaro e Jorge Amado

4 Comentários...

  1. […] Cuíca volta para curtir, por Marcos Pierry […]

  2. […] também: Cuíca volta para curtir, de Marcos Pierry: http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-volta-pra-curtir/ Cuíca, o desconstrutor : http://cadernodecinema.com.br/blog/cuica-o-desconstrutor/ O Emblema […]

  3. Caro Pierry,

    Maravilho seu artigo sobre “Cuíca de Santo Amaro”, e fiquei louco para ver esse documentário, que espero entrar no circuito de exibição nacional e chegar até Juiz de Fora.

    Gostei tanto de seu artigo, “em sua estampa de cromatismo fubá”, que tentei copiar e salvar o artigo no computador; mas, incompetente, não consegui.

    Ótimo texto, da “Geleia Geral” de Torquato Neto, da “pureza é um mito” de Hélio Oiticica. Parabéns,

    Com me afetuoso abraço,

    César Brandão

Deixe um comentário